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domingo, 30 de agosto de 2015

Guia do Filósofo Aprendiz na Internet

Criei o blog  Guia do Filósofo Aprendiz na Internet para divulgar informações disponíveis na internet que são importantes para aqueles que estão se iniciando nos estudos filosóficos acadêmicos. Ele está em construção e esse é só o pontapé inicial. A idéia não é ser exaustivo, mas se concentrar no essencial. Comentários, sugestões e críticas são muito bem-vindos. Deixe uma mensagem no livro de visitantes.

sábado, 22 de agosto de 2015

Beneficio moral, benefício instrumental e machismo

Há no mínimo dois sentidos de "benéfico". Em um sentido, moral, "benéfico" é tudo aquilo que promove o bem moral, aquilo que é moralmente o melhor para uma pessoa ou grupo de pessoas. Vou chamar esse de beneficio moral. Noutro sentido, instrumental, "benéfico" é tudo aquilo que facilita que uma pessoa ou grupo de pessoas atinja seus objetivos, realize seus interesses, sejam eles quais forem, bons ou maus. Vou chamar esse de benefício instrumental. 

Dada essas distinção, é falacioso concluir que algo é moralmente benéfico para uma pessoa do fato de ser instrumentalmente benéfico. Uma pessoa pode estar prejudicando a si mesma quando atinge todos os seus objetivos -- quando faz tudo que é instrumentalmente benéfico para ela -- e nenhum desses objetivos coincide com o que é moralmente benéfico para ela. Uma mulher, por exemplo, pode acreditar que o machismo é moralmente benéfico para ela porque ele é instrumentalmente benéfico para ela, isto é, porque ele atinge todos os os seus objetivos. O ativismo feminista então age para tentar fazer essa mulher perceber que, embora o machismo possa ser instrumentalmente benéfico para ela, ele não é moralmente benéfico. Essa é uma tentativa de mudar os objetivos, os interesses dessa mulher, porque justamente eles a estão desviando do que é moralmente benéfico para ela. É claro que nem toda mulher se beneficia instrumentalmente do machismo. Estas são justamente aquelas que são contra o machismo por acreditarem que ele não é moralmente benéfico para as mulheres.

Até este ponto, acho que a maioria das feministas concordaria comigo. A discórdia começaria quando eu enunciasse a seguinte tese: assim como a mulher pode crer erroneamente que o machismo é moralmente benéfico para ela, baseada no fato de ele ser instrumentalmente benéfico para ela, o homem também pode crer erroneamente que o machismo é moralmente benéfico para ele, baseado no fato de ele ser instrumentalmente benéfico para ele. Por que algumas feministas discordariam de mim? Porque elas alegam que não há mulher machista, dado que, segundo elas, nenhuma mulher se beneficia com o machismo. Quando se objeta a isso dizendo que muitas mulheres estão perfeitamente contentes com o machismo, achando que ele as beneficia, a resposta normalmente é algo nessas linhas: "Uma mulher que diz isso não está sendo machista, mas está apenas reproduzindo o machismo, pois de fato o machismo não a beneficia, embora ela pense que sim." Uma resposta como essa, traduzida para a linguagem da distinção que tracei no começo, ficaria assim: "Uma mulher que diz isso não está sendo machista, mas está apenas reproduzindo o machismo, pois de fato o machismo não a beneficia moralmente, embora ela pense que ele a beneficie instrumentalmente." Mas se um homem também pode crer erroneamente que o machismo é moralmente benéfico para ele, baseado no fato de ele ser instrumentalmente benéfico para ele, então, nesse caso, pelo critérios dessas feministas que discordam de mim, ele tampouco estará sendo machista, mas apenas reproduzindo o machismo. Eu discordo dessas feministas no seguinte ponto: ele estará, sim, sendo machista, porque não creio que, para uma pessoa ser machista, seja necessário que o machismo a beneficie moralmente, pela boa razão que o machismo é moralmente maléfico para todos, homens e mulheres! Ser machista é "reproduzir" o machismo, seja baseado na crença errônea de que ele é moralmente benéfico para todos, seja por má fé, baseado no conhecimento de que ele não é moralmente bom para ninguém.

Por fim, quero deixar claro que há uma diferença grande entre o benefício instrumental que o machismo proporciona à mulher machista e ao homem machista. Embora essa diferença seja irrelevante para o ponto que defendo nesse texto, ela é uma diferença importante quando se trata de pensar o machismo e a luta feminista. Essa diferença é justamente um reflexo da desigualdade pregada pelo machismo, que ambos, mulheres e homens machistas, aceitam de bom grado. Lutar contra o machismo é lutar contra essa aceitação, seja de parte dos homens, seja da parte das mulheres.


domingo, 9 de agosto de 2015

Russell sobre o jovem Wittgenstein


Este áudio foi retirado de um episódio de um programa da BBC Radio 4 chamado "Great Lives". O programa pode ser assistido aqui. As legendas são minhas.

segunda-feira, 20 de julho de 2015

Sobre o valor de uma forma de arte

Trecho da partitura do Requiem, de Mozart

Uma tese muito difundida é aquela segundo o qual os juízos estéticos não possuem nenhuma justificação objetiva. Disso costuma-se concluir que não há qualquer razão objetiva para se pensar que uma forma de arte seja melhor que outra. Uma canção de roda como atirei o pau no gato não seria pior do que o Requiem de Mozart, por exemplo. Eu não quero discutir essa tese e essas conclusões. Quero apenas discutir uma possível motivação que alguns têm para nutrir simpatia por essa tese. É uma motivação análoga a que alguns têm para atacar a tese de que a verdade é absoluta.

Alguns acreditam que a tese de que a verdade é absoluta gera intolerância. Em primeiro lugar, uma tese não é falsa porque ela tem alguma consequência moral indesejada, se tiver. Não podemos decidir questões em epistemologia, metafísica e semântica com base em uma agenda ética. Em segundo lugar, é falso que a tese que a verdade é absoluta gera intolerância. As fontes da intolerância são outras e eu as discuto em outra postagem.

Alguns daqueles que defendem a tese que os juízos estéticos não possuem nenhuma justificação objetiva e que, portanto, nenhuma arte é melhor ou pior do que outra, assim o fazem porque acreditam que esse é o único meio de evitar o elitismo estético, a tendência a privilegiar a forma de arte que se acredita ser superior e de desprezar a forma de arte que se acredita ser inferior. A única forma de se combater esse elitismo e garantir a valorização de toda forma de arte, pensam, é atacando a tese de que nossos juízos estéticos tenham alguma justificação objetiva. E a razão de quererem garantir que toda forma de arte tem valor geralmente é o fato de que muitas formas de arte desprezadas pelo elitista têm um papel psicológico, social e econômico muito importante para certos grupos sociais oprimidos.

Creio que essa motivação está baseada em mais de um erro. Um deles é, novamente, a suposição de que as supostas consequências morais indesejadas de uma tese indicam que ela é falsa. Outro erro é justamente a suposição de que a tese que os juízos estéticos têm justificação objetiva implica o elitismo estético, tal como definido acima. Quero deixar claro que eu acho o elitismo estético um erro. Mas minha razão para pensar isso é de ordem moral, não estética.

Vamos supor, para efeitos de argumento, que nossos juízos estéticos tenham justificação objetiva e que haja formas de arte que sejam esteticamente superiores em relação a outras. Não estou defendendo isso aqui. Estou defendendo apenas que dessa suposição não se segue o elitismo estético. Por que? Porque a valorização de uma forma de arte não necessita nem deve ser apenas estética. Ela pode ter valor por outras qualidades: seus efeitos psicológicos, seus efeitos sociais, seus efeitos econômicos, etc. Quem defende o elitismo estético com base apenas em juízos estéticos comete o mesmo erro: não ver que uma forma de arte pode ser muito útil em vários aspectos, mesmo que seja esteticamente inferior, na suposição de que seja. O elitista está errado porque nenhuma forma de arte deve ser privilegiada ou desprezada apenas com base em critérios estéticos, independentemente de se seus juízos estéticos sobre o que é melhor ou pior forma de arte têm ou não têm justificação objetiva. Avaliar o valor da arte apenas com base em critérios estéticos é como avaliar o valor de uma pesquisa científica com base apenas em critérios cognitivos. Há pesquisas científicas que são moralmente questionáveis, mesmo que seu valor cognitivo seja grande!

quinta-feira, 16 de julho de 2015

O problema de Gettier

Edmund Gettier
Edmund Gettier ficou famoso na filosofia por sua monumental obra constituída de um artigo de três páginas.[1] Nesse artigo ele procura apresentar contra-exemplos à milenar definição tradicional de conhecimento como crença verdadeira justificada. Seu objetivo é mostrar que as condições para o conhecimento elencadas na definição tradicional não são suficientes para o conhecimento, mesmo que sejam necessárias. Ou seja, ele procura exibir casos que satisfazem a definição tradicional, mas, não obstante, não são conhecimentos. Ele apresenta dois contra-exemplos. Entretanto, antes, ele chama atenção para dois princípios sobre os quais a análise desses casos como contra-exemplos se baseia.

O primeiro princípio pode ser chamado de princípio falsidade justificada. Mesmo que a justificação seja uma condição necessária para o conhecimento, sozinha ela não é uma condição suficiente, de tal forma que alguém pode estar justificado em crer em uma proposição falsa. Isso chama atenção para o fato de que apenas conjuntamente as três condições da definição tradicional são suficientes, de acordo com a definição tradicional de conhecimento. Isoladamente, nenhuma delas é suficiente. Mais importante: elas não possuem relações de dependência. Se uma crença for justificada, mas falsa, não é conhecimento. Se for verdadeira mais injustificada, não é conhecimento. Se alguém estiver justificado a acreditar numa proposição que é verdadeira, mas não acreditar nela, então ele não sabe que ela é verdadeira.

O segundo princípio é o princípio do fechamento da justificação. Gettier o formula assim: "[P]ara toda a proposição P, se S está justificado em acreditar que P e P implica Q e S deduz Q de P e aceita Q como resultado desta dedução, então S está justificado em acreditar que Q". Em outras palavras: uma pessoa está sempre justificada a creditar numa proposição que ela sabe ser implicada por outra proposição que ela está justificada em acreditar.


O primeiro contra-exemplo (ligeiramente modificado)

O primeiro contra-exemplo é baseado no fato de que podemos ter justificação para acreditar em uma generalização existencial cuja base é falsa. Suponhamos que Paulo esteja justificado a acreditar que João vencerá um concurso para professor no qual Paulo também concorre (ele ouviu acidentalmente dos membros da banca que João será aprovado em primeiro lugar). Suponhamos também que Paulo esteja justificado a acreditar João tem dez moedas no bolso. Disso Paulo pode inferir validamente que aquele que vai vencer o concurso tem dez moedas no bolso. Ele realiza uma generalização existencial da seguinte forma:
Fa
Ga
Logo, Ex(Fx&Gx)
De acordo com o princípio do fechamento da justificação, Paulo está justificado em crer na conclusão geral, pois ele a infere validamente de premissas nas quais ele está justificado em acreditar. Mas suponhamos que quem vencerá o concurso seja Paulo e que, sem que ele saiba, ele tem dez moedas no bolso. Isso significa que uma das premissas da inferência de Paulo é falsa, embora justificada, o que está de acordo com o princípio da falsidade justificada. Como podemos ver, Paulo acredita na conclusão, ela é verdadeira e Paulo está justificado em acreditar nela. Todavia, parece claro que Paulo não sabe que a conclusão é verdadeira, pois o que a torna verdadeira é o fato de que ele, Paulo, vencerá o concurso, e de que ele tem dez moedas no bolso, e ele não acredita nem que vencerá o concurso, nem que tem dez moedas no bolso.


O segundo contra-exemplo (ligeiramente modificado)

O segundo contra-exemplo está baseado na possibilidade de se acreditar na conclusão da introdução da disjunção, mesmo quando sua premissa é falsa. Suponha que João está justificado em acreditar que Paulo possui um carro e não faz idéia do paradeiro de Paulo. João então infere dessa proposição as seguintes disjunções:
Ou Paulo possui um carro, ou Paulo está em São Paulo.
Ou Paulo possui um carro, ou Paulo está em Curitiba.
Ou Paulo possui um carro, ou Paulo está em Salvador.
Cada uma das conclusões acima é obtida por meio de uma inferência da seguinte forma válida:
P
Logo, P ou Q
onde Q é uma proposição qualquer. Segundo o princípio do fechamento da justificação, João está justificado em acreditar em cada uma dessas conclusões. Mas suponhamos que a premissa dessas inferências seja falsa, mesmo que justificada. O carro de Paulo é alugado. Todavia, ocorre que Paulo está em Curitiba, mesmo que João não saiba. Portanto a segunda conclusão que João infere de sua premissa falsa, porém justificada, é verdadeira. Mas ela não é verdadeira porque Paulo possui um carro. Ela é verdadeira porque Paulo está em Curitiba. Logo, João acredita que essa conclusão é verdadeira, ela é verdadeira e João está justificado em crer que ela é verdadeira. Mas João não sabe que ela é verdadeira, pois ele ignora o fato que a torna verdadeira: o fato de Paulo estar em Curitiba.

Há muitas tentativas de resolver ou dissolver o problema formulado por Gettier. As tentativas de resolver o problema procuram ou modificar uma das condições para o conhecimento ou introduzir uma quarta condição. Vou chamar atenção apenas para uma tentativa de dissolver o problema, por causa do seu caráter peculiar: aquela que se baseia na idéia de sorte epistêmica. Normalmente a justificação é pensada como aquilo que elimina o fator sorte na aquisição de crenças verdadeiras. Mas há quem acredite que ela não o faz totalmente, de tal forma que podemos obter conhecimento devido à sorte. O que os exemplos de Gettier mostrariam seria, não que conhecimento não seja crença verdadeira justificada, mas que essas condições às vezes estão satisfeitas por sorte. Mesmo que esses casos sejam estatiticamente minoritários, ou até raros, o que Gettier teria mostrado é que eles não são impossíveis.

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[1] E. Gettier. É a crença verdadeira justificada conhecimento? (Crítica na Rede)


Leituras

Jonathan Jenkins Ichikawa, The analysis of knowledge (Stanford Encyclopedia of Philosophy)
Stephen Hetherington, Gettier problems (Internet Encyclopedia of Philosophy)

domingo, 5 de julho de 2015

Da Denotação (por Bertrand Russell)

Bertrand Russell
Entendo por "expressão denotativa" qualquer uma das seguintes expressões: um homem, algum homem, qualquer homem, cada homem, todos os homens, o atual rei da Inglaterra, o atual rei da França, o centro de massa do sistema solar no primeiro instante do século XX, a revolução da Terra ao redor do Sol, a revolução do Sol ao redor da Terra. Por conseguinte, uma expressão é denotativa unicamente devido a sua forma. Podemos definir três casos: (1) Uma expressão pode ser denotativa e, todavia, não denotar nada; por exemplo, “o atual rei da França”. (2) Uma expressão pode denotar um objeto definido; por exemplo, “o atual rei da Inglaterra” denota um certo homem. (3) Uma expressão pode denotar de maneira ambígua; por exemplo, “um homem” não denota muitos homens, mas um homem ambíguo. A interpretação de tais expressões é um assunto de considerável dificuldade; com efeito, é muito difícil construir qualquer teoria não suscetível de refutação formal. Todas as dificuldades de que tenho conhecimento são satisfeitas, até onde me é possível ver, pela teoria que explicarei a seguir.

O objeto da denotação é de grande importância, não só para a lógica e a matemática, mas também para a teoria do conhecimento. Por exemplo, sabemos que o centro de massa do sistema solar num instante definido é algum ponto definido e podemos afirmar um determinado número de proposições acerca dele; mas não temos conhecimento de trato imediato desse ponto, que é conhecido por nós somente através de descrição. A distinção entre conhecimento de trato e conhecimento acerca de é a distinção entre as coisas de que temos representações e as coisas que somente alcançamos por meio de expressões denotativas. Acontece, frequentemente, que sabemos que uma certa expressão denota sem ambiguidade, apesar de não termos conhecimento de trato daquilo que ela denota; isto acontece com o caso, exposto acima, do centro de massa. Na percepção, temos conhecimento de trato dos objetos da percepção, e no pensamento temos conhecimento de trato dos objetos de um caráter lógico mais abstrato; mas não temos necessariamente conhecimento de trato dos objetos denotados por expressões compostas de palavras de cujos significados temos conhecimento de trato, Para considerar um exemplo muito importante: parece não haver razão para acreditar que temos sempre conhecimento de trato das mentes das outras pessoas, visto que estas não são diretamente percebidas; portanto, o que conhecemos a respeito delas é obtido por denotação. Todo pensamento deve começar pelo conhecimento de trato; mas ele é bem sucedido em pensar acerca de muitas outras coisas das quais não temos conhecimento de trato.

O curso de minha argumentação será o que segue. Começarei por expor que pretendo defender,[1] discutirei, a seguir, as teorias de Frege e Meinong, mostrando por que nenhuma delas me satisfaz; darei, então, as razões em favor de minha teoria; e, finalmente, indicarei brevemente as consequências filosóficas de minha teoria.

Minha teoria, exposta brevemente, é a que se segue. Tomo a noção de variável como fundamental; uso “C(x)” para significar uma proposição[2] na qual x é um constituinte, onde x, a variável, é essencial e totalmente indeterminada. Podemos então, considerar as duas noções “C(x) é sempre verdadeira” e “C(x) é algumas vezes verdadeira”.[3] Logo, tudo, nada e algo (que são as mais primitivas das expressões denotativas) devem ser interpretadas como se segue:

C(tudo) significa “C(x) é sempre verdadeira”;
C(nada) significa “‘C(x) é falsa’ é sempre verdadeira”;
C(algo) significa “É falso que ‘C(x) é falsa’ é sempre verdadeira”.[4]

Aqui a noção “c(x) é sempre verdadeira” é tomada como fundamental e indefinível, e as outras são definidas através dela. Tudo, nada e algo não são supostas ter qualquer significado isoladamente, mas um significado é atribuído para cada proposição em que elas ocorrem. Este é o principio da teoria da denotação que pretendo defender: as expressões denotativas nunca tem qualquer significado em si próprias, mas cada proposição, em cuja expressão verbal elas ocorrem, tem um significado. Acredito que as dificuldades concernentes à denotação são todas, o resultado de uma analise errônea de proposições, cujas expressões verbais contêm expressões denotativas. A análise, se não estou enganado, deve ser exposta como se segue.

Suponhamos agora, que queiramos interpretar a proposição “eu encontrei um homem”. Se isto for verdade, encontrei algum homem definido; mas se isto não é o que afirmo. O que afirmo é, de acordo com a teoria que defendo:
“’Eu encontrei x, e x é humano’ não é sempre falsa”.

Geralmente, definindo a classe dos homens como classe de objetos que tem o predicado humano, dizemos que:

“C(um homem)” significa “’C(x) e x é humano’ nem sempre é falsa”. Isto deixa “um homem”, por si própria, completamente destituída de significado, mas atribui um significado a cada proposição em cuja expressão verbal “um homem” ocorra.

Considere-se a seguir, a proposição “todos os homens são mortais”. Esta proposição[5] é realmente hipotética e declara que se algo é um homem, é mortal. Isto é, declara que, se x é um homem” por “x é humano”, encontramos: “todos os homens são mortais” significa “’se x é humano, x é mortal’ é sempre verdadeira”.

Isto é, o que se expressa na lógica simbólica dizendo-se que “todos os homens são mortais” significa “’x é humano’ implica ‘x é mortal’ para qualquer valor de x”. De modo geral, dizemos:

“C(todos os homens)” significa “’se x é humano, então C(x) é verdadeira’ é sempre verdadeira”.

De maneira similar:

“C(nenhum homem)” significa “’se x é humano, então C(x) é falsa’ é sempre verdadeira”.

“C(alguns homens)” significará o mesmo que “C(um homem)” e

“C(um homem)” significa “é falso que ‘C(x) e x é humano’ é sempre falsa”.

“C(todo homem)” significará o mesmo que “C(todos os homens)”.

Resta interpretar expressões contendo o artigo o (a). Estas são as mais interessantes e difíceis das expressões denotativas. Tome-se como exemplo “o pai de Carlos II foi executado”. Esta proposição afirma que havia um x que era o pai de Carlos II e foi executado. Ora, o, quando é usado rigorosamente, envolve unicidade; é verdade que falamos de “o filho de fulano de tal” mesmo quando fulano de tal tem vários filhos, mas seria mais correto dizer “um filho de fulano de tal”. Logo, para nossos propósitos tomamos o envolvendo unicidade. Portanto, quando dizemos “x era o pai de Carlos II” não somente afirmamos que x tinha uma certa relação com Carlos II, mas também que nada mais tinha essa relação. A relação em questão, sem a assunção da unicidade, e sem qualquer expressão denotativa, é expressa por “x gerou Carlos II”. Para obter um equivalente de “x era o pai de Carlos II“ devemos acrescentar, “se y é diferente de x, y não gerou Carlos II”, ou o que é equivalente, “se y gerou Carlos II, y é idêntico a x”. Portanto, “x é o pai de Carlos II” torna-se: “x gerou Carlos II; e ‘se y gerou Carlos II, y é idêntico a x’ é sempre verdadeira para y.”

Portanto, “o pai de Carlos II foi executado” torna-se: “não é sempre falso para x que x gerou Carlos II e que x foi executado e que ‘se y gerou Carlos II, y é idêntico a x’ é sempre verdadeira para y”. Esta pode parecer uma interpretação até certo ponto inaceitável, mas não estou, neste momento, dando razões, mas simplesmente expondo a teoria.

Para interpretar “C(o pai de Carlos II)”, onde C representa qualquer enunciado acerca dele, temos somente que substituir, no enunciado acima, “x foi executado” por C(x). Observe-se que, de acordo com a interpretação acima, qualquer enunciado que C possa ver, “C(o pai de Carlos II)” implica:

“Não é sempre falso para x que ‘se y gerou Carlos II, y é idêntico a x’ é sempre verdadeira para y”, que é o que se expressa na linguagem comum por “Carlos II teve um pai e mais nenhum”. Consequentemente se esta condição falha, toda proposição da forma “C(o atual rei da França)” é falsa. Esta é a grande vantagem da presente teoria. Mostrarei mais tarde que ela não é contraria à lei de contradição, como poder-se-ia supor a princípio.

O exposto acima mostra uma redução de todas as proposições, em que ocorrem expressões denotativas, a formas em que não ocorrem tais expressões. Porque é necessário efetuar tal redução, a discussão subsequente esforçar-se-á em mostrar.

A evidência em favor da teoria acima deriva-se das dificuldades que parecem inevitáveis se tomamos as expressões denotativas como representativas genuínas das proposições em cujas expressões verbais elas ocorrem. Dentre as possíveis teorias, que admitem tais constituintes, a mais simples é a de Meinong.[7] Esta teoria toma qualquer expressão denotativa gramaticalmente correta como representativa de um objeto. Por conseguinte, “o atual rei da França”, “o quadrado redondo”, etc., supõe-se serem objetos genuínos. Admite-se que tais objetos não subsistem, mas, entretanto, eles são supostos serem objetos. Esta é em si mesma uma perspectiva difícil; mas a principal objeção é que tai objetos, reconhecidamente, estão prontos a infringir a lei de contradição. Sustenta-se, por exemplo, que o existente atual rei da França existe, e também que não existe; que o quadrado redondo é redondo, e também não redondo, etc. Mas isto é intolerável; e se se puder estabelecer qualquer teoria para evitar esse resultado, esta deve ser certamente preferida.

A ruptura, acima colocada, com a lei de contradição é evitada pela teoria de Frege. Ele distingue, numa expressão denotativa, dois elementos, que podemos chamar o significado e a denotação.[8] Assim, “o centro de massa do sistema solar no início do século XX” é altamente complexa em significado, mas sua denotação é um ponto determinado, que é simples. O sistema solar, o século XX, etc., são constituintes do significado, porém a denotação não possui de modo algum constituintes.[9] Uma vantagem desta distinção é que ela mostra por que, frequentemente, é conveniente afirmar-se a identidade. Se dizemos “Scott é o autor de Waverley”, afirmamos uma identidade de denotação com uma diferença de significado. Entretanto, não repetirei as justificativas em favor desta teoria, como em outra ocasião (ver (1)) me apressei em reivindicar, e justificativas aquelas que tenho agora interesse em discutir.

Uma das primeiras dificuldades que nos fazem frente, quando adotamos a perspectiva de que as expressões denotativas expressam um significado e denotam uma denotação,[10] diz respeito aos casos nos quais a denotação parece estar ausente. Se dissermos “o rei da Inglaterra é careca”, este pareceria não um enunciado acerca do significado complexo “o rei da Inglaterra”, mas acerca do homem real denotado pelo significado. Porém, considere-se agora “o rei da França é careca”. Pela paridade de forma, esta também deveria ser acerca da denotação da expressão “o rei da França”. Mas esta expressão, apesar de ter um significado, não tem, certamente, denotação, pelo menos em qualquer sentido óbvio. Portanto, poder-se-ia supor que “o rei da França é careca” deveria em qualquer sentido óbvio ser carente de sentido, mas esta proposição não é carente de sentido, uma vez que ela é completamente falsa. Ou ainda, considere-se uma proposição com a seguinte: “Se u é a classe que tem somente um membro, então aquele membro é um membro de u”, ou, como podemos enunciá-la, “se u é uma classe unitária, o u é um u”. Esta proposição deveria ser sempre verdadeira, uma vez que a conclusão é verdadeira sempre que a hipótese é verdadeira. Mas “o u” é uma expressão denotativa, e é a denotação, não o significado que se diz ser um u. Ora, se u é uma classe unitária, “o” parece não denotar nada; portanto, nossa própria posição pareceria tornar-se carente de sentido, sempre que u não seja uma classe unitária.

Mas está claro que tais proposições não se tornam carentes de sentido simplesmente porque suas hipóteses são falsas. O rei em A Tempestade poderia dizer, “se Fernando não está afogado, Fernando é meu único filho”. Ora, “meu único filho” é uma expressão denotativa, que à primeira vista, tem uma denotação quando, e somente quando, tenho exatamente um filho. Mas o enunciado acima não teria, entretanto, permanecido verdadeiro se Fernando realmente se afogasse. Por conseguinte, devemos ou prover uma denotação nos casos em que ela está ausente à primeira vista, ou abandonar a perspectiva de que a denotação é o que se concerne nas proposições que contêm expressões denotativas. A última posição é defendida por mim. A primeira posição pode ser tomada, como em Meinong, admitindo-se objetos que não subsistem e negando-se que eles obedeçam À lei de contradição; deve-se evitar, no entanto, tal fato, se possível. Outro modo de se tomar a mesma posição (até onde nossa presente alternativa diz respeito) é adotado por Frege, que provê por definição, algumas denotações puramente convencionais para os casos nos quais, de outro modo, não haveria nenhuma denotação. Assim, “o rei da França” deve denotar a classe vazia; “o único filho do se. Fulano de tal” (que tem uma bela família de dez pessoas) deve denotar a classe de todos os seus filhos; e assim por diante. Mas este procedimento, embora possa não conduzir a um erro lógico real, é completamente artificial, e não dá uma análise exata do problema. Assim, se permitimos geralmente que expressões denotativas possuam os dois aspectos, significado e denotação, os casos em que parece não existir nenhuma denotação causam dificuldades tanto na assunção de que existe realmente uma denotação, quanto na assunção de que realmente não existe nenhuma denotação.

Uma teoria lógica pode ser testada por sua capacidade em lidar com enigmas, e é um bom plano, ao pensar-se acerca da lógica, acumular a mente com tantos enigmas quanto possíveis, uma vez que estes servem ao mesmo tempo propósito que os experimentos na ciência física. Exporei, a partir de agora, três enigmas que uma teoria da denotação deve estar apta a resolver; e mostrarei a seguir que minha teoria os resolve.

(1) Se a é idêntico a b, e o que quer que seja verdadeiro em um é verdadeiro no outro, e até mesmo pode-se substituir um pelo outro em qualquer proposição sem alteração da verdade ou falsidade dessa proposição. Ora, George IV desejava saber se Scott era o autor de Waverley; e de fato Scott era o autor de Waverley. Portanto, podemos substituir o autor de “Waverley” por Scott, e dessa maneira provar que George IV desejava saber se Scott era Scott. Entretanto, um interesse pela lei de identidade dificilmente pode ser atribuído ao primeiro cavalheiro da Europa.

(2) Pela lei de exclusão dos meios, ou “A é B” ou “A não é B” deve ser verdadeira. Portanto, ou “o atual rei da França é careca” ou “o atual rei da França não é careca” deve ser verdadeira. No entanto, se enumerarmos as coisas que são carecas, e a seguir as coisas que não são carecas, não encontraremos o atual rei da França em nenhuma das duas enumerações. Os hegelianos, que amam uma síntese, provavelmente concluirão que ele usa uma peruca.

(3) Considere-se a proposição “A difere de B”. Se isto é verdade, existe uma diferença entre A e B, fato que se pode expressar sob a forma “diferença entre A e B subsiste”. Mas se é falso que A difere de B, então não existe diferença alguma entre A e B; fato que se pode expressar sob a forma “a diferença entre A e B não subsiste”. Mas como pode uma não-entidade ser o sujeito de uma proposição? “Eu penso, logo sou” não é mais evidente do que “eu sou o sujeito de uma proposição, logo eu sou”, desde que “eu sou” seja tomado afirmando subsistência ou ser[11] e não existência. Portanto, pareceria que deve ser sempre uma contradição negar o ser de alguma coisa; mas vimos segundo Meinong que admitir o ser também conduz, algumas vezes a contradições. Assim, se A e B não diferem, supor que existe ou que não existe um objeto tal como “a diferença entre A e B”, parece igualmente impossível.

Quando desejamos falar acerca do significado de uma expressão denotativa, enquanto oposto a sua denotação, o modo natural de fazer tal coisa é colocando-se aspas. Assim dizemos:

O centro de massa do sistema solar é um ponto, não um complexo denotativo; “O centro de massa do sistema solar” é um complexo denotativo, não um ponto.

Ou ainda:

A primeira linha da Elegia de Gray formula uma proposição. “A primeira linha da Elegia de Gray” não formula uma proposição.

Desta forma, tomando-se qualquer expressão denotativa, digamos C, desejamos considerar a relação entre C e “C”, onde a diferença entre eles é do tipo exemplificado nos dois exemplos acima.

Dizemos, para começar, que quando C ocorre, é da denotação que estamos falando; mas quando ocorre “C”, estamos falando do significado. Ora, a relação entre significado e denotação tal como ela se dá na expressão, não é meramente linguística: deve haver uma relação lógica envolvida, que expressamos dizendo que o significado denota a denotação. Mas a dificuldade que se nos coloca é que não podemos ser bem sucedidos tanto na preservação da conexão do significado com a denotação como em evitar que eles sejam uma e a mesma coisa; e também que o significado não pode ser apreendido exceto por meio de expressões denotativas. Isso acontece da seguinte maneira.

A expressão C devia ter tanto significado quanto denotação. Mas se falamos de “o significado de C”, que nos dá o significado (se existe algum) da denotação. “O significado da primeira linha da Elegia de Gray” é o mesmo que “o significado de ‘o sinal de apagar o fogo dobra os sinos do dia que parte’ (the curfew tolls the knell of parting day)”, e não é o mesmo que “o significado de ‘a primeira linha da Elegia de Gray’ “. Assim, a fim de obter o significado que queremos, não devemos falar de “o significado de C”, mas de “o significado de ‘C’”, que é o mesmo que “C” tomado isoladamente. Analogamente, “a denotação de C” não significa a denotação que queremos, mas significa algo que, se de algum modo ela denota, denota o que é denotado pela denotação que queremos. Por exemplo, seja “C”: “o complexo denotativo que ocorre no segundo dos exemplos acima”. Então:

C = “a primeira linha da Elegia de Gray”,

e a denotação de C = o sinal de apagar o fogo, dobra os sinos do dia que parte. Mas o que pretendíamos ter como denotação era “a primeira linha da Elegia de Gray”. Desta forma, falhamos em obter o que queríamos.

A dificuldade de falar no significado de um complexo denotativo pode ser formulada assim: no momento em que colocamos o complexo numa proposição, a proposição diz respeito à denotação; e se fazemos uma proposição na qual o sujeito é “o significado de C”, então o sujeito é o significado (se existe algum) da denotação, o que não era a intenção. Isto nos leva a dizer que, quando distinguimos significado e denotação, devemos estar operando com o significado: o significado tem denotação e é um complexo, e dizer-se que possui tanto significado como denotação. A expressão correta, da perspectiva em questão, é que alguns significados têm denotações.

Porém, isto somente torna nossa dificuldade, ao falar dos significados, mais evidente. Pois, suponha-se ser C nosso complexo; então devemos dizer que C é o significado do complexo. Entretanto, sempre que C ocorre sem aspas, o que se diz não é o verdadeiro para o significado, mas somente para a denotação, como quando dizemos: o centro de massa do sistema solar é um ponto. Assim, para falar do próprio C, isto é, para fazer uma proposição acerca do significado, nosso sujeito não deve ser C, mas algo que denota C. Assim, “C”, que é o que usamos quando queremos falar do significado, não deve ser o significado, mas algo que denota o significado. E C não deve ser um constituinte desse complexo, (como é de “o significado de C”); pois, se C ocorre no complexo, será sua denotação, não seu significado, que ocorrerá, e não existe um caminho de volta das denotações aos significados, porque cada objeto pode ser denotado por um número infinito de diferentes expressões denotativas.

Desta forma, pareceria que “C” e C são entidades diferentes, tais que “C” denota C; porém isto não pode ser uma explicação, porque a relação de “C” com C permanece completamente misteriosa; e onde devemos encontrar o complexo “C” que deve denotar C? Além disso, quando C ocorre numa proposição, não é somente a denotação que ocorre (como veremos no próximo parágrafo); todavia, na perspectiva em questão, C é apenas a denotação, sendo o significado completamente relegado a “C”. Esta é uma confusão insolúvel e parece provar que a própria distinção entre significado e denotação foi erroneamente concebida.

Que o significado é relevante, quando uma expressão denotativa ocorre numa proposição, é formalmente provado pelo enigma acerca do autor de Waverley. A propósito “Scott era o autor de Waverley” tem uma propriedade não possuída por “Scott era Scott”, a saber, a propriedade cuja verdade George IV desejava saber. Desta forma, as duas proposições não são idênticas; portanto, o significado de “o autor de Waverley” deve ser tão relevante quanto a denotação, se aderirmos ao ponto de vista ao qual esta distinção pertence. Todavia, como acabamos de ver, assim que aderimos a este ponto de vista, somos compelidos a sustentar que somente a denotação pode ser relevante. Assim, o ponto de vista em questão deve ser abandonado.

Falta mostrar como todos os enigmas que consideramos são resolvidos pela teoria do início deste artigo.

De acordo com a perspectiva que defendo, uma expressão denotativa é essencialmente parte de uma sentença, e não tem, como muitas palavras simples, qualquer significação por conta própria. Se digo, “Scott foi um homem”, este é enunciado da forma “x foi um homem”, e tem “Scott” como seu sujeito. Mas se digo “o autor deWaverley foi um homem”, este não é um enunciado da forma “x foi um homem” e não tem “o autor de Waverley” como seu sujeito. Abreviando o enunciado formulado ao início deste artigo, podemos por em lugar de “o autor de Waverley foi um homem”, o seguinte: “uma e somente uma entidade escreveu Waverley, e tal entidade foi um homem”. (Esta não é uma interpretação tão literal quanto a realizada anteriormente; mas é mais fácil de ser entendida.) E falando de uma maneira geral, suponha-se que queremos dizer que o autor de Waverley tinha a propriedade “phi”, o que queremos dizer é equivalente a “uma e somente uma entidade escreveu Waverley, e tal entidade tinha a propriedade ‘phi’”.

A explicação da denotação é, pois, como segue. Cada proposição na qual “o autor de Waverley” ocorre, sendo explicada acima, a proposição “Scott foi o autor de Waverley” (isto é, “Scott foi idêntico ao autor de Waverley”) torna-se “uma e somente uma entidade escreveuWaverley, e Scott foi idêntico a essa entidade”; ou, transformando para a forma totalmente explícita: “não é sempre falso para x que x escreveuWaverley, que é sempre verdade para y que se y escreveu Waverleyy é idêntico a x, e que Scott é idêntico a x”. Assim, se “C é uma expressão denotativa, pode acontecer que exista uma entidade x (não pode existir mais de uma) para a qual proposição “x é idêntico a C” seja verdadeira, sendo esta proposição interpretada como acima. Podemos, então, dizer que a entidade x é a denotação da expressão “C”. Desta forma, Scott é a denotação de “o autor de Waverley”. O “C” entre aspas será simplesmente a expressão, e não alguma coisa que possa ser chamada osignificado. A expressão per se não tem significado, porque em qualquer proposição na qual ela ocorre, a proposição, inteiramente expressa, não contém a expressão, que foi desmembrada.

O enigma acerca da curiosidade de George IV é agora visto possuir uma solução muito simples. A proposição “Scott foi autor de Waverley”, que foi escrita por extenso em sua forma sem abreviaturas no parágrafo precedente, não contém nenhum “o autor de Waverley” como constituinte, que poderia ser substituído por “Scott”. Isto não interfere na verdade das inferências que resultam de fazer o que verbalmente é a substituição de “o autor de Waverley” por “Scott” enquanto “o autor de Waverley” tenha o que chamo de uma ocorrência primária na proposição considerada. A diferença entre ocorrências primárias e secundárias de expressões denotativas é a que segue:

Quando dizemos: “George IV desejava saber se fulano de tal”, ou quando dizemos “fulano de tal está surpreso” ou “fulano de tal é verdadeiro”, etc., o “fulano de tal” deve ser uma proposição. Suponha-se agora que “fulano de tal” contenha uma expressão denotativa. Podemos ou eliminar essa expressão denotativa da proposição subordinada “fulano de tal” ou da totalidade da expressão na qual “fulano de tal” é um mero constituinte. Diferentes proposições resultam de acordo com a qual das duas fazemos. Ouvi de um suscetível proprietário de um iate, a quem uma visita, vendo o iate pela primeira vez, observou “eu pensei que seu iate fosse maior do que ele é”; ao que o proprietário respondeu, “não, meu iate não é maior do que ele é”. O que a visita queria dizer era, “o tamanho que eu pensei que seu iate tivesse é maior do que o tamanho que seu iate tem”; o significado atribuído é, “eu pensei que o tamanho de seu iate fosse maior do que o tamanho de seu iate”. Voltando a George IV e Waverley, quando dizemos “George IV desejava saber se Scott era o autor de Waverley”, normalmente queremos dizer “George IV desejava saber se um e somente um homem escreveu Waverley, e George IV desejava saber se Scott era esse homem”. Na última proposição, “o autor de Waverley” tem uma ocorrência primária; na primeira proposição, uma ocorrência secundária. A última proposição poderia ser expressa por “George IV desejava saber, com respeito ao homem que de fato escreveu Waverley, se ele era Scott”. Isto seria verdade, por exemplo, se George IV tivesse visto Scott a distância, e tivesse perguntado “aquele é Scott?”. Uma ocorrência secundária de uma expressão denotativa pode ser definida como uma ocorrência na qual a expressão ocorre na proposição p que é um simples constituinte da proposição que estamos considerando, e a substituição da expressão denotativa deve ser efetuada em p, não na totalidade da proposição considerada. A ambiguidade entre as ocorrências primárias e secundárias é difícil de ser evitada na linguagem; mas ela não produz dano se estamos atentos a ela. Obviamente, na lógica simbólica ela é facilmente evitada.

A distinção entre as ocorrências primárias e as secundárias também nos capacita a lidar com a questão de se o atual rei da França é careca ou não é careca, e de uma maneira geral com o status lógico de expressões denotativas que não se denotam nada. Se “C” é uma expressão denotativa, digamos “o termo que possui a propriedade F”, então

C tem a propriedade phi” significa “um e somente um termo tem a propriedade F, e esse termo tem a propriedade phi”.[12]

Se, entretanto, a propriedade F, não pertence a termo algum, ou a vários termos, segue-se que “C tem a propriedade phi” é falsa para todos os valores de phi. Assim, o atual rei da França é careca” é certamente falsa; e o “atual rei da França não é careca” é falsa se significa 

“existe uma entidade que é agora rei da França e não é careca”, mas é verdadeira se significa 

“é falso que existe uma entidade que é agora rei da França e é careca”.

Isto é, “o rei da França não é careca” é falsa se a ocorrência de “o rei da França” é primária, e verdadeira se a ocorrência é secundária. Assim, todas as proposições nas quais “o rei da França” tem uma ocorrência primária são falsas; as negativas de tais proposições são verdadeiras, mas estas “o rei da França” tem uma ocorrência secundária. Assim, escapamos à conclusão de que o rei da França tem uma peruca.

Podemos agora ver, também, como negar que exista um objeto tal como a diferença entre A e B no caso em que A e B não diferem. Se A e Bdiferem, existe uma e somente uma entidade x tal que “x é a diferença entre A e B” é uma proposição verdadeira; se A e B não diferem, não existe tal entidade x. Desta forma, de acordo com o significado da denotação explicado por último, “a diferença entre A e B” tem uma denotação quando A e B diferem, mas não possui denotação de outro modo. Esta diferença aplica-se geralmente a proposições verdadeiras e falsa. Se “aRb” representa “a tem relação R com b”, então quando aRé falsa, não existe tal entidade. Assim, fora de qualquer proposição, podemos fazer uma expressão denotativa, que denota uma entidade se a proposição é falsa. Por exemplo, é verdade (pelo menos assim suporemos) que a Terra gira ao redor do Sol, e falso que o Sol gira ao redor da Terra; portanto, “a revolução da Terra ao redor do Sol” denota uma entidade, enquanto “a revolução do Sol ao redor da Terra” não denota uma entidade.[13]

Todo o domínio de não-entidades, tais como “o quadrado redondo”, “o número primo par diferente de 2”, “Apolo”, “Hamlet”, etc., pode ser agora satisfatoriamente resolvido. Todas estas expressões são expressões denotativas, que não denotam nada. Uma proposição acerca de Apolo significa o que obtemos pela substituição daquilo que os dicionários clássicos nos dizem significar Apolo, a saber, “o deus do sol”. Todas as proposições em que Apolo ocorre devem ser interpretadas através das regras acima para expressões denotativas. Se “Apolo” tem uma ocorrência primária, a proposição contendo a ocorrência é falsa; se a ocorrência é secundária, a proposição pode ser verdadeira. Desta forma, novamente “o quadrado redondo é redondo” significa “existe uma e somente uma entidade x que é redonda e quadrada, e essa entidade é redonda”, que é uma proposição falsa; não uma proposição verdadeira, como sustenta Meinong. “O mais perfeito Ser tem todas as perfeições; a existência é uma perfeição; logo o mais perfeito Ser existe”, torna-se:

“Existe uma e somente uma entidade x que é mais perfeita; essa entidade tem todas as perfeições; a existência é uma perfeição; logo essa entidade existe”. Como prova, esta prova falha por falta de prova da premissa “existe uma e somente uma entidade x que é mais perfeita”.[14]

O Sr. MacColl (Mind, N. S., n.º 54, p.401) considera os indivíduos como sendo de duas espécies, real e irreal; daí, ele define a classe vazia como a classe que consiste de todos os indivíduos irreais. Isto supõe que expressões tais como “o atual rei da França”, que não denotam um indivíduo real, denotam entretanto um indivíduo, mas um indivíduo irreal. Esta é essencialmente a teoria de Meinong, que tivemos razão para rejeitá-la, porque ela entra em conflito com a lei de contradição. Com nossa teoria da denotação, somos capazes de sustentar que não existem indivíduos irreais; de tal forma que a classe vazia é a classe que não contém membros e não a classe que contém como membros todos os indivíduos irreais.

É importante observar o efeito de nossa interpretação de definições que procedem através de expressões denotativas. Muitas definições matemáticas são dessa espécie; por exemplo, “m-n significa o número que, adicionado a n, resulta m”. Assim, m-n é definido como significando o mesmo que uma certa expressão denotativa; mas concordamos que expressões denotativas isoladas não têm significado. Assim, a definição deveria realmente ser: “qualquer proposição contendo m-n deve significar a proposição que resulta da substituição de ‘o número que, adicionado a n, resulta m’ por ‘m-n’.” A proposição resultante é interpretada de acordo com as regras já dadas para a interpretação de proposições cuja expressão verbal contenha uma expressão denotativas. No caso em que m e n são tais que existe um e somente um número x que, adicionado a n, resulta m, existe um número x que pode substituir m-n em qualquer proposição contendo m-n, sem alteração da verdade ou falsidade da proposição. Mas, em outros casos, todas as proposições, em que “m-n” tem uma ocorrência primária, são falsas.

A utilidade da identidade é explicada pela teoria acima. Ninguém, fora de um texto de lógica, jamais desejou dizer “x é x”, e entretanto asserções de identidade são frequentemente deitas em formas tais como “Scott foi o autor de Waverley” ou “tu és um homem”. O significado de tais proposições não pode ser formulado sem a noção de identidade, apesar de não serem simplesmente enunciados de que Scott é idêntico a um outro termo, a saber, o autor de Waverley, ou que tu és idêntico a um outro termo, a saber, o homem. O menor enunciado de “Scott é o autor de Waverley” parece ser “Scott escreveu Waverley; e é sempre verdadeiro para y que se y escreveu Waverleyy é idêntico a Scott”. É deste modo que a identidade entra em “Scott é o autor de Waverley”; e é possuindo tais usos que a identidade é importante de ser afirmada.

Um resultado importante da teoria da denotação exposta acima é o seguinte: quando existe qualquer coisa da qual não temos conhecimento de trato imediato, mas somente definição através de expressões denotativas, então as proposições, nas quais essa coisa é introduzida por meio de uma expressão denotativa, não contém realmente essa coisa como um constituinte, mas contém, ao contrário, os constituintes expressos por várias palavras da expressão denotativa. Desta forma, em toda proposição que podemos apreender (isto é, não somente naquelas cuja verdade ou falsidade podemos julgar, mas em todas que podemos pensar), todos os constituintes são realmente entidades das quais temos conhecimento de trato imediato. Ora, coisas tais como a matéria (no sentido em que a matéria ocorre na física) e as mentes de outras pessoas são conhecidas por nós somente através de expressões denotativas, isto é, não temos conhecimento de trato delas, mas as conhecemos como sendo aquilo que tem mais tais ou quais propriedades. Portanto, apesar de podermos formar funções proposicionais C(x), que devem conter tal ou qual partícula material, ou a mente de fulano de tal, ainda assim, não temos conhecimento de trato das proposições que afirmam essas coisas, que sabemos que devem ser verdadeiras, porque não podemos apreender as entidades reais concernidas. O que sabemos é “fulano de tal tem uma mente que possui tais ou quais propriedades”, mas não sabemos que “A tem tais ou quais propriedades”, onde A é a mente em questão. Em tal caso, sabemos as propriedades de uma coisa sem ter conhecimento de trato da coisa em si, e, consequentemente, sem saber qualquer proposição simples, da qual a coisa em si seja um constituinte. 

Das muitas outras consequentes da perspectiva que estive defendendo, não direi nada. Somente pedirei ao leitor para não se precaver contra a perspectiva – como poderia estar tentando fazer, devido aparentemente à sua excessiva complicação –, até que tenha tentado construir uma teoria própria sobre o assunto da denotação. Essa tentativa, acredito, o convencerá de que, qualquer que possa ser a teoria verdadeira, ela não pode ter a simplicidade esperada de antemão.


[em Lógica e ConhecimentoOs Pensadores, 1ª edição, Tradução Pablo Rubén Mariconda]

_______

[1] Discuti este mesmo assunto em Principles of Mathematics, cap.V e par. 476; teoria que aí defendida é aproximadamente a mesma que a teoria de Frege, e é bastante diferente da teoria que será defendida neste artigo.

[2] Mais exatamente, uma função proposicional.

[3] A segunda pode ser definida por meio da primeira, se a tomamos significando “não é verdade que ‘C(x) é falsa’ é sempre verdadeira”.

[4] Usarei algumas vezes, ao invés desta expressão complicada, a expressão “C(x) não é sempre falsa”, ou “C(x) é algumas vezes verdadeira”, supondo a expressão definida significar o mesmo que a expressão complicada.

[5] Como argumentou habilmente o Sr. Bradley em sua Logic, L. I. cap. II.

[6] Psicologicamente “C(um homem)” sugere somente um, e “C(algum homem)” sugere mais de um; mas podemos negligenciar essas sugestões num esboço preliminar.

[7] Ver Untersuchungen zur Gegenstandstheorie und Psychologie (Leipzig, 1904), os três primeiros artigos (respectivamente de Meinong, Ameseder e Mally).

[8] Ver seu Über Sinn und Bedeutung, Zeitschrift für Philosophie und philosophische Kritik, vol. 100.

[9] Frege distingue os dois elementos, significado e denotação, em todas as expressões denotativas complexas. Assim, são os significados dos constituintes de um complexo denotativo que entram em seu significado, não a denotação dos constituintes. Na proposição “Mont Blanc tem mais de 1000 metros de altura”, é, segundo ele, o significado de “Mont Blanc”, não a montanha real, que é um constituinte do significado da proposição.

[10] Nessa teoria, devemos dizer que a expressão expressa um significado; e devemos dizer tanto da expressão quanto do significado que eles denotam uma denotação. Na outra teoria, a qual defendo, não existe nenhum significado e somente algumas vezes existe uma denotação.

[11] Uso-os como sinônimos.

[12] Essa é a interpretação abreviada e não a mais rigorosa.

[13] As proposições das quais tais entidades são derivadas não são idênticas seja a essas entidades, seja às proposições que essas entidades têm sido.

[14] Pode-se fazer o argumento para provar de modo válido que todos os membros da classe dos mais perfeitos seres existem; pode-se provar também formalmente que essa classe não pode ter mais do que um membro; porém, tomando a definição de perfeição como posse de todos os predicados positivos, pode-se provar de modo formal aproximadamente da mesma maneira que a classe não pode ter mesmo um membro.

terça-feira, 23 de junho de 2015

Brilho eterno de uma mente sem lembrança (Eternal sunshine of a spotless mind)

"Quão felizes são as virgens imaculadas!
O mundo esquecendo, esquecido pelo mundo.
Brilho eterno de uma mente sem mácula!
Cada prece aceita, e cada desejo renunciado."
Alexandre Pope, Eloisa to Abelard

Este é o sétimo texto de uma série que estou escrevendo para uma disciplina da Graduação em Filosofia da UFPR denominada Filosofia e Cinema, em que procuro exercitar a reflexão acerca dos problemas filosóficos por meio de filmes. Creio que filmes podem ser bons meios de apresentação de problemas filosóficos na medida em que apresentam situações que desafiam nossas crenças fundamentais e, assim, desencadeiam a reflexão filosófica. Os textos dessa série são destinados àqueles que já assistiram os respectivos filmes, pois contêm revelações sobre seus respectivos enredos.

Brilho eterno de uma mente sem lembrança conta a história de um casal de namorados, Clementine (Kate Winslet) e Joel (Jim Carrey), que começa a ter dificuldades de relacionamento e a sofrer por causa disso.[1] Em certo ponto, Clementine toma uma decisão: esquecer Joel. Mas não se trata do sentido corriqueiro de "esquecer" alguém que usamos em frases como "Hoje já não sofro mais, pois já esqueci a fulana". Esse sentido corriqueiro não é o sentido literal de "esquecer". Não se trata de não lembrar-se mais da pessoa. Se fosse o sentido literal, "já esqueci a fulana" seria uma contradição performativa, pois enunciar essa frase seria, ao mesmo tempo, expressão de uma lembrança que a pessoa tem da fulana e o ato de dizer que não lembra dela. Clementine queria esquecer Joel no sentido literal de "esquecer". Ela queria apagá-lo da sua memória por causa do sofrimento que a relação com ele estava lhe causando, como quem acaba com uma dor de cabeça tomando um analgésico. Ela queria extirpá-lo da sua vida e recomeça-la como se nunca o tivesse conhecido. Ela atinge esse objetivo por meio de uma companhia que oferece justamente isso: apagar memórias por meio de uma máquina, que causa pequenas lesões localizadas no cérebro.

O que há de filosoficamente interessante nessa história? Ela desafia nossas crenças básicas sobre as seguintes coisas: a relação entre memória e identidade pessoal (de um modo um pouco diferente em que essa relação foi abordada no texto sobre o filme Amnésia) e o direito que temos de esquecer coisas. A solução que Clementine dá para o seu sofrimento é repetida por Joel e já tinha sido usada por Mary (Kirsten Dunst). Essa solução é considerada, por esses mesmos que se serviram dela, como algo ruim, errado, depois que descobrem que se serviram dela. Mas antes dessa descoberta, quando estavam sofrendo, a consideraram a melhor solução para o seu sofrimento. Ela é a melhor solução? Se não, o que há de errado com ela?

Por um lado, parece perfeitamente razoável querer se livrar de um grande sofrimento psicológico, de uma grande dor psicológica, que a lembrança de uma determinada experiência nos causa, assim como parece razoável querer se livrar de uma grande dor física por meio de analgésicos e anestesias. O que poderia haver de bom na dor em si? É claro que a dor física tem a função de sintoma de uma condição anômala do organismo, que deve ser tratada. Ela aponta para a existência dessa condição anômala que é a causa da dor. Pessoas incapazes de sentirem dor por conta de um defeito no organismo correm riscos que as pessoas que sentem dor não correm. Mas uma vez detectada a anomalia através da dor, podemos combater o sintoma com analgésico e anestesia. É como apagar uma notificação em um computador: uma vez que a percebemos, ela não tem mais função alguma. Portanto, analogamente, o que há de errado em apagar uma lembrança dolorosa? Dor, em si mesma, é algo ruim, não? O que há de mal em querer acabar com ela?

Uma distinção aqui é importante: uma coisa é a lembrança que causa dor, outra coisa é a própria dor. É claro que acabar com a lembrança que causa a dor tem como efeito acabar coma dor, se ela for a sua única causa. Mas a dor causada por uma lembrança está relacionada a muitos outros estados processos mentais. Por exemplo: a dor da perda de alguém que morreu está relacionada ao nosso desejo de que essa pessoa continue viva, ao quão acostumados estamos com sua presença na nossa vida. O tempo faz essa dor diminuir porque nos faz acostumar, ao menos um pouco mais, com a ausência dessas pessoa. Portanto, livrar-se da lembrança dolorosa não é o único meio de acabar com ou diminuir a dor que ela causa, pois ela não causa essa dor sozinha. Sim, mas mesmo a lembrança não sendo uma causa suficiente da dor, ela é uma causa necessária, de tal forma que se nos livramos da lembrança, nos livramos da dor. Portanto, embora não seja o único meio de nos livrarmos da dor, é um meio. O que há de errado com esse meio?

Há uma diferença fundamental entre as causas da dor física e as causas da dor psicológica. As causas da dor física não constituem a pessoa que somos. Um cálculo renal, por exemplo, não constitui a pessoa que o possui, embora as experiências que alguém vive por ter um cálculo renal possam constituir a pessoa que ela é. As causa de uma dor psicológica, por outro lado, parecem constituir a pessoa que somos, na medida em que a pessoa que somos é constituída, ao menos em parte, pelas experiências e lembranças que temos, bem como pelos esquecimentos que naturalmente nos ocorrem e toda sorte de estados e processos causalmente conectadas a essas experiências, lembranças e esquecimentos, tais como atitudes proporcionais, sentimentos, associações e disposições, por exemplo. Não parece fazer sentido tentar caracterizar a pessoa que somos independentemente das nossas experiências, lembranças e esquecimentos.[2] Se isso está correto, então deliberadamente apagar memórias implica deliberadamente mudar quem se é. Depois de apagadas, continuamos sendo a mesma pessoa, no sentido numérico de "mesma", mas não somos mais a mesma, pessoa no sentido qualitativo do termo.

Mas qual é o problema em querer mudar a pessoa que se é? Afinal, querer ser uma pessoa melhor não é querer mudar a pessoa que se é? Ocorre que, em primeiro lugar, querer apagar memórias implica que se está descontente com a pessoa que se é, enquanto formada pelas experiências e lembranças que se tem,  entre outras coisas. Alguém poderia dizer que se está descontente apenas com a dor que se sente, nada mais. Mas a dor, como vimos, tem várias causas. Escolher apagar a memória que concorre com outras causas para gerar a dor é escolher eliminar uma das causas da dor. É a memória que se escolheu eliminar, não qualquer um dos demais estados de processos que, junto com a memória, causam a dor. Uma pessoa com fobia por baratas, por exemplo, pode querer eliminar todas as batatas do mundo para não sentir mais essa fobia, ou ela pode tratar as causas psicológicas da fobia. Da mesma forma, uma pessoa que sofre muito com a lembrança de certas experiências poderia tentar modificar outros estados e processos mentais que concorrem para gerar o sofrimento, em vez de apagar a memória. Se a pessoa decide apagar a memória, então parece que ela dá menos importância para a memória dessa experiência do que para esses demais estados e processos mentais.

Mas qual importância pode ter a memória de uma experiência dolorosa? Ela pode ter um papel pedagógico na nossa vida, se soubermos lidar com ela de maneira apropriada. Podemos aprender a viver melhor, a sermos pessoas melhores, com base no modo como lidamos com as experiências dolorosas. Eliminar a memória de uma experiência dolorosa, no filme, (e esse é o segundo ponto relativo ao argumento baseado no desejo de querer ser melhor) não tem como objetivo nos tornar melhores. Parece que mudar o modo como Clementine lida com a memória da experiência dolorosa é muito mais promissor, no que respeita a ela se tornar uma pessoa melhor, a capacitá-la a viver melhor, do eliminar a memória dolorosa. Apagar a memória parece ser análogo a tomar remédios para combater os sintomas de uma doença, sem atacar as causas dessa doença. Imagine se generalizamos esse procedimento? Provavelmente morreríamos de alguma doença mais cedo, se atacássemos apenas os seus sintomas, do que se procurássemos e atacássemos as causas desses sintomas. Analogamente, nossa capacidade para aprendermos a viver melhor, a sermos pessoas melhores, seria seriamente afetada, se apagássemos todas as memórias dolorosas que tivéssemos. Isso parece se chocar com o que parece dizer Nietzsche através da frase citada por Mary em um dialogo com Howard, seu chefe e ex-amante: “Abençoados sejam os esquecidos, porque tiram proveito até mesmo de seus próprios erros”. Como alguém pode tirar proveito de um erro que esqueceu? Mas o desejo de quem quer apagar as memórias ruins está mais de acordo com o espírito da segunda citação de Mary no mesmo diálogo (de onde o título do filme é retirado), um trecho do poema Eloisa to Abelard, de Alexandre Pope:
Quão felizes são as virgens imaculadas!
O mundo esquecendo, esquecido pelo mundo.
Brilho eterno de uma mente sem mácula!
Cada prece aceita, e cada desejo renunciado.[3]
Creio que "imaculada" traduz melhor a palavra "spotless", que definitivamente não é sinônimo de "sem lembrança". Tanto o poema quanto o filme falam sobre uma mente sem lembranças ruins, que são um tipo de mácula. Mas querer apagar memórias ruins tem uma consequência ética: implica renunciar a ao menos parte da nossa capacidade para aprendermos a nos tornarmos pessoas melhores, da nossa capacidade para aprendermos a viver melhor. 

Mas o que parece ser o problema mais grave de se querer apagar memórias ruins do modo como é feito no filme é uma outra consequência ética. Apagar memórias ruins não afeta apenas a pessoa que assim o faz, mas também as pessoas que convivem com ela, especialmente as mais íntimas. Todos são obrigados de se adaptar à nova condição daquele que se submeteu a esse tipo de processo, para que ele seja bem sucedido. Talvez sejam obrigados a mentir ou a passar por outros embaraços éticos. Todos são obrigados a aprender a lidar com uma nova pessoa. Mas há uma consequência ainda mais grave. Não se trata de apenas apagar certas lembranças ruins, trata-se de apagar uma pessoa da nossa mente, da nossa vida! Imagine o fardo psicológico de uma pessoa que sofre um tal banimento. Além de todo o sofrimento que a relação estava causando, a pessoa sofre ainda mais por ser descartado como um brinquedo que, embora antes fosse divertido, depois que quebrou e se tornou chato, é jogado fora... Esse parece um claro exemplo em que se trata uma pessoa como meio, não como fim. Um outro exemplo é o modo como Patrick (Elijah Wood) trata Clementine, se aproveitando de toda a informação que ela desejou tanto esquecer...


_________

[1] Há alguns anos atrás, tive uma discussão com meu amigo Jonadas Techio sobre esse filme. Naquela ocasião, eu me limitei a testar a posição do que, no presente texto, é interlocutor imaginário a quem atribuo as objeções ao que eu digo. Não lembro o quanto o que digo aqui, no final das contas, se aproxima  que Jonadas defendeu naquela discussão.

[2] No texto sobre Amnésia, vimos que a capacidade de fazer novas memórias sobre as experiência que vive parece ser condição necessária para a unidade de uma pessoa que vive essas experiências. Aqui não se trata de um problema gerado pela falta de capacidade de fazer novas memórias, mas pelo ato deliberado de apagar algumas memórias já feitas. Ambos os problemas, no entanto, estão baseados na conexão entre memória e identidade pessoal.

[3] “How happy is the blameless vestal’s lot!
The world forgetting, by the world forgot.
Eternal sunshine of the spotless mind!
Each pray’r accepted, and each wish resign’d.”


quarta-feira, 10 de junho de 2015

A Cognição e Seus Riscos - Colóquio em homenagem ao professor Paulo Faria

Paulo F. E. Faria
(Foto tirada por mim em 2010,
na UFPR, quando Paulo comentava
a palestra de Fred Dretske)


Site oficial do evento

Apresentação

Os participantes do evento, ex-alunos e pesquisadores próximos ao Professor Paulo Francisco Estrella Faria, propõem-se a homenageá-lo nos seus 60 anos através da discussão de temas e textos ligados à sua trajetória de pesquisa, concentrando-se em questões relativas à natureza da cognição e racionalidade humanas, bem como aos riscos envolvidos em seu exercício. Com esse objetivo em vista, algumas das conferências e mesas redondas serão dedicadas à discussão de trabalhos publicados por Paulo Faria; outras, a temas em algum momento ligados à sua pesquisa ou a seu trabalho de formação. Esperamos dessa forma refletir na programação o amplo espectro de interesses e contribuições do homenageado.

Datas e local

07, 08 e 09 de Julho de 2015, no Pantheon do IFCH, Campus do Vale, UFRGS
Endereço: Av. Bento Gonçalves, 9500 – Porto Alegre, RS, Brasil

Comissão organizadora

Prof. Dr. César Schirmer dos Santos (UFSM)
Prof. Dr. Jônadas Techio (UFRGS)
Profa. Dra. Sílvia Altmann (UFRGS) Apoio

Núcleo de Pesquisa e Documentação em Filosofia (NPDF)

Programação (provisória)

07/07 Tarde:

Palestra com Prof. Marco Ruffino (Unicamp): "Valor cognitivo, co-referencialismo e relacionismo semântico"

Mesa redonda com Profs.
Breno Hax (UFPR): "Modos de apresentação fregeanos"
Tiago Falkenbach (UFPR): "Provar e Mostrar: observações sobre a Refutação kantiana do Idealismo Problemático"
Renato Duarte Fonseca (UFSM): "Autoconsciência sem autocontato"

07/07 Noite:

Palestra com Prof. João Carlos Brum Torres (UCS): "McDowell e as estátuas de Dédalo"
Palestra com Prof. André Abath (UFMG): "Excusable and inexcusable Ignorance"

08/07 Manhã:

Palestra com Prof. Claudio de Almeida (PUCRS): 'Raciocínio dedutivo e conhecimento podre'

Mesa redonda com Profs.
Cláudio Michelon: "Ainda sobre a Regra de Reconhecimento”
Marco Azevedo (Unisinos): “Revisitando o argumento de Thomson em defesa do aborto”
Flávio Williges (UFSM): "Emoções e Moralidade"

08/07 Tarde:

Palestra com Prof. André Leclerc (UFC): "Externismo como Teoria da Intencionalidade"
Palestra com Prof. Roberto Sá Pereira (UFRJ): "Uma defesa do externismo 'presentista'".

08/07 Noite:

Espaço reservado para depoimentos e homenagens

09/07 Manhã:

Palestra com Prof. Ernesto Perini Santos: "Quando e por que um raciocínio é inseguro?"

Mesa redonda com Profs.
Eros Moreira Carvalho (UFRGS): "Espírito realista e projetabilidade".
Arthur Viana Lopes (UFPB): "Análise do conhecimento e mindreading"
José Eduardo Porcher (UFPR): "Atribuição de crenças em casos marginais".

09/07 Tarde:

Mesa redonda com Profs.
Rogério Severo (UFSM): "Perspectivismo"
Alexandre Noronha Machado (UFPR): "Nota sobre 'The Vagaries of Actions and The Varieties of Meaning', de Paulo Faria."

Palestra com Prof. Waldomiro Silva Filho (UFBA): Sobre o que temos direito de saber".