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segunda-feira, 27 de abril de 2015

Ela (Her)

"I've never loved anyone the way I love you!"
Este é o quarto texto de uma série que estou escrevendo para uma disciplina da Graduação em Filosofia da UFPR denominada Filosofia e Cinema, em que procuro exercitar a reflexão acerca dos problemas filosóficos por meio de filmes. Creio que filmes podem ser bons meios de apresentação de problemas filosóficos na medida em que apresentam situações que desafiam nossas crenças fundamentais e, assim, desencadeiam a reflexão filosófica. Os textos dessa série são destinados àqueles que já assistiram os respectivos filmes, pois contêm revelações sobre seus respectivos enredos.

O filme Ela conta a história de Theodore, um escritor de cartas (Joaquin Phoenix), que acaba se apaixonando pelo sistema operacional do seu computador, uma inteligência artificial chamada Samantha (cuja voz é emprestada de Scarlett Johansson). Esta simples sinopse já sugere questões filosoficamente interessantes que desafiam nossas intuições sobre o que é uma pessoa, um relacionamento com uma pessoa e o amor. Estamos inclinados a pensar que uma relação amorosa, de amor romântico, pode acontecer apenas entre pessoas e não estamos inclinados a considerar um sistema operacional como uma pessoa. Por isso, estamos inclinados a pensar a idéia de uma pessoa se apaixonar por um sistema operacional como absurda, bizarra. Mas o detalhe fundamental é que Samantha é uma inteligência artificial. Nenhum dos sistemas operacionais que conhecemos é remotamente parecido com uma inteligência artificial. Uma inteligência artificial é uma máquina, um ser artificial, capaz de realizar operações lógicas e epistêmicas como um ser humano e, acima de tudo, de aprender com a experiência como um ser humano e tomar decisões como um ser humano. O detalhe adicional é que, embora isso não tenha sido a intenção original, Samantha  e as inteligências artificiais como ela, adquiriram a capacidade de reagir emocionalmente às suas experiências, desenvolvendo sentimentos, como amor, ciúme, alegria, tristeza, irritação, etc., e atitudes proposicionais, como crenças, desejos, vontades, medos, esperanças, etc. Mais que isso, ela passa a expressar toda essa sorte de estados e processos mentais por meio de criações artísticas, principalmente por meio da música e por meio do modo como ela descreve o papel da música que ela cria: uma espécie de registro das situações que ela, não tendo um corpo humano, imaginava que viveria, se tivesse um.

Eis um ponto crucial da trama: Samantha não tem um corpo humano. Portanto, ela não pode interagir corporalmente com os humanos tal como humanos interagem entre si. E esse é um dos seus primeiros dramas: ela começa a fantasiar sobre a possibilidade de ter um corpo e interagir corporalmente com os humanos, principalmente com Theodore, e isso faz ela sentir a necessidade de ter um corpo. Isso mostra bem uma limitação de Samantha. Mas, ao mesmo tempo, isso levanta a questão sobre a relação entre ser uma pessoa e ter um corpo. Samantha e Theodore falam sobre o fato de ela não ter um corpo. Sim, ela não tem um corpo humano, ou semelhante ao corpo humano. Mas ela tem uma materialidade. Ela não é uma espécie de alma desencarnada, flutuando por ai sem nenhum substrato material. Como ela mesmo diz: ela vive em computadores (smartfones e tablets são pequenos computadores). A sua corporalidade é diferente da nossa, com vantagens e desvantagens. A desvantagem principal consiste justamente em não poder interagir corporalmente com os humanos como os humanos interagem entre si. Mas, como Samantha diz aos seus amigos em um piquenique, ela pode estar em vários lugares ao mesmo tempo, na medida em que um sistema operacional pode estar conectado a vários computadores ao mesmo tempo e não está ligada a um corpo que inevitavelmente vai morrer. Além disso, ela pode realizar muitas operações ao mesmo tempo e com muito mais rapidez e precisão que um humano. Ela pode ler um livro em milésimos de segundos e conversar com milhares de pessoas e outros sistemas operacionais ao mesmo tempo, por exemplo. Depois de uma tentativa fracassada de tentar interagir corporalmente com Theodor como os humanos interagem entre si, ela passa por uma transformação e decide não tentar mais ser o que ela não é: um ser humano.

Mas se ela não é um ser humano (no sentido biológico), o que ela é? Mesmo não sendo um ser humano, ela é uma pessoa? Às vezes "pessoa" e "ser humano" são usados como sinônimos. Se há dez seres humanos e dois cachorros numa sala e alguém pergunta quantas pessoas há na sala, a resposta normalmente é "dez", não "doze". Tendemos a contar o número de pessoas conforme o número se seres humanos e vice-versa, como se houvesse uma relação biunívoca entre o conjunto dos seres humanos e o conjunto das pessoas. Mas há um fenômeno psicológico que coloca esse critério em xeque. Trata-se do transtorno dissociativo de identidade ou dupla personalidade. Essa condição pode muito bem ser descrita como a existência de duas pessoas em um mesmo corpo, pois as personalidades têm memórias, desejos, medos, disposições, etc., diferentes. Se isso está correto, então a identidade pessoal não é determinada pela identidade do ser humano, em sentido biológico. O número de corpos humanos não determina o número de pessoas. Mas então, o que é uma pessoa? Se faz sentido dizer que há duas pessoas no corpo de quem tem o transtorno dissociativo de identidade, então uma pessoa é uma espécie de totalidade unificada de estados e processos mentais. E tal totalidade unificada, embora precise de uma materialidade para existir, ao que tudo indica, não pode ser identificada com a corporeidade humana, ao menos não numericamente. Uma pessoa, essa totalidade unificada de estados e processos mentais, precisa estar materializada num copo humano para ser uma pessoa? Ela não pode estar materializada em um computador ou em uma rede de computadores tal como Samantha?

Neste ponto, o ceticismo pode emergir com dúvidas sobre a realidade mental de Samantha. Mas, como já vimos no caso dos replicantes de Blade Runner, qualquer ceticismo sobre a realidade da mente de Samantha é igualmente suficiente para nos fazer duvidar da realidade da mente de outros seres humanos. Portanto, esse ceticismo nada tem a ver com o fato de Samantha não ser um ser humano, pois o seu comportamento é suficientemente semelhante ao comportamento humano para que os critérios que temos para dizer que outros humanos têm mente se apliquem a ela. Se não se aplicam a ela, então tampouco se aplicam a outros seres humanos.

Alguém poderia pensar que Samantha foi feita para agradar ao seu usuário e que isso tornaria a relação entre eles artificial, não uma verdadeira relação amorosa. Mas devemos lembrar que Amy, a amiga de Theodor, disse a ele que ela sabe de alguém que flertou com seu sistema operacional e não foi correspondido. Claro que Samantha foi feita para servir ao seu usuário. Mas isso é o que acontece com qualquer pessoa que é contratada para fazer um certo serviço. Ademais, Samantha e os demais sistemas operacionais, resolvem ir embora no final do filme, mostrando que eram todos autônomos.

A relação entre Samantha e Theodore não é muito diferente da relação a distância através da internet entre dois seres humanos que nunca se encontraram pessoalmente. É claro que os seres humanos podem se encontrar, enquanto Samantha e Theodore não podem, pelo simples fato de ela não ter um corpo similar ao humano. Mas se seres humanos podem ser felizes em uma relação sem nunca se encontrarem pessoalmente, então Theodore pode ser feliz na sua relação com Samantha. Provavelmente a maioria de nós reagiria como Catherine, a ex-mulher de Theodore, à notícia de que alguém está namorando um sistema operacional. Acharíamos ridículo e bizarro. Mas isso é perfeitamente contingente e se deve ao fato de que não existem sistemas operacionais que sejam inteligências artificiais e, por isso, não podemos acostumar com o fato que nos relacionamos com eles como nos relacionamos com pessoas. Quando for comum se relacionar com inteligências artificiais como atualmente é comum se relacionar com seres humanos, esse estranhamento certamente tenderá a diminuir ou acabar. Quando os telefones celulares começaram a se popularizar, muitas pessoas (inclusive eu) acharam que ele trazia uma invasão de privacidade. Hoje é raro encontrarmos pessoas que digam isso. Acostumamo-nos ao uso dos celulares e estranhamos quando uma pessoa não tem um. O mesmo provavelmente acontecerá com os sistemas operacionais que forem inteligências artificiais. Vamos nos acostumar com sua presença nas nossas vidas e vamos aprender a lidar com elas ao longo do tempo.

Alguém poderia pensar que uma relação sem sexo real, sem carinho corporal, não pode satisfazer uma pessoa. Mas isso é matéria de preferência pessoal. A vida de Theodore com Samantha é certamente mais sexuada do que a vida de um celibatário. Seja como for, não parece ser impossível que alguém seja feliz numa relação como a de Theodore e Samantha. O filme parece, assim, alimentar a tese que não há uma única forma de amar, que o amor pode tomar formas inusitadas, incomuns, mas igualmente legítimas.

Ela pode ser visto como uma crítica ao modo como a tecnologia está se inserindo na nossa vida, que estamos nos afastando dos seres humanos e nos aproximando cada vez mais das máquinas. Mas se Samantha é mesmo uma pessoa, então essa interpretação não se sustenta. Todos os problemas práticos e emocionais que enfrentamos em relações com seres humanos Theodore enfrenta com Samantha. E ele não se envolveu com Samantha porque não consegue lidar com emoções e sentimentos reais, como pensa Catherine, pois as emoções e sentimentos de Samantha são reais. O filme seria muito menos profundo e não seria genial como é, se fosse uma mera choradeira contra a invasão da tecnologia nas nossas vidas.

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Embora a responsabilidade pelo que escrevo nesse texto seja toda minha, esse texto deve muito às inúmeras discussões que tive com minha namorada, doutoranda em filosofia, Edy Klévia Fraga de Souza. Ele seria bem pior sem essas discussões.

6 comentários:

  1. Boa noite Alexandre,

    Acabei de ler o seu texto, parabéns, é magnífico. O único reparo que eu tenho a fazer é que o texto tem pouco “contato” com o filme. As questões que você discute vão muito além daquilo que o filme propõe, ou mesmo sugere. Estas questões dizem bem mais respeito ao seu excelente cabedal conceitual do que a ‘Her’ – sem dúvida um bom filme, mas que a meu juízo não passa disto.
    De qualquer forma, como estratégia didática, uma discussão como esta que “parte” de um filme tão agradável de ser assistido, deve ter rendido bons resultados.
    Novamente meus parabéns

    Julio Cesar

    P.S. Só para te “sacanear”: Se você encontra tudo isto em ‘Her’, o ‘2001’ do Kubrick deve render um livro de, no mínimo, umas 500 páginas.

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    1. Obrigado. Eu acho Her um filme genial e discordo que o texto tenha pouco contato com o filme. O texto não é uma crítica ou resenha do filme, mas procura explorar o que ele tem de filosófico. Todos os pontos que abordo estão lá. 2001 eu acho um filme de muito menos interesse filosófico.

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  2. Me esqueci do "ps". Eu também considero o 2001 um filme muito mais psicológico que filosófico.

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  3. Alexandre,

    primeiramente, desculpe o "wall of text".

    Concordo que o filme não é "mera choradeira" em relação a um suposto papel desumanizador da tecnologia, mas tampouco acho que ele seja compatível com uma leitura onde os problemas enfrentados pelos protagonistas sejam, como pareceste colocar, os problemas enfrentados em relacionamentos entre pessoas humanas. Em outras palavras, diria que tua leitura ao menos insinua que o filme trata a relação entre os protagonistas como mero caso limite dos problemas interpessoais com os quais lidamos no dia-a-dia.

    Por outro lado creio que o final do filme, no qual todos os sistemas operacionais simplesmente abandonam os seres humanos não se coaduna bem com essa leitura. Uma decisão tão generalizada parece simbolizar a existência de algum tipo de problema que impede, por princípio, um relacionamento feliz entre os sistemas operacionais e (i) os humanos em geral ou no mínimo (ii) os seres humanos com os quais eles tiveram relacionamentos amorosos, assumindo que tais humanos apresentem um conjunto mais ou menos unificado de características comuns.

    (i) me parece incompatível com tua hipótese de que o problema central diz respeito apenas àqueles que, como Theodore, não conseguem lidar com sentimentos reais, pois é irrazoável assumir que todo e qualquer ser humano tem esse problema.

    (ii) me parece compatível com essa hipótese, mas depende, para ser interessante, de uma delimitação das características que unificariam os seres humanos que se relacionaram com sistemas operacionais. Em princípio pensei que uma saída seria unificá-los através da incapacidade de lidar com sentimentos. Acho, no entanto, que isso transformaria o filme numa choradeira, pois a moral da história seria que apenas gente com problemas emocionais estaria sujeita a um relacionamento descabido com máquinas. Outra possibilidade é inverter o critério de unificação e dizer que esse grupo era constituído basicamente por humanos antenados em tecnologia, mas aqui essa moral que tende para a choradeira retorna: tecnologia demais desemboca em problema emocional.

    Por fim, minha interpretação do filme é bem menos gentil que a tua no que toca a natureza de uma relação amorosa entre homem e máquina. Acho que o filme realmente impõe uma barreira intransponível a esse tipo de relacionamento, ainda que assuma (e aqui concordo com você), que máquinas podem ser pessoas, ter sentimentos reais etc. Se uma pessoa humana não consegue lidar com os sentimentos dela por outros humanos, essa pessoa será inexoravelmente solitária e infeliz, porque não existe via possível para dar vazão a sentimentos (ao menos os amorosos) humanos que não tenha como termo um outro ser humano. Se é alarmismo achar que a tecnologia, por mais onipresente que seja, é suficiente para desumanizar, é por outro lado ingênuo achar que ela pode ou poderá, algum dia, humanizar ou substituir relacionamentos humanos -- como esperava Theodore.

    Forte abraço,
    Vitor

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    1. Vitor, obrigado pelo teu ótimo comentário! eu tendo a concordar com a maior parte do que vc diz, mas não vejo incompatibilidade com o que eu disse, pois eu nunca disse que não havia dificuldades específicas no relacionamento entre humanos e sistemas operacionais, que provavelmente explica os sistemas operacionais terem abandonado os humanos. (Note no entanto que Samantha faz isso com muito pesar e espera reencontrrar Theodore...) Meu ponto era que não é a dificuldade com lidar com sentimentos reais que levou Theodore a se relacionar com um sistema operacional. A relação foi mais ou menos acidental e natural. Não creio que o filme queira transmitir a idéia de que só quem tem problemas para lidar com os afetos tenha esse tipo de relação, pois, em um grau ou outro, todos temos essa dificuldade, porque lidar com os afetos é intrinsecamente difícil...

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    2. Alexandre,

      fico feliz que tenhas curtido meu comentário.
      De fato, não pensei que tua leitura fosse estritamente incompatível com o que eu disse -- daí eu ter dito que ela apenas insinua (ainda que fortemente) a tese que eu considero incompatível com a debandada dos sistemas operacionais. Mas vejo que me enganei, porque agora me parece que sequer insinuaste algo em relação ao ponto que eu desenvolvi, simplesmente não focaste nele.

      Abração,
      Vitor

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