sexta-feira, 14 de novembro de 2014

Teorias da verdade

Esse texto é uma versão modificada e ampliada de um texto que escrevi para a Wikipédia há alguns anos e foi baseado principalmente na leitura do livro Teorias da Verdade, de Richard Kirkham, embora contenha algumas divergências em relação ao que Kirkham defende nesse livro. Essa postagem se destina a apresentar brevemente apenas as teorias da verdade mais conhecidas e influentes.


Perguntas filosóficas sobre a verdade

Há várias perguntas filosoficamente relevantes que se pode fazer a respeito da verdade, e há mais de uma resposta a cada uma delas na história da filosofia, embora algumas predominem. As principais questões são:

Pergunta metafísica: O que é (no que consiste) a verdade? Essa pergunta tem uma versão mais tradicional: Qual é a essência ou natureza da verdade? A essência ou natureza de uma coisa X é tradicionalmente concebida como o conjunto das condições necessárias e suficientes para que algo seja X, ou seja, como o conjunto das características que todos os Xs possuem e apenas os Xs possuem. (A metafísica é tradicionalmente concebida como a disciplina filosófica que estuda a essência das coisas e determina que tipos de coisas existem (ontologia).)

Pergunta epistemológica: Como podemos conhecer a verdade? O conhecimento é concebido tradicionalmente como crença verdadeira justificada e a crença como a atitude de tomar uma certa proposição como verdadeira. Sendo assim, a pergunta epistemológica pode ser formulada assim: como podemos ter crenças verdadeiras justificadas? (A epistemologia é tradicionalmente concebida como a disciplina filosófica que estuda a essência e possibilidade do conhecimento.)

Pergunta semântica: Qual é o significado da palavra "verdade"? A explicação do significado de uma palavra é geralmente denominada "definição", num sentido amplo. Nesse sentido amplo, a pergunta semântica pode ser reformulada assim: Qual é a definição da palavra "verdade"? Mas há uma pergunta mais geral: qual é a função da palavra "verdade"? Ou: por que precisamos dessa palavra na nossa linguagem? (A semântica é tradicionalmente concebida como a parte da filosofia da linguagem que estuda o significado, ou, como algumas vezes é dito, a relação entre as expressões lingüísticas e aquilo que elas significam. Mas essa última formulação pode levar a mal-entendidos.)

Alguém poderia pensar que a pergunta metafísica e a pergunta epistemológica são a mesma pergunta porque ambas procuram determinar os critérios da verdade. Mas Isso é uma confusão baseada na ambiguidade do termo "critério". Nesse caso, ele pode tanto significar as condições necessárias e suficientes para que algo seja verdade quanto as condições necessárias e suficientes para que saibamos que algo é verdade. Essa diferença pode ser esclarecida por meio de uma analogia: os critérios para que algo seja Deus não implicam que sejam critérios para que conheçamos Deus, caso contrário um ateu não poderia dar uma resposta positiva à pergunta "O que é Deus?", pois isso implicaria que eles estaria dando critérios para se conhecer Deus, e o conhecimento de Deus implica que ele existe. Analogamente, os critérios para que algo seja verdade não implicam que sejam critérios para que conheçamos a verdade, caso contrário um cético sobre a existência da verdade (alguém que acredita que não há verdade) não poderia dar uma resposta positiva à pergunta "O que é verdade?", pois isso implicaria que eles estaria dando critérios para se conhecer a verdade, e o conhecimento da verdade implica que ele existe.

Alguns filósofos de fato tentaram reduzir a verdade à justificação (tal como os intuicionistas na filosofia da matemática). Mas a possibilidade do engano parece falar contra essa redução, Quando estamos enganados, cremos que p e é o caso que não-p, ou vice-versa. Isso implica que, quando estamos enganados, a proposição que acreditamos tem um valor de verdade independente da nossa crença e, portanto, do nosso conhecimento.

Por fim, se o conhecimento é ao menos crença verdadeira justificada, como pode a verdade e a justificação serem a mesma coisa? Quando justifico uma crença, a justifico como verdadeira.

Uma das motivações para uma teoria da verdade é o paradoxo do mentiroso, que pode ser formulado de vários modos. Uma das formulações é aquela que aparece no imagem desta postagem: uma frase A que diz de outra frase B que é verdadeira enquanto B diz da frase A que é falsa. (Em outra postagem eu procuro mostrar que essa formulação enfrenta um problema. Mas há maneiras de formular o paradoxo que não enfrentam esse problema.)


Dois usos de "verdadeiro"

Antes da apresentação das principais teorias da verdade, convém chamar atenção para uma distinção importante entre dois usos de "verdadeiro".

Uso objetual

Algumas vezes atribuímos verdade a objetos materiais, como quando dizemos "isso é ouro verdadeiro". Mas há uma distinção essencial entre esse uso do predicado "é verdadeiro" e o uso em que atribuímos (ao menos aparentemente) a verdade a coisas que dizemos (ou pensamos, ou cremos, etc). Ouro falso não é um tipo de ouro. Ouro falso é um metal que parece ouro, mas não é. Ouro verdadeiro é um metal que não apenas parece ouro, mas é ouro. Nesse uso, "verdadeiro" é sinônimo de "genuíno" e "falso" é sinônimo de "de mentira", "pseudo".

Uso semântico

Uma frase (ou enunciado, ou pensamento, ou crença, etc.) falsa não deixa de ser uma frase por ser falsa. (O problema dos enunciados falsos do Sofista de Platão surge justamente porque um certo argumento de Parmênides conclui que não pode haver enunciados falsos, que um enunciado falso, tal como o ouro falso, não é um tipo de enunciado.) Nesse uso, "verdadeiro" não é sinônimo de "genuíno". Há relações sistemáticas entre o uso objetual e o semântico de "verdadeiro". Eles podem aparecer na mesma frase. Por exemplo: "A frase 'Esse pedaço de metal é ouro verdadeiro' é verdadeira". Mas, quando se fala de teorias da verdade, é o uso semântico que se tem em mente.


Portadores de verdade

Um portador de verdade é o que quer que se possa dizer verdadeiramente que é verdadeiro. Há muita controvérsia sobre a natureza dos portadores de verdade. Alguns acreditam que apenas um ou alguns dos candidatos a portadores de verdade são portadores de verdade genuínos ou primários, enquanto outros não o são ou o são apenas secundariamente. Mas há quem ache essa controvérsia inútil, na medida em que qualquer coisa poderia ser portador de verdade. Os principais candidatos são: frases particulares (em inglês token sentences), tipos de frases (em inglês type sentences), proposições, enunciados ou pensamentos e crenças. Nem sempre é clara a distinção entre esses candidatos e, muitas vezes o mesmo candidato recebe diferentes nomes de diferentes filósofos.

Frases

Alguns céticos em relação à existência de proposições, entendidas como entidades que são o conteúdo semântico de frases, tal como Quine, p.ex., defendem que os portadores de verdade são as frases indicativas. Frases, ou seja sinais lingüísticos, é que são verdadeiras ou falsas. Mas dado que há ambigüidade tipo/particular, esses defensores devem especificar qual desses portadores é primário qual é secundário. Essa ambigüidade também ocorre com termos como "letra" e "palavra". A diferença pode ser explicada por meio da elucidação da seguinte pergunta: quantas frases há dentro dos seguintes colchetes ["Chove", "Chove"], duas ou uma? Ambas as respostas podem estar certa, dependendo de como entendemos "frase". Se for no sentido de frase tipo, há uma frase tipo. Se for no sentido de frase particular, há duas frases particulares, duas instâncias do mesmo tipo. Frases particulares são objetos espaço-temporais, enquanto que frases tipo são como que entidades abstratas. Não parece fazer sentido perguntar onde estão as frases tipo, ou as letras do alfabeto (as letras tipo). Defensores dessa posição terão dificuldade de explicar como animais não-humanos que não possuem linguagem podem ter relação epistêmica com a verdade.

Proposições

Parece contra-intuitivo dizer que são as frases que são portadores de verdade, porque uma mesma frase pode ser usada em um contexto para se dizer algo verdadeiro e usada em outro contexto para se dizer algo falso. Parece que é o conteúdo de uma frase que é verdadeiro ou falso, não a própria frase. O conteúdo de frases indicativas é geralmente denominado proposição. Diz-se que frases expressam proposições. A idéia tradicional de tradução (criticada por Quine por meio do seu argumento da indeterminação da tradução) envolve a tese que duas frases são traduzíveis uma pela outra justamente quando ambas expressam a mesma proposição, tal como "Chove" e "It rains". Proposição, não frases, seriam verdadeiras ou falsas primariamente. Frases seriam verdadeiras ou falsas apenas secundariamente, na medida em que expressam proposições verdadeiras ou falsas. Frases que não expressam nenhuma proposição, que não possuem nenhum conteúdo, não são nem verdadeiras, nem falsas. As proposições são concebidas às vezes como entidades abstratas, ou seja, como entidades não-espaciais e não-temporais. Os pensamentos fregeanos são um exemplo de proposições assim concebidas. Mas elas também podem ser pensandas como entidades mentais.

Enunciados

Suponhamos que eu escreva a frase "Chove" no quadro como exemplo de uma frase do português. Essa frase é verdadeira ou falsa? Bem, depende do estado da atmosfera no local e momento em que eu escrever a frase, dirão alguns. Essa resposta supõe que a frase escrita no quadro possui um conteúdo determinado, a saber o conteúdo que tem quando alguém diz algo sobre o estado da atmosfera. Mas por que não poderia ter o conteúdo que tem quando alguém a enuncia após outra pessoa dizer: "Chove pretendentes para aquela moça. Ela é muito bonita!"? O conteúdo primário da frase é aquele em que falamos das condições da atmosfera, por certo. Mas ele não é mais legítimo que os conteúdos secundários e não é necessário que uma frase escrita como exemplo de frase do português contenha seu conteúdo primário. Mas, afinal, qual conteúdo ela tem num contexto desses? Alguns defendem que quando ela não está sendo usada para enunciar um conteúdo determinado em um determinado contexto, ela não tem conteúdo nenhum; é apenas um sinal que pode ser usado com conteúdo, mas que fora desse um contexto de enunciação, não tem conteúdo algum. Esses defendem que os portadores de verdade primários são os enunciados, entendidos como o uso de frases em determinados contextos para expressar uma certa proposição.

Crenças

Assim como as frases, conceber os enunciados como portadores de verdade, porque são usos de frases, também enfrenta o problema de tornar difícil explicar qualquer relação epistêmica que animais não-humanos sem linguagem tenham com a verdade. Isso motiva alguns a defender as crenças como portadores de verdade primários, entendidas como atitudes proposicionais independentes da linguagem. Os enunciados, quando sinceros, seriam a expressão lingüística de crenças.


Teorias metafísicas da verdade

Há quatro grupos principais de respostas à pergunta metafísica: teorias correspondencistas, teorias coerentistas, teorias pragmatistas e teorias deflacionárias.

Teorias correspondencistas

Teorias da verdade desse grupo são as mais aceitas, entre outras coisas por causa do seu caráter intuitivo. Nossas intuições pré-filosóficas sobre a verdade geralmente nos inclinam a explicar a verdade, ao menos aparentemente, em termos de correspondência (como podemos ver nas definições de "verdade" da maioria dos dicionários). Segundo as teorias correspondencistas, a verdade é uma relação (ou propriedade relacional) entre dois tipos de entidades: um portador de verdade e um fator de verdade (em inglês truth maker), isto é, aquilo que torna esse portador de verdade verdadeiro, cuja totalidade é o mundo ou a realidade. O fator de verdade é algumas vezes denominado fato. A teoria diz que o portador de verdade "p" expressa ou representa o fator de verdade p ("p" diz que p) e que o portador é verdadeiro quando o fator de verdade ocorre ou é atual. Mais formalmente:

("p")("p" é verdadeiro se, e somente se, "p" diz que p e p)

Há dois tipos de teorias da correspondência: correspondência isomórfica e correspondência não-isomórfica como correlação. A correspondência isomórfica exige que a estrutura dos elementos do fator de verdade e a estrutura dos elementos do portador de verdade sejam isomórficas, isto é, que possuam a mesma forma. (Ludwig Wittgenstein, no Tractatus Logico-Philosophicus, e Bertrand Russell). A teoria da correspondência como correlação não exige esse isomorfismo (John Langshaw Austin), mas apenas convenções correlacionando portadores de verdade e fatores de verdade.

Geralmente se considera Aristóteles como um defensor de uma teoria da verdade como correspondência. Ele diz na Metafísica que "Dizer do que é que é e do que não é que não é é dizer a verdade e dizer do que é que não é e do que não é que é é dizer algo falso". Mas há quem diga que essa passagem pode ser interpretada como a expressão de uma teoria deflacionária da verdade (cf. infra).

Alguns acreditam que toda teoria correspondencista da verdade é uma teoria realista da verdade. Isso depende de como definimos "realismo" nesse contexto. Se uma teoria realista da verdade é aquela que concebe os fatores de verdade (os fatos) como entidades independentes da nossa mente, então parece que poderia haver uma teoria correspondencista não-realista da verdade, isto é uma teoria que concebe os geradores de verdade como dependentes da nossa mente. Mas "independente da mente" é uma expressão ambígua. Algo pode ser independente da nossa mente quanto à existência ou quanto aos nossos estados intensionais (pensamentos, crenças ou conhecimento). Algo pode ser concebido como independente dos nossos estados intensionais, mas não independente da existência da nossa mente (ou de alguma mente). Se uma teoria realista da verdade exige apenas que os fatores de verdade sejam independentes dos nossos estados intensionais, então uma teoria da correspondência que concebesse os fatores de verdade como dependentes da existência da nossa mente (ou de alguma mente) seria realista.

Não se deve confundir a definição correspondencista de "verdade" e o que Alfred Tarski chama de esquema T:

(T) "p" é verdadeira se, e somente se, p

Acreditar que as instâncias desse esquema (ou seja, os portadores de verdade que têm essa forma) são verdadeiras não implica aceitar a teoria correspondencista da verdade. Dizer que "'p' é verdadeira" equivale a "p" não é o mesmo que dizer que "p" é verdadeira porque p. Enquanto a equivalência é uma relação simétrica, a relação expressa por "porque" não é. Em outras palavras: dizer "'p' é verdadeira se, e somente se, p" e "p se, e somente se,'p' verdadeira" é dizer a mesma coisa, mas dizer "'p' é verdadeira porque p" não é o mesmo que dizer "p porque 'p' é verdadeira", salvo se quisermos negar que possa ocorrer fatos (fatores de verdade) aos quais não corresponde nenhum portador de verdade. Parece intuitivo supor que há fatos que não são representados por nenhum portador de verdade.

A chamada concepção semântica da verdade de Alfred Tarski é apresentada por ele como uma versão da teoria da verdade como correspondência. Mas há quem discorde disso e a veja como precursora do deflacionismo. Uma das motivações da teoria de Tarski era evitar que o paradoxo do mentiroso fosse formulado em uma linguagem que estivesse de acordo com a concepção semântica da verdade. Em tal linguagem o predicado "é verdadeiro" nunca é usado para atribuir verdade aos portadores de verdade da própria linguagem, ele pertence a uma metalinguagem em que se se atribui verdade aos portadores de verdade de uma linguagem objeto. Segundo Tarski a linguagem ordinária permite a formulação do paradoxo do mentiroso porque nela o predicado "é verdadeiro" atribui verdade aos portadores de verdade da própria linguagem ordinária.

A teoria da verdade como correspondência parece muito plausível quando examinamos o caso de enunciados empíricos os primeiros que aprendemos a fazer. Quando verificamos tais enunciados, parece que o que fazemos é uma comparação entre eles e o mundo empírico. Portanto, verificar se são verdadeiros é verificar se uma determinada relação entre eles e o mundo ocorre. Mas essa plausibilidade desaparece quando examinamos o modo como verificamos se enunciados matemáticos, por exemplo, são verdadeiros. Para isso, nós fazemos cálculos ou os provamos a partir de outros enunciados matemáticos e nenhum desses procedimentos parece ser a comparação desses enunciados com o mundo ou a realidade.

Teorias coerentistas

Segundo as teorias coerentistas da verdade, a verdade é uma relação (ou propriedade relacional) não entre os portadores de verdade e os geradores de verdade, mas entre os próprios geradores de verdade. A teoria diz que um portador de verdade é verdadeiro se faz parte de um conjunto coerente de portadores de verdade. A coerência é geralmente definida (quando é) do seguinte modo: um conjunto de portadores de verdade é coerente quando nenhum contradiz o outro. Mas não poderia haver dois conjuntos internamente coerentes de portadores de verdade de tal forma que um contradissesse o outro? Qual dos dois então teria portadores de verdade verdadeiros? É para evitar essa dificuldade que se costuma complementar a definição coerentista de verdade do seguinte modo: um portador de verdade é verdadeiro quando faz parte de um conjunto coerente de crenças abrangente, ou seja, que descreve completamente o mundo. Um romance de ficção, por exemplo, não atende a essa última exigência, apesar de ser internamente coerente. Mais formalmente:

("p")("p" é verdadeiro se, e somente se, "p" faz parte de um conjunto coerente de portadores de verdade que descreve completamente o mundo)

Mas quais seriam os critérios para se dizer que uma um conjunto coerente de portadores descreve completamente o mundo?

Teorias pragmatistas

Não é muito claro se, de acordo com as teorias pragmatistas da verdade, a verdade é uma propriedade que os portadores de verdade possuem independentemente das relações que mantêm entre si ou com fatores de verdade. A teoria diz que um portador de verdade é verdadeiro quando a crença na sua verdade é útil, sendo que algo é útil quando facilita atingir os objetivos almejados pela ação. Geralmente se acrescenta que essa utilidade deve ser medida a longo prazo. Uma crença imediatamente útil pode mostrar-se um obstáculo para a ação a longo prazo. A utilidade em questão é referente principalmente às ações de se lidar com objetos no mundo, comunicar-se, prever e explicar acontecimentos. Mais formalmente:

("p")("p" é verdadeiro se, e somente se, a crença que "p" é verdadeiro é útil a longo prazo)

Mas quais os critérios para que uma crença seja útil a longo prazo?

Teorias deflacionárias

Segundo as teorias deflacionárias da verdade, a verdade não é uma propriedade substancial, cuja natureza esteja oculta à espera de uma descoberta. Essa tese é sustentada através de uma análise da função do predicado "é verdadeiro". A função desse predicado, segundo o deflacionismo, pode ser completamente explicada por meio do esquema T (supra). (Mas aceitar que as instâncias do esquema T são verdadeiras não é o mesmo que aceitar o deflacionismo, ou seja, que a função do predicado "é verdadeiro" pode ser completamente explicada por meio do esquema T.) Para os deflacionistas, as teorias tradicionais da verdade estão todas equivocadas justamente porque supõem que a verdade é uma propriedade substancial cuja natureza oculta deve ser exibida por uma teoria que não se limita a afirmar que as instâncias do esquema T são verdadeiras. Há  mais de uma versão do deflacionismo. Aqui vou expor brevemente apenas duas: a teoria da verdade como redundância (a primeira a ser formulada) e o minimalismo.

De acordo com a teoria da verdade como redundância (geralmente atribuída a Frank P. Ramsey e às vezes chamada de teoria descitacional da verdade [em inglês disquotational theory of truth]), o esquema T é uma equivalência intencional, ou seja, uma sinonímia de acordo com a qual "'p' é verdadeira" significa o mesmo que "p" e, por isso, "é verdadeira" é redundante. Para o teórico da redundância, a verdade não é uma propriedade substancial porque não é propriedade nenhuma. A expressão "é verdadeira" é um pseudopredicado que não denota nenhuma propriedade. Com base nisso o teórico da verdade como redundância sustenta que o predicado "é verdadeiro" é redundante, ou seja, é eliminável da linguagem sem perda de capacidade expressiva. Isso significa que poderíamos dizer tudo o que dizemos usando esse predicado sem usá-lo. A eliminação desse predicado não nos impediria de dizer nada que dizemos com ele.

De acordo com o minimalismo (defendido por Paul Horwich), o esquema T é uma equivalência essencial (extensional e necessária), mas não intencional, ou seja, "'p' é verdadeira" e "p" não são sinônimas. O minimalista acredita que o predicado "é verdadeiro" não é eliminável da linguagem sem perda de capacidade expressiva. Segundo o minimalista, o predicado "é verdadeira" é um predicado genuíno que denota uma propriedade genuína, não uma propriedade substancial, mas uma propriedade lógica. (O minimalista tem uma concepção minimalista de predicado e propriedade.*) A função não eliminável do predicado verdade consiste em asserir proposições desconhecidas ou indeterminadas, como, por exemplo, quando alguém diz "A primeira coisa que vou dizer amanhã é verdadeira" ou "Tudo o que eu digo é verdade". sem o predicado "é verdade", não poderíamos construir essas frases e, por isso, perderíamos capacidade expressiva. Segundo o minimalismo, contrariamente ao que pensa Michael Dummett, o conceito de verdade é neutro com relação à controvérsia entre realistas e anti-realistas.

O minimalismo não nega que em alguns casos os portadores de verdade são verdadeiros porque há correspondência com fatos. Ele nega que, mesmo nesses casos, o ser verdadeiro seja essa correspondência. Assim como pintar um objeto de azul o torna azul, mas ser azul não consiste em ser pintado de azul, uma proposição pode ser verdadeira por causa da relação de correspondência com fatos, sem que o ser verdadeiro seja essa relação.

O deflacionismo em geral parece plausível quando examinamos o modo como o predicado "é verdadeiro" (ou "é verdade") é ensinado. Em geral dizemos coisas assim para uma criança: "Se vc disser que está chovendo e estiver chovendo, então o que vc disse é verdadeiro", "Se vc disser que está chovendo e o que vc disse é verdadeiro, então está chovendo". Ou seja, nós damos instâncias do esquema T, (contendo também enunciados matemáticos, éticos e estéticos) para a criança e isso parece suficiente para que ela adquira o conceito.


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* Uma maneira de se explicar a distinção entre propriedade lógica e propriedade substancial é esta: enquanto há condições necessárias e suficientes não-triviais para que algo seja um planeta, que pode ser usadas para se definir "planeta" e são satisfeitas tanto pela Terra quanto por Júpiter, por exemplo, não há condições necessárias e suficientes não triviais para uma proposição seja verdadeira que sejam satisfeitas pelas proposições "2+2=4" e "Júpiter é um planeta", por exemplo. Isso faz de "é um planeta" um predicado que expressa uma propriedade substancial, e de "é verdadeira" um predicado que expressa uma propriedade lógica.


Leituras

Aristóteles. (1969). Metafísica. Porto Alegre: Editora Globo.
Austin, J.L. (1950) "Truth", Proceedings of the Aristotelian Society, sup. vol. n. 24, pp. 111-28. 
Dummett, Michael. (1990). La Verdad y Otros Enigmas. Trad. A.H. Patiño. México: Fondo de Cultura Económica.
Horwich, Paul. (1990). Truth. Oxford: Basil Blackwell. JAMES, W. (1909) The Meaning of Truth, New York, Longman Green.
Kirkham, Richard. (2003) Teorias da Verdade. Trad. Alessandro Zir. São Leopoldo: Unisinos.
Platão. (1987). Sofista. Trad. J. Peleikat e J.C. Costa. São Paulo: Abril Cultural.
Ramsey, F.P. (1927) "Facts and Propositions", Proceedings of the Aristotelian Society, sup. vol. n. 7, pp. 153-70.
Strawson, P.F. (1950) "Truth", Proceedings of the Aristotelian Society, sup. vol. n. 24, pp. 125-56.
Tarski, A.(1943) "The Semantic Conception of Truth", Philosophy and Phenomenological Reasearch, IV, pp. 341-75.

quinta-feira, 23 de outubro de 2014

Consideração pela opinião alheia

Uma vez um aluno me fez a seguinte crítica: "O senhor não leva em consideração a opinião da gente!". Eu então disse: "Claro que levo. Sempre analiso com cuidado o que vocês dizem. Até ajudo vocês a formularem suas opiniões." Ele então disse: "Mas o senhor sempre tem um argumento contra o que a gente diz!"

Essa reação mostra dois problemas. Um deles é a cegueira para o acordo. É claro que em grande parte dos casos eu concordo com as opiniões dos alunos. Mas aqui ocorre algo análogo à percepção comum da competência dos meteorologistas: apenas os seus erros são notados. Os acertos não viram assunto de conversa.

O outro problema, mais grave, é a visão negativa da crítica. Ela é vista como uma demonstração de falta de respeito, de falta de polidez, mesmo quando é feita da maneira o mais objetiva e gentil possível. Eu creio que isso se deve a um aspecto negativo da nossa cultura: uma visão distorcida da cordialidade, que vê a franqueza e a crítica como falta de cordialidade. Essa visão tem efeitos desastrosos principalmente no âmbito acadêmico, tornando o que poderia ser uma discussão frutífera numa "conversa de comadres".

Todos que me conhecem sabem do meu apreço pela discussão crítica, pelo embate de argumentos. Eu acho que ganho muito com ela. Mas acho que todos podem ganhar com ela, se não a encararem como uma coisa negativa. Meu apreço pela discussão crítica é tal que eu creio que a melhor forma de texto filosófico é o diálogo.

É claro que certas pessoas usam essa visão positiva da franqueza e da crítica para tentar justificar grosserias durante uma discussão. Grosserias, entretanto, simplesmente não se justificam. Todavia, ser franco e crítico não é ser grosseiro ou desrespeitoso.

Apresentar argumentos contra a opinião de alguém não é sinal de falta de respeito ou de consideração. Eu me sinto homenageado quando alguém vem no meu blog e escreve uma crítica respeitosa, mostrando as razões de por que discorda de mim. Um amigo meu, antes de dar uma palestra, às vezes diz: "Estou aqui para receber críticas. Para elogiar o que eu faço, já tenho a minha mãe." O espírito é esse! A crítica nos ajuda a ver onde podemos melhorar nosso trabalho. Reclamar que a pessoa tem argumentos contra o que pensamos é como reclamar que ela está sendo racional! É como se quiséssemos não ser informados de que estamos errando, se esse for o caso.

domingo, 7 de setembro de 2014

Conhecer a natureza de uma coisa

"Ou achas que alguém entenderá o nome de alguma coisa, se desconhece sua natureza?" (Sócrates no Teeteto)

Depende do que é conhecer a natureza de alguma coisa. Se conhecer a natureza de alguma coisa é saber explicitamente uma definição dessa coisa em termos de condições necessárias e suficientes, então é possível entender um nome de alguma coisa sem conhecer a sua natureza. O próprio Sócrates dá exemplos disso nos seus diálogos. Ele costuma pedir a definição de alguma coisa e depois apresenta contra-exemplos dessa definição, seja apresentando um caso que satisfaz a definição, mas não é a coisa definida, seja apresentando um caso que é a coisa definida, mas não satisfaz a definição. Mas como seu interlocutor pode reconhecer esses contra-exemplos, se ele não entende o nome que se está tentando definir? Reconhecer que algo é a coisa definida não supõe o entendimento do seu nome? Se não pode e se a pessoa não é capaz de apresentar uma definição apropriada da coisa em termos de condições necessárias e suficientes e entende o seu nome, então a pessoa entende seu nome e não conhece a natureza da coisa.

Mas há exemplos mais paradigmáticos. Não faz muito sentido dizer que alguém tenha nem mesmo conhecimento implícito da definição de "vermelho", pois não faz muito sentido sequer falar na definição de um tal termo. Mesmo que alguém identifique vermelho como um certo comprimento de onda eletromagnética, todos nós entendemos a palavra "vermelho" sem precisar saber nada sobre tais ondas, nem mesmo implicitamente.

terça-feira, 26 de agosto de 2014

The semantic realism of Stroud's response to Austin's argument against scepticism

Este ano, no XVI Encontro Nacional da Anpof, vou apresentar novamente, com algumas melhorias aqui e acolá, um texto em que critico o realismo semântico de Barry Stroud, implícito no seu famoso livro sobre o ceticismo, The Significance of Philosophical Scepticism. A razão dessa repetição é que Stroud estará no evento e não poderia perder a oportunidade de receber um retorno crítico. Eis o resumo do meu texto:


In this paper I initially argue that Stroud's response to Austin's argument against scepticism is based on what I call strong realism about truth, which must be distinguished from weaker versions of realism about truth. The main thesis of the stronger version says that truth is absolutely independent of knowledge, which means that the propositions we believe in could be true of false even if there was no knowledge. Then I argue that this kind of semantic realism is the target of a Wittgensteinian argument against the possibility of massive error, which is a corollary of the strong realism about truth. The main strategy of the Wittgensteinian argument is to show that the massive error hypothesis is incompatible with our only criterion to say that someone has a certain concept. That is to say, the massive error hypothesis leaves no room to explain what it is to have a concept. I also argue that the paradigmatic case argument, criticized by Stroud, is essentially right and Stroud's criticism to it can be answered.

quarta-feira, 28 de maio de 2014

Purismo moral

Na postagem Bem em si e o bem que podemos realizar, defendo que há ao menos dois tipos de juízo moral: um em que se escolhe valores, bens em si, e um em que se julga deliberadamente o que é melhor fazer em uma certa circunstância, o que é o bem nessa circunstância. No final eu defino o que chamei de rigorismo moral como aquela posição que defende que realizar o bem é realizar sempre o que é em si mesmo um bem, de tal forma que realizar algo que é em si mesmo um mal não é nunca realizar o bem. Mas, seguindo a sugestão do meu amigo Eros Carvalho, vou chamar isso de purismo moral, na medida em que coloca como objetivo da ação moral realizar apenas o que é um bem em si, purificando a ação de qualquer mal em si. De acordo com o purismo moral, realizar o menor dos males, mesmo quando isso parece ser o melhor a ser feito em uma circunstância, não é realizar o bem. O melhor a ser feito em qualquer circunstância nunca pode ser, segundo o purista, um mal em si. Qualquer ação, se o purismo está correto, é melhor que um mal em si.

Por exemplo: suponhamos que em uma determinada circunstância a única maneira de salvar a vida de uma pessoa boa que está sendo ameaçada por outra que a quer roubar é matando essa outra. Um purista que acredite que matar é um mal em si não matará essa outra pessoa, pois julgará que é errado matar em qualquer circunstância, justamente porque é um mal em si. Mas na situação em que a única maneira de salvar a vida de uma pessoa boa que está sendo ameaçada por outra que a quer roubar é matando essa outra, não matá-la implica não salvar a vida da pessoa ameaçada. A pessoa homicida e ladra continuará viva e sua vítima, uma pessoa boa, morrerá. O purista pode dizer: se ele matar, estará fazendo algo que é tão mau quanto o que o homicida quer fazer. Mas isso somente seria o caso se a bondade ou maldade de uma ação não dependesse das intenções dos agentes e das consequências relativas às circunstâncias em que a ação é realizada. O homicida não apenas quer matar uma pessoa, mas quer matar uma boa pessoa. Contrariamente, aquele que o mata para salvar a vida da boa pessoa não apenas gostaria de não ter que matar ninguém, mas não gostaria de matar uma pessoa boa, como o homicida. Além disso, ele mata para salvar uma vida, não para roubar. Se ele não matar o homicida, a pessoa boa morrerá. Isso é uma consequência de ele não matar o homicida, quer ele deseje essa consequência, quer não. Dados todos esses fatores relativos à circunstância da ação, como matar o homicida ladrão pode ser pior que deixar uma pessoa boa ser morta por ele?

O purismo moral nem sempre aparece de forma clara, explícita. Mas ele se manifesta em toda tendência a desconsiderar fatores da circunstância na deliberação sobre o que é melhor fazer nela, pois as opções de ação, boas em si, já foram determinadas a priori, como se a deliberação fosse feita de um ponto de vista da eternidade, aplicando-se um algoritmo para extrair o melhor a ser feito em cada situação.* Isso tem como resultado que muitas coisas que são males em si e poderiam ser evitados pelo purista são, na verdade, consequência do que o purista faz ou deixa de fazer, pois ele se recusa a realizar um mal em si para evitar o que é um mal em si maior. Esse tipo de atitude moral é mais fácil de ser notado em certas posições políticas. Algumas pessoas não querem abrir mão de nada do que elas acreditam ser a realização do que são bens em si, sejam quais forem as circunstâncias. Elas não estão dispostas a realizar um pouco dos seus ideais mais importantes, abrindo mão temporariamente de alguns menos importantes. Eles preferem não realizar nenhum do que realizar apenas alguns, mesmo que isso implique que o poder ficará com quem não quer realizar nenhum de seus ideais, por exemplo. Essas pessoas se dizem pessoas de princípios. E nisso estão em parte certas, porque isso é tudo o que têm. Falta-lhes a capacidade de avaliar a conjuntura para saber o que é melhor fazer. Falta-lhes o genuíno interesse de evitar que o mal se realize. Falta-lhes a capacidade para ver que o bem e o mal que se pode realizar vêm em graus, que realizar o bem é realizá-lo no grau máximo que as circunstâncias permitem. Estes são aqueles que costumo dizer que querem mudar o mundo pra melhor seguindo à risca seus princípios, nem que para isso o mundo seja destruído.

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* Agradeço ao meu amigo Giovani Felice por ler uma primeira versão desse texto e chamar minha atenção para essa conexão entre o purismo moral e a visão, digamos, algorítmica do ponto de vista da eternidade.


quarta-feira, 7 de maio de 2014

Ceticismo e crença, ou: sobre o pirronismo rústico

Sexto Empírico
O ceticismo geralmente é a posição filosófica que procura levantar dúvidas racionais sobre a posse de conhecimento, seja em uma região específica da nossa atividade cognitiva, seja globalmente, tentando mostrar que não temos nenhum conhecimento. Mas há uma posição cética radical, originada de uma certa interpretação de uma forma de ceticismo antigo, o pirronismo, segundo a qual o cético pirrônico não teria não apenas nenhum conhecimento, mas nenhuma crença. Essa é a chamada interpretação rústica do pirronismo, por oposição à interpretação urbana. Não estou interessado em discutir a questão histórico-exegética aqui. Meu interesse é na possibilidade de um cético não ter nenhuma crença. Creio que a defesa dessa tese possui dois problemas, um teórico e outro moral.

A objeção teórica óbvia a essa tese segue a estratégia usual contra o cético, que consiste em mostrar que ele é incoerente. Se ele defende que não tem nenhuma crença, então ele tem ao menos essa crença, a de que não possui nenhuma crença, uma crença cujo conteúdo é refutado por ela própria. Dizer que não tem crença seria como dizer que não está dizendo nada. O ato de dizer contradiz o que está sendo dito. A resposta do cético leva a discussão para um nível mais profundo. Ele dirá que não está sustentando nenhuma tese, que não acredita que não possui crenças. Ele dirá que apenas está dizendo como as coisas vão aparecendo a ele (apenas expressando sua reação aos fenômenos). E ele dirá isso não apenas sobre a afirmação de que não possui crenças, mas sobre qualquer afirmação que faça, inclusive aquela sobre estar apenas dizendo como as coisas vão aparecendo a ele.

Todavia, é parte da lógica da nossa linguagem que a asserção sincera (não-irônica, não-mentirosa) de uma frase indicativa é a expressão de uma crença. Esse é um dos nossos critérios para a atribuição de crenças que determina o que entendemos pro "crença". Isso está relacionado ao paradoxo de Moore. Segundo Moore, embora seja psicologicamente estranho dizer "Chove, mas não acredito nisso", não é uma contradição, na medida em que a primeira frase descreve o tempo e a segunda descreve o estado psicológico de quem afirma a primeira, sua descrença na verdade da primeira. Moore não vê uma conexão lógica entre asserir uma frase indicativa e expressar uma crença. O que Moore diz seria água para moinho do pirrônico que estamos discutindo. Mas creio que Moore está errado. A frase de Moore é incoerente porque a asserção sincera de que chove é a expressão da crença de que chove. A pessoa não está dizendo que crê que chove ao dizer que chove, isso é certo. Ela de fato está falando sobre o tempo e não sobre si mesma. Mas ela está expressando essa crença, está manifestando-a. Isso se manifesta na definição de asserção sincera. Asserir sinceramente é asserir algo que se toma como verdadeiro, algo em que se acredita.

O cético tem uma resposta para essa última objeção. Ele poderia admitir a conexão entre asserção sincera e crença e afirmar que poderia dizer "Perece a mim que chove", em vez de dizer "Chove". Se ele colocasse o prefixo "Parece a mim que..." antes de cada afirmação sua, então não poderia ser acusado de acreditar na verdade da frase que sucede esse prefixo. Ele não está dizendo como as coisas são, mas como elas parecem ser a ele. O primeiro problema com essa resposta é que o que foi dito sobre a relação entre asserção e crença anteriormente vale também para a asserção de frases da forma "Parece a mim que p": se o cético a assere sinceramente, então ele está expressando uma crença. De outra forma, como o cético definiria asserção sincera? Ele não está sendo sincero quando assere que parece a ele que chove? É claro que usar o prefixo novamente sobre frases da forma "Parece a mim que p" apenas agravaria o seu problema, pois o levaria a um regresso ao infinito. Ademais, o cético de fato não fala desse modo, especialmente quando não está fazendo filosofia. Ele não coloca o referido prefixo antes de suas frases. Mas ele poderia dizer que não faz isso por comodidade, para poder interagir mais facilmente com as pessoas. Isso, entretanto, o leva a cometer o erro moral de que falei acima. Se ele usa o discurso assertivo sistematicamente como se estivesse asserindo sinceramente as frases que pronuncia, então ele está sistematicamente levando seus interlocutores ao erro, pois, pela razão já aduzida, eles acreditarão que ele está expressando a crença na verdade dessas frases.

Um problema adicional desse ceticismo é o fato que boa parte de nossas crenças são inconscientes e/ou involuntárias. Não basta refletir e pensar de si mesmo que não possui uma determinada crença para não tê-la. Podemos ter crenças que não sabemos que temos e nos casos extremos nos enganar sobre as crenças que temos. Não temos total autoridade a respeito daquilo que acreditamos. Muitas vezes os outros sabem melhor que nós. Por outro lado, algumas vezes queremos deixar de acreditar em algo e não conseguimos, assim como queremos passar a acreditar em algo e tampouco conseguimos. Portanto, não basta que o cético diga que não acredita que chove para que isso seja o caso. Ele pode querer, com base em seus argumentos, não acreditar que chove. Mas disso não se segue que ele não acredita. Ter uma crença é ter uma atitude em relação a um certo estado de coisas, é tomá-lo como um fato. E isso se manifesta no comportamento, verbal e não-verbal. Se o cético realmente não acreditasse que chove (nem que não chove), então deveria haver uma diferença no seu comportamento que exibisse a sua descrença. Mas não há. Quando ele diz "Parece a mim que chove", ele se comporta exatamente do mesmo modo como alguém que acredita que chove.


Leituras

Bett, Richard, Pyrrho (Stanford EP)
Schwitzgebel, Eric, Belief (Stanford EP)
Marcondes, Danilo, Rústicos x urbanos: o problema do insulamento e apossibilidade de uma filosofia cética

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

Conhecimento e a exclusão do engano

Paul Robeson como Otelo e Peggy Ashcroft
como Desdêmona (Londres, 1930)
É mais do que óbvio que o conhecimento e o engano são incompatíveis, de tal forma que não é possível que eu saiba que p e esteja enganado ao crer que p (onde estar enganado ao crer que p é crer que p e ser o caso que não-p). Mas há uma maneira enganadora de expressar esse ponto. Trata-se de dizer que se sei que p, não posso estar enganado ao crer que p. Esse modo de expressão é enganador por causa do deslocamento do escopo do operador modal. Na frase
(1) Necessariamente, se sei que p, não estou enganado ao crer que p
O escopo do operador modal "Necessariamente" é o condicional "se sei que p, não estou enganado ao crer que p". É o condicional como um todo que está sendo dito ser necessário.

Isso é bem diferente no caso de interpretarmos literalmente a frase
(2) Se sei que p, necessariamente não estou enganado ao crer que p
ou a sua forma equivalente mais usual
(3) Se sei que p, não posso estar enganado ao crer que p
Nesse caso, o escopo do operador modal é o consequente da condicional. É o consequente do condicional que se está dizendo ser necessário. Formalmente, se interpretadas literalmente, as frases (1)-(3) pode ser expressa assim (onde Nec=necessariamente e Pos=possivelmente):
(1') Nec(P -> ~Q)
(2') P -> Nec(~Q)
(3') P -> ~Pos(Q)
Podemos usar a frase (2) ou (3) para dizer o que é dito mais claramente com a frase (1). Fazemos isso algumas vezes. Mas isso requer não interpretar (2) e (3) literalmente. Seja como for, se forem interpretadas dessa forma não literal, (2) e (3) parecem estar dizendo algo tão verdadeiro quanto (1), pois estarão dizendo a mesma coisa. Nesse caso, (2') e (3') não serão a formalização correta de (2) e (3). A formalização correta dessas frases é a mesma de (1), a saber (1').

A pergunta importante agora é, interpretadas literalmente e formalizadas por meio de (2') e (3'), (2) e (3) são verdadeiras? Uma das consequências de (2 e (3), assim interpretadas, é que para qualquer proposição, se for possível que eu esteja enganado quando alego saber que ela é verdadeira, então eu não sei que ela é verdadeira, pois se é possível que eu esteja enganado ao crer (ou saber) que p, então não necessariamente não estou enganado ao crer que p. O argumento para mostrar que não sei que p, então, seria:
(4) Se sei que p, então necesseriamente não estou enganado ao crer que p.
(5) Se é possível que eu esteja enganado ao crer que p, então não necessariamente não estou enganado ao crer que p.
(6) É possível que eu esteja enganado ao crer que p.
(7) Logo, não necessariamente não estou enganado ao crer que p. [de (5) e (6), por modus ponens]
(8) Logo, não sei que p. [de (4) e (7), por modus tollens]
A consequência de (1) e (2), portanto, é o que eu chamo de tese do conhecimento infalível:
(I) Somente há conhecimento sobre aquilo acerca do qual é impossível enganar-se. 
Essa tese está longe de ser óbvia, para se dizer o mínimo, pois a maior parte de nossas alegações de conhecimento bem justificadas - desde as da vida comum até as da ciência - são sobre aquilo acerca do qual podemos estar enganados. Isso torna (I) altamente implausível e, por isso, tem o ônus da prova quem acredita nela. Qual justificação poder-se-ia dar a ela? Deve-se notar que inferir (2) ou (3) de (1) é uma falácia, a qual chamo falácia do conhecimento infalível. Portanto, não pode ser essa inferência que justifica a tese do conhecimento infalível.

Quer tenha cometido essa falácia, quer não, a tese do conhecimento infalível é aceita por Descartes nas suas Meditações Metafísicas. O critério que ele aceita para justificar a alegação de conhecimento, entretanto, é a seguinte tese, que eu chamo de tese cartesiana da atribuição de conhecimento:
(C) s sabe que se e somente se é impossível que s esteja enganado ao crer que p.
A diferença entre (2) e (C) é que (C) afirma uma equivalência entre (i) "s sabe que p" e (ii) "é impossível que s esteja enganado ao crer que p", enquanto que (2) afirma apenas que (ii) implica (i).

Alguém poderia alegar que (2) é verdadeira porque, se fosse falsa, então seria possível estar enganado sobre algo que se sabe. Mas essa alegação implica que a negação de (2) implica a negação de (1), e isso é simplesmente falso. A negação de (2) simplesmente implica que se (i) "s sabe que p" for verdadeira, disso não se segue a necessidade de (iii) "s não está enganado ao crer que p", não implica a possibilidade da conjunção de (i) e (iii).

Não vejo nenhuma boa razão para crer em (2) e, a fortiori, em (C). É por isso que é falacioso argumentar contra uma alegação de conhecimento dizendo "Mas é possível que você esteja enganado ao crer que p; logo, você não sabe que p". O conhecimento exclui o engano, sim, não a possibilidade do engano. Se sei, é o caso que não estou enganado, não que não posso estar enganado. Mas dizer isso não é dizer que é possível que eu saiba & esteja enganado.

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Para um diálogo mais detalhado sobre esse tema, ver Conhecimento, engano, justificação e verdade.

terça-feira, 14 de janeiro de 2014

Brincado à minha volta


Brincando à minha volta
Sorri um sorriso matreiro
Vai embora quando estou distraído
E volta quando menos espero

Às vezes traz uma flor miúda
Às vezes joga pedras
Toda atenção nunca lhe é suficiente
E promessas não sabe cumprir

Mas é encantado e sabe vencer
qualquer resistência, sempre fingida
Quem não se desarma
ao perceber seu próprio reflexo
nos olhos grandes do amor?