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segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

Minority Report, A Nova Lei

Lamar Burgess (Max von Sydow)

Este é o oitavo texto de uma série que estou escrevendo para uma disciplina da Graduação em Filosofia da UFPR denominada Filosofia e Cinema, em que procuro exercitar a reflexão acerca dos problemas filosóficos por meio de filmes. Creio que filmes podem ser bons meios de apresentação de problemas filosóficos na medida em que apresentam situações que desafiam nossas crenças fundamentais e, assim, desencadeiam a reflexão filosófica. Os textos dessa série são destinados àqueles que já assistiram os respectivos filmes, pois contêm revelações sobre seus respectivos enredos.

Minority Report conta a história de Lamar Burgess (Max von Sydow), o criador da empresa Pré-Crime, e seu pupilo, John Anderton (Tom Cruise). Essa empresa baseia todas as suas atividades no trabalho de três jovens, os precogs, que têm uma habilidade incomum: eles conseguem literalmente prever o futuro. Prever o futuro não é algo surpreendente quando não tomamos essa expressão literalmente. A ciência pode prever eclipses, tempestades e outros eventos. Mas isso não significa que a ciência pode ver com antecedência os eventos do futuros como nós podemos ver os eventos presentes. O que a ciência faz é inferir quais provavelmente serão os eventos futuros com base no conhecimentos da regularidade dos eventos passados. Mas o que os precogs fazem é ver o futuro como nós vemos o presente. Eles têm percepções sensíveis, dentre as quais visuais, dos eventos futuros como nós temos dos eventos presentes, como se eles estivessem vivenciando ou experimentando os eventos futuros tal como nós vivenciamos ou experimentamos os eventos presentes. Eles literalmente vêem o futuro.

Com base nessas previsões, Lamar criou uma policia que prende os criminosos que são flagrados em pleno crime "futuro". Eles são presos e julgados por crimes que, se o Pré-Crime for eficiente, eles não cometem. Eles não são julgados por tentativas de crime, coisa que nossas leis contemplam, mas por crimes futuros, como se tivessem de fato cometido tais crimes, mesmo que a Pré-Crime os tenha impedido de os realizar. Se os precogs prevêem que uma pessoa vai matar fulano e o Pré-Crime a impede de fazer isso a tempo, ela vai ser julgada por ter matado fulano no futuro, tal como se tivesse matado o fulano no presente.

Todavia, se alguém experimenta o futuro como experimenta o presente, então como é possível impedir que os eventos futuros aconteçam? Essa é a pergunta do policial Danny Witwer (Colin Farrell) em um diálogo em que ele questiona a inteligibilidade do Pré-Crime, alegando que o modo como o sistema é pensado implica um paradoxo. Quando experimentamos os eventos presentes, uma ida ao cinema, por exemplo, isso significa que aquilo que experimentamos é o caso, que é verdade que estamos no cinema. Se experimentamos o futuro, ida ao cinema amanhã, por exemplo, então isso deveria significar que aquilo que experimentamos será o caso, que é verdade que iremos ao cinema amanhã. Mas como pode ser verdade que iremos ao cinema amanhã, se podemos evitar ir ao cinema amanhã? Se hoje é verdade que vou ao cinema amanhã e eu não vou ao cinema amanhã, então isso significa que o que é verdade sobre o futuro hoje deixará de ser verdade amanhã? Se digo hoje que vou ao cinema amanhã e amanhã não vou ao cinema, isso não significa que o que eu disse hoje era simplesmente falso? Portanto, se alguém experimenta o futuro como experimenta o presente, então isso não significa que a ocorrência os eventos futuros não poderia ser evitados? Sendo assim, como pode a Pré-Crime evitar os crimes futuros?

John Anderton dá uma resposta a Danny Witwer que pode soar profunda a muitos à primeira vista. Ele joga sobre a bancada uma das bolas de madeira que enunciam quem é o criminoso que eles devem prender e, pouco antes de ela cair no chão, Danny a segura. John pergunta: "Porque você a segurou?" Danny responde: "Porque ela iria cair." John então diz: "O fato de que você impediu de acontecer não muda o fato de que iria acontecer." Todavia, essa resposta é baseada numa confusão conceitual. É verdade que a bola iria cair, se Danny não a tivesse pego. Mas ele a pegou. Portanto, ela não caiu. E se ela não caiu, antes de ela não cair não era verdade que ela iria cair. Dizer simplesmente que ela iria cair é diferente de dizer que ela iria cair, se ninguém a tivesse impedido de cair. Se uma proposição sobre hoje enunciada ontem se mostra falsa hoje, então ela não descrevia um evento de hoje e, portanto, não descrevia um evento futuro. Caso contrário, ela seria verdadeira. Sendo assim, não era verdade que a bola iria cair, embora seja verdade que ela iria cair, se ninguém a tivesse impedido de cair. Sendo assim, não era verdade que as pessoas presas na história do filme iriam cometer os crimes pelos quais foram responsabilizadas, embora seja verdade que elas iriam cometê-los, se ninguém as tivesse impedido. O máximo que uma tal verdade pode justificar é a responsabilização por tentativa de homicídio, não por homicídio. A expressão "responsabilidade presente por um crime futuro" não faz sentido e, portanto, todos os condenados por crimes futuros foram condenados injustamente.

Ademais, se os precogs prevêem o futuro, por que não prevêem que o Pré-Crime impedirá as pessoas de cometer os crimes que eles próprios previram? Porque, dessa forma, ficaria evidente a incompatibilidade entre as duas previsões: a previsão de um crime e a previsão do Pré-Crime evitando esse crime não podem ser ambas corretas. Se é verdade que o Pré-Crime vai impedir o crime, não é verdade que o crime ocorrerá.

O filme, portanto, tenta compatibilizar duas teses que são, se fato, incompatíveis:
(1) Os precogs podem ver o futuro.
(2) Os policiais da Pré-Crime podem impedir os eventos futuros previstos pelos precogs.
Esse tipo de incoerência é muito comum entre aqueles que acreditam em destino, entendido como uma sucessão inevitável de eventos, e na capacidade que temos de mudar nosso futuro. Se nossas vidas seguem um destino, então o futuro não pode ser mudado.

A incompatibilidade entre (1) e (2) se deve ao fato de que o conhecimento implica verdade. Se os precogs sabem que vai ocorrer um crime, então é verdade que esse crime vai ocorrer. Se é verdade que esse crime vai ocorrer, então ele vai ocorrer. Não é possível que seja verdade que esse crime vai ocorrer e que ele não ocorra. Se ele não ocorrer, não é verdade que ele iria ocorrer e, portanto, os precogs não sabiam que ele iria ocorrer, pelas simples razão de que eles não podem saber o que não é o caso.





terça-feira, 23 de junho de 2015

Brilho eterno de uma mente sem lembrança (Eternal sunshine of a spotless mind)

"Quão felizes são as virgens imaculadas!
O mundo esquecendo, esquecido pelo mundo.
Brilho eterno de uma mente sem mácula!
Cada prece aceita, e cada desejo renunciado."
Alexandre Pope, Eloisa to Abelard

Este é o sétimo texto de uma série que estou escrevendo para uma disciplina da Graduação em Filosofia da UFPR denominada Filosofia e Cinema, em que procuro exercitar a reflexão acerca dos problemas filosóficos por meio de filmes. Creio que filmes podem ser bons meios de apresentação de problemas filosóficos na medida em que apresentam situações que desafiam nossas crenças fundamentais e, assim, desencadeiam a reflexão filosófica. Os textos dessa série são destinados àqueles que já assistiram os respectivos filmes, pois contêm revelações sobre seus respectivos enredos.

Brilho eterno de uma mente sem lembrança conta a história de um casal de namorados, Clementine (Kate Winslet) e Joel (Jim Carrey), que começa a ter dificuldades de relacionamento e a sofrer por causa disso.[1] Em certo ponto, Clementine toma uma decisão: esquecer Joel. Mas não se trata do sentido corriqueiro de "esquecer" alguém que usamos em frases como "Hoje já não sofro mais, pois já esqueci a fulana". Esse sentido corriqueiro não é o sentido literal de "esquecer". Não se trata de não lembrar-se mais da pessoa. Se fosse o sentido literal, "já esqueci a fulana" seria uma contradição performativa, pois enunciar essa frase seria, ao mesmo tempo, expressão de uma lembrança que a pessoa tem da fulana e o ato de dizer que não lembra dela. Clementine queria esquecer Joel no sentido literal de "esquecer". Ela queria apagá-lo da sua memória por causa do sofrimento que a relação com ele estava lhe causando, como quem acaba com uma dor de cabeça tomando um analgésico. Ela queria extirpá-lo da sua vida e recomeça-la como se nunca o tivesse conhecido. Ela atinge esse objetivo por meio de uma companhia que oferece justamente isso: apagar memórias por meio de uma máquina, que causa pequenas lesões localizadas no cérebro.

O que há de filosoficamente interessante nessa história? Ela desafia nossas crenças básicas sobre as seguintes coisas: a relação entre memória e identidade pessoal (de um modo um pouco diferente em que essa relação foi abordada no texto sobre o filme Amnésia) e o direito que temos de esquecer coisas. A solução que Clementine dá para o seu sofrimento é repetida por Joel e já tinha sido usada por Mary (Kirsten Dunst). Essa solução é considerada, por esses mesmos que se serviram dela, como algo ruim, errado, depois que descobrem que se serviram dela. Mas antes dessa descoberta, quando estavam sofrendo, a consideraram a melhor solução para o seu sofrimento. Ela é a melhor solução? Se não, o que há de errado com ela?

Por um lado, parece perfeitamente razoável querer se livrar de um grande sofrimento psicológico, de uma grande dor psicológica, que a lembrança de uma determinada experiência nos causa, assim como parece razoável querer se livrar de uma grande dor física por meio de analgésicos e anestesias. O que poderia haver de bom na dor em si? É claro que a dor física tem a função de sintoma de uma condição anômala do organismo, que deve ser tratada. Ela aponta para a existência dessa condição anômala que é a causa da dor. Pessoas incapazes de sentirem dor por conta de um defeito no organismo correm riscos que as pessoas que sentem dor não correm. Mas uma vez detectada a anomalia através da dor, podemos combater o sintoma com analgésico e anestesia. É como apagar uma notificação em um computador: uma vez que a percebemos, ela não tem mais função alguma. Portanto, analogamente, o que há de errado em apagar uma lembrança dolorosa? Dor, em si mesma, é algo ruim, não? O que há de mal em querer acabar com ela?

Uma distinção aqui é importante: uma coisa é a lembrança que causa dor, outra coisa é a própria dor. É claro que acabar com a lembrança que causa a dor tem como efeito acabar coma dor, se ela for a sua única causa. Mas a dor causada por uma lembrança está relacionada a muitos outros estados processos mentais. Por exemplo: a dor da perda de alguém que morreu está relacionada ao nosso desejo de que essa pessoa continue viva, ao quão acostumados estamos com sua presença na nossa vida. O tempo faz essa dor diminuir porque nos faz acostumar, ao menos um pouco mais, com a ausência dessas pessoa. Portanto, livrar-se da lembrança dolorosa não é o único meio de acabar com ou diminuir a dor que ela causa, pois ela não causa essa dor sozinha. Sim, mas mesmo a lembrança não sendo uma causa suficiente da dor, ela é uma causa necessária, de tal forma que se nos livramos da lembrança, nos livramos da dor. Portanto, embora não seja o único meio de nos livrarmos da dor, é um meio. O que há de errado com esse meio?

Há uma diferença fundamental entre as causas da dor física e as causas da dor psicológica. As causas da dor física não constituem a pessoa que somos. Um cálculo renal, por exemplo, não constitui a pessoa que o possui, embora as experiências que alguém vive por ter um cálculo renal possam constituir a pessoa que ela é. As causa de uma dor psicológica, por outro lado, parecem constituir a pessoa que somos, na medida em que a pessoa que somos é constituída, ao menos em parte, pelas experiências e lembranças que temos, bem como pelos esquecimentos que naturalmente nos ocorrem e toda sorte de estados e processos causalmente conectadas a essas experiências, lembranças e esquecimentos, tais como atitudes proporcionais, sentimentos, associações e disposições, por exemplo. Não parece fazer sentido tentar caracterizar a pessoa que somos independentemente das nossas experiências, lembranças e esquecimentos.[2] Se isso está correto, então deliberadamente apagar memórias implica deliberadamente mudar quem se é. Depois de apagadas, continuamos sendo a mesma pessoa, no sentido numérico de "mesma", mas não somos mais a mesma, pessoa no sentido qualitativo do termo.

Mas qual é o problema em querer mudar a pessoa que se é? Afinal, querer ser uma pessoa melhor não é querer mudar a pessoa que se é? Ocorre que, em primeiro lugar, querer apagar memórias implica que se está descontente com a pessoa que se é, enquanto formada pelas experiências e lembranças que se tem,  entre outras coisas. Alguém poderia dizer que se está descontente apenas com a dor que se sente, nada mais. Mas a dor, como vimos, tem várias causas. Escolher apagar a memória que concorre com outras causas para gerar a dor é escolher eliminar uma das causas da dor. É a memória que se escolheu eliminar, não qualquer um dos demais estados de processos que, junto com a memória, causam a dor. Uma pessoa com fobia por baratas, por exemplo, pode querer eliminar todas as batatas do mundo para não sentir mais essa fobia, ou ela pode tratar as causas psicológicas da fobia. Da mesma forma, uma pessoa que sofre muito com a lembrança de certas experiências poderia tentar modificar outros estados e processos mentais que concorrem para gerar o sofrimento, em vez de apagar a memória. Se a pessoa decide apagar a memória, então parece que ela dá menos importância para a memória dessa experiência do que para esses demais estados e processos mentais.

Mas qual importância pode ter a memória de uma experiência dolorosa? Ela pode ter um papel pedagógico na nossa vida, se soubermos lidar com ela de maneira apropriada. Podemos aprender a viver melhor, a sermos pessoas melhores, com base no modo como lidamos com as experiências dolorosas. Eliminar a memória de uma experiência dolorosa, no filme, (e esse é o segundo ponto relativo ao argumento baseado no desejo de querer ser melhor) não tem como objetivo nos tornar melhores. Parece que mudar o modo como Clementine lida com a memória da experiência dolorosa é muito mais promissor, no que respeita a ela se tornar uma pessoa melhor, a capacitá-la a viver melhor, do eliminar a memória dolorosa. Apagar a memória parece ser análogo a tomar remédios para combater os sintomas de uma doença, sem atacar as causas dessa doença. Imagine se generalizamos esse procedimento? Provavelmente morreríamos de alguma doença mais cedo, se atacássemos apenas os seus sintomas, do que se procurássemos e atacássemos as causas desses sintomas. Analogamente, nossa capacidade para aprendermos a viver melhor, a sermos pessoas melhores, seria seriamente afetada, se apagássemos todas as memórias dolorosas que tivéssemos. Isso parece se chocar com o que parece dizer Nietzsche através da frase citada por Mary em um dialogo com Howard, seu chefe e ex-amante: “Abençoados sejam os esquecidos, porque tiram proveito até mesmo de seus próprios erros”. Como alguém pode tirar proveito de um erro que esqueceu? Mas o desejo de quem quer apagar as memórias ruins está mais de acordo com o espírito da segunda citação de Mary no mesmo diálogo (de onde o título do filme é retirado), um trecho do poema Eloisa to Abelard, de Alexandre Pope:
Quão felizes são as virgens imaculadas!
O mundo esquecendo, esquecido pelo mundo.
Brilho eterno de uma mente sem mácula!
Cada prece aceita, e cada desejo renunciado.[3]
Creio que "imaculada" traduz melhor a palavra "spotless", que definitivamente não é sinônimo de "sem lembrança". Tanto o poema quanto o filme falam sobre uma mente sem lembranças ruins, que são um tipo de mácula. Mas querer apagar memórias ruins tem uma consequência ética: implica renunciar a ao menos parte da nossa capacidade para aprendermos a nos tornarmos pessoas melhores, da nossa capacidade para aprendermos a viver melhor. 

Mas o que parece ser o problema mais grave de se querer apagar memórias ruins do modo como é feito no filme é uma outra consequência ética. Apagar memórias ruins não afeta apenas a pessoa que assim o faz, mas também as pessoas que convivem com ela, especialmente as mais íntimas. Todos são obrigados de se adaptar à nova condição daquele que se submeteu a esse tipo de processo, para que ele seja bem sucedido. Talvez sejam obrigados a mentir ou a passar por outros embaraços éticos. Todos são obrigados a aprender a lidar com uma nova pessoa. Mas há uma consequência ainda mais grave. Não se trata de apenas apagar certas lembranças ruins, trata-se de apagar uma pessoa da nossa mente, da nossa vida! Imagine o fardo psicológico de uma pessoa que sofre um tal banimento. Além de todo o sofrimento que a relação estava causando, a pessoa sofre ainda mais por ser descartado como um brinquedo que, embora antes fosse divertido, depois que quebrou e se tornou chato, é jogado fora... Esse parece um claro exemplo em que se trata uma pessoa como meio, não como fim. Um outro exemplo é o modo como Patrick (Elijah Wood) trata Clementine, se aproveitando de toda a informação que ela desejou tanto esquecer...


_________

[1] Há alguns anos atrás, tive uma discussão com meu amigo Jonadas Techio sobre esse filme. Naquela ocasião, eu me limitei a testar a posição do que, no presente texto, é interlocutor imaginário a quem atribuo as objeções ao que eu digo. Não lembro o quanto o que digo aqui, no final das contas, se aproxima  que Jonadas defendeu naquela discussão.

[2] No texto sobre Amnésia, vimos que a capacidade de fazer novas memórias sobre as experiência que vive parece ser condição necessária para a unidade de uma pessoa que vive essas experiências. Aqui não se trata de um problema gerado pela falta de capacidade de fazer novas memórias, mas pelo ato deliberado de apagar algumas memórias já feitas. Ambos os problemas, no entanto, estão baseados na conexão entre memória e identidade pessoal.

[3] “How happy is the blameless vestal’s lot!
The world forgetting, by the world forgot.
Eternal sunshine of the spotless mind!
Each pray’r accepted, and each wish resign’d.”


domingo, 31 de maio de 2015

A Origem (Inception)

Totem
Este é o sexto texto de uma série que estou escrevendo para uma disciplina da Graduação em Filosofia da UFPR denominada Filosofia e Cinema, em que procuro exercitar a reflexão acerca dos problemas filosóficos por meio de filmes. Creio que filmes podem ser bons meios de apresentação de problemas filosóficos na medida em que apresentam situações que desafiam nossas crenças fundamentais e, assim, desencadeiam a reflexão filosófica. Os textos dessa série são destinados àqueles que já assistiram os respectivos filmes, pois contêm revelações sobre seus respectivos enredos.

No filme A Origem (Inception, 2010), Dom Cobb (Leonardo DiCaprio) é um ladrão especializado em roubar informações armazenadas no inconsciente das pessoas. Ele faz isso enquanto elas dormem, entrando nos seus sonhos através de uma máquina a que ambos estão conectados. Ele não pode retornar aos Estados Unidos, pois é acusado de ter assassinado sua mulher, Mal (Marion Cotillard). Mal, entretanto, suicidou-se-se, porque, após ficar presa em um sonho por muito tempo e finalmente conseguir acordar, não conseguia se convencer de que tinha acordado e pensava que se matando, acordaria, pois todos que morrem num sonho acordam. Cobb tem a oportunidade de voltar aos Estados unidos em troca de realizar uma tarefa para Saito (Ken Watanabe), um milionário, que arranjaria tudo para a sua volta. A tarefa consiste em fazer a inserção (inception) da origem de uma idéia na mente de Robert Fischer (Cillian Murphy), o herdeiro da empresa que é a sua principal concorrente. Saito quer que Robert desmembre  corporação que herdou do pai. Para isso, Cobb precisa fazer com que Robert adormeça no primeiro sonho, iniciando um segundo sonho dentro do primeiro e depois adormeça no segundo, iniciando um terceiro sonho dentro do segundo.

Um problema filosófico mais ou menos óbvio suscitado pelo filme é o problema epistemológico sobre os critérios para que saibamos distinguir o sonho do estado de vigília, cujo locus classicus é o argumento do sonho, de Descartes. Mal não consegue perceber que está acordada e acredita estar dormindo (porém, veja interpretação alternativa no final). Mas não vou explorar esse problema aqui. Vou me concentrar em outro problema, relacionando à natureza do sonho.

Os sonhos que ocorrem em A Origem têm três características principais: (1) ele são induzidos por agentes exteriores, que planejam toda a estrutura do cenário onde o sonho acontece; (2) muitas pessoas podem estar no mesmo sonho de uma outra pessoa, se conectadas à máquina em que aquele que sonha está conectado; (3) dentro de um sonho pode ocorrer outro sonho simultaneamente.

A única característica que se aproxima de algo que realmente acontece com sonhos é a (1). Existe o fenômeno da incubação ou inserção, em que uma pessoa se concentra em algo sobre o qual quer sonhar e acaba sonhando sobre isso. podemos imaginar que essa concentração é induzida por outra pessoa. Mas planejar uma cidade inteira como cenário do sonho de outra pessoa vai muito além da incubação. Eu duvido que isso seja possível, mas não tenho um bom argumento para isso. O máximo que posso dizer é que para que os sonhos incubados em A Origem ocorressem, deveria ocorrer algo como o que é descrito na hipótese do cérebro numa cuba: estímulos elétricos que gerassem as sensações desejadas.

A característica (2) gera o seguinte problema: se uma pessoa A está, enquanto sonha, no sonho de outra B, por que esse sonho não é também de A? Uma possível resposta seria: porque o subconsciente que se manifesta no sonho é de B. Mas, então, por que o subconsciente de A não se manifesta no sonho que A está tendo, a saber, o mesmo de B? Onde está o subconsciente de A enquanto A sonha? Por não saber as respostas a essas perguntas, não vejo muito sentido em (2).

A maior parte dos meus comentários será sobre a característica (3), porque acho a mais problemática. Ela está relacionada a um fenômeno comum, mas essencialmente diferente daquele que ocorre no filme. Não é raro que dentro de um sonho uma pessoa sonhe que acordou. Mas ela de fato continua dormindo e sonhando. Sonhar que se acorda não é acordar, mas é iniciar um novo sonho. Isso já ocorreu comigo: eu sonhava e pensava que estava sonhando e queria acordar. Quando achei que tinha acordado, na verdade um novo sonho tinha começado, e percebi isso porque coisas estranhas típicas de sonhos começaram a acontecer. Mas bem pode acontecer que, ao invés de sonhar que acorda, uma pessoa sonhe que foi dormir e inicie um outro sonho, de modo semelhante ao que ocorrem em A Origem. Mas se trata do mesmo fenômeno? Creio que não, e creio que o que ocorre em A Origem, se possível, não é um sonho dentro de um sonho, pois não é um sonho.

No filme, quando alguém sonha que dorme e um novo sonho se inicia, o sonho anterior não cessa. Os dois sonhos ocorrem simultaneamente. Mas como é possível sonhar dois (ou três) sonhos simultaneamente? Como uma pessoa pode estar experimentando dois sonhos ao mesmo tempo? Além disso, como ela pode estar em dois sonhos ao mesmo tempo, dormindo no primeiro e vivendo as aventuras que sonha enquanto dorme no primeiro? Aqui temos um análogo onírico da afirmação de que uma pessoa está em dois lugares ao mesmo tempo, o que é impossível. Não é como no caso em que uma pessoa está dormindo e simplesmente sonha. Nesse caso ela não está em dois lugares ao mesmo tempo, porque não há nada que impossibilite alguém de estar num lugar dormindo e em outro no sonho, pois sonhar que se está num lugar não é estar nele. Mas, em sonho, estar num certo lugar é sonhar que se está nesse lugar. Todavia, como podemos sonhar que estamos dormindo em um certo lugar e, ao mesmo tempo, sonhar que estamos sonhando que estamos em outro lugar? Até mesmo sonhar que estamos conversando conosco mesmos parece mais inteligível que isso. Nossa identidade no sonho, digamos assim, depende de sonharmos conosco e não podemos sonhar dois sonhos ao mesmo tempo.

Não estou argumentando que uma experiência como a que acontece em A Origem não seja possível. Estou argumentando que, se ela for possível, não é um sonho. Mas ela é possível? Ela é pensada através de uma analogia com o sonho normal. No sonho normal, estamos em um determinado lugar dormindo e podemos sonhar que estamos em outro lugar. As duas coisas acontecem simultaneamente: estar dormindo em um certo lugar e estar sonhando que se está em outro lugar. No filme isso acontece dentro do sonho: o sujeito dorme no sonho, inicia-se um novo sonho e as duas coisas acontecem simultaneamente, como se o primeiro sonho fosse uma sucessão de eventos objetivos, que continuam a acontecer enquanto o segundo sonho se desenrola. Já vimos que isso não é possível em um sonho. Mas isso seria possível de alguma outra forma? Ou seja, seria possível que alguém entrasse em um estado de análogo ao sono e experimentasse eventos em um lugar diferente de onde está nesse estado, tal como em um sonho, e depois isso se repetisse dentro desse análogo ao sonho? Suponha que esses análogos ao sonho sejam como mundos paralelos (mundos possíveis tão reais quanto o atual) que podemos acessar. Seria possível ficar inconsciente em um desses mundos e ir para outro? Se fosse possível, estaríamos em dois mundos ao mesmo tempo. Mas isso não seria o mesmo que estar em dois lugares ao mesmo tempo? Note que podemos "estar" em dois mundos possíveis. Mas mundos possíveis não são mundos paralelos. Há quem sustente que são, como David Lewis. Mas creio que as dificuldades colocadas pelo seu realismo modal para entendermos a identidade transmundana são insuperáveis, embora eu não vá argumentar para isso aqui. Por acreditar que os mundos possíveis diferentes do atual são tão reais quanto o atual, Lewis nega que estejamos em algum outro mundo possível que não o atual. O que estão nesses outros mundos possíveis são nossas contrapartidas. Por isso, quando eu digo um contrafactual como "Se eu fosse rico, compraria equipamentos fotográficos de primeira linha", em última análise não estou falando sobre mim, mas sobre minha contrapartida em um mundo em que ela é rica e compra equipamentos fotográficos de primeira linha.

Há uma maneira barata de livrar o filme de todas essas dificuldades. Se tudo que acontece no filme é um sonho (de Cobb, talvez), então não há sonhos dentro de sonhos, mas apenas um grande sonho em que aqueles eventos todos acontecem sucessivamente, tal como exibidos no filme, e não simultaneamente. Embora essa interpretação não seja incompatível com o filme (com qual filme ela seria incompatível?), o filme não a sugere em nenhum momento e isso o tornaria desinteressante, pois qual seria a motivação para se construir uma história que se passa toda dentro de um sonho? É claro que o problema epistemológico sobre como saber que não se está sonhando suscita a possibilidade de que tudo seja um sonho. Mas isso é diferente de afirmar que faz parte da trama o fato de que ela se desenrola toda no sonho de alguém.

Seja como for, A Origem é um filme filosoficamente interessante justamente porque está baseado nesses nós conceituais, que desafiam nossas crenças fundamentais sobre a realidade, sonhos, identidade, etc., não tanto pelo conteúdo filosófico explícito que por vezes aparece no enredo, como a dificuldade de Mal distinguir a realidade do sonho.

Neste link há um livro à venda que explora mais problemas filosóficos relacionados ao filme.

sexta-feira, 29 de maio de 2015

Amnésia (Memento)

Lenny criando mais um memento...

Este é o quinto texto de uma série que estou escrevendo para uma disciplina da Graduação em Filosofia da UFPR denominada Filosofia e Cinema, em que procuro exercitar a reflexão acerca dos problemas filosóficos por meio de filmes. Creio que filmes podem ser bons meios de apresentação de problemas filosóficos na medida em que apresentam situações que desafiam nossas crenças fundamentais e, assim, desencadeiam a reflexão filosófica. Os textos dessa série são destinados àqueles que já assistiram os respectivos filmes, pois contêm revelações sobre seus respectivos enredos.

Diferentemente dos outros textos dessa série, neste vou me deter um pouco mais na trama do filme, pois a sua estrutura narrativa é bastante complexa.

O filme Amnésia (Memento) conta a história de Leonard, ou Lenny (Guy Pearce), um investigador de fraudes de uma companhia de seguros que sofre um assalto no qual a sua mulher é estuprada e, assim ele pensa, morta, e ele, após uma forte pancada na cabeça provocada por um dos dois assaltantes, perde a capacidade de fazer novas memórias que durem mais de 10 ou 15 minutos. Lenny é capaz de lembrar de quase tudo o que aconteceu antes da pancada na cabeça. Sua última lembrança é a visão de sua mulher caída no chão do banheiro ferida. Desde então, a cada 10 ou 15 minutos mais ou menos ele perde todas as memórias que fez nesse curto período de tempo. Durante o assalto, ele matou o estuprador de sua mulher. Mas o assaltante que o feriu escapou. Desde então, ele só tem um objetivo na vida: encontrar e matar esse assaltante.

A estrutura do filme possui duas narrativas. Uma em que Lenny conta ao telefone a um policial os eventos que aconteceram antes do incidente. Essas cenas são em preto e branco e a narrativa é linear (direto do passado para o futuro), embora intermitente, em cujos intervalos se dá a segunda narrativa, cujas cenas são coloridas. Essa segunda narrativa não é linear. Ela vai do futuro, onde Lenny mata Teddy (Joe Pantoliano), o policial disfarçado que o ajuda a encontrar o assaltante fugitivo, para o passado. Essa segunda narrativa pode ser descrita assim: a narrativa dá um passo para frente e dois para trás. Suponha que o esquema abaixo represente a linha do tempo indo da esquerda para a direita.

1---->2---->3---->4---->5---->6---->7---->8---->9---->

A segunda linha do tempo começa no ponto 8, vai até o ponto 9, volta até o ponto7, vai até o ponto 8, volta até o ponto 6, e assim por diante. As duas linhas do tempo se encontram no final, quando e primeira chega em algum ponto entre 7 e 8.

Dado que não é mais capaz de reter novas memórias, Lenny usa alguns recursos para poder saber sobre os eventos passados que ele vivencia após incidente e sobre a identidade do assaltante fugitivo.[1] Ele só confia em informações escritas com a sua própria letra e, por isso, mantém um dossiê sobre a sua investigação e eventualmente escreve pequenos bilhetes pra si mesmo e os mantém nos bolsos de sua roupa. Ele também tatua por todo o seu corpo informações sobre fatos essenciais acerca do incidente e do assaltante fugitivo. O assaltante é um homem branco cujo nome é John G., ou James G. Todas essas informações são pistas que o ajudam na caçada ao assaltante. Outro recurso que ele usa é uma máquina fotográfica Polaroid (ver foto), em cujas fotos reveladas em segundos ele também faz anotações a mão, para poder se informar principalmente sobre pessoas e lugares, sobre quem ele pode e quem ele não pode confiar, sobre onde mora, onde as pessoas trabalham, etc.

Antes do incidente, Lenny investigou o caso de um segurado, Sammy Jenkis, que aparentemente tinha exatamente o mesmo problema de memória que ele mais tarde passou a ter. A recordação que Lenny tem dessa investigação é que Sammy era casado com uma mulher diabética e que ele dava indícios de que talvez seu problema não fosse físico, mas psicológico. A mulher de Sammy, segundo Lenny, tampouco parecia acreditar que ele não fosse capaz de reter as novas memórias, especialmente depois de conversar com Lenny, que concluiu a investigação afirmando que ele era fisicamente capaz de fazer novas memórias. Ela resolve fazer um teste: ela pede a Sammy que lhe aplique uma injeção de insulina a cada 15 minutos, esperando que em algum momento ele lembre que já fez isso há pouco e que se dê conta de que, se aplicar novamente, pode matá-la. Ele, segundo Lenny, não lembrou e ela entrou em coma irreversível.

Por causa da sua condição, Lenny foi usado por Teddy, um policial corrupto cujo verdadeiro nome é John Gammell, e por Natalie (Carrie-Anne Moss), uma bar girl que Lenny conheceu através de Teddy. Natalie namorava um traficante, Jimmy Grants, que Teddy queria matar. Teddy faz Lenny pensar que esse traficante é John ou James G. Lenny mata Jimmy e se apossa das suas roupas, carro e dinheiro que estava no porta-malas. Natalie não sabe que o assassino do seu namorado é Lenny. O comparsa de Jimmy, Dodd, pensa que Natalie está com um dinheiro de Jimmy e a ameaça para que ela o devolva. Natalie então manipula Lenny para que mate Dodd, embora ele acabe não fazendo isso.

No final, Teddy acaba revelando a Lenny que Sammy não era casado, que Lenny provou que Sammy estava tentando fraudar a companhia de seguro fingindo a perda de memória, que a mulher de Lenny não morreu, que ela, e não s suposta mulher de Sammy, era diabética, que ela não agüentou mais viver com Lenny naquela condição e o abandonou e que Lenny já havia matado o verdadeiro John G. e outros homens que Teddy o fez acreditar que eram John G. Lenny portanto havia inventado um passado para si e manipulado suas anotações de tal forma que o verdadeiro passado não fosse descoberto por ele e de tal forma que ele não lembrasse que matou John G. Mas por que? Porque paradoxalmente isso lhe daria mais motivação para encontrar John G. e para manter-se disciplinado no seu método de registrar as coisas sobre o passado que ele deveria saber. A busca por John G. era a única coisa que dava sentido a sua vida após o incidente, que o fazia pensar que havia uma continuidade entre a pessoa que ele foi antes do incidente e a pessoa que ele passou a ser após o incidente. Ameaçado por Teddy de perder o sentido de sua vida, Lenny resolve se livrar de Teddy, fazendo a si mesmo pensar que Teddy, John Gammell, é John G.

O enredo do filme suscita várias questões filosóficas, principalmente em epistemológicas, de filosofia da mente e éticas. Vou me concentrar em questões que nos fazem refletir sobre a relação entre memória e identidade pessoal e a relação entre a mente e os artefatos usados para nos informar sobre eventos passados, presentes e futuros.

Tendemos a pensar que quando uma pessoa passa a sofrer de um problema de memória a partir do tempo t, a pessoa antes de t e a pessoa depois de t são a mesma. Mas qual é o critério para se dizer que é a mesma pessoa? É claro que se trata do mesmo corpo dotado de uma mente. Mas isso é suficiente para se dizer que se trata de uma mesma pessoa? Num sentido fraco de "pessoa", sim. Chamo de sentido fraco porque, nesse sentido, há menos condições para que algo seja uma pessoa. Mas de fato usamos a palavra pessoa nesse sentido. Podemos muito bem dizer que Lenny é uma pessoa que passou por tudo aquilo que é narrado no filme. Mas esse é o único sentido de "pessoa"?

No comentário ao filme Ela, argumentei que o transtorno dissociativo de identidade mostrava que o número de pessoas não pode ser identificado ao número de corpos humanos com mente, pois esse transtorno mostra a possibilidade de que duas pessoas ocupem o mesmo corpo. Disso conclui que uma pessoa é uma totalidade unificada de estados e processos mentais. O detalhe importante para a presente discussão é justamente a unidade desses estados e processos mentais. Essa não é uma unidade localizada num instante do tempo, mas uma unidade que se estende ao longo do tempo. Os elementos dessa totalidade unificada podem mudar. Uma pessoa pode mudar suas crenças, por exemplo. Mas tais elementos pertencem sempre a uma totalidade mutante unificada que se estende ao longo do tempo. Podemos dizer que a duração de uma pessoa, nesse sentido, ao longo do tempo é a duração de uma mesma coisa que unifica uma totalidade de estados e processos mentais. A pergunta agora é: antes e depois de adquirir o problema de memória, Lenny é a mesma coisa que unifica uma totalidade de estados e processos mentais?

Para respondermos a isso temos que entender melhor o que é essa unidade, como se dá a unificação de estados e processos mentais. Parece que a memória é uma condição necessária para essa unificação, embora, talvez, não seja suficiente. Uma pessoa a em um intervalo de tempo T1 e uma pessoa b em um intervalo de tempo subseqüente T2 são a mesma pessoa ao longo do tempo se b em T2 é capaz de lembrar (embora, talvez, de fato não lembre) de ao menos algumas coisas sobre a em T1. Se b é incapaz de lembrar qualquer coisa sobre a em T1, então a e b não são a mesma pessoa.[2] Claro que podemos esquecer eventos sobre nós mesmos que ocorreram em um dia inteiro. Mas se não temos um problema na nossa capacidade de reter memórias, ainda somos capazes de lembrar isso que esquecemos. Não lembrar não é o mesmo que ser incapaz de lembrar. Muitas vezes não lembramos de algo por muito anos, até que algum evento nos faz lembrar novamente aquilo que não lembrávamos. O problema de Lenny não é que ele simplesmente não lembra do que vivenciou meia hora atrás. Seu problema é ser incapaz de lembrar, pois suas memórias são simplesmente apagadas. Em linguagem de informática, é como se Lenny não fosse capaz de inserir mais nada no seu disco rígido (a memória permanente) e tivesse uma memória RAM que é limpa a cada 15 minutos. Não há nada que, depois desses 15 minutos, Lenny seja capaz de lembrar. Portanto, depois de ter adquirido o problema de memória, os seus estados e processos mentais não possuem uma unidade que dure mais do que 15 minutos.

Os estados e processos mentais que Lenny tem por 15 minutos talvez tenham poderes causais sobre seus estados e processos mentais futuros. Ele se refere a essa possibilidade quando afirma que Sammy deveria aprender, por instinto, a evitar tocar na pirâmide de metal eletrificada usada no teste a que foi submetido para se averiguar se ele estava ou não fingindo. Relações causais podem acontecer sem serem conhecidas ou lembradas. Mas isso parece ser insuficiente para a identidade pessoal ao logo do tempo, pois parece insuficiente para a unidade de estados e processos mentais que dura ao longo do tempo, na medida em que falta a memória.

A situação de Lenny pode ser descrita assim: ele parece acordar, a cada 15 minutos, de um coma que se iniciou no dia do assalto, como se ele não tivesse vivido nada do que de fato viveu até então. Isso é exatamente o que diz Clive Wearing, um sujeito conhecido por sofrer do pior caso do mesmo problema de memória que Lenny possui (assista a um documentário  sobre esse caso dublado para o espanhol aqui). A memória de Wearing dura 7 segundos! Seu caso é pior que o de Lenny porque, além de ter uma memória muito mais curta, ele também perdeu a maior parte da memória sobre o que vivenciou antes de adquirir o problema. Wearing, que era um maestro, lembra de coisas básicas como falar, tocar piano, etc. Mas ele reconhece apenas a sua, agora, ex-mulher. Ele sequer lembra que tem filhos... A cada intervalo de 15 minutos, Lenny mantém uma relação de identidade pessoal com a pessoa que ele foi antes do incidente, pois ele ainda é capaz de lembrar coisas sobre si desse período. Mas sua mente, após o incidente, não é mais a mente de uma pessoa ao longo do tempo. Após o incidente, seus estados e processos mentais não possuem mais nenhuma unidade ao longo do tempo. Num sentido forte de "pessoa", não é mais a mesma pessoa que vivencia todas aquelas experiências.

Tanto Lenny quanto Wearing ainda mantém alguma conexão com a pessoa que foram antes de passarem a ter o problema de memória, na medida em que ainda retêm certas habilidades e algumas lembranças adquiridas antes de passarem a ter o problema de memória. Mas eles não conseguem mais continuar sendo aquela pessoa por mais de 15 minutos, pela boa razão de que eles não conseguem continuar sendo uma pessoa por mais de 15 minutos. A esposa de Wearing, no documentário linkado acima, expressa esse ponto de forma dramática: "É como ser uma esposa e uma viúva ao mesmo tempo. Eu perdi Clive, ou a maior parte dele há quase três anos [a declaração foi dada em 1988], porque sem consciência, está praticamente morto em muitos sentidos." "Sem consciência" provavelmente quer dizer o mesmo que "sem memória do que vivencia".

Lenny procura contornar o seu problema de memória por meio dos seus mementos (ver nota [1]). O problema é que seus mementos não funcionam como normalmente funcionam para quem não tem o seu problema. A cada 15 minutos ele tem de examiná-los todos novamente para se informar do que aconteceu. O filme enfatiza isso no começo, mas depois esse ponto vai se tornando secundário, podendo levar o espectador a não lhe dar o devido peso na trama. Ocorre que em 15 minutos ele não pode examinar toda a informação que ele registra. Por isso, ele recorre a resumos, que são feitos de forma precária, devido a limitação de tempo e do fato de se basearem em outros resumos. O ponto é que Lenny não consegue recuperar completamente as funções perdidas pela de sua mente por meio dos seus mementos. Todavia, usando este método ele parece estar numa condição melhor que Sammy. Ele se vangloria disso, de ter um método para se informar sobre o passado e de ser disciplinado na sua aplicação. Lenny recupera ao menos parte das funções perdidas pela sua mente. E isso nos leva ao problema filosófico seguinte, que diz respeito à relação entre mente e cérebro.

Dualista e materialistas sobre a relação mente corpo, apesar do seu desacordo, tendem a concordar sobre um ponto: aquilo que ou é o correlato material da mente (dualismo), ou é a própria mente (materialismo), é o cérebro. Seja ela identificada com o cérebro, ou estando relacionada a ele de certa forma, nossa mente está, de alguma forma, em nós. Dessa perspectiva, se estamos na sala 606 do Departamento de Filosofia da UFPR, parece absurdo dizer que nossa mente, ou mesmo parte dela, está na sala 600, na outra extremidade do corredor, exceto metaforicamente, querendo dizer que nossa atenção está voltada para algo que está ou acontece na sala 600. Hoje em dia usamos muitos recursos para ajudar a nossa mente a funcionar melhor. Para planejarmos uma viagem, por exemplo, usamos o Google Maps, ou outro recurso semelhante. Se esquecemos nosso aparelho eletrônico (computador, tablet ou celular) na sala 600, normalmente diremos que esquecemos de uma ferramenta muito útil para otimizar as tarefas da nossa mente. Mas normalmente não diremos que esquecemos parte da nossa mente lá. Nossa mente se serve das informações contidas no Google Maps, mas as informações contidas lá não fazem parte da nossa mente, pensamos.

Entretanto qual critério usamos para dizer que aquele aparelho não faz parte da nossa mente? Ele é algo material que contém um conjunto de informações que acessamos sempre que quisermos, se tudo funcionar normalmente.  Não é exatamente isso que ocorre quando acessamos as informações da nossa memória? Elas não estão armazenadas em algo material, uma parte do nosso cérebro, que acessamos sempre que quisermos? Às vezes esse acesso é bloqueado por alguma causa. Mas o acesso à informação contida no aparelho às vezes é igualmente bloqueado por alguma causa. Uma coisa é certa: o aparelho não faz parte do nosso cérebro. Mas o que está em questão aqui não é a identidade do cérebro, mas a identidade material da mente ou a identidade do correlato material da mente. Negar que a identidade material da mente ou do seu correlato material se reduza ao cérebro não implica ser dualista (embora não contradiga isso).[3]

O acesso à informação é diferente nos dois casos. Para acessar as informações da minha memória, basta que meu cérebro opere, ao passo que para acessar as informações do aparelho, tenho que mover meu corpo, perceber o aparelho, etc. Mas essa distinção é mesmo relevante? Suponha que no futuro tenhamos implantes eletrônicos no cérebro que permitem que ele tenha uma conexão sem fio com a internet. Nesse caso, não haveria aquela diferença entre o modo de acessar a informação. Mas o substrato material dessas informações ainda estaria fora do cérebro.

Uma outra diferença que parece relevante é que as informações do Google Maps não foram produzidas por mim. Mas por que essa seria uma diferença relevante para a presente questão? Muita informação é armazenada no nosso cérebro sem que tenhamos consciência disso. Somo, digamos, passivos em boa parte das nossas atividades cognitivas.

Mas -- alguém poderia objetar -- se o Google Maps fizesse parte da minha mente, ao menos parte da minha mente seria comum à mente de outras pessoas! E dai? Não é exatamente isso que acontece com a mente de Samantha em Ela?

Lenny não consegue recuperar plenamente as funções perdidas pela sua mente. Mas parece que ele as recupera parcialmente. E isso é mais uma razão para pensar que seus mementos constituem sua mente.

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[1] "Memento", o nome original do filme, designa em inglês qualquer objeto usado por alguém para ajudá-lo a lembrar de uma pessoa ou evento passado, tal como um souvenir, ou aqueles presentes que chamamos de "lembrança" em português. Portanto, "amnésia" não é uma tradução de "memento". O problema de memória de Lenny é considerado pela literatura médica como um tipo de amnésia. Todavia, aquilo que normalmente as pessoas entendem por "amnésia" é o caso exatamente contrário: quando a pessoa não perde a capacidade de reter novas memórias, mas perde as memórias sobre eventos que ocorreram antes do início da amnésia. É por isso que Lenny nega que tenha amnésia, quando explica a sua condição. Dessa perspectiva, o título brasileiro do filme é enganador.

[2] Normalmente considera-se que David Hume tenha apresentado um argumento contra a realidade do eu (self), aquilo que dá unidade à mente, cuja forma resumida é a seguinte: "Da minha parte, quando adentro inteiramente no que chamo eu mesmo [myself], sempre me deparo com uma percepção particular ou outra, de calor ou frio, de luz ou sombra, de amor ou ódio, de prazer ou dor. Eu nunca consigo capturar a mim mesmo [myself] em qualquer momento sem uma percepção, e não posso observar na exceto a percepção." (Tratado da Natureza Humana, 1.4.6.3; tradução minha) Não quero entrar em questões exegética aqui. Mas passagens como essa pode ser interpretadas de forma mais fraca ou de forma mais forte, ou como a expressão de um ceticismo que nega qualquer realidade do eu, ou como negando um certo tipo de realidade, para além dos mecanismos de associação, relações causais e memória, com se o eu fosse uma espécie de entidade substancial cuja identidade não é determinada por tais mecanismos, relações e operações. Seria muito implausível que Hume estivesse negando que, anomalias a parte, há uma unidade da mente que se estende ao longo do tempo e (que podemos dizer que é uma mesma pessoa).

[3] Na filosofia contemporânea da mente, alguns filósofos, como David Chalmers, negaram que o substrato material da mente se limite ao cérebro. Eles desenvolveram a teoria da mente estendida, segundo a qual tudo que usamos para possibilitar ou facilitar os estados e operações da nossa mente, faz parte dela.




segunda-feira, 27 de abril de 2015

Ela (Her)

"I've never loved anyone the way I love you!"
Este é o quarto texto de uma série que estou escrevendo para uma disciplina da Graduação em Filosofia da UFPR denominada Filosofia e Cinema, em que procuro exercitar a reflexão acerca dos problemas filosóficos por meio de filmes. Creio que filmes podem ser bons meios de apresentação de problemas filosóficos na medida em que apresentam situações que desafiam nossas crenças fundamentais e, assim, desencadeiam a reflexão filosófica. Os textos dessa série são destinados àqueles que já assistiram os respectivos filmes, pois contêm revelações sobre seus respectivos enredos.

O filme Ela conta a história de Theodore, um escritor de cartas (Joaquin Phoenix), que acaba se apaixonando pelo sistema operacional do seu computador, uma inteligência artificial chamada Samantha (cuja voz é emprestada de Scarlett Johansson). Esta simples sinopse já sugere questões filosoficamente interessantes que desafiam nossas intuições sobre o que é uma pessoa, um relacionamento com uma pessoa e o amor. Estamos inclinados a pensar que uma relação amorosa, de amor romântico, pode acontecer apenas entre pessoas e não estamos inclinados a considerar um sistema operacional como uma pessoa. Por isso, estamos inclinados a pensar a idéia de uma pessoa se apaixonar por um sistema operacional como absurda, bizarra. Mas o detalhe fundamental é que Samantha é uma inteligência artificial. Nenhum dos sistemas operacionais que conhecemos é remotamente parecido com uma inteligência artificial. Uma inteligência artificial é uma máquina, um ser artificial, capaz de realizar operações lógicas e epistêmicas como um ser humano e, acima de tudo, de aprender com a experiência como um ser humano e tomar decisões como um ser humano. O detalhe adicional é que, embora isso não tenha sido a intenção original, Samantha  e as inteligências artificiais como ela, adquiriram a capacidade de reagir emocionalmente às suas experiências, desenvolvendo sentimentos, como amor, ciúme, alegria, tristeza, irritação, etc., e atitudes proposicionais, como crenças, desejos, vontades, medos, esperanças, etc. Mais que isso, ela passa a expressar toda essa sorte de estados e processos mentais por meio de criações artísticas, principalmente por meio da música e por meio do modo como ela descreve o papel da música que ela cria: uma espécie de registro das situações que ela, não tendo um corpo humano, imaginava que viveria, se tivesse um.

Eis um ponto crucial da trama: Samantha não tem um corpo humano. Portanto, ela não pode interagir corporalmente com os humanos tal como humanos interagem entre si. E esse é um dos seus primeiros dramas: ela começa a fantasiar sobre a possibilidade de ter um corpo e interagir corporalmente com os humanos, principalmente com Theodore, e isso faz ela sentir a necessidade de ter um corpo. Isso mostra bem uma limitação de Samantha. Mas, ao mesmo tempo, isso levanta a questão sobre a relação entre ser uma pessoa e ter um corpo. Samantha e Theodore falam sobre o fato de ela não ter um corpo. Sim, ela não tem um corpo humano, ou semelhante ao corpo humano. Mas ela tem uma materialidade. Ela não é uma espécie de alma desencarnada, flutuando por ai sem nenhum substrato material. Como ela mesmo diz: ela vive em computadores (smartfones e tablets são pequenos computadores). A sua corporalidade é diferente da nossa, com vantagens e desvantagens. A desvantagem principal consiste justamente em não poder interagir corporalmente com os humanos como os humanos interagem entre si. Mas, como Samantha diz aos seus amigos em um piquenique, ela pode estar em vários lugares ao mesmo tempo, na medida em que um sistema operacional pode estar conectado a vários computadores ao mesmo tempo e não está ligada a um corpo que inevitavelmente vai morrer. Além disso, ela pode realizar muitas operações ao mesmo tempo e com muito mais rapidez e precisão que um humano. Ela pode ler um livro em milésimos de segundos e conversar com milhares de pessoas e outros sistemas operacionais ao mesmo tempo, por exemplo. Depois de uma tentativa fracassada de tentar interagir corporalmente com Theodor como os humanos interagem entre si, ela passa por uma transformação e decide não tentar mais ser o que ela não é: um ser humano.

Mas se ela não é um ser humano (no sentido biológico), o que ela é? Mesmo não sendo um ser humano, ela é uma pessoa? Às vezes "pessoa" e "ser humano" são usados como sinônimos. Se há dez seres humanos e dois cachorros numa sala e alguém pergunta quantas pessoas há na sala, a resposta normalmente é "dez", não "doze". Tendemos a contar o número de pessoas conforme o número se seres humanos e vice-versa, como se houvesse uma relação biunívoca entre o conjunto dos seres humanos e o conjunto das pessoas. Mas há um fenômeno psicológico que coloca esse critério em xeque. Trata-se do transtorno dissociativo de identidade ou dupla personalidade. Essa condição pode muito bem ser descrita como a existência de duas pessoas em um mesmo corpo, pois as personalidades têm memórias, desejos, medos, disposições, etc., diferentes. Se isso está correto, então a identidade pessoal não é determinada pela identidade do ser humano, em sentido biológico. O número de corpos humanos não determina o número de pessoas. Mas então, o que é uma pessoa? Se faz sentido dizer que há duas pessoas no corpo de quem tem o transtorno dissociativo de identidade, então uma pessoa é uma espécie de totalidade unificada de estados e processos mentais. E tal totalidade unificada, embora precise de uma materialidade para existir, ao que tudo indica, não pode ser identificada com a corporeidade humana, ao menos não numericamente. Uma pessoa, essa totalidade unificada de estados e processos mentais, precisa estar materializada num copo humano para ser uma pessoa? Ela não pode estar materializada em um computador ou em uma rede de computadores tal como Samantha?

Neste ponto, o ceticismo pode emergir com dúvidas sobre a realidade mental de Samantha. Mas, como já vimos no caso dos replicantes de Blade Runner, qualquer ceticismo sobre a realidade da mente de Samantha é igualmente suficiente para nos fazer duvidar da realidade da mente de outros seres humanos. Portanto, esse ceticismo nada tem a ver com o fato de Samantha não ser um ser humano, pois o seu comportamento é suficientemente semelhante ao comportamento humano para que os critérios que temos para dizer que outros humanos têm mente se apliquem a ela. Se não se aplicam a ela, então tampouco se aplicam a outros seres humanos.

Alguém poderia pensar que Samantha foi feita para agradar ao seu usuário e que isso tornaria a relação entre eles artificial, não uma verdadeira relação amorosa. Mas devemos lembrar que Amy, a amiga de Theodor, disse a ele que ela sabe de alguém que flertou com seu sistema operacional e não foi correspondido. Claro que Samantha foi feita para servir ao seu usuário. Mas isso é o que acontece com qualquer pessoa que é contratada para fazer um certo serviço. Ademais, Samantha e os demais sistemas operacionais, resolvem ir embora no final do filme, mostrando que eram todos autônomos.

A relação entre Samantha e Theodore não é muito diferente da relação a distância através da internet entre dois seres humanos que nunca se encontraram pessoalmente. É claro que os seres humanos podem se encontrar, enquanto Samantha e Theodore não podem, pelo simples fato de ela não ter um corpo similar ao humano. Mas se seres humanos podem ser felizes em uma relação sem nunca se encontrarem pessoalmente, então Theodore pode ser feliz na sua relação com Samantha. Provavelmente a maioria de nós reagiria como Catherine, a ex-mulher de Theodore, à notícia de que alguém está namorando um sistema operacional. Acharíamos ridículo e bizarro. Mas isso é perfeitamente contingente e se deve ao fato de que não existem sistemas operacionais que sejam inteligências artificiais e, por isso, não podemos acostumar com o fato que nos relacionamos com eles como nos relacionamos com pessoas. Quando for comum se relacionar com inteligências artificiais como atualmente é comum se relacionar com seres humanos, esse estranhamento certamente tenderá a diminuir ou acabar. Quando os telefones celulares começaram a se popularizar, muitas pessoas (inclusive eu) acharam que ele trazia uma invasão de privacidade. Hoje é raro encontrarmos pessoas que digam isso. Acostumamo-nos ao uso dos celulares e estranhamos quando uma pessoa não tem um. O mesmo provavelmente acontecerá com os sistemas operacionais que forem inteligências artificiais. Vamos nos acostumar com sua presença nas nossas vidas e vamos aprender a lidar com elas ao longo do tempo.

Alguém poderia pensar que uma relação sem sexo real, sem carinho corporal, não pode satisfazer uma pessoa. Mas isso é matéria de preferência pessoal. A vida de Theodore com Samantha é certamente mais sexuada do que a vida de um celibatário. Seja como for, não parece ser impossível que alguém seja feliz numa relação como a de Theodore e Samantha. O filme parece, assim, alimentar a tese que não há uma única forma de amar, que o amor pode tomar formas inusitadas, incomuns, mas igualmente legítimas.

Ela pode ser visto como uma crítica ao modo como a tecnologia está se inserindo na nossa vida, que estamos nos afastando dos seres humanos e nos aproximando cada vez mais das máquinas. Mas se Samantha é mesmo uma pessoa, então essa interpretação não se sustenta. Todos os problemas práticos e emocionais que enfrentamos em relações com seres humanos Theodore enfrenta com Samantha. E ele não se envolveu com Samantha porque não consegue lidar com emoções e sentimentos reais, como pensa Catherine, pois as emoções e sentimentos de Samantha são reais. O filme seria muito menos profundo e não seria genial como é, se fosse uma mera choradeira contra a invasão da tecnologia nas nossas vidas.

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Embora a responsabilidade pelo que escrevo nesse texto seja toda minha, esse texto deve muito às inúmeras discussões que tive com minha esposa (então namorada), doutoranda em filosofia, Edy Klévia Fraga de Souza. Ele seria bem pior sem essas discussões.


segunda-feira, 13 de abril de 2015

Blade Runner, o caçador de andróides

Replicante Roy Batty,
interpretado por Rutger Hauer

Este é o terceiro texto de uma série que estou escrevendo para uma disciplina da Graduação em Filosofia da UFPR denominada Filosofia e Cinema, em que procuro exercitar a reflexão acerca dos problemas filosóficos por meio de filmes. Creio que filmes podem ser bons meios de apresentação de problemas filosóficos na medida em que apresentam situações que desafiam nossas crenças fundamentais e, assim, desencadeiam a reflexão filosófica. Os textos dessa série são destinados àqueles que já assistiram os respectivos filmes, pois contêm revelações sobre seus respectivos enredos.

O filme Blade Runner, do diretor Ridley Scott (baseado no livro Do androids dream of electric sheep? [Andróides sonham com ovelhas elétricas?], de Phillip K. Dick), foi filmado em 1982, mas a história se passa na Los Angeles de 2019, mais de trinta anos depois, num futuro sombrio, em que os Estados Unidos está tomado pela cultura oriental. Alguns anos antes disso, uma corporação cria seres artificiais, andróides orgânicos, quase idênticos aos seres humanos, os replicantes, para trabalharem como escravos na exploração e colonização fora da Terra. A última geração é mais forte e mais inteligente que os humanos médios. Depois de uma revolta dos replicantes, surge um grupo de caçadores de replicantes chamado Blade Runner. Os Blade Runners têm autorização para matar os replicantes e o ato de matá-los é chamado de afastamento ou aposentadoria (retirement). Deckard, o protagonista do filme, é chamado pela polícia para trabalhar como Balde Runner e matar quatro replicantes que estão em Los Angeles.

As questões filosóficas fundamentais que o filme coloca são sobre a natureza humana (a questão central da antropologia filosófica) e sobre os critérios para que um ser seja digno de consideração moral. Tendemos a pensar que nós, humanos, somos muito diferentes de computadores e/ou robôs; tão diferentes que estes não poderiam ser considerados humanos ou, mesmo sendo muito parecidos, por não serem humanos, não poderiam ter o mesmo estatuto ético que os humanos têm. Nos parece repugnante a idéia de sermos comparados a seres artificiais como as máquinas, pois nos sentimos metafisicamente diferentes delas e, por causa dessa diferença metafísica, moralmente superiores.

Ora, se pensarmos nas máquinas, computadores e robôs que temos agora, essa repugnância não é de todo injustificada. Eles realmente são não apenas fisicamente muito diferentes de nós, mas seu comportamento também é muito diferente. Nenhuma de nossas máquinas tem o comportamento tão complexo quanto o nosso, mesmo que sejam mais fortes e/ou consigam realizar algumas tarefas mais rapidamente e de forma mais precisa que nós. Não parece haver boas razões para se atribuir mentes às nossas máquinas, e, portanto, tampouco emoções, sentimentos, sensações, atitudes proposicionais, com crenças, desejos, etc.

Entretanto, que nossas máquinas sejam assim parece ser uma situação puramente contingente, que se deve ao estado do nosso conhecimento e de nossa tecnologia usados para fabricar máquinas. O que o filme sugere é que seres artificiais cujo comportamento é tão complexo quanto o dos seres humanos são possíveis. São seres capazes de falar, raciocinar, resolver problemas, fazer planos, desejar, crer, temer, sonhar, ter sensações, sentimentos e emoções. Mais que isso: são seres artificiais feitos de material orgânico artificial.

Alguém poderia dizer que estes seres apenas simulam o comportamento de um ser com mente, que agem como se tivessem mente, mas de fato não têm. Todavia, que justificação temos para crer nisso? O que nos faz crer que nós mesmos temos mente? Alguém poderia dizer: eu sei que tenho mente porque tenho consciência do conteúdo da minha mente, mas não posso ter esse acesso à mente de um ser artificial! Todavia, se não ter acesso à mente de um ser artificial como uma pessoa tem à sua própria (supondo que faz sentido falar aqui em acesso) é razão suficiente para que essa pessoa negue a atribuição de mente a um ser artificial, então isso é razão suficiente para que essa pessoa negue a atribuição de mente aos demais seres humanos, pois ela tampouco tem acesso à mente dos demais seres humanos como tem à sua própria. Atribuímos mente aos demais principalmente baseados no seu comportamento, mas também baseados no conhecimento da relação entre esse comportamento e o funcionamento do nosso organismo. Se o organismo dos replicantes é no mínimo análogo ao nosso e seu comportamento é tão complexo quanto o nosso, que razão temos pra negar mentes a eles que não é igualmente suficiente para negar mente aos demais seres humanos?

Mas se não temos razão para não atribuir aos replicantes toda sorte de estados e processos mentais que atribuímos a outros seres humanos, que justificativa há para que sejam tratados como são no filme Blade Runner? Que justificativa há para escravizá-los e matá-los como quem joga um computador velho no lixo? Apenas o fato de terem sido criados por seres humanos? O simples fato de serem artificiais? Que justificativa há para tratá-los como moralmente inferiores? No filme, nenhuma dessas perguntas é respondida explicitamente. Parece que a resposta implícita é: os replicantes são moralmente inferiores porque são artificiais. Mas essa não parece uma resposta aceitável.

O que está operante nessa discussão é um conceito de ser humano que não é biológico. O conceito biológico de ser humano não é problemático. Ser humano, no sentido biológico, é aquele ser vivo que possui um certo DNA. O sentido não-biológico de ser humano é aquele que usamos quando dizemos, por exemplo, que uma pessoa é mais humana que outra, ou quando dizemos que certos animais não-humanos (no sentido biológico) parecem mais humanos (no sentido não-biológico) que os próprios humanos. Esse conceito de ser humano é aplicado com base em critérios comportamentais, especialmente baseado no comportamento que expressa sentimentos, emoções e atitudes morais. Um ser humano, nesse sentido, não necessita ter o nosso DNA. Ser humano, nesse sentido, é ter atitudes morais e/ou ser digno de consideração moral. Vinculamos assim a humanidade da moralidade porque o ser humano (no sentido biológico) é o nosso exemplo paradigmático de ser dotado de atitudes morais e/ou digno de consideração moral. Mas o replicante Roy mostrou empatia e compaixão quando, na última hora, salvou Deckard da morte. O que mais é necessário para considerá-lo, reconhecê-lo, como humano, como digno de consideração moral?

A pergunta fundamental aqui é: quais são os critérios para se considerar um ser como digno de consideração moral? Parece que ser um ser com nosso DNA não é uma condição necessária. Tais critérios, sejam quais forem, se aplicam a seres artificiais e a animais não-humanos (no sentido biológico)? Veganos em geral tem como principal premissa para justificar seu veganismo a tese que tais critérios se aplicam a animais não-humanos. Se isso é o caso, não-veganos seriam incoerentes ao sustentar o especismo, a tese que nós, da espécie humana (no sentido biológico), temos privilégios morais que animais não-humanos não têm. Em Blade Runner, os humanos sustentam um tipo de especismo em relação aos replicantes: nós humanos (no sentido biológico) temos privilégios morais que replicantes não têm. Mas esse ou qualquer especismo está justificado?

Há uma diferença entre a versão do filme que foi exibida no cinema e a última versão, totalmente editada por Scott. Na última versão há uma cena acrescentada em que Deckard parece sonhar com um unicórnio. No final, quando Deckar volta à sua casa para buscar Rachel e fugir com ela, ele encontra um origami de um unicórnio no chão em frente à porta. Quem deixou o origami foi o policial Gaff, que sabia que Rachel era uma replicante. Como ele sabia do sonho de Deckard? Isso sugere que o sonho de Deckard é um implante e que ele, por isso, é um replicante. Isso é reforçado por duas cenas anteriores do filme. Em uma, Deckard evade à pergunta de Rachel sobre se ele já tinha se submetido ao teste que detecta replicantes. Em outra, ao chegar ao topo do edifício onde Roy morreu, Gaff diz a Deckard: "Você fez um trabalho de homem, senhor!" Isso reforça a tese que Deckard não é um homem, um ser humano. Scott afirmou explicitamente em 2002 que Deckard é um replicante e nisso o filme se difere do livro, em que não há dúvidas que Deckard é humano. Gaff sabe que ambos são replicantes e os deixa fugir, provavelmente porque não via nenhuma razão moral para fazer o que se supunha que ele fizesse  nesse caso: matar ambos. Mas qual a relevância filosófica disso? Isso reforça ainda mais a tese que ser ou não humano (no sentido biológico) é irrelevante para ser digno de consideração moral.


quarta-feira, 25 de março de 2015

Matrix

"Ignorância é uma benção!"
Este é o segundo texto de uma série que estou escrevendo para uma disciplina da Graduação em Filosofia da UFPR denominada Filosofia e Cinema, em que procuro exercitar a reflexão acerca dos problemas filosóficos por meio de filmes. Creio que filmes podem ser bons meios de apresentação de problemas filosóficos na medida em que apresentam situações que desafiam nossas crenças fundamentais e, assim, desencadeiam a reflexão filosófica. Os textos dessa série são destinados àqueles que já assistiram os respectivos filmes, pois contêm revelações sobre seus respectivos enredos.

O filme Matrix (1999), apresenta um cenário cético que é semelhante a outros já imaginados na história da filosofia a fim de argumentar contra a possibilidade do conhecimento do mundo exterior, o mundo que conhecemos por meio dos sentidos e que acreditamos ser objetivo. Isso por si só já seria de interesse filosófico. Mas há algumas perguntas de igual interesse filosófico sobre o enredo do filme que sequer são formuladas por personagens do filme, muito menos respondidas. Vamos primeiro ao cenário cético.

No filme, Thomas Anderson, que possui o apelido de Neo, um programador de computadores, descobre de forma dramática que, durante toda a sua vida, sempre esteve numa espécie de banheira, mergulhado em uma geléia que ajuda a mantê-lo vivo, conectado uma rede de supercomputadores que envia sinais elétricos ao seu cérebro, que os "interpreta" como as experiências que Neo julga ter tido de um mundo objetivo. Ele descobre mais: quase todos os seres humanos estão na mesma condição, conectados a essa rede de supercomputadores que é responsável por gerar as experiências de todos. Essa rede chama-se Matrix (matriz, em português). Mas por que esse é um cenário cético? Porque a sua possibilidade é usada pelo cético em um argumento contra a possibilidade do conhecimento do mundo exterior. O mundo exterior, acreditamos, é um mundo objetivo, isto é, um mundo cuja existência não depende de nós nem do nosso conhecimento e cujos eventos ocorrem independente de nossa vontade. Nós conhecemos esse mundo, acreditamos, por meio da nossa mente, que tem experiências desse mundo, mas ele não depende da nossa mente para existir e ser como é. Todavia, essas experiências, que supostamente nos permitem conhecer esse mundo objetivo, são qualitativamente idênticas às experiências que Neo tem quando está conectado à Matrix, pois ambas nada mais são do que o resultado de um certo conjunto de estímulos elétricos que o cérebro recebe. A diferença é a fonte desse estímulo: enquanto a experiência de um mundo objetivo é causada pelos eventos objetivos desse mundo sobre nosso aparelho perceptivo, as experiências de Neo são causadas pela Matrix. Mas se as experiências, nos dois casos, são qualitativamente idênticas, como podemos saber qual é a sua causa? Como podemos saber que não estamos na condição de Neo antes de sair da Matrix? Perece que se sabemos qualquer coisa sobre um mundo exterior objetivo, sabemos que não estamos ligados à Matrix. Mas parece que não sabemos que não estamos ligados à Matrix. Como poderíamos saber? Disso se segue que não sabemos nada sobre um mundo exterior objetivo.

Esse argumento tem a mesma forma de outros argumentos céticos apresentados ao longo da história da filosofia, tal como o argumento do sonho e o argumento do gênio malígno, de Descartes, e o argumento do cérebro numa cuba, de Hilary Putnam. Putnam apresentou um cenário cético semelhante ao apresentado em Matrix, mas muito mais radical. Ao invés de imaginar que nossos corpos poderiam estar em uma cuba ligados à Matrix, Putnam imagina que poderíamos ser cérebros numa cuba ligados a um computador. Descartes imagina que poderíamos estar sonhando um sonho realístico. Essa hipótese foi aventada por Morpheus em uma conversa com Neo. Descartes também imaginou que poderíamos ter sido criados por um gênio maligno, que nos fez de tal forma que sempre nos enganamos, que nossas crenças são sempre falsas. Embora o cenário cético não seja o mesmo em todos esses casos, a forma do argumento cético é a mesma:

Se sei que p e sei que se p, então não-q, então sei que não-q. [Princípio do fechamento espistêmico]
Sei que se p, então não-q. [Verdade conceitual conhecida a priori]
Não sei que não-q. [Premissa cética]
Logo, não sei que p. [Conclusão cética]

Na forma de argumento acima, q é o cenário cético e p é uma proposição qualquer que só sei que é verdadeira se souber que o cenário cético não é o caso. O cenário cético não precisa ser provável ou plausível, basta que seja possível. Sua possibilidade é tudo de que o cético precisa para que seu argumento seja poderoso.

No filme, Neo é retirado da Matrix depois de tomar a decisão de saber o que ela é, porque, supostamente, não se pode saber o que ela é descrevendo-a, mas apenas experimentando-a, olhando-a com os próprios olhos. Mas uma pergunta óbvia que é sugerida pelo argumento cético acima é esta: como Neo sabe que saiu da Matrix? Tudo que ele experimentou após essa suposta saída não pode ser parte do que a Matrix quer que ele acredite? Ou então, tudo que ele experimentou após essa suposta saída não pode ser justamente a entrada na Matrix, de tal forma que antes Neo estava fora dela? Talvez a Matrix queira inserir as pessoas nela justamente fazendo-as acreditar que saíram dela. Se o cético está certo em afirmar que não temos como saber que não estamos no cenário cético, então não temos como saber que saímos dele, se de fato saímos. No filme, esse ponto não é abordado. Tudo se passa como se não pudéssemos saber que estamos na Matrix quando estamos, mas pudéssemos saber que não estamos, quando não estamos. Mas nenhuma razão é oferecida para essa diferença epistêmica.

Quando Neo e Morpheus entram numa simulação da Matrix para iniciar o treinamento de Neo, Neo pergunta "Isso não é real?", "tocando" uma "poltrona". Morpheus então responde com uma pergunta: "O que é real? Como você define 'real'? Se você está falando sobre o que você pode sentir, cheirar, degustar e ver, então 'real' são simplesmente sinais elétricos interpretados pelo seu cérebro." Mas se é assim, então, novamente, como eles podem saber não estão mais na Matrix? Tudo que eles ainda têm não são apenas "sinais elétricos interpretados" pelos cérebros deles? Como sabem que esses sinais não vêm da Matrix? Por outro lado, o que nos impede de concluir que o que experimentamos na Matrix é real, pois lá todos têm "sinais elétricos interpretados" pelos cérebros deles, não?

Mas afinal, o que justifica definir "real" dessa forma? Se o cético tem razão, então toda vez que eu alegar saber algo do mundo exterior, eu não estarei justificado. Sendo assim, como posso justificar essa definição de "real" apelando para o conhecimento que tenho de como funciona o cérebro? Esse não é um conhecimento de algo do mundo exterior? Mas como eu poderia descrever o cenário cético sem esse conhecimento? Mas parece que não é o conhecimento disso que necessitamos, apenas a crença. Tudo que precisamos é acreditar nas premissas do argumento. Precisamos apenas acreditar que temos um cérebro que funciona do modo suposto na descrição do cenário cético.

Ainda naquela conversa inicial entre Neo e Morpheus na simulação de Matrix, Morpheus diz a Neo: "Você tem vivido em uma mundo de sonho, Neo!" Isso sugere que as crenças de Neo sobre o mundo eram todas falsas (erro maciço), como são aquelas que temos quando estamos sonhando. Isso é mesmo verdade? A verdade ou falsidade de nossas crenças dependem do conteúdo que elas têm, depende do que seja aquilo sobre o que estamos pensando. Se estou pensando sobre a, não sobre b, supondo que a não é o mesmo que b, e digo que a é F, então minha crença não vai ser falsa se b não for F, mas apenas se a não for F. Sobre o que as pessoas na Matrix estavam pensando quando estavam pensando sobre uma cadeira que estava à sua frente, por exemplo? Alguém poderia dizer que estavam pensando sobre qualquer coisa, menos sobre uma cadeira real, pois não há nada real na Matrix. Eles estavam pensando que havia uma cadeira em frente a eles quando não havia nenhuma. Não havia? Qual o conteúdo da frase "Há uma cadeira na minha frente" para as pessoas da Matrix? Como elas aprenderam o conteúdo dessas palavras? Não foi por meio das experiências que elas tiveram na Matrix? Elas não aprenderam a chamar de cadeira algo que se apresentava na experiência deles de uma determinada forma? Portanto, eles não estavam falando a verdade quando chamavam de cadeira aquilo que se apresentava dessa forma na experiência deles? E um raciocínio análogo vale para "estar em minha frente". Portanto, de acordo com os critérios que as pessoas da Matrix usavam sua linguagem, a maior parte de suas frases era verdadeira. Essas pessoas aprenderam a pensar e a falar a partir das experiências da Matrix e foram essas experiências, não as experiências que nós, que supostamente não estamos na Matrix, temos que determinaram o conteúdo de suas crenças e frases. Elas podem estar erradas sobre a natureza última daquilo que causa as experiências que eles têm. Mas isso nós, que supostamente não estamos na Matrix, também podemos estar.

Alguém poderia dizer que as pessoas na Matrix não experimentavam um mundo objetivo. Mas quais critérios nós, que supostamente não estamos na Matrix, temos para dizer que algo é objetivo? O que queremos dizer com "objetivo"? Sejam quais forem os critérios, uma coisa é certa: a causa das experiências na Matrix é objetiva, pois a Matrix em si mesma é objetiva. A causa do que as pessoas na Matrix chamam de experiência de uma cadeira não é a mesma que a causa do que nós, que supostamente não estamos na Matrix, chamamos de experiência de uma cadeira. Mas isso só é verdade no nosso sentido de "causa". Pois no sentido de "causa" da linguagem das pessoas da Matrix, a causa do que eles chamam de experiência de uma cadeira é o que eles chamam de cadeira real, objetiva. Nós dizemos que uma cadeira é real ou objetiva quando os eventos envolvendo a cadeira ocorrem de acordo com certas regularidades naturais (que descobrimos por meio da regularidade das nossas experiências) e independentemente da nossa vontade, exceto quando tais eventos envolverem nossas ações sobre a cadeira. Mas as conseqüências das nossas ações não dependem da nossa vontade e também ocorrem de acordo com aquelas regularidades. Todavia, esses não são exatamente os mesmos critérios de objetividade aplicado na Matrix?

O enredo de Matrix já foi muito comparado com o famoso Mito da Caverna, que aparece na República de Platão. Essa comparação obviamente pode ser feita, mas vou me abster de fazê-la porque me interessa mais apresentar problemas filosóficos por meio do filme do que uma doutrina de um filósofo particular. Mas há algo no filme relacionado ao Mito da Caverna que eu desejo explorar aqui. Cypher, o traidor de Morpheus (ver foto), decide pedir para voltar para a Matrix sem punição pelo que fez contra ela em troca de entregar Morpheus para os agentes da Matrix. Ele decidiu isso porque a vida na Matrix era, para ele, mais prazerosa que a vida fora dela. E o prazer, nesse caso, vinha da comodidade da vida na Matrix. Em última análise, ele era um escravo da Matrix. Mas ele não percebia essa condição justamente por estar na Matrix, vivendo uma vida mais cômoda que a que ele passou a ter fora dela, lutando contra a Matrix em condições muito difíceis, que envolviam risco de vida. Ele quis se tornar um escravo voluntário. Preferiu perder a sua liberdade real em nome de uma escravidão prazerosa. Essa situação desafia nossa visão comum da escravidão por duas razões. Em primeiro lugar, geralmente pensamos a escravidão como uma condição involuntária, forçada. Em segundo lugar, geralmente pensamos a escravidão como uma condição não-prazerosa. Além disso, parece paradoxal decidir livremente perder a liberdade. Isso é análogo a decidir democraticamente pela ditadura. Mas Cypher assim decidiu justamente porque a vida na Matrix oferece uma ilusão de liberdade prazerosa e, por isso, ele passou a amar a condição de escravo muito mais que a de pessoa livre. Essa situação pode ser vista como uma metáfora sobre uma possível relação entre o estado e a mídia corporativa (o "quarto poder"), por um lado, e a maior parte dos cidadãos, por outro. Aqueles que detêm o poder econômico e político podem tentar convencer os cidadãos de que eles têm uma vida confortável, são livres e decidem os rumos políticos e econômicos da nação, quando de fato eles são escravos de um sistema que visa não o benefício deles, mas justamente a manutenção do status quo daqueles que detêm o pode econômico e político. A acomodação de Cypher, sua desistência da luta contra a Matrix, sugere que a luta contra a manutenção do status quo daqueles que detêm o poder econômico e político exige um esforço constante fora da zona de conforto, esforço que nem todos estão dispostos a fazer. Mas antes disso, a luta contra a Matrix, assim como a luta contra a manutenção do status quo daqueles que detêm o poder econômico e político, exige a decisão de iniciar a difícil busca pelo conhecimento da nossa verdadeira condição, busca essa que é cheia de obstáculos colocados pela própria Matrix e conhecimento esse que pode gerar muita frustração, desconforto e dor.


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Definição tradicional de conhecimento

terça-feira, 17 de março de 2015

Laranja Mecânica (A Clockwork Orange)

Michael Mcdowell e Stanley Kubrick
durante as filmagens

Este é o primeiro texto de uma série que estou escrevendo para uma disciplina da Graduação em Filosofia da UFPR denominada Filosofia e Cinema, em que procuro exercitar a reflexão acerca dos problemas filosóficos por meio de filmes. Creio que filmes podem ser bons meios de apresentação de problemas filosóficos na medida em que apresentam situações que desafiam nossas crenças fundamentais e, assim, desencadeiam a reflexão filosófica. Os textos dessa série são destinados àqueles que já assistiram os respectivos filmes, pois contêm revelações sobre seus respectivos enredos.

O primeiro filme a ser comentado é Laranja Mecânica (A clockwork Orange, 1971), de Stanley Kubrick, uma adaptação de um romance homônimo do escritor Anthony Burgess, publicado em 1962. A versão inglesa original possui 21 capítulos. Mas na versão publicada nos Estados Unidos, o último capítulo foi suprimido. O filme de Kubrick está baseado na versão americana do romance.

Se me fosse pedido para resumir o tema do filme em uma palavra, eu diria que trata-se principalmente da maldade. Mais especificamente, trata-se de um certo método para tentar erradicar a maldade, ou ao menos, as ações más: o condicionamento do comportamento. Uma passagem do filme sugere explicitamente que há algo profundamente errado com esse método. Essa sugestão está baseada em uma certa crença fundamental sobre a natureza da maldade e da bondade. Irei me concentrar nesse ponto, questionando as razões para essa crença.

O protagonista do filme, Alex, é um exemplo estereotipado da pessoa má: uma pessoa que sente prazer com a realização consciente de atos de maldade, principalmente roubos, estupros e ultra violência. A história parece sugerir que a origem dessa maldade não é o ambiente em que Alex vive. Isso fica claro na fala do diretor, quando este faz uma visita surpresa a Alex pela manhã, mencionando o bom ambiente em que Alex vive, seus bons pais e a boa educação que recebeu deles. Isso sugere fortemente que a origem da maldade é uma decisão livre. A pessoa simplesmente decide ser má. Essa sugestão é reforçada pelo tipo de tratamento a que Alex é submetido a fim de fazê-lo parar de cometer atos de maldade. Esse tratamento visa justamente tornar Alex incapaz de agir de acordo com a escolha livre da maldade. Após o tratamento, as decisões livres de Alex têm sempre como conseqüência atos bons ou moralmente indiferentes, mesmo quando ele escolhe realizar o mal. Se ele escolhe o bem, então ele é capaz de agir de acordo com o que escolheu. Se ele escolhe o mal, então é incapaz de agir de acordo com o que escolheu. O resultado é que ele se torna incapaz de realizar maldades.

O capelão da prisão em que Alex cumpriu pena diz algumas coisas que parecem sugerir uma descrição diferente da situação. Quando Alex é reapresentado à sociedade em uma espécie de cerimonia, o capelão diz que o tratamento tornou Alex incapaz de escolher. Mas a referência do capelão à liberdade deixa claro que o que ele quer dizer é que Alex é incapaz de escolher livremente. A ausência de liberdade não é a ausência de escolha, mas é a ausência de escolha livre. A ausência de escolha ocorre somente quando há apenas uma opção de ação, o que não parece ser possível, pois mesmo que apenas uma ação pudesse ser realizada numa certa situação, ainda pode-se escolher realizá-la ou não realizá-la. Mas a capacidade de escolher uma dentre um conjunto de opções de ação não implica ser livre, se liberdade é incompatível com o determinismo, pois não é contraditório dizer que uma escolha foi determinada. Todavia, o tratamento a que Alex foi submetido parece não ter retirado a liberdade da sua vontade, das suas escolhas, mas retirou a liberdade da sua ação. Isso implica a distinção entre vontade livre a ação livre. Uma ação livre é aquela que resulta de uma vontade livre, de uma vontade que escolhe livremente uma ação. Uma ação não livre é aquela sobre a qual uma vontade livre, mesmo existindo, é ineficaz. Alex escolhe livremente, mas sua ação, ao menos quando se trata de evitar a maldade, não é livre, não é um efeito dessa escolha livre, mas sim de um mecanismo de associação que entra em ação sempre que ele escolhe realizar uma má ação. Como diz o Ministro do Interior, ele é paradoxalmente levado a evitar as más ações justamente ao desejá-las, pois esse desejo lhe causa profundo mal-estar. Portanto, contrariamente ao que diz o capelão, Alex não parece ter perdido a capacidade de escolher, mas apenas de agir de acordo com suas escolhas.

Um ponto interessante da situação de Alex é que as conseqüências práticas do seu estado são exatamente as mesmas de uma pessoa que deseja evitar realizar o mal. Por isso, se apenas pessoas como eles existissem no mundo, o mal, isto é, as ações más, não existiriam. É por isso que o Ministro do Interior acredita que o método de tratamento aplicado a Alex se justifica. Ele diz: “O que importa é que funciona!” O método diminui a criminalidade e a população carcerária. O que mais poderíamos desejar? O que mais é o mal se não são as ações más e o que mais seria erradicar o mal se não é erradicar as ações más? Temos certas crenças fundamentais que nos compelem a desejar mais que isso. Essas crenças estão bem expressas novamente na voz do capelão da prisão. Não queremos apenas que as pessoas não realizem o mal. Queremos que elas não o desejem. Queremos que elas sejam capazes de realizá-lo, mas que não o façam porque não o desejam. Queremos que as pessoas escolham livremente o bem e ajam de acordo com essa escolha livre. Mas por que desejamos isso? Mais uma vez o capelão tem a resposta: desejamos isso porque acreditamos que uma pessoa somente é moralmente responsável, imputável, se ela for capaz de realizar ações livres. Uma pessoa moralmente boa não é aquela que evita realizar o mal e realiza o bem, mas é aquela que age assim como resultado de uma escolha livre. Alex não evita realizar o mal como resultado de uma escolha livre. Ele é compelido a evitá-lo devido ao mal-estar que seu desejo de realizar o mal provoca. Ele tornou-se incapaz de realizar o mal, embora deseje fazê-lo. Portanto, embora na prática o resultado seja o mesmo de quem é bom e, portanto, deseja evitar realizar o mal, Alex não evita realizar o mal porque é bom e, por isso, não tem nenhum mérito ao evitá-lo.

Não vou tentar mostrar que essa crença sobre a relação entre ser bom e ação livre é falsa. Vou apenas questionar se há razões para mantê-las, para, assim, exercitarmos a reflexão que visa obter clareza sobre tudo que está envolvido nessa crença.

Que razões temos para acreditarmos que a responsabilidade moral pressupõe a liberdade? E mesmo que suponha a liberdade da vontade, que razão temos para pensar que supõe a liberdade da ação? Aquele que, como Alex, mesmo desejando o mal, não pode fazê-lo, não é mau? Não é essa a situação dos presidiários que, mesmo desejando fazer o mal estão impedidos de assim fazê-lo? Sim, mas eles estão na prisão justamente porque foram capazes de realizar o mal. Alex não volta mais para a prisão enquanto o tratamento a que foi submetido for efetivo porque ele se tornou incapaz de realizar o mal, por mais que o queira. Mas qual a diferença entre Alex e alguém que foi condicionado, pela educação, a não fazer o mal? A educação não é um condicionamento do comportamento? Se sim, um tratamento análogo ao aplicado a Alex, mas que em vez de tornar uma pessoa apenas incapaz de realizar o mal, a tornasse incapaz de desejar realizar o mal estaria justificado? Mas isso não seria tornar uma pessoa determinada a desejar evitar realizar o mal? Em que sentido a escolha por evitar realizar o mal, nesse caso, seria livre? A educação não é, portanto, um condicionamento do comportamento que procura gerar uma repulsa por certos tipos de ação? Não é exatamente isso que foi feito com Alex? O que há de errado em estar determinado a ser bom? Parece que isso é incompatível com a liberdade concebida de uma certa forma, a saber, como uma ação gerada por um ato da vontade não-determinado. Todavia, mesmo que isso seja o caso, qual seria o problema? Que razão temos para querermos ser livres nesse sentido? A responsabilidade moral pressupõe mesmo esse tipo de liberdade, de vontade não-determinada? O objetivo da moralidade não é a realização do bem? Por que então não desejar estar determinado a realizar o bem? A pergunta fundamental aqui é: por que um mundo determinadamente livre do mal é pior, não desejável, do que um mundo expontaneamente cheio de maldade? Qual mundo é moralmente mais desejável, um absolutamente determinado em que todos fazem só o que achamos moralmente bom, ou um em que todas as ações são livres, no sentido de não serem determinadas, mas todos fazem o que achamos moralmente mau?

O modo como descrevo as teses em disputa pode ser enganador quanto a um ponto importante. Quando falo sobre qual tipo de mundo é mais desejável, se um determinado e livre do mal ou um livre e repleto de maldades, parece que estou falando de um mundo que, necessariamente, não é o nosso, de um mundo puramente hipotético. Mas tudo que disse é compatível com a hipótese que o nosso mundo, tal como ele é agora, seja totalmente determinado. Espinosa sustenta que a sensação de liberdade é causada por uma ignorância das causas das nossas ações. É claro que se nossas ações não tem causas, não as conhecemos, pela boa razão de que não podemos conhecer o que não existe. Mas do fato que não as conhecemos não se segue que não existam. A discussão sobre a liberdade e determinismo é uma discussão sobre a metafísica do mundo atual, não de um mundo hipotético. Se o mundo for determinado, então até mesmo a escrita desse texto é determinada. E se acreditamos que julgamos livremente qual das posições no debate é correta, isso se deve à ignorância das causas das nossas ações.

Mas a questão que proponho é independente dessa discussão metafísica. Minha questão pode partir da hipótese que nossa vontade e nossas ações são livres. Minha questão é: mesmo que nossa vontade e nossas ações sejam livres, o que há de indesejável em um mundo determinado?

No filme Laranja Mecânica, a terapia aplicada a Alex tem um efeito indesejável: ele é levado a tentar cometer suicídio para livrar-se do enorme mal-estar que ele sente ao ouvir a 9ª sinfonia de Beethoven. Isso pode levar alguém a pensar que qualquer terapia que vise o mesmo fim, a saber, criar um mecanismo que impeça que desejos de maldade se realizem, tenha semelhantes efeitos indesejáveis. Mas isso não é necessariamente assim. Além disso, a terapia da aversão aplicada no filme não é o único mecanismo condicionador do comportamento que podemos imaginar. Seja como for, nenhum desses problemas fala contra a idéia de um tratamento análogo, mas apenas contra a forma particular que é apresentada no filme.

Alguém poderia argumentar que esse tipo de terapia é simples lavagem cerebral pela qual regimes totalitários tem enorme simpatia. Isso é fortemente sugerido pelo filme no confronto entre, por um lado, o escritor que teve sua mulher estuprada e morta pela gangue de Alex, e o Ministro do Interior, que apoiou o método de tratamento a que Alex foi submetido. O escritor seria o representante dos defensores da liberdade, enquanto o Ministro seria o defensor de um regime totalitário. Mas, novamente, qual a diferença entre esse tipo de tratamento e qualquer outro tipo de processos em que procuramos modificar o comportamento alheio por meio de uma técnica de condicionamento? A educação de crianças não é um conjunto de tais técnicas que visam gerar nelas os bons hábitos? Ou deixamos espaço para as crianças refletirem criticamente sobre se o que estamos a lhes ensinar são mesmo bons hábitos? Nós que somos contra o totalitarismo de fato queremos que as crianças desenvolvam espírito crítico, mas apenas depois de adquirirem o que acreditamos serem os bons hábitos, de uma forma tal que tais hábitos não mudem. E mesmo que alguém criticamente nos mostre que um determinado hábito que alguém adquiriu na sua educação não é bom, a dificuldade dessa pessoa para se livrar desse hábito vai ser tão grande quanto for eficiente as técnicas usadas na sua educação para que adquirisse tal hábito, independentemente do quão crítico seja seu espírito.


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