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domingo, 31 de maio de 2015

A Origem (Inception)

Totem
Este é o sexto texto de uma série que estou escrevendo para uma disciplina da Graduação em Filosofia da UFPR denominada Filosofia e Cinema, em que procuro exercitar a reflexão acerca dos problemas filosóficos por meio de filmes. Creio que filmes podem ser bons meios de apresentação de problemas filosóficos na medida em que apresentam situações que desafiam nossas crenças fundamentais e, assim, desencadeiam a reflexão filosófica. Os textos dessa série são destinados àqueles que já assistiram os respectivos filmes, pois contêm revelações sobre seus respectivos enredos.

No filme A Origem (Inception, 2010), Dom Cobb (Leonardo DiCaprio) é um ladrão especializado em roubar informações armazenadas no inconsciente das pessoas. Ele faz isso enquanto elas dormem, entrando nos seus sonhos através de uma máquina a que ambos estão conectados. Ele não pode retornar aos Estados Unidos, pois é acusado de ter assassinado sua mulher, Mal (Marion Cotillard). Mal, entretanto, suicidou-se-se, porque, após ficar presa em um sonho por muito tempo e finalmente conseguir acordar, não conseguia se convencer de que tinha acordado e pensava que se matando, acordaria, pois todos que morrem num sonho acordam. Cobb tem a oportunidade de voltar aos Estados unidos em troca de realizar uma tarefa para Saito (Ken Watanabe), um milionário, que arranjaria tudo para a sua volta. A tarefa consiste em fazer a inserção (inception) da origem de uma idéia na mente de Robert Fischer (Cillian Murphy), o herdeiro da empresa que é a sua principal concorrente. Saito quer que Robert desmembre  corporação que herdou do pai. Para isso, Cobb precisa fazer com que Robert adormeça no primeiro sonho, iniciando um segundo sonho dentro do primeiro e depois adormeça no segundo, iniciando um terceiro sonho dentro do segundo.

Um problema filosófico mais ou menos óbvio suscitado pelo filme é o problema epistemológico sobre os critérios para que saibamos distinguir o sonho do estado de vigília, cujo locus classicus é o argumento do sonho, de Descartes. Mal não consegue perceber que está acordada e acredita estar dormindo (porém, veja interpretação alternativa no final). Mas não vou explorar esse problema aqui. Vou me concentrar em outro problema, relacionando à natureza do sonho.

Os sonhos que ocorrem em A Origem têm três características principais: (1) ele são induzidos por agentes exteriores, que planejam toda a estrutura do cenário onde o sonho acontece; (2) muitas pessoas podem estar no mesmo sonho de uma outra pessoa, se conectadas à máquina em que aquele que sonha está conectado; (3) dentro de um sonho pode ocorrer outro sonho simultaneamente.

A única característica que se aproxima de algo que realmente acontece com sonhos é a (1). Existe o fenômeno da incubação ou inserção, em que uma pessoa se concentra em algo sobre o qual quer sonhar e acaba sonhando sobre isso. podemos imaginar que essa concentração é induzida por outra pessoa. Mas planejar uma cidade inteira como cenário do sonho de outra pessoa vai muito além da incubação. Eu duvido que isso seja possível, mas não tenho um bom argumento para isso. O máximo que posso dizer é que para que os sonhos incubados em A Origem ocorressem, deveria ocorrer algo como o que é descrito na hipótese do cérebro numa cuba: estímulos elétricos que gerassem as sensações desejadas.

A característica (2) gera o seguinte problema: se uma pessoa A está, enquanto sonha, no sonho de outra B, por que esse sonho não é também de A? Uma possível resposta seria: porque o subconsciente que se manifesta no sonho é de B. Mas, então, por que o subconsciente de A não se manifesta no sonho que A está tendo, a saber, o mesmo de B? Onde está o subconsciente de A enquanto A sonha? Por não saber as respostas a essas perguntas, não vejo muito sentido em (2).

A maior parte dos meus comentários será sobre a característica (3), porque acho a mais problemática. Ela está relacionada a um fenômeno comum, mas essencialmente diferente daquele que ocorre no filme. Não é raro que dentro de um sonho uma pessoa sonhe que acordou. Mas ela de fato continua dormindo e sonhando. Sonhar que se acorda não é acordar, mas é iniciar um novo sonho. Isso já ocorreu comigo: eu sonhava e pensava que estava sonhando e queria acordar. Quando achei que tinha acordado, na verdade um novo sonho tinha começado, e percebi isso porque coisas estranhas típicas de sonhos começaram a acontecer. Mas bem pode acontecer que, ao invés de sonhar que acorda, uma pessoa sonhe que foi dormir e inicie um outro sonho, de modo semelhante ao que ocorrem em A Origem. Mas se trata do mesmo fenômeno? Creio que não, e creio que o que ocorre em A Origem, se possível, não é um sonho dentro de um sonho, pois não é um sonho.

No filme, quando alguém sonha que dorme e um novo sonho se inicia, o sonho anterior não cessa. Os dois sonhos ocorrem simultaneamente. Mas como é possível sonhar dois (ou três) sonhos simultaneamente? Como uma pessoa pode estar experimentando dois sonhos ao mesmo tempo? Além disso, como ela pode estar em dois sonhos ao mesmo tempo, dormindo no primeiro e vivendo as aventuras que sonha enquanto dorme no primeiro? Aqui temos um análogo onírico da afirmação de que uma pessoa está em dois lugares ao mesmo tempo, o que é impossível. Não é como no caso em que uma pessoa está dormindo e simplesmente sonha. Nesse caso ela não está em dois lugares ao mesmo tempo, porque não há nada que impossibilite alguém de estar num lugar dormindo e em outro no sonho, pois sonhar que se está num lugar não é estar nele. Mas, em sonho, estar num certo lugar é sonhar que se está nesse lugar. Todavia, como podemos sonhar que estamos dormindo em um certo lugar e, ao mesmo tempo, sonhar que estamos sonhando que estamos em outro lugar? Até mesmo sonhar que estamos conversando conosco mesmos parece mais inteligível que isso. Nossa identidade no sonho, digamos assim, depende de sonharmos conosco e não podemos sonhar dois sonhos ao mesmo tempo.

Não estou argumentando que uma experiência como a que acontece em A Origem não seja possível. Estou argumentando que, se ela for possível, não é um sonho. Mas ela é possível? Ela é pensada através de uma analogia com o sonho normal. No sonho normal, estamos em um determinado lugar dormindo e podemos sonhar que estamos em outro lugar. As duas coisas acontecem simultaneamente: estar dormindo em um certo lugar e estar sonhando que se está em outro lugar. No filme isso acontece dentro do sonho: o sujeito dorme no sonho, inicia-se um novo sonho e as duas coisas acontecem simultaneamente, como se o primeiro sonho fosse uma sucessão de eventos objetivos, que continuam a acontecer enquanto o segundo sonho se desenrola. Já vimos que isso não é possível em um sonho. Mas isso seria possível de alguma outra forma? Ou seja, seria possível que alguém entrasse em um estado de análogo ao sono e experimentasse eventos em um lugar diferente de onde está nesse estado, tal como em um sonho, e depois isso se repetisse dentro desse análogo ao sonho? Suponha que esses análogos ao sonho sejam como mundos paralelos (mundos possíveis tão reais quanto o atual) que podemos acessar. Seria possível ficar inconsciente em um desses mundos e ir para outro? Se fosse possível, estaríamos em dois mundos ao mesmo tempo. Mas isso não seria o mesmo que estar em dois lugares ao mesmo tempo? Note que podemos "estar" em dois mundos possíveis. Mas mundos possíveis não são mundos paralelos. Há quem sustente que são, como David Lewis. Mas creio que as dificuldades colocadas pelo seu realismo modal para entendermos a identidade transmundana são insuperáveis, embora eu não vá argumentar para isso aqui. Por acreditar que os mundos possíveis diferentes do atual são tão reais quanto o atual, Lewis nega que estejamos em algum outro mundo possível que não o atual. O que estão nesses outros mundos possíveis são nossas contrapartidas. Por isso, quando eu digo um contrafactual como "Se eu fosse rico, compraria equipamentos fotográficos de primeira linha", em última análise não estou falando sobre mim, mas sobre minha contrapartida em um mundo em que ela é rica e compra equipamentos fotográficos de primeira linha.

Há uma maneira barata de livrar o filme de todas essas dificuldades. Se tudo que acontece no filme é um sonho (de Cobb, talvez), então não há sonhos dentro de sonhos, mas apenas um grande sonho em que aqueles eventos todos acontecem sucessivamente, tal como exibidos no filme, e não simultaneamente. Embora essa interpretação não seja incompatível com o filme (com qual filme ela seria incompatível?), o filme não a sugere em nenhum momento e isso o tornaria desinteressante, pois qual seria a motivação para se construir uma história que se passa toda dentro de um sonho? É claro que o problema epistemológico sobre como saber que não se está sonhando suscita a possibilidade de que tudo seja um sonho. Mas isso é diferente de afirmar que faz parte da trama o fato de que ela se desenrola toda no sonho de alguém.

Seja como for, A Origem é um filme filosoficamente interessante justamente porque está baseado nesses nós conceituais, que desafiam nossas crenças fundamentais sobre a realidade, sonhos, identidade, etc., não tanto pelo conteúdo filosófico explícito que por vezes aparece no enredo, como a dificuldade de Mal distinguir a realidade do sonho.

Neste link há um livro à venda que explora mais problemas filosóficos relacionados ao filme.

Um comentário:

  1. Eu comecei a ver este filme mas o achei chato e acabei parando de ver no meio do caminho. O que acho interessante na coisa do sonho são os sonhos consciente, quando quem sonha está ciente de quem está sonhando e pode, por isso, perceber o sonho e o modificar. Tem umas "tecnicas?" de indução e de respiração que chegam a permitir isso. É interessante, especialmente por podermos perceber o vínculo da resposta da mente para um acontecimento exterior quando em sonho. Se uma porta bate, por exemplo, ouvimos isso "mecanicamente" mas estamos sonhando então a mente precisa de uma resposta para o estímulo, pode ser uma explosão no sonho...

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