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sexta-feira, 4 de setembro de 2020

Fontes do conhecimento (em construção)



Introdução

De acordo com a definição tradicional de conhecimento (proposicional), conhecimento é crença verdadeira justificada. Gettier mostrou que, mesmo que sejam individualmente necessárias (o que pode ser questionado), essas condições não são conjuntamente suficientes. Mas podemos contornar o problema de Gettier e investigar mais profundamente a natureza das crenças verdadeiras justificadas. 

Crer consiste em tomar uma proposição como verdadeira, o que não deve ser confundido com ser verdadeira. Uma proposição é o conteúdo (significado ou sentido) de uma frase indicativa e o conteúdo de uma crença. Uma mesma frase pode ser ambígua, isto é, pode ter conteúdos distintos em contextos distintos. Em cada um desses contextos ela expressará uma proposição distinta. Por exemplo: a frase "Há muito café sobre a mesa" pode expressar a proposição que há várias garrafas térmicas cheias de café sobre a mesa, ou a proposição que há muitos sacos de café em pó sobre a mesa. Duas frases distintas podem ser sinônimas, isto é, pode ter o mesmo conteúdo, expressar a mesma proposição. Por exemplo: as frases "A neve é branca" e "The snow is white" expressam a mesma proposição. Por isso, dizer "João acredita que a neve é branca" e "John belives that the snow is white" é atribuir a mesma crença a João e Pedro, pois, se essas atribuições de crença são verdadeiras, João e John tomam a mesma proposição como verdadeira, a saber aquela expressa por "A neve é branca" e "The snow is white".

Há muita controvérsia sobre as proposições, sobre se existem e sobre qual é sua natureza. Mas, para o presente propósito, podemos contornar essa controvérsia. 

A justificação é o que quer que garanta, em alguma medida, que a crença é verdadeira com um grau de probabilidade acima da adivinhação sortuda. Aquilo que dá essa garantia é um justificador dessa crença. As fontes do conhecimento são justamente aquilo que pode fornecer os justificadores das crenças. Mas tais fontes também podem fornecer os refutadores de uma crença, ou seja, aquilo que justifica crer na negação da crença.

As proposições podem ser classificadas segundo variados critérios: semânticos, epistêmicos, modais, etc. Convém abordar algumas dessas classificações a fim de tornar mais claras as considerações sobre as fontes do conhecimento, pois há controvérsias sobre a relação entre as fontes do conhecimento e os tipos de proposições classificados de acordo com esses critérios.


Analítico vs sintético

A primeira classificação é uma classificação semântica, porque diz respeito à estrutura desses conteúdos semânticos que são proposições. Trata-se da distinção, introduzida pela primeira vez por Immanuel Kant (embora por influência do conhecimento de distinções anteriores[1]), entre proposições analíticas e proposições sintéticas. Mas, para entender essa distinção, devemos considerar a natureza dos conceitos complexos e a relação entre eles e os conceitos que compõem seu conteúdo. Conceitos são o conteúdo de termos gerais. Termos gerais são aquelas expressões linguísticas que podem ser predicadas de várias coisas diferentes. Por exemplo: o termo "professor" expressa um conceito, pois pode ser predicado de várias pessoas diferentes, tal como em "João é professor" e "Sócrates é professor". Alguns conceitos são complexos, ou seja, são formado por outros conceitos. Mas alguns conceitos são simples, ou seja, não são formados por outros conceitos. Conceitos simples são indefiníveis, pois uma definição apresenta os conceitos que compõem um conceito complexo. Podemos entender essa relação entre conceitos complexos e aqueles que o compõem por meio de uma analogia com um bolo e suas fatias. Um conceito complexo é como um bolo e suas fatias são como os conceitos que compõem o conceito complexo.

Em algumas proposições da forma sujeito-predicado (embora seja questionável que todas), tanto o sujeito quanto o predicado são constituídos por conceitos, que são expressos por termos gerais. Por exemplo: na frase "A baleia é um mamífero", os termos gerais "baleia" e "mamífero" expressam dois conceitos distintos. Uma proposição é analítica, para Kant, justamente quando conceito do predicado compõe o, ou, na terminologia de Kant, está contido no, conceito do sujeito. Por exemplo: a definição de solteiro é: ser humano do sexo masculino não-casado. De acordo com isso, na frase "Todo solteiro é não-casado", o predicado expressa um conceito já contido no conteúdo do conceito expresso pelo sujeito. Quando pensamos em solteiros, já os pensamos como não-casados. Quando dizemos deles que são não-casados, dizemos deles algo que já pensamos deles quando os pensamos. De acordo com isso, o que é suficiente para que alguém saiba que uma proposição é analiticamente verdadeira? Devemos saber duas coisas: devemos saber quais conceitos constituem o conteúdo do conceito do sujeito, conhecimento que se obtém por meio de análise ou decomposição lógica do conceito do sujeito, e devemos saber aplicar os princípios lógicos, para verificar se o conteúdo proposicional está em boa ordem lógica. De posse desse conhecimento, podemos saber se o conceito do predicado de uma proposição está contido no conceito do sujeito ou se é logicamente incompatível com algum conceito contido no conceito do sujeito. Por exemplo: de posse do conhecimento do conteúdo do conceito de corpo, posso saber se, na proposição que todo corpo tem um extensão (exemplo de Kant), o conceito de extensão está ou não contido no conceito de corpo, ou se é logicamente incompatível com o conceito de corpo. Se o conceito do predicado está contido no conceito do sujeito, a proposição é analiticamente verdadeira. Se o conceito do predicado é incompatível com o conceito do sujeito a proposição é analiticamente falsa.

Mas o que acontece se o conceito do predicado nem estiver contido no conceito do sujeito, nem for incompatível com ele? A proposição, nesse caso, é falsa? Não necessariamente. O máximo que podemos concluir com base nesse fato é que não se trata de uma proposição analítica. Ela nem é analiticamente verdadeira, nem é analiticamente falsa. Por exemplo: o conteúdo do conceito de garrafa não é constituído por nenhum conceito de cor, ele não contém qualquer conceito de cor. Por isso, uma garrafa pode ser de qualquer cor ou ser incolor. Portanto, para saber se uma garrafa é vermelha, não basta analisar o conceito do sujeito da proposição "Esta garrafa é vermelha" e aplicar os princípios da lógica para saber se essa proposição é verdadeiras. No caso desse exemplo, devemos olhar para a garrafa, ter uma percepção dela, precisamos da experiência. Proposições desse tipo, cujo predicado não está contido no sujeito, são as proposições sintéticas.


A priori vs a posteriori

As proposições, segundo Kant, também podem ser classificadas, de acordo com um critério epistêmico, como a priori e como a posteriori. Uma proposição a priori é uma que pode ser conhecida como verdadeira ou ser justificadamente acreditada independentemente da experiência. Mas essa independência, como Kant bem chama atenção, pode ser relativa ou absoluta. Imagine que demolidores instalaram explosivos nas fundações de um prédio para demoli-lo. Antes de vermos um prédio desabar e, por tanto, a priori, sabemos que ele irá desabar porque sabemos que demolidores instalaram explosivos em suas fundações e sabemos que quando as fundações de um prédio são solapadas, o prédio desaba. Portanto, independentemente da experiência particular de ver aquele prédio desabando, sabemos que ele (provavelmente) irá desabar. Mas, embora independente dessa experiência particular, esse conhecimento não é independente de qualquer experiência experiência particular. Ele está baseado em observações passadas (de primeira ou segunda mão) de prédios que desabaram em circunstâncias semelhantes. Por isso, o conhecimento de que esse prédio particular irá desabar é a priori relativamente à experiência de ver esse prédio particular desabar. O conhecimento da verdade de uma proposição ou a justificação de uma crença em uma proposição é absolutamente a priori quando é independente de qualquer experiência particular. 

Mas quais seriam os exemplos de proposições a priori? Já vimos um: as proposições analíticas. Parece absurdo dizer que proposições como "Todo solteiro é não-casado" seja conhecida como verdadeira por meio da observação dos solteiros. Parece que quem compreende o conteúdo do termo "solteiro" e sabe aplicar princípios lógicos elementares tem tudo o que é suficiente para saber que essa proposição é verdadeira. A experiência não desempenha nenhum papel na posse desse conhecimento. Outro exemplo muito citado de proposições a priori são as proposições da matemática. Parece absurdo dizer que sabemos que nosso conhecimento de que 35+45=80 ou de que a soma dos ângulos internos de um triângulo é 180° é baseado em alguma experiência. Nos departamentos de matemática não existe um laboratório de matemática, onde se fazem observações para se provar ou refutar proposições matemáticas. Outros exemplos frequentemente mencionados de proposições a priori são as proposições da lógica e algumas proposições éticas.[2] 

Alguém poderia perguntar: não é o caso que para aprender matemática, por exemplo, temos de ter experiências, perceber os numerais, as formas geométricas, e isso não tornaria as proposições matemáticas dependentes da experiência? Essa pergunta está baseada em uma confusão entre a aquisição de conceitos e a justificação de proposições. A aquisição de conceitos podem muito bem envolver a experiência, mas disso não se segue que a experiência justifique ou refute as proposições que contém esses conceitos. Temos de aprender a identificar o numeral "5", por exemplo, para pensarmos proposições matemáticas que contém o número cinco. E isso envolve a percepção do numeral e de suas combinações com outras expressões matemáticas. Mas uma vez que adquirimos o número cinco e compreendemos proposições que o contém (345+879=1.224, por exemplo), aquela experiência para adquirí-lo passa a ser inútil para justificar a crença em tais proposições. O que precisamos fazer para justificar nossas crenças em proposições matemáticas é calcular ou provar tais proposições a partir de outras proposições matemáticas já provadas.

Proposições cujo conhecimento ou cuja crença justificada dependem da experiência são as proposições a posteriori ou empíricas. O que se está entendendo aqui por "experiência"? Experiência é toda informação vinda dos nossos sentidos. Os cinco sentidos, visão, audição, tato, olfato e paladar, são sensores que conectam nossos corpos ao meio ambiente, na medida em que são afetados pelo que ocorre no ambiente, essa afecção produz impulsos elétricos que são transportados por meio de nervos até o cérebro e no cérebro tais impulsos são processados de tal forma que o resultado são as sensações e a percepção. As sensações se distinguem por causa das suas qualidades (qualia). Cada sensação tem uma qualidade (quale) diferente. Elas são um dos variados tipos de conteúdo das nossas mentes. A percepção consiste na consciência de alguma coisa exterior à mente por meio das sensações. Essa consciência depende que a mente tome o comportamento das sensações como sendo o reflexo tanto do comportamento dessas coisas exteriores quanto do nosso comportamento em relação a essas coisas exteriores.  Perceber uma pedra por meio da visão, por exemplo, é ter consciência dessa pedra por meio das sensações visuais. 

Apesar de a percepção ser a fonte primária da justificação de proposições empíricas, elas não são a única fonte e tampouco a fonte de toda justificação de crenças em proposições empíricas. A fonte da justificação de crenças sobre o conteúdo da nossa própria mente é tradicionalmente concebida como um análogo da percepção: a introspecção. A principal diferença da introspeção para a percepção é que na introspecção temos consciência direta dos conteúdos da nossa mente, ao passo que na percepção é, na melhor das hipóteses, indireta, via consciência das sensações. Por outro lado, a justificação de crenças sobre o conteúdo de outras mentes é tradicionalmente concebido como sendo uma inferência indutiva por analogia em que se infere uma crença sobre o conteúdo da mente alheia a partir do conhecimento da relação entre os conteúdos da nossa mente, nosso comportamento e o comportamento alheio. A memória também é fonte de justificação de crenças empíricas e é constitutiva da identidade pessoal. O testemunho é outras fonte de justificação de crenças empíricas. Nesse caso, nossas crenças são indiretamente justificada pela percepção, pois são justificadas pela percepção alheia. Por fim, a indução ou inferência indutiva também é uma fonte de justificação de proposições empíricas. Teorias das ciências naturais são geralmente justificadas empiricamente por meio de inferências indutivas, especialmente a abdução


Modalidades aléticas

Os valores de verdade das proposições, a verdade e a falsidade, possuem modos ou modalidades. Essas modalidades chamam-se aléticas porque o termo grego "aletheia" significa o mesmo que "verdade". Uma proposição, além de ser verdadeira, pode ser possivelmente verdadeira, ou necessariamente verdadeira (não pode ser falsa), ou contingentemente verdadeira (se falsa, pode ser verdadeira e se verdadeira, pode ser falsa). Uma proposição, além de ser falsa, pode ser necessariamente falsa (não pode ser verdadeira) ou impossível. Pode-se esclarecer o conteúdo desses termos, embora não defini-los, por meio do conceito de mundo possível. Um mundo possível é tal que a sua descrição não viola nenhum princípio lógico elementar e nenhum princípio metafísico elementar. O mundo atual, o mundo que habitamos, é um dos mundos possíveis, pois, se não fosse possível, não seria atual. Há mundos possíveis que estão muito próximos do mundo atual, ou seja, são iguais ao mundo atual, exceto no que respeita a alguns poucos fatos. Outros mundos possíveis estão muito afastados do atual, ou seja, são muito diferentes do mundo atual. Há infinitos mundos possíveis. Algumas proposições que são falsas no mundo atual são verdadeiras em outras mundos possíveis. As modalidades aléticas podem elucidadas usando-se o conceito de mundo possível da seguinte forma:

Uma proposição é verdadeira quando é verdadeira no mundo atual

Uma proposição é possível quando é verdadeira em ao menos um mundo possível.

Uma proposição é necessária quando é verdadeira em todos as mundos possíveis.

Uma proposição é impossível quando é falsa em todos os mundos possíveis.

Uma proposição é contingente quando é verdadeira em ao menos um mundo possível e falsa em ao menos um mundo possível.[3]

Toda proposição verdadeira, toda proposição necessária e toda proposição contingente é possível, pois é verdadeira em ao menos um mundo possível. Mas nem toda proposição possível é verdadeira, ou necessária, ou contingente.


Controvérsias

Essas três classificações das proposições não são todas excludentes. Questões filosóficas interessantes são sobre se há exemplos de cada uma dessas categorias de proposições e questões sobre se há proposições que pertencem a mais de uma categoria. 

Kant acreditava que todas as proposições analíticas eram a priori e necessárias e que algumas proposições sintéticas são a posteriori, que todas proposições a posteriori são contingentes e que algumas proposições sintéticas são a priori e necessárias. Portanto, todas as proposições a priori são necessárias para Kant. Um exemplo de proposições sintéticas a priori, para Kant, são as proposições da matemática. Aquilo que justifica essas proposições é o que Kant chama de intuição pura, uma espécie de percepção sem sensação, sem conteúdo, uma percepção das formas puras do espaço (proposições da geometria) e do tempo (proposições da aritmética). 

Frege discordava de Kant. Para ele as proposições da aritmética são analíticas. Seu projeto logicista consistia em mostrar que, em última análise, as proposições da aritmética são proposições da lógica. Ele pretendia fazer isso definindo os termos primitivos da aritmética por meio de termos puramente lógicos e deduzindo os axiomas da aritmética de proposições da lógica. 

Kripke também discorda de Kant. Ele acredita que nem toda proposição a posteriori é contingente e que nem toda proposição a priori é necessária. O exemplo de proposição necessária a posteriori de Kripke são as proposições a posteriori de identidade: descobrimos por meio da experiência que João é Joca, por exemplo. Mas se essa proposição for verdadeira, não pode ser falsa, pois isso implicaria que uma pessoa, João, seria distinta de si mesma, Joca. O exemplo de proposição contingente a priori de Kripke é a proposição que diz que o metro padrão de Paris tem um metro quando expressa por que batizou aquela barra como o metro padrão e, assim, criou essa medida. É contingente que aquela barra tinha o comprimento que tinha quando foi batizada de metro padrão. Ela poderia ser mais curta ou mais longa. Mas, uma vez batizada como o metro padrão, aquele que assim a batizou sabe, sem precisar medi-la, a priori, que ela tem um metro de comprimento. 

Alguns filósofos, os empiristas, argumentam que não há proposições a priori, que toda justificação para nossas crenças é obtida, direta ou indiretamente, por meio da experiência. Mill argumentava que as proposições da matemática são generalizações empíricas. Quine  argumentava que nossas crenças formam uma teoria total do mundo que é testada em bloco (holisticamente) na experiência. Ele concebia essa teoria total a partir da metáfora de círculos concêntricos. Nos círculos mais externos, periféricos, estão as proposições mais diretamente justificadas pela experiência, tais como proposições sobre percepções, e nos círculos mais internos estão as proposições mais indiretamente justificadas pela experiência, como as proposições da lógica e da matemática. Elas são as últimas a serem revisadas no confronto dessa teoria total com o mundo, são as mais "entrincheiradas", mas são, para Quine, passíveis de revisão. O que parece ser o caráter necessário dessas proposição é apenas a sua distância da periferia da nossa teoria total do mundo, o seu entrincheiramento.

Nesse ponto cabe uma observação: não podemos confundir a revisabilidade da crença em uma proposição com a sua contingência. Não há nenhuma contradição em se pensar que uma mesma proposição é necessária e a crença nela é revisável. Ou seja, a revisabilidade não implica a contingência. Os gregos se perguntaram se era possível triseccionar um ângulo usando-se apenas régia e compasso, tal como fazemos ao biseccionar um um ângulo. Alguns acreditaram que isso era possível, até que o advento da geometria analítica propiciou a prova de que isso não é possível. Alguém que acreditava que era possível e se depara com essa prova pode revisar essa crença. Se a proposição acreditada era necessariamente falsa, então essa revisão da crença é a mudança de uma crença em uma proposição necessariamente falsa para uma crença em uma proposição necessariamente verdadeira.


Percepção 

A percepção é a fonte primária de justificação de parte das crenças em proposições empíricas. Ela não é fonte da justificação apenas de proposições empíricas sobre conteúdo da mente de si, autoconhecimento. Nesse caso a fonte é, alegadamente, a introspecção. Mas o que é a percepção? Nossa maneira ordinária e, geralmente, tácita de compreender a natureza da percepção é comumente denominada realismo ingênuo. Trata-se de uma modo ingênuo de compreender a natureza da percepção no sentido de ingenuidade acadêmica. Uma compreensão de um certo fenômeno é academicamente ingênua quando quem a sustenta, explicita ou tacitamente, ignora uma grande tradição de debate problematizador dessa compreensão. Trata-se normalmente de uma compreensão pré-teórica, ou seja, anterior ao esforço de se teorizar sobre o fenômeno. Em breve ficará claro por que essa teoria é chamada de realismo.

Ordinariamente, pensamos a percepção como algo nos fornece um acesso epistêmico, ou abertura, da mente para um mundo independente da mente: o mundo exterior à mente. Sem a percepção, a mente estaria isolada do mundo. Esse acesso se daria por meio da consciência imediata de objetos e fenômenos ordinários, tais como mesas, cadeiras, garrafas, árvores, astros, raios, o vento, etc. Essa consciência se daria por intermédio das informações obtidas por meio dos sentidos. Fisiologicamente, entendemos os os sentidos como sensores do nosso organismo que possuem a capacidade de serem afetados pelo ambiente. Essa afecção produz impulsos elétricos que são transportados por nervos até o cérebro, onde eles são processados e o resultado é a consciência das sensações. Mas quando somos solicitados a descrever nossas percepções, o que fazemos revela que nosso entendimento ordinário da percepção inclui o que se costuma chamar de tese da transparência: nós descrevemos aquilo que está sendo percebido, não como está sendo percebido. Diríamos que estamos vendo tais e tais objetos, com tais e tais formas, de tais e tais cores, etc. Isso é análogo ao que faríamos se nos fosse solicitado que olhássemos uma janela transparente e descrevêssemos o que veswamos: não descreveríamos a janela ou o seu vidro, mas as coisas que estão do outro lado da janela. Dai o termo "transparência". Há situações em que essa transparência é enfraquecida, especialmente quando algum de nossos sentidos não está funcionando bem. Se uma pessoa tem uma visão muito ruim e usa um óculos de grau elevado, então, ao descrever o que vê sem óculos, essa deficiência visual, o modo como as coisas estão sendo percebidas, provavelmente seria considerada.

Quando pensamos sobre algo do mundo exterior ou temos crenças sobre algo do mundo exterior, isso sobre o que pensamos deve existir, caso contrário estaríamos iludidos de que estamos pensando ou tendo uma crença sobre algo do mundo exterior. Mas isso sobre o qual pensamos ou temos uma crença não necessita estar na nossa presença. Diferentemente do pensamento ou da crença, a percepção de um objeto do mundo exterior, segundo o realismo ingênuo, ocorre apenas se o seu objeto estiver presente. Podemos ter pensamentos e crenças sobre objetos que não estão presentes. A percepção ocorre apenas quando o objeto afeta nossos sentido e ele pode fazer isso apenas se estiver presente. Esse objeto não precisa estar próximo, pois, afinal, podemos ver estrelas que estão incrivelmente distantes.[4]

A independência que os objetos ordinários têm da mente, segundo o realismo ingênuo, é de dois tipos: epistêmica e metafísica. Os objetos ordinários são epistemicamente independentes porque eles são como são independentemente de nossas crenças, desejos, receios, preferências. Eles são metafisicamente independentes porque sua existência não depende da nossa existência. Essa independência confere a tais objetos realidade, os apresenta como reais. Dai o termo "realismo".

Em suma, de acordo com o realismo ingênuo, a percepção apresenta o mundo à mente através da consciência de objetos ordinários existentes, independentes da mente e presentes. Essas características da percepção são experimentadas não apenas na percepção verídica, ou seja, na percepção em que a aparência do objeto ordinário o apresenta tal como de fato é, mas também na percepção ilusória e na alucinação, que não é um tipo de percepção. Uma percepção é verídica quando nela o objeto ordinário parece ter uma propriedade que ele de fato tem. Uma percepção é ilusória quando nela o objeto ordinário parece ter uma propriedade que ele de fato não tem. Por exemplo: quando mergulhamos a metade de um bastão reto na água em um ângulo não reto, a parte mergulhada do bastão parece estar em um ângulo diferente do ângulo da parte do bastão que está fora da água e o bastão então parece torto ou quebrado. Uma alucinação perceptual ocorre quando temos sensações que parecem ser causadas por um objeto ordinário, mas na verdade não existe nem nunca existiu nenhum objeto causando-as e, por isso, a alucinação não é um tipo de percepção. Tanto na percepção ilusória quanto na alucinação perceptual nós ordinariamente experimentamos as características da percepção verídica: essas experiências parecem ser a consciência de objetos ordinários existentes, independentes da mente e presentes.

O problema da percepção

Há dois argumentos principais contra o realismo ingênuo que se baseiam justamente na natureza da percepção ilusória e da alucinação perceptual: o argumento da percepção e o argumento da alucinação. Ambos os argumentos procuram mostrar que nós nunca temos consciência de objetos ordinários. Esses são argumentos paradoxais e constituem o assim chamado problema da percepção. Eles são argumentos paradoxais porque suas premissas parecem verdadeiras, parecem válidos, mas sua conclusão parece falsa. Nenhum argumento pode ter essas três propriedades.

A primeira premissa do argumento da ilusão é a definição de percepção ilusória.

1i. Uma experiência é uma percepção ilusória se nela um objeto ordinário parece possuir uma propriedade quando de fato esse objeto não possui essa propriedade.

A segunda premissa é uma espécie de explicação do que é, para um objeto ordinário, parecer ser algo que não é; uma explicação do que é a aparência ilusória do objeto ordinário; uma resposta à pergunta "Como, afinal, um objeto ordinário parece ter uma propriedade que de fato não tem?".

2i. Quando um objeto ordinário parece possuir uma propriedade que não possui temos consciência de algo que de fato possui essa propriedade.

Embora o bastão mergulhado na água seja reto e não torto, aquilo de que temos consciência possui a propriedade de ser torto, pois se fôssemos desenhar o que se apresenta à nossa consciência, o desenharíamos torto e não reto, pois essa é a forma daquilo que está no nosso campo visual. Da mesma forma, se fôssemos desenhar um objeto ordinário que tem a forma de uma circunferência mas é visto de uma perspectiva em que ele parece ter a forma de uma elipse, então desenharíamos algo que possui a forma de uma elipse, pois é disso que temos consciência.

Dessas duas premissas podemos extrair a seguinte conclusão:

3i. Portanto, dado que, em uma percepção ilusória, o objeto ordinário não possui a propriedade que o objeto de que temos consciência possui, o objeto de que temos consciência em uma percepção ilusória nunca é um objeto ordinário.

Um mesmo objeto não pode possuir e não possuir uma determinada propriedade ao mesmo tempo. Portanto, a aparência ilusória de um objeto ordinário é um outro objeto (cuja existência, supostamente, foi causada pelo objeto ordinário) que possui a propriedade que o objeto ordinário não possui. Uma nova premissa é acrescentada ao argumento que generaliza a explicação da natureza do objeto do qual temos consciência na percepção ilusória:

4i. A mesma explicação da natureza do objeto do qual temos consciência na percepção ilusória é verdadeira do objeto do qual temos consciência na percepção verídica.

Não há nenhuma razão para pensar que haja uma diferença na explicação da natureza do objeto do qual temos consciência na percepção ilusória e na percepção verídica, pois a única diferença entre as duas é que, na percepção ilusória, aquilo do qual temos consciência possui uma propriedade que o objeto ordinário não possui e na percepção verídica tanto o objeto do qual temos consciência quanto o objeto ordinário possuem a mesma propriedade. Não há razão para pensar que em um caso eles não sejam o mesmo objeto e no outro eles sejam o mesmo objeto. se a percepção de um objeto ordinário ocorre por meio da consciência de um objeto não ordinário na percepção ilusória, o mesmo corre na percepção verídica. Disso podemos concluir o seguinte:

5i. Portanto, o objeto de que temos consciência em uma percepção verídica nunca é um objeto ordinário.

A próxima premissa apenas exaure as possibilidades de tipos de percepção que podemos ter para permitir a conclusão geral final:

6i. Se está percebendo um objeto ordinário, então ou essa percepção é verídica, ou essa percepção é ilusória.

7i. Portanto, em qualquer percepção, nunca estamos consciente de um objeto ordinário.

Essa conclusão é incompatível com o realismo ingênuo, segundo o qual temos consciência de objetos ordinários na percepção. 

O argumento da alucinação é um pouco mais simples que o argumento da ilusão e isso se deve à diferença entre percepção ilusória e alucinação. Uma alucinação ocorre quando temos uma experiência indistinguível da percepção verídica, mas na qual não há nenhum objeto ordinário sendo percebido. Por exemplo: se no campo visual de uma pessoa aparecerem sensações visuais típicas de quem está vendo um rato, mas não há nem nunca houve nenhum rato sendo percebido, então essa pessoa está alucinando um rato. A primeira premissa do argumento da alucinação é a seguinte:

1a. Em uma alucinação perceptual de um objeto ordinário como possuindo uma determinada propriedade, há consciência de algo, mas não há consciência de um objeto ordinário.

Essa premissa se segue da própria definição de "alucinação". Se temos consciência de algo na alucinação perceptual, então é porque é algo que existe na nossa experiência. Mas se não existe nenhum objeto ordinário sendo percebido na alucinação perceptual, então aquilo de que temos consciência na alucinação perceptual não é um objeto ordinário. A premissa seguinte é um análogo da premissa 4i do argumento da ilusão:

2a. A mesma explicação da natureza do objeto do qual temos consciência na alucinação perceptual é verdadeira do objeto do qual temos consciência na percepção verídica.

A justificação de 2a é análoga à justificação de 4i: se a alucinação perceptual de um objeto ordinário é indistinguível de uma percepção verídica de um objeto ordinário e se na alucinação o objeto de que temos consciência não é um objeto ordinário, então não há razão para pensar que na percepção verídica as coisas são diferentes e, portanto, a mesma explicação da natureza do objeto de que temos consciência é verdadeira tanto da alucinação perceptual, quanto da percepção verídica. Essa premissa não implica que não haja diferença entre alucinação e percepção verídica. Ela significa apenas que essa diferença não reside no modo como ambas são experimentadas. Ambas são experimentadas como a consciência de um objeto não ordinário. De 1a e 2a se segue a seguinte conclusão:

3a. Em uma percepção verídica, nunca estamos consciente de um objeto ordinário.

O resultado desses dois argumentos é que aquilo de que temos consciência na percepção verídica, na percepção ilusória e na alucinação, é a mesma espécie de coisa: os dados dos sentidos, a informação vinda dos sentidos, as sensações estruturadas. Elas constituem as aparências dos objetos ordinários, sejam verídicas, sejam ilusórias, sejam alucinatórias. Esse resultado é base de uma teoria  denominada de fenomenalismo, segundo a qual os objetos ordinários, na verdade, são construções feitas a partir de dados dos sentidos. Essa é uma forma de idealismo, uma teoria metafísica segundo a qual os objetos ordinários têm uma natureza mental. Mas as conclusões desses argumentos não implicam logicamente o fenomenalismo. O realismo indireto é justamente a combinação da conclusão desses dois argumentos com tese que objetos ordinários, independentes da mente e não mentais, são indiretamente percebidos por meio da consciência direta dos dados dos sentidos.

A premissa 2a, assim como a premissa 4i do argumento da ilusão, foram contestadas por muitos filósofos. Disjuntivistas são um grupo de teóricos que negam essas premissas. Eles não negam que, do ponto de vista subjetivo, percepções verídicas e alucinações sejam indistinguíveis. Eles negam que isso se deva ao fato de que em ambos os casos se trate do mesmo tipo de experiência. Para os disjuntivistas, portanto, a experiência de perceber um objeto e de alucinar um objeto não são a mesma espécie de experiência: ou a experiência é uma percepção (verídica ou ilusória), ou a experiência é uma alucinação. Por isso a teoria desses filósofos é denominada disjuntivismo

Uma outra forma de criticar a conclusão desses dois argumentos parte de uma reflexão sobre as relações lógicas entre os conceitos de ser e aparência. Como vimos, uma consequência dessa conclusão é aquilo de que temos consciência na percepção são os dados dos sentidos, que constituem as aparências dos objetos ordinários. Isso implica que o modo como os objetos ordinários parecem é epistemicamente anterior ao modo como as coisas são, como se primeiro aprendêssemos como as coisas parecem ser e depois, se possível, aprendemos como elas são. Mas as coisas fossem assim, deveria ser não apenas possível, mas necessário, que aprendêssemos primeiro como usar frases da forma "a parece ser F" (onde "a" é um termo singular e "F" é um termo geral) e, depois, aprendêssemos a usar frases da forma "a é F". Mas isso é impossível. É exatamente o contrário que é necessário. Quando estamos adquirindo a linguagem na infância, primeiro aprendemos a usar frases da forma "a é F" e somente depois disso somos capazes de aprender a usar frases da forma "a parece ser F". Quando somos enganados pela aparência ilusória das coisas, aprendemos que ela podem parecer ser o que de fato não são. O conceito de aparência é logicamente dependente do conceito de ser.


Indução

As percepções justificam proposições empíricas sobre particulares, tal como "Esta montanha tem o cume nevado". Além disso, as proposições que ela justificam são, em geral, sobre o que presentemente percebemos. Mas há uma maneira de obter justificação, por meio da experiência, de proposições empíricas gerais e de proposições sobre o que ocorreu no passado ou no futuro? A indução é, alegadamente, uma forma de justificação inferencial desses tipos de proposições empíricas. 

A indução se difere da dedução justamente porque todas as induções são dedutivamente inválidas. Uma inferência dedutiva válida é uma na qual é impossível premissas verdadeiras e conclusão falsa. Uma inferência indutiva é tal que é sempre possível que suas premissas sejam verdadeiras e a sua conclusão seja falsa. As premissas de uma indução alegadamente justificam a sua conclusão tornando-a mais provável em um grau acima da adivinhação sortuda. As premissas da indução são proposições justificadas por observações perceptuais já feitas e sua conclusão ou é uma proposição sobre o passado, ou uma proposição sobre o futuro ou uma proposição geral. Por exemplo: se todos os gambás fêmeas que observamos possuem marsúpio, então podemos concluir disso que todos os gambás, inclusive aqueles não observados, possuem marsúpio. Mesmo que as premissas dessa inferência sejam todas verdadeiras, a sua conclusão pode ser falsa, embora ela seja, alegadamente, mais provável que uma adivinhação sortuda. Outro exemplo: se todas as vezes que passamos na frente de um portão de uma casa, um cão latiu ara nós, podemos concluir que o cão latirá para nós a próxima vez que passarmos pelo portão. Terceiro exemplo: se todas as observações de incêndios de grandes proporções mostram que eles deixam uma camada de cinza sobre o solo que depois é soterrada e se, em uma investigação geológica em um determinado local, observamos uma camada de cinza soterrada, então podemos concluir que naquele local houve um incêndio.

David Hume formulou um argumento cético contra a indução. Para ele, do ponto de vista epistêmico, há dois tipos de proposições: proposições que descrevem relações entre idéias, que seriam aproximadamente o que Kant chamou de proposições analíticas e as idéias seriam o que Kant chamou de conceitos, e proposições que descrevem fatos. Fatos, nesse caso, são os fatos espaço-temporais. Tais fatos são conhecidos por meio da experiência. Portanto, as proposições que descrevem fatos são empíricas. As proposições que descrevem relações entre idéias são a priori. Hume acredita que induções justificam suas conclusões apenas se um princípio suposto por todas elas for justificado. Segundo esse princípio, que chamarei de princípio da regularidade, a natureza se comporta de modo regular, de tal forma que uma regularidade observada no passado se repetirá nas observações futuras. Esse princípio ou é uma proposição sobre relações entre idéias, e portanto, é justificada a priori, ou é uma proposição sobre um fato e é justificado por meio da experiência. Ela não é uma proposição sobre relações entre idéias. A idéia de regularidade não está contida na idéia de natureza. Não há nenhuma contradição em se pensar que uma regularidade observada não se repetirá na próxima observação. Logo, esse princípio não pode ser justificado a priori. Só resta examinar se esse princípio é uma proposição sobre um fato e, portanto, é justificado por meio da experiência. Ocorre que ele é uma generalização sobre a natureza e, se for justificado por meio da experiência, deve ser justificado por meio de uma indução. Mas se tentarmos justificar esse princípio por meio de uma indução, então essa justificação é uma inferência circular. Uma inferência circular é uma que ou contém a conclusão entre as suas premissas ou ao menos uma de suas premissas é supõe a verdade da conclusão. O problema de uma inferência circular é que, embora válida, ela não justifica a sua conclusão, justamente por ser circular.[5] Exemplo: Deus existe porque é isso que está dito na Bíblia e o que é dito na Bíblia é verdadeiro porque ela foi escrita com inspiração divina. A conclusão que Deus existe, nessa inferência, é justificada por uma proposição que supõe que Deus existe. Analogamente, ao tentar justificar o princípio da regularidade por meio de uma indução, estaremos tentando justificar por meio de uma indução um princípio que é suposto por toda indução, inclusive essa que se apresenta como justificação daquele princípio. Portanto, essa indução supõem a verdade do princípio que está tentando justificar. Disso se segue que não podemos mostrar, por meio da experiência, que as induções justificam suas conclusões. Logo, não podemos mostrar de modo algum que as induções justificam suas conclusões. Essa conclusão torna o argumento de Hume paradoxal e, portanto, um problema. Parece difícil de aceitar que, em última análise, nossas proposições empíricas não sejam justificadas pela indução. Hume apresenta uma solução cética para esse problema. Uma solução cética é aquela que parte da aceitação do argumento cético, mas procura dissipar o nosso desconforto com a sua conclusão. A solução de Hume consiste em dizer que nossas induções como produto do hábito de esperar que as regularidades percebidas se repitam. Sendo assim, embora não haja razões teóricas para acreditar que as induções justifiquem suas conclusões, temos razões pragmáticas para seguir fazendo induções: suas conclusões estão de acordo com a nossa prática de fazer induções que se baseiam na percepção de regularidades. Qualquer outra alternativa a elas seria pura especulação arbitrária. Mas essa solução cética de Hume é geralmente criticada por confundir a questão sobre a justificação da indução com a questão sobre a origem da indução.

Alguns filósofos acreditam que, embora seja circular, a circularidade da indução que visa justificar o princípio da regularidade não é viciosa. A indução seria uma circularidade viciosa apenas se a sua conclusão figurasse entre suas premissas, de forma implícita ou explícita. Mas o princípio da regularidade não é uma premissa da indução e sim uma espécie de regra de inferência. Exigir que uma regra de inferência figure como premissa de uma inferência do qual ela é regra implica o paradoxo de Lewis Carroll: cada vez que adicionamos uma regra de inferência à inferência, geramos uma nova inferência cuja regra deve ser adicionada à inferência, e assim por diante, ad infinitum. Isso implicaria que toda inferência tem infinitas premissas e que, portanto, nenhuma inferência poderia ser finalizada. Todavia, essa defesa da justificação da indução pela indução (uma meta-indução) seria bem sucedida apenas se a aceitação dessa justificação não dependesse de uma aceitação prévia de sua conclusão, não importando o quão ilegítimo seja exigir que essa conclusão figure como premissa dessa inferência. E a aceitação dessa justificação de fato depende de uma aceitação prévia de sua conclusão.

Um outro problema relacionado à indução surge quando pensamos a relação entre as premissas de uma indução e sua conclusão como tendo uma natureza puramente formal. Esse problema chama-se paradoxo dos corvos. Se o que confirma uma tese geral, e, portanto, justifica essa tese, são suas instâncias, então o que justifica sua contrapositiva também justifica a tese, pois essa contrapositiva é logicamente equivalente à tese. Por exemplo: as instâncias de "Todo corvo é preto" são "Esse corvo é preto", "Aquele corvo é preto", etc.; a contrapositiva dessa tese é "Tudo que não é preto não é corvo"; uma instância dessa última tese é "Essa maçã é verde", pois, essa maçã verde não é preta e não é um corvo; portanto, o fato que essa maçã é verde confirma a tese que todos os corvos são pretos. Mas isso parece completamente contra-intuitivo. Como o fato de que uma maçã é verde poderia justificar a tese que todo corvo é preto? O que maçãs verdes têm a ver com a cor dos corvos?

Nelson Goodman acredita que o problema de Hume, que ele chama de velho enigma da indução, pode ser dissolvido, embora um novo problema surja depois disso, que ele chama de novo enigma da indução. A dissolução desse problema ocorre quando se faz uma analogia entre a justificação da indução e a justificação da dedução. A dedução é justificada por meio de um equilíbrio entre as regras para uma dedução válida e nossa prática dedutiva, a prática de aceitar deduções como válidas e de rejeitar deduções como inválidas. Se uma regra para dedução permite que façamos inferências que nossa prática dedutiva rejeita, então rejeitamos essa regra. Por outro lado, rejeitamos deduções feitas em desacordo com regras de dedução bem estabelecidas. Segundo Goodman, o mesmo se aplica às regras da indução e à prática indutiva. Hume não teria confundido a questão sobre a justificação da indução com uma questão sobre sua gênese. Ele teria pensado que a questão sobre a justificação da indução somente seria entendida corretamente em conexão com a questão sobre sua gênese. Mas Goodman acredita que dissolver o problema de Hume não resolve todos os problemas. É necessário determinar as regras para uma boa indução tão precisamente quanto possível, tal como são determinadas as regras para uma boa dedução. Hempel teria iniciado esse trabalho primeiramente formulado a tarefa em termos da relação de confirmação entre as instâncias confirmadoras de uma tese e essa tese. Como vimos, o projeto de Hempel enfrenta o paradoxo dos corvos. Mas mesmo que esse paradoxo seja solucionado por meio de critérios de relevância daquilo que é uma instância confirmadora de uma tese, Goodman apresenta seu novo enigma da indução como um problema residual. Esse problema mostraria a nossa dificuldade de se diferenciar generalizações arbitrárias e generalizações legaliformes (que tenham o caráter de leis). 

Para formular seu enigma, Goodman introduz dois conceitos peculiares: o conceito de verdul (grue) é o conceito de azuerde (bleen).

x é verdul = x é observado antes do tempo t e é verde ou x é observado depois de t e é azul.

Agora consideremos as seguintes teses:

(1) Todas as esmeraldas são verdes.

(2) Todas as esmeraldas são verduis.

Essas teses são incompatíveis, ou seja, não é possível que sejam ambas verdadeiras. Todavia, todas as observações feitas até t que confirmam a tese (1) confirmam também a tese (2). Portanto, essas observações também confirmam as seguintes previsões:

(p1) A próxima esmeralda observada depois de t será verde.

(p2) A próxima esmeralda observada depois de t é verdul.

Uma esmeralda verde observada depois de t é verde, mas uma esmeralda verdul observada depois de t é azul. Entretanto, ambas as previsões são igualmente confirmadas pelas observações feitas antes de t.

Esse problema mostra que a escolha de predicados é importante para se fazer induções aceitáveis. Embora (p2) seja confirmada pelas observações anteriores a t, essa não é uma indução aceitável, pois (p2) é uma tese que contém um predicado definido arbitrariamente, envolvendo uma posição temporal aparentemente ilegítima. Predicados a serem usados em induções não podem ter posições temporais ou espaciais e devem ser puramente qualitativo. Todavia, argumenta Goodman, essa posicionalidade do predicado "grue" é relativa à linguagem com que se faz induções. Para ver isso, consideremos a seguinte definição

x é azuerde = x é observado antes de t e é azul ou x não é observado e é verde 

Se os predicados primitivos da nossa linguagem fossem "verdul" e "azuerde", então os predicados "verde" e "azul" seriam posicionais.

x é verde = x é observado antes de t e é verdul ou x não é observado e é azuerde.

x é azul = x é observado antes de t e é azuerde ou x não é observado e é verdul.

Não podemos rejeitar "verdul" e "azuerde" devido a sua posicionalidade porque isso implicaria rejeitar "verde" e "azul" devido a sua posicionalidade caso "verdul" e "azuerde" fossem nossos predicados primitivos. Sendo assim, parece não haver nenhum critério semântico ou sintático para diferenciar os predicados projetáveis, ou seja, úteis para se fazer induções, dos não-projetáveis.


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[1] Leibniz distinguia proposições que são verdades de razão (a priori) de proposições que são verdades de fato (a posteriori) e Hume distinguia proposições que descreviam relações entre idéias (a priori) e proposições que descreviam fatos (matters of fact).

[2] Veremos que há filósofos empiristas que argumentam contra a existência de proposições a priori. Veremos também o que significa ser empirista.

[3] Para uma exposição mais detalhada da elucidação das modalidades aléticas a partir do conceito de mundo possível, ver essa postagem.

[4] Mas aqui há um problema relacionado a esse caso. Algumas estrelas que são vistas no céu à noite de fato não existem mais. O que vemos é a luz que elas emitiram quando ainda existiam e que viajou uma distância colossal até atingir nossos olhos. Parece que percebemos essas estrelas, pois a visão dessas estrelas se dá como a visão de objetos próximos, sendo a única diferença o fato que a luz emitida pela estrela demora muito mais tempo para atingir nossos olhos que a luz emitida ou refletida por objetos próximos. Mas em que sentido um objeto que não existe mais está presente? Parece que o melhor seria dizer que a percepção não exige a presença do que é percebido, mas que aquilo que é percebido afete os nossos sentidos. A diferença entre esse caso e as percepções de objetos próximos, no que tange a como a percepção ocorre, é apenas de grau. A luz que objetos próximos refletem ou emitem leva tão pouco tempo para atingir nossos olhos que parece não levar tempo algum. Um caso intermediário seria o do Sol. Sua luz leva oito minutos para chegar à Terra e, portanto, aos nossos olhos. Por isso, quando vemos o pôr-do-sol no seu último minuto, o Sol, na verdade, já está abaixo do horizonte há sete minutos.

[5] A inferência "P; logo P" é válida, pois é impossível que sua premissa seja verdadeira e sua conclusão seja falsa, pois a premissa e a conclusão são a mesma proposição. Mas uma proposição não pode justificar inferencialmente a si mesma.



segunda-feira, 15 de junho de 2020

Feminismo e liberdade

"Minhas roupas não são meu consentimento"

O feminismo é uma luta árdua contra o machismo estrutural da sociedade. Mas uma coisa que contribuir para a dificuldade dessa luta é a educação machista recebida por homens e mulheres, especialmente no que diz respeito ao comportamento sexual. Aos homens é dada uma liberdade sexual quase ilimitada, desde que seja heterossexual, claro. Sua iniciação sexual é cobrada ou, no mínimo, tolerada por quase todos, desde que seja heterossexual, claro. Estimula-se que o número de parceiras sexuais seja o maior possível. Se um homem conseguir transar com duas mulheres na mesma noite, ele é um herói. Se ele transar com duas mulheres ao mesmo tempo, então ergue-se uma estátua para ele. Os homens não são estimulados a serem discretos sobre suas aventuras sexuais. Vangloriarem-se de suas conquistas é, no mínimo, tolerado, mas, frequentemente, aplaudido, principalmente por outros homens. Homens podem andar sem camisa na rua, mostrado seus mamilos. Isso pode ser considerado de mau gosto, mas nunca imoral, muito menos em uma praia.

Tudo é o contrário quando se trata do comportamento sexual das mulheres. As mulheres, segundo a educação machista, nem devem ter comportamento sexual antes do casamento. Elas devem se preservar para o futuro marido, porque a maior parte dos homens prefere uma mulher virgem. Essa exigência já exclui a possibilidade de as mulheres terem vários parceiros sexuais e, muito mais, de transarem com mais de um homem ao mesmo tempo, o que exclui a possibilidade de um relacionamento aberto ou de poliamor. Uma mulheres "decente" nunca faria isso. A discrição sobre a sua vida sexual é cobrada da mulher apenas quando ela começa sua vida sexual no casamento. A mulher é estimulada a ser passiva, a não tomar a iniciativa, porque senão pode revelar alguma tendência a um comportamento sexual considerado impróprio para as mulheres "decentes". As mulheres não apenas não podem sair de peito nu na rua, nem na praia, como devem usar sutiã de bojo, para que seus mamilos entumecidos não sejam perceptíveis por debaixo da roupa. Mulheres que se vestem de forma ousada, com roupas justas, mostrando boa parte do corpo e sem sutiã são consideradas como mulheres que estão "provocando" os homens, passando a clara mensagem de que estão procurando sexo. Se forem estupradas usando essas roupas, muitos homens dirão que a culpa é da vítima, por estar vestida daquele jeito "indecente", como "vadia" ou "puta".[1] Aquelas mulheres que se rebelam contra a educação machista  e adotam padrões de comportamento considerados indecentes, de vadia ou putas, são aquelas que servem justamente para que os homens percam sua virgindade e para que eles possam aumentar o seu número de aventuras sexuais. São mulheres "para se divertir", por oposição às mulheres que aderem à educação machista, que são "para casar".[2] Isso está relacionado a outro aspecto da educação machista: ela ensina a mulher a não dissociar sexo de amor, incutindo a idéia de que sexo casual, por puro prazer físico, é uma coisa moralmente condenável, que nenhuma mulher decente faria. Os homens, pelo contrário, podem se divertir com as "vadias" ou "putas" e são estimulados a não criarem vínculos afetivos com elas.

Essa educação machista não tem outro objetivo que não seja controlar o comportamento sexual das mulheres, enquanto concede liberdade quase ilimitada aos homens. Para esse tipo de educação, o prazer sexual do homem é prioritário, na melhor das hipóteses, e o único que merece consideração, na pior. Essa educação machista não possui nenhum fundamento moral justificado. Os homens não possuem nenhum privilégio moral para terem direito a comportamentos sexuais que as mulheres não tenham. Por isso, algumas feministas defendem que a liberação sexual das mulheres é uma forma de libertar-se dessa injustificável educação machista e empoderar as mulheres. Lutar pela liberação sexual das mulheres seria lutar para que a sociedade reconheça que as mulheres têm liberdade para agir sexualmente do modo que elas quiserem, desde que não firam regras morais justificáveis. Isso não significa que uma mulher sexualmente liberada é obrigada a transar com todos os homens que encontra, ou que ela não possa abster-se temporariamente ou permanentemente de sexo. Ela pode, desde que isso não seja porque ainda está presa, inconscientemente, à educação machista. A libertação da educação machista também desobriga a mulher a fazer sexo apenas quando ela ama seu parceiro sexual.

Todavia, há controvérsia entre as feministas. Algumas delas argumentam que a liberação sexual das mulheres não deve ser incentivada, porque beneficia principalmente os homens que, dessas forma, terão sexo mais facilmente. Algumas chegam ao extremo de defender que mulheres heterossexuais deveriam cultivar abstinência sexual, porque dar prazer sexual aos homens seria moralmente errado e porque o lesbianismo seria a "consequência lógica" do feminismo.[3] Esse tipo de feminismo tem embasado críticas a artistas mulheres que usam a sua própria sensualidade para promover a liberação sexual das mulheres, exibindo, no seu trabalho, um comportamento condenado pela educação machista por ser "vulgar", "promíscuo", "indecente". Essas críticas se resumem a afirmar que o trabalho dessas artistas contribui para a exploração das mulheres a partir de sua excessiva sexualização, na medida em que a indústria cultural, predominantemente machista, lucra com essa exploração. A estratégia dessa forma de argumentação é fazer uma analogia, implícita ou explícita, entre o trabalho dessas artistas e o das prostitutas ou atrizes pornô. A prostituição e a indústria pornográfica exploram sexualmente as mulheres de forma análoga a que a indústria cultural explora aquelas artistas.

Creio que esse feminismo que condena a promoção da liberação sexual das mulheres é completamente infundado e que seus argumentos são falaciosos. Creio que esse tipo de feminismo, embora bem intencionado, provavelmente é uma forma de permanecer inconscientemente preso à educação machista por meio de uma racionalização.

Para começar, é falso que os principais beneficiados com a liberação sexual das mulheres seriam os homens. É claro que com mais mulheres dispostas a transar com homens, suas chances de transar com mais frequência aumentam. Mas as mais beneficiadas com essa liberação são, por três razões principais, as próprias mulheres. A primeira razão é que, se se tornarem sexualmente liberadas, elas conquistam um bem muito mais precioso que o sexo adicional que os homens conseguirão: a liberdade. A segunda razão é que as mulheres gozarão (sem trocadilhos) dos benefícios físicos e psicológicos de uma vida sexual ativa.[4] A terceira razão pode ser didaticamente explicada por meio de um experimento de pensamento. Imagine que todas as mulheres, ou a grande maioria delas se tornem sexualmente liberadas. Essa situação teria uma consequência importante: haveria uma normalização do comportamento sexual liberal da mulher, o que seria um grande benefício para as mulheres. Isso aconteceria porque os homens não poderiam mais dividir as mulheres entre aquelas que são "para se divertir" e aquelas que são "para casar", se não quiserem ficar sem casamento. No caso de quererem criar uma relação amorosa com mulheres, eles teriam de fazê-lo com mulheres sexualmente liberadas. Mulheres sexualmente liberadas seriam o novo normal.

Quanto à analogia entre exploração das artistas pela indústria cultural e a exploração sexual das mulheres pela prostituição e pela indústria pornográfica, trata-se de uma falsa analogia. Em primeiro lugar, o capitalismo explora qualquer coisa cuja venda gere lucro, independentemente de ideologia. Um exemplo bem didático são as empresas que vendem carne e, não obstante, também oferecem produtos veganos. Portanto, a exploração da sensualidade feminina na indústria cultural é apenas mais um caso de exploração dentro do sistema capitalista. Isso não justifica essa exploração, claro. O ponto é que não há nada de especial nesse caso de exploração. Mas trata-se exploração da sensualidade dessas mulheres, alguém poderia dizer. Sim, a indústria cultural lucra com isso. Mas estas artistas e as mulheres em geral também se beneficiam com esse uso da sensualidade, e, mais importante, não apenas financeiramente, justamente por estarem engajadas em uma causa anti-machista. Se a mensagem do seu trabalho for bem entendida e causar o efeito desejado, a saber, a liberação sexual das mulheres, então essas artistas e as mulheres em geral obtêm um ganho moral por meio do sistema capitalista. Isso não é um elogio do capitalismo. O ponto é que pode-se usar o sistema, a indústria cultural predominantemente machista, contra ele mesmo. Essa é a diferença entre o caso dessas artistas e o caso das atrizes pornô e das prostitutas: essas últimas não usam seu trabalho para promover uma causa anti-machista. Seja como for, não consigo ver nenhum erro moral em se usar a própria sensualidade para ganhar dinheiro. Isso acontece todo tempo no cinema, por exemplo. Personagens sensuais são interpretados por atores e atrizes sensuais, que ganham dinheiro para isso. O trabalho daquelas artistas engajadas está muito mais próximo de um trabalho dramatúrgico do que do trabalho de prostitutas e atrizes pornô.

Durante muito tempo, racistas e homofóbicos usaram as palavras para insultar negros ("crioulo") e homossexuais ("bicha", "veado"). Mas negros e homossexuais encontraram uma maneira engenhosa de afirmação da sua identidade social: eles se apropriaram dessas palavras, usando-as para referirem-se uns aos outros, mas com uma conotação positiva. Essas palavras, depois de ressignificadas, passaram a expressar o orgulho de ser aquilo que os insultadores viam como motivo de vergonha.[5] Creio que está mais do que na hora de as mulheres se apropriarem de palavras que são usadas para insultá-las, tal como "puta", e ressignificá-las para expressar o orgulho de serem sexualmente livres.

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[1] Para quem não sabe, a Marcha das Vadias foi um movimento que surgiu em 2011, no Canadá, em protesto contra o comentário de um policial canadense sobre casos de estupro na Universidade de Toronto. Ele disse que as mulheres evitariam esses estupros de não se vestissem como vadias (sluts, em inglês). Na marcha, as mulheres se vestem de forma ousada, com roupas íntimas ou com os peitos nus.

[2] Há um ditado machista muito difundido entre os homens: "Enquanto não encontro a mulher certa, eu me divirto com as erradas".

[3] Ver o artigo da Wikipédia Lesbian Feminism.

[4] Há vários artigos confiáveis que mostram isso. Eis aqui uma lista de exemplos.

[5] Ver este artigo da Wikipédia, para o exemplo da palavra "queer", do inglês.


quarta-feira, 10 de junho de 2020

Meritocracia e desiguladade

George Floyd e seu algoz ajoelhado sobre seu pescoço

As instituições públicas preenchem vagas de emprego por meio de concursos públicos. Elas fazem isso para selecionar o melhor profissional que se interessar pela vaga. Os critérios, nesse caso, para se determinar qual é o melhor profissional são o currículo do candidato (que mostra a formação e trabalho desenvolvido pelo candidato) e seu desempenho nas provas e entrevista do concurso. Parece razoável dizer que, se o concurso não possui nenhum vício, aquele que tem melhor currículo e o melhor desempenho é o que merece a vaga, pois é o melhor profissional entre os candidatos de acordo com os critérios de seleção. Quem merece algo é aquele quem tem mérito. Mérito ou merecimento é algo que admite graus. Isso significa que embora os candidatos em um concurso que não tiveram o melhor currículo e o melhor desempenho não tenham o mesmo mérito do melhor candidato, alguns deles algumas vezes têm mérito, só que menor que o mérito do melhor. Esses outros candidatos também têm um bom currículo e um bom desempenho no concurso, só que pior que o do melhor. O mérito de uma pessoa geralmente inclui sua inteligência, sua formação, seu desempenho e, em alguns casos, sua capacidade de relacionar bem com as pessoas, sua capacidade de liderar, de estimular os colegas, de resolver problemas, etc. A tese segundo a qual os cargos públicos e privados, bem como vagas limitadas em instituições de ensino públicos e privados, devem ser ocupados por quem tem mais mérito chama-se meritocracia.

Todavia, a tese da meritocracia é geralmente acompanhada de uma outra de cunho socioeconômico: um indivíduo tem mérito apenas se não tiver nenhuma ajuda da família ou amigos e, principalmente, do estado. Um pai que emprega um filho apenas porque ele é filho, por exemplo, e não porque ele é o mais capacitado para exercer o cargo que ele conhece, não estaria agindo de acordo com a tese da meritocracia. Um agente público que emprega uma pessoa em uma instituição pública apenas porque ela é sua amiga, por exemplo, e não porque ela seja a mais capacitada para exercer o cargo que ele conhece, tampouco estaria agindo de acordo com a tese da meritocracia. Esses dois exemplos não parecem consequências problemáticas da tese da meritocracia. Todavia, há consequências bastante problemáticas dessa tese. Uma delas é a sua total incompatibilidade com qualquer política de cotas e leis que beneficiem classes sociais desfavorecidas por desigualdades sociais. As costas são mecanismos criados pelo estado com o objetivo de diminuir as desigualdades sociais. Por exemplo: as cotas raciais em universidades públicas do Brasil são criadas com o objetivo de compensar o racismo estrutural na sociedade brasileira que vem prejudicando as pessoas negras desde o início da escravidão até hoje. O racismo é a crença (infundada) que as pessoas negras são intelectual e moralmente inferiores às pessoas não-negras, principalmente às brancas. O racismo pode ser velado ou explícito, consciente ou inconsciente.[1] O racismo é estrutural, o que significa que eles está entranhado nas instituições da nossa sociedade, públicas e privadas. O racismo dificulta enormemente a ascensão social das pessoas negras, isto é, sua subida para uma classe social superior. Pessoas brancas não sofre racismo e, por isso, não enfrentam essa dificuldade e, por isso, possuem a vida facilitada nesse aspecto.

Essa diferença entre negros e não-negros é um exemplo do que se costuma chamar de desigualdade social. Mas ela não é a única. Há desigualdade entre homens e mulheres, entre heterossexuais e não-heterossexuais, entre pobres e ricos, etc. A desigualdade entre homens e mulheres ocorre por causa do machismo, a crença (infundada) de que os homens têm privilégios morais e sociais em relação às mulheres, tal como, por exemplo, ter um comportamento sexual que é negado às mulheres, ou como ter um salário maior que o das mulheres, mesmo realizando a mesma função e a com a mesma competência. A desigualdade entre heterossexuais e não-heterossexuais ocorre por causa da LGBTfobia. A LGBTfobia é a aversão (infundada) a qualquer comportamento sexual que não seja o heterossexual, que seria o único moralmente correto. A desigualdade social entre pobres e ricos tem várias causas: a exploração do trabalho dos pobres, a dificuldade dos pobres, justamente por causa da pobreza, de investir em uma boa formação e a crença (infundada) de que os pobres são pobres apenas porque não se esforçam o suficiente para sairem da condição de pobreza.

Essas desigualdades dificultam a ascensão social de negros, mulheres, LGBTs e pobres. Imagine as dificuldades que enfrenta uma mulher negra lésbica e pobre que um homem branco e heterossexual e rico não enfrenta. Isso suscita as seguintes questões: na suposição de que uma mulher negra lésbica e pobre tenha tido o mesmo desempenho em um concurso e o mesmo currículo que um homem branco rico e heterossexual, ambos possuem o mesmo mérito? Não parece contra-intuitivo dizer ambos têm o mesmo mérito, dado que a mulher enfrentou muito mais dificuldades e, por isso, realizou um esforço muito maior para conseguir ter o mesmo currículo e o mesmo desempenho no concurso que o homem? Se o esforço da mulher foi maior, não é provável que ela teria um currículo melhor e um desempenho melhor que o do homem se tivesse a vida facilitada que ele tem?

A consideração das desigualdades sociais nos força a reconsiderar nossos critérios de merecimento, de mérito, na disputa por vagas de emprego e de estudo. O mérito não pode ser medido apenas pelo currículo e desempenho em provas e entrevistas, salvo se não houver abissais desigualdades sociais. As desigualdades sociais colocam classes sociais em grande desvantagem na disputa por vagas de emprego e estudo e isso não é justo. Não é justo que uma pessoa tenha essas desvantagens devido a algo que ela não escolheu, a saber, o seu fenótipo (negro), seu sexo (mulher), sua orientação sexual (não-heterossexual) e seus pais (pobres). Por isso, as instituições da sociedade, tanto públicas quanto privadas, deveriam criar meios para diminuir a desigualdade social. Somente com essa diminuição da desigualdade social é que as seleções para o preenchimento de vagas de empregos e estudos baseadas no mérito serão socialmente justas. Essas considerações sobre a justiça social mostram que a tese da meritocracia implica injustiça social, pois os meios para se tentar diminuir as desigualdades sociais são uma espécie de ajuda que se dá às classes sociais prejudicadas por essas desigualdades, o que é incompatível com a tese da meritocracia. Mas essa ajuda não deveria ser vista como um privilégio, pois ela visa justamente contrabalançar os privilégios que as classes favorecidas pela desigualdade possuem e, assim, diminuir a diferença de oportunidades na sociedade para promover a justiça social.

As instituições privadas geralmente, embora não necessariamente, defendem a tese da meritocracia que, como acabamos de ver, implica injustiça social. Por isso, a melhor maneira de garantir uma política sistemática e contínua de combate às desigualdades sociais é por meio de ações públicas do estado. Essas ações incluem cotas (raciais, sociais, para deficientes, etc.), tanto de empregos quanto de estudos, programas sociais (de distribuição de renda, de transporte, de moradia), a oferta de serviços gratuitos, tal como educação e saúde, a concessão de direitos, tal como salário mínimo, licença maternidade, férias remuneradas e auxílios e a criação de leis que punam ações motivadas pelas crenças infundadas que geram as desigualdades sociais. Essas ações do estado, é claro, possuem um custo, que deve ser coberto, em parte, pelo dinheiro dos impostos e, em parte, pelo capital privado.


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[1] Há estudos que mostram que até mesmo pessoas negras podem ser inconscientemente racistas. Veja aqui.




quarta-feira, 8 de abril de 2020

Ética da crença, acrasia epistêmica, pensamento enviesado e fake news


Há uma série de condições epistêmicas que devemos satisfazer para obter crença justificada ou conhecimento. Mas e se não quisermos obter conhecimento ou crença justificada? Há algo de errado nisso? Alguém poderia acreditar que é assunto privado querer ou não querer obter conhecimento ou crença justificada; que deve ficar a critério de cada um querer ou não querer obter conhecimento ou crença justificada; que não podemos exigir ou obrigar as pessoas a obterem conhecimento ou crença justificada. Todavia, uma reflexão sobre a relação entre nossas crenças, nossas ações e suas consequências mostra que está longe de óbvio, para dizer o mínimo, que querer ou não querer obter conhecimento ou crença justificada seja um assunto privado. Primeiramente, vejamos a relação entre nossas crenças e nossas ações.

Imagine que um cão está perseguindo velozmente um coelho em uma trilha na floresta.[1] O cão perde o coelho de vista e, de repente, a trilha se trifurca. O cão então entra mais lentamente na trilha da direita farejando, tentando recuperar o rastro de odor do coelho. Depois de uma dezena de metros ele desiste, por não encontrar o rastro, volta e se embrenha na trilha do meio. Novamente, depois de uma dezena de metros ele desiste, por não encontrar o rastro, volta e, então, sai em disparada na trilha restante da esquerda.

Esse comportamento é a expressão de uma inferência: o silogismo disjuntivo. Sua inferência foi a seguinte:
Ou o coelho tomou a trilha da direita, ou o coelho tomou a trilha do centro, ou o coelho tomou a trilha da esquerda.
O coelho não tomou a trilha da direita.
O coelho não tomou a trilha do meio.
Logo, o coelho tomou a trilha da esquerda. 
Por meio dessa inferência o cão adquiriu a crença de que o coelho tomou a trilha da esquerda. E essa crença então orientou a sua ação: ele saiu em disparada na trilha da esquerda. Isso é o que primeiramente nos interessa: crenças orientam nossas ações; decidimos o que fazer com base no que acreditamos. Também decidimos o que fazer com base no que queremos, nos nossos desejos. Se acreditamos que dois fios desencapados estão eletrificado, se acreditamos que tocando esses fios podemos receber uma descarga elétrica que pode ou nos ferir gravemente ou nos matar e se queremos permanecer vivos e sadios, então decidimos evitar tocar esse fios. Mas se desejamos morrer, então talvez decidamos tocar esses fios. Seja como for, parte do que orienta nossas ações são nossas crenças e nossos desejos.

No caso do cão acima, sua crença foi adquirida por meio de uma inferência. Se a inferência tiver premissas verdadeiras e se for válida ou se, mesmo não sendo válida, suas premissas fornecerem forte evidência para sua conclusão, então ela justifica essa crença, ou seja, garante em algum grau que ela seja verdadeira, com uma probabilidade de acerto acima de uma adivinhação sortuda. Isso aumenta a probabilidade de que o cão encontre o coelho, que é seu objetivo. Se o cão quisesse escolher uma das três trilhas aleatoriamente, sem raciocinar, sem justificação, parece que o único prejudicado seria ele, se ele tivesse má sorte. Mas vejamos um outro exemplo para ver que isso quase nunca é o caso.

Imagine que João seja dono de uma embarcação que transporta pessoas por um rio e está prestes a partir para mais uma viagem.[2] A embarcação está há um bom tempo bastante desgastada pelo uso e precisa de reparos, embora ainda seja navegável. Portanto, a probabilidade de que haja algum problema com a embarcação durante a viagem que esta prestes a começar não é pequena. João sabe disso, mas ele procura se convencer de nada de mal irá acontecer na viagem, pensando que a embarcação já fez viagens naquele estado e nada aconteceu e que ele era uma pessoa que tinha fé em Deus e que Ele, por isso, não permitiria que algo de mal acontecesse com a embarcação. A embarcação naufraga e muitas pessoas morrem. A crença de João que nada de mal aconteceria com a embarcação não apenas não era justificada pelos fatos conhecidos sobre a embarcação como foi obtida por meio falácia do apelo à esperança, que é também um tipo de racionalização, um mecanismo psicológico de defesa que procura dar a falsa aparência da racionalidade a uma crença não-racional. Essa crença orientou a ação de João de autorizar a viagem com a embarcação e essa ação teve como consequência o naufrágio do navio e a morte de vários passageiros. Por isso, João é responsável pelo acidente e pelas mortes. Sua crença injustificada revelou-se falsa e a sua ação baseada nessa crença teve consequências fatais para outras pessoas.

Agora imagine um novo desfecho para a história: a embarcação não naufraga, nada de mal acontece e a viagem chega ao seu final sem problemas, com todos a salvo. Alguns poderiam pensar que, nesse novo desfecho, João não é responsável por nada de errado. Afinal, a viagem transcorreu sem nenhum problema. Todavia, a crença de João, o modo como ela foi obtida e a ação baseada nessa crença são exatamente as mesmas. Portanto, probabilidade de que ocorresse um acidente era exatamente a mesma. A única diferença é que, no segundo desfecho, por pura sorte, a crença de João se revela verdadeira. Sendo assim, mesmo não tendo as consequências fatais que teve no primeiro desfecho, a crença de João foi obtida de uma maneira igualmente injustificada, e ao agir baseando-se nessa crença, ele assumiu um grande risco de causar a morte de outras pessoas. Por isso, sua crença e sua ação são igualmente erradas nas duas versões da história. As consequências reais de sua crença e de sua ação são irrelevantes para se determinar se elas são acertadas ou erradas. Dado que os fatos conhecidos sobre a embarcação indicam uma considerável probabilidade de consequências ruins da crença e ação de João, o correto seria formar uma crença com base apenas no conhecimento desses fatos.

Esse exemplo mostra que, no processo de obtenção de crenças, há regras que não são apenas regras epistêmicas, mas também morais. Para a obtenção de crenças racionais, devemos seguir a seguinte regra, que podemos chamar de princípio da justificação:
(PJ) Acredite que p se e somente se a crença de que p for justificada. 
Essa regra não é apenas uma regra epistêmica. Ela é também uma regra moral. Temos a obrigação moral, não apenas epistêmica, de seguir essa regra, porque nossas ações são baseadas nas nossas crenças e nossas ações têm consequências para as outras pessoas. Embora possa haver casos em que não seguir essa regra não resulte em prejuízo para outras pessoas, esses casos são exceções. Portanto, é prudente seguir essa regra. Crenças, portanto, não são um assunto puramente privado. Somos responsáveis por nossas crenças serem ou não serem justificadas, por seguirmos ou não seguirmos o princípio da justificação.

A ética da crença é a disciplina filosófica que investiga aquelas regras epistêmicas que também são regras morais que devemos seguir na obtenção, revisão e mudança de crenças. O caráter epistêmico dessas regras determina que crenças obtidas de acordo com elas é racional. Mas a falha em seguir essas regras são de dois tipos que devemos distinguir. Ao falhar na obtenção de crenças racionais, podemos obter crenças que ou são não-racionais, ou são irracionais. Toda crença irracional é não-racional, mas não vice versa. Uma crença não-racional é uma crença não justificada, mas que não é incompatível com crenças racionais (justificadas). Se, por exemplo eu acreditar que há vida inteligente em outro planeta, mesmo não tendo justificação para essa crença, ela não é incompatível com nenhuma crença racional. Uma crença irracional não apenas não é justificada, mas é incompatível com ao menos uma crença racional. O erro epistêmico mais grave, portanto, na falha em ser racional, não é ser não-racional, mas é ser irracional. Quem acredita que a Terra é plana, por exemplo, não apenas tem uma crença não-racional, injustificada, mas tem uma crença que é incompatível como muitas crenças racionais e, portanto, é uma crença irracional.

Voltemos ao exemplo da crença de que há vida inteligente em outro planeta. É difícil imaginar que ações poderiam ser orientadas por essa crença. O que poderíamos fazer com base nela? Talvez quem tenha essa crença vote em políticos que estão dispostos a destinar o dinheiro de impostos à pesquisa que visa descobrir vida inteligente em outros planetas, tal como era uma das pesquisas do famoso físico e divulgador da ciência Carl Sagan. E isso pode ter consequências para as demais pessoas, que, de alguma forma, dependam do dinheiro desses impostos. Isso mostra que, embora seja uma falha menor que ter uma crença irracional, ter uma crença não-racional pode ter consequências problemáticas, se basearmos nossas ações nela.

Um outro tipo de exemplo importante de crença não-racional que pode ter consequências problemáticas são aquelas relativas a acusações de crimes. Em alguns casos, a acusação de crime não possui uma boa justificação. Disso não se segue que haja boa justificação para se acreditar que a pessoa acusada não seja criminosa. Talvez não haja uma boa justificação nem para a crença de que a pessoa seja criminosa, nem pra a crença de que ela não seja criminosa. Nesse caso, o mais racional a ser feito é suspender o juízo. Suspender o juízo é justamente nem acreditar em uma proposição, nem acreditar na sua negação. No sistema jurídico brasileiro, quando isso acontece em relação a uma acusação de crime, a pessoa não é considerada culpada. Mas isso não é o mesmo que ser considerada não-culpada ou inocente. Os agnósticos são aqueles que, com relação à existência de Deus, justamente suspendem o juízo. Eles nem acreditam que Deus existe, nem acreditam que Deus não existe, pois acreditam que não há justificação para nenhuma dessas crenças, que nenhuma delas é uma crença racional.

A possibilidade de se suspender o juízo tem a importante função de evitar que cometamos a falácia do apelo à ignorância. Essa falácia é frequentemente cometida por pessoas de inclinação mística. Algumas delas argumentam mais ou menos assim: “A ciência não tem nenhuma explicação para esse fato. Mas aquela teoria mística fornece uma explicação para esse fato. Portanto devemos acreditar naquela teoria mística.” O que motiva esse místico a cometer essa falácia é, primeiramente, a falsa suposição que, dadas as explicações disponíveis para um determinado fato, uma delas deve ser verdadeira. Se você percebe que existe espaço para a suspensão do juízo diante de uma pergunta, que você pode muito bem dizer, justificadamente, “Não sei”, então você percebe que, às vezes, o mais racional a se fazer é admitir que não há nenhuma resposta justificada a uma determinada pergunta.

Os cientistas em geral são muito mais pacientes na busca de uma resposta justificada a uma pergunta dos que os leigos. Há perguntas científicas que demoram séculos ou milênios para serem respondidas. Os gregos antigos, por exemplo, se colocaram a seguinte pergunta: dado que podemos bi-seccionar um ângulo usando régua e compasso, é possível tri-seccionar um ângulo usando a régua e compasso? A resposta a essa pergunta somente foi obtida aproximadamente dois mil anos depois, em 1837, por meio do matemático francês Pierre Laurent Wantzel, que usou a geometria analítica, criada por René Descartes e Pierre de Fermat em 1630. A geometria analítica não existia na Grécia antiga. Wantzel provou que não é possível tri-seccionar um ângulo usando régua e compasso. A propósito, em 1637, Fermat formulou uma série de conjecturas matemáticas, ou seja, proposições matemáticas que pareciam verdadeiras, mas para as quais não havia nenhuma prova matemática. Essas conjecturas ficaram conhecidas como os teoremas de Fermat. Ao longo do tempo, todos os seus teoremas foram provados, exceto um, que passou a ser chamado de o último teorema de Fermat. Esse teorema foi provado apenas em 1995, pelo matemático inglês Andrew Wiles, 358 anos depois de sua formulação.

A possibilidade de se suspender o juízo não deve ser usada como desculpa para não se esforçar para obter crença justificada. Obter crenças justificadas, em boa parte dos casos, é algo que demanda esforço e trabalho. Mesmo assim, seguir o principio da justificação continua sendo uma obrigação moral. Apenas depois de um esforço para a obtenção de crenças justificadas, ou seja, apenas depois de uma investigação para tentar encontrar uma resposta justificada a uma questão é que a opção de suspender o juízo se torna justificada, caso nenhuma resposta justificada seja encontrada.

A fraqueza da vontade de seguir princípios morais chama-se acrasia. No caso do princípio de justificação, essa acrasia não é apenas moral, mas também epistêmica. Essa acrasia frequentemente ocorre quando o assunto é política. Algumas pessoas, para evitar o esforço necessários para se obter crenças justificadas sobre esse assunto, dizem não se importarem com questões políticas. Estes frequentemente dizem que não há diferença entre quaisquer políticos, que são todos igualmente ruins e prejudiciais para a sociedade. Eles geralmente não votam, ou anulam o voto, ou votam em branco. Entretanto, embora nenhuma comunidade política seja uma comunidade de anjos, está longe de óbvio que todos os políticos sejam igualmente ruins e prejudiciais para a sociedade. A escolha de um partido e de um candidato raramente é a escolha daquilo que é o nosso ideal de partido e de candidato. Em boa parte dos casos trata-se da escolha do menor dos males. Seja como for, nada justifica a acrasia epistêmica em assunto políticos, muito pelo contrário: evadir-se de questões políticas tem consequências para os demais cidadãos tanto quanto engajar-se em projetos políticos: se todos que se evadem mudassem de atitude e se esforçassem para obter crenças justificadas sobre os partidos e políticos, talvez o resultado de uma eleição fosse melhor, mesmo que não fosse o ideal.

Quando se trata de crenças empíricas, sua justificação nunca implica logicamente a verdade da proposição que acreditamos (as inferências não-dedutivas são sempre dedutivamente inválidas). Por isso, algumas vezes ocorre a seguinte desafortunada situação: tudo leva a crer em uma determinada proposição, há abundante justificação para se crer nessa proposição e, por isso, a coisa mais racional a se fazer é crer nessa proposição, embora, de fato, ela seja falsa. Em certas circunstâncias, portanto, por azar epistêmico, o mais racional a se fazer é crer em uma proposição falsa, pois, nessas circunstâncias, a crença nessa proposição está justificada. Vejamos isso por meio de um exemplo: imagine que você saiba que um amigo seu costuma usar um automóvel, guardá-lo na garagem da casa onde ele mora sozinho, mandá-lo para a manutenção, comprar acessórios, pintá-lo, que seu amigo se refira a ele como “meu carro”, que vocês já tenham viajado juntos nesse automóvel e você tenha visto ele mostrar os documentos do automóvel a um policial rodoviário, que você nunca tenha visto outra pessoa dirigir o referido automóvel, etc. Isso tudo parece justificar a crença de que seu amigo é o dono do automóvel. Parece que, diante desses fatos, o mais racional seria crer nessa proposição. Agora imagine que você descubra que o dono do automóvel é o pai do seu amigo. Seu amigo tem apenas o usufruto do automóvel. Situações desse tipo acontecem em investigações criminais, algumas vezes, e inocentes são condenados.

É justamente porque tal situação é possível que devemos estar sempre abertos à revisão de nossas crenças e devemos receber de boa vontade novos argumentos contrários a elas. Eles podem, no fim, se revelarem insuficientes para refutar nossas crenças. Mas, eventualmente, eles podem se revelar suficientes. O cultivo do assim chamado espírito crítico envolve uma atitude crítica não apenas em relação às crenças alheias, mas também às crenças de si. Caso contrário, adquirimos o vício cognitivo que se costuma chamar de pensamento enviesado. O pensamento enviesado consiste na tendência, ou viés (dai o seu nome), a dar atenção e buscar apenas aquilo que justifica as crenças de si, negligenciando tudo mais que ameace refutar as crenças de si. O pensamento enviesado geralmente é acompanhado da falta de caridade interpretativa em relação àquele que apresenta uma crítica negativa às nossas crenças. Mesmo que nos engajemos em um debate com alguém que acredita ter uma refutação de nossas crenças, se não temos caridade interpretativa com o que diz nosso crítico, dificultaremos ao máximo que seu argumento atinja nossa compreensão com a sua máxima força. 

O pensamento enviesado pode ter várias causas. Se, por exemplo, fomos criados entre pessoas que amamos e se tais pessoas, por meio da nossa educação informal, nos transmitiram e alimentaram certas crenças sobre assuntos importantes, como política, religião, costumes, etc., então essas crenças passam a ter um valor sentimental para nós. Isso dificulta muito a revisão de tais crenças, porque dificulta muito considerar a possibilidade de que tais crenças sejam falsas. Revisar essas crenças pode resultar em conflitos com aqueles que amamos. Essa dificuldade para revisar nossas crenças é tão maior quanto mais essas crenças determinarem a nossa identidade social, ou seja, o sentimento de pertencer a um certo grupo social, no qual estão nossos familiares, nossos amigos de infância, etc.. Revisar esse tipo de crença implica a possibilidade de não nos sentirmos mais pertencentes a esse grupo social, que determinava nossa identidade social até então. E isso não é uma mudança fácil, sem sofrimentos, sem atribulações. Por isso, a inércia educacional e social, ou seja a tendência a mantermos aquilo que aprendemos na educação informal e que é reforçado por nosso grupo social é muito grande e, por isso, frequentemente é causa de um pensamento enviesado.

Outra causa do pensamento enviesado é o que se pode chamar de dogmatismo (ou fanatismo) da crença justificada, que é fruto de uma má compreensão da natureza da justificação. O dogmatismo, em um sentido desse termo, é a propriedade daquele que possui dogmas, ou seja, crenças que são mantidas mesmo frente a argumentos e evidências refutadoras. Como vimos, em algumas circunstâncias o mais racional é crer em determinada proposição porque essa crença é, de fato, justificada, mesmo que, por azar, seja falsa. Mas alguns acreditam falsamente que o fato de estarem justificados em ter uma determinada crença implica que essa crença é irrefutável e, portanto, irrevisável. Afinal como poderia ser possível refutar uma crença justificada? É claro que essa falácia gera todo tipo de atitude negativa e resistência em relação a qualquer tentativa de se refutar a crença de si. Mas, como também vimos, uma crença justificada pode se revelar falsa. Por isso, mesmo estando justificado em crer em uma determinada proposição, não devemos jamais abandonar nossa disposição para revisar nossa crença nessa proposição, sob o risco de nos tornarmos dogmáticos com o pensamento enviesado.

O pensamento enviesado pode também ser causado pela vaidade intelectual. Aquele que tem zelo excessivo por suas próprias crenças, que tem dificuldade para reconhecer que está errado, que suas crenças são falsas, por medo de parecer pouco inteligente, esse provavelmente pensará enviesadamente e não aplicará o princípio de caridade. A vaidade intelectual é alimentada pela errônea idéia de que a crítica tem apenas aspectos negativos. Todavia, poucas coisas demonstram mais honestidade intelectual do que a disposição para abandonar uma crença frente a argumentos que a refutam. Além disso, alguns erros somente podem ser cometidos por quem é inteligente o suficiente para, por um lado, compreender certos problemas difíceis de se compreender, devido à sua complexidade, e, por outro, para compreender e propor soluções também difíceis de compreender, pela mesma razão. O fato de que uma pessoa se engana, comete um erro teórico, não implica que essa pessoa não seja inteligente.

Ludwig Wittgenstein, por exemplo, foi um filósofo austríaco que viveu na primeira metade do século XX. Sua obra contém dois livros principais. O segundo livro contém uma crítica severa ao primeiro. Mas ambos os livros foram muito influentes contribuíram para o surgimento de duas escolas filosóficas profícuas, mas, em muitos aspectos, incompatíveis entre si: o positivismo lógico ou empirismo lógico e a filosofia da linguagem ordinária. Esse exemplo mostra que, mesmo que um desses livros contenha erros filosóficos, não foram erros óbvios, elementares, que foram cometidos por falta de inteligência. Muito pelo contrário: ele tornou-se o ponto de partida de uma escola filosófica profícua. Mas se foram erros, foram erros, e, uma vez percebidos, devem, como obrigação moral, ser admitidos.

A acrasia epistêmica e o pensamento enviesado são causas de um fenômeno contemporâneo: a grande difusão de fake news. "Fake news" é um termo inglês que significa notícia falsa ou pseudo-notícia. Os criadores de fake news, por várias razões, mas geralmente políticas, têm a intenção explícita de enganar as pessoas fazendo-as acreditar que certos textos, ou imagens, ou vídeos, ou áudios veiculam notícias confiáveis, quando, de fato, são falsidades. Nos últimos anos, graças ao surgimento e multiplicação das redes sociais e aplicativos de mensagens, a difusão de fake news tem se ampliado e tem influenciado a formação das crenças de boa parte das pessoas, determinando suas decisões políticas e, consequentemente, os resultados de eleições, tanto no Brasil quanto em outros países.

Obter conhecimento é um processo que consome tempo, exige esforço e pode ser frustrante e doloroso. Mas não há terceira alternativa, ou nos engajamos nesse processo, ou temos que contar apenas com a sorte ou acaso para que nossas crenças sejam verdadeiras. Todavia muitos estão simplesmente iludidos que possuem conhecimento. Essa ilusão é parcialmente explicada pela acrasia epistêmica e pelo pensamento enviesado. A acrasia epistêmica faz com que a pessoa não realize o esforço necessário para a aquisição de conhecimento fazendo com que a sua aquisição de crenças não seja realizada por meio dos melhores critérios epistêmicos possíveis. O resultado são crenças injustificadas. O pensamento enviesado reforça essas crenças fazendo com que a pessoa dê atenção apenas àquilo que é favorável às suas crenças e não dê atenção àquilo que que é desfavorável às suas crenças. As fake news têm sua difusão facilitada por essa combinação de acrasia epistêmica e pensamento enviesado. Todavia, como vimos, a acrasia epistêmica é não apenas um erro epistêmico, mas também um erro moral.

A melhor maneira de se combater a acrasia epistêmica e o pensamento enviesado é uma boa educação, informal e formal, que desenvolva o hábito de seguir o princípio da justificação, de receber com boa vontade as críticas honestas às crenças de si, de suspender o juízo quando as investigações não encontram uma resposta justificada a uma pergunta, de ter caridade interpretativa com nosso crítico, de não alimentar a vaidade intelectual, de vencer a inércia educacional e social, enfim, uma educação para as virtudes epistêmicas e morais. Se uma pessoa não recebeu uma tal educação, então é difícil fazê-la abandonas seus vícios epistêmicos e morais, justamente porque esses vícios são como que autoimunes: eles prejudicam justamente a competência epistêmica que alguém deve ter para compreender a situação viciosa em que se encontra.

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[1] Se não me falha a memória, algo semelhante a esse experimento mental é atribuído aos estóicos. Mas não consegui encontrar a referência disso.

[2] Esse experimento mental é, no essencial, o mesmo que Clifford apresentou em seu famoso artigo "A Ética da Crença", cuja discussão deu origem à disciplina filosófica de mesmo nome.