Translate

domingo, 5 de julho de 2015

Da Denotação (por Bertrand Russell)

Betrand Russell
Entendo por "expressão denotativa" qualquer uma das seguintes expressões: um homem, algum homem, qualquer homem, cada homem, todos os homens, o atual rei da Inglaterra, o atual rei da França, o centro de massa do sistema solar no primeiro instante do século XX, a revolução da Terra ao redor do Sol, a revolução do Sol ao redor da Terra. Por conseguinte, uma expressão é denotativa unicamente devido a sua forma. Podemos definir três casos: (1) Uma expressão pode ser denotativa e, todavia, não denotar nada; por exemplo, “o atual rei da França”. (2) Uma expressão pode denotar um objeto definido; por exemplo, “o atual rei da Inglaterra” denota um certo homem. (3) Uma expressão pode denotar de maneira ambígua; por exemplo, “um homem” não denota muitos homens, mas um homem ambíguo. A interpretação de tais expressões é um assunto de considerável dificuldade; com efeito, é muito difícil construir qualquer teoria não suscetível de refutação formal. Todas as dificuldades de que tenho conhecimento são satisfeitas, até onde me é possível ver, pela teoria que explicarei a seguir.

O objeto da denotação é de grande importância, não só para a lógica e a matemática, mas também para a teoria do conhecimento. Por exemplo, sabemos que o centro de massa do sistema solar num instante definido é algum ponto definido e podemos afirmar um determinado número de proposições acerca dele; mas não temos conhecimento de trato imediato desse ponto, que é conhecido por nós somente através de descrição. A distinção entre conhecimento de trato e conhecimento acerca de é a distinção entre as coisas de que temos representações e as coisas que somente alcançamos por meio de expressões denotativas. Acontece, frequentemente, que sabemos que uma certa expressão denota sem ambiguidade, apesar de não termos conhecimento de trato daquilo que ela denota; isto acontece com o caso, exposto acima, do centro de massa. Na percepção, temos conhecimento de trato dos objetos da percepção, e no pensamento temos conhecimento de trato dos objetos de um caráter lógico mais abstrato; mas não temos necessariamente conhecimento de trato dos objetos denotados por expressões compostas de palavras de cujos significados temos conhecimento de trato, Para considerar um exemplo muito importante: parece não haver razão para acreditar que temos sempre conhecimento de trato das mentes das outras pessoas, visto que estas não são diretamente percebidas; portanto, o que conhecemos a respeito delas é obtido por denotação. Todo pensamento deve começar pelo conhecimento de trato; mas ele é bem sucedido em pensar acerca de muitas outras coisas das quais não temos conhecimento de trato.

O curso de minha argumentação será o que segue. Começarei por expor que pretendo defender,[1] discutirei, a seguir, as teorias de Frege e Meinong, mostrando por que nenhuma delas me satisfaz; darei, então, as razões em favor de minha teoria; e, finalmente, indicarei brevemente as consequências filosóficas de minha teoria.

Minha teoria, exposta brevemente, é a que se segue. Tomo a noção de variável como fundamental; uso “C(x)” para significar uma proposição[2] na qual x é um constituinte, onde x, a variável, é essencial e totalmente indeterminada. Podemos então, considerar as duas noções “C(x) é sempre verdadeira” e “C(x) é algumas vezes verdadeira”.[3] Logo, tudo, nada e algo (que são as mais primitivas das expressões denotativas) devem ser interpretadas como se segue:

C(tudo) significa “C(x) é sempre verdadeira”;
C(nada) significa “‘C(x) é falsa’ é sempre verdadeira”;
C(algo) significa “É falso que ‘C(x) é falsa’ é sempre verdadeira”.[4]

Aqui a noção “c(x) é sempre verdadeira” é tomada como fundamental e indefinível, e as outras são definidas através dela. Tudo, nada e algo não são supostas ter qualquer significado isoladamente, mas um significado é atribuído para cada proposição em que elas ocorrem. Este é o principio da teoria da denotação que pretendo defender: as expressões denotativas nunca tem qualquer significado em si próprias, mas cada proposição, em cuja expressão verbal elas ocorrem, tem um significado. Acredito que as dificuldades concernentes à denotação são todas, o resultado de uma analise errônea de proposições, cujas expressões verbais contêm expressões denotativas. A análise, se não estou enganado, deve ser exposta como se segue.

Suponhamos agora, que queiramos interpretar a proposição “eu encontrei um homem”. Se isto for verdade, encontrei algum homem definido; mas se isto não é o que afirmo. O que afirmo é, de acordo com a teoria que defendo:
“’Eu encontrei x, e x é humano’ não é sempre falsa”.

Geralmente, definindo a classe dos homens como classe de objetos que tem o predicado humano, dizemos que:

“C(um homem)” significa “’C(x) e x é humano’ nem sempre é falsa”. Isto deixa “um homem”, por si própria, completamente destituída de significado, mas atribui um significado a cada proposição em cuja expressão verbal “um homem” ocorra.

Considere-se a seguir, a proposição “todos os homens são mortais”. Esta proposição[5] é realmente hipotética e declara que se algo é um homem, é mortal. Isto é, declara que, se x é um homem” por “x é humano”, encontramos: “todos os homens são mortais” significa “’se x é humano, x é mortal’ é sempre verdadeira”.

Isto é, o que se expressa na lógica simbólica dizendo-se que “todos os homens são mortais” significa “’x é humano’ implica ‘x é mortal’ para qualquer valor de x”. De modo geral, dizemos:

“C(todos os homens)” significa “’se x é humano, então C(x) é verdadeira’ é sempre verdadeira”.

De maneira similar:

“C(nenhum homem)” significa “’se x é humano, então C(x) é falsa’ é sempre verdadeira”.

“C(alguns homens)” significará o mesmo que “C(um homem)” e

“C(um homem)” significa “é falso que ‘C(x) e x é humano’ é sempre falsa”.

“C(todo homem)” significará o mesmo que “C(todos os homens)”.

Resta interpretar expressões contendo o artigo o (a). Estas são as mais interessantes e difíceis das expressões denotativas. Tome-se como exemplo “o pai de Carlos II foi executado”. Esta proposição afirma que havia um x que era o pai de Carlos II e foi executado. Ora, o, quando é usado rigorosamente, envolve unicidade; é verdade que falamos de “o filho de fulano de tal” mesmo quando fulano de tal tem vários filhos, mas seria mais correto dizer “um filho de fulano de tal”. Logo, para nossos propósitos tomamos o envolvendo unicidade. Portanto, quando dizemos “x era o pai de Carlos II” não somente afirmamos que x tinha uma certa relação com Carlos II, mas também que nada mais tinha essa relação. A relação em questão, sem a assunção da unicidade, e sem qualquer expressão denotativa, é expressa por “x gerou Carlos II”. Para obter um equivalente de “x era o pai de Carlos II“ devemos acrescentar, “se y é diferente de x, y não gerou Carlos II”, ou o que é equivalente, “se y gerou Carlos II, y é idêntico a x”. Portanto, “x é o pai de Carlos II” torna-se: “x gerou Carlos II; e ‘se y gerou Carlos II, y é idêntico a x’ é sempre verdadeira para y.”

Portanto, “o pai de Carlos II foi executado” torna-se: “não é sempre falso para x que x gerou Carlos II e que x foi executado e que ‘se y gerou Carlos II, y é idêntico a x’ é sempre verdadeira para y”. Esta pode parecer uma interpretação até certo ponto inaceitável, mas não estou, neste momento, dando razões, mas simplesmente expondo a teoria.

Para interpretar “C(o pai de Carlos II)”, onde C representa qualquer enunciado acerca dele, temos somente que substituir, no enunciado acima, “x foi executado” por C(x). Observe-se que, de acordo com a interpretação acima, qualquer enunciado que C possa ver, “C(o pai de Carlos II)” implica:

“Não é sempre falso para x que ‘se y gerou Carlos II, y é idêntico a x’ é sempre verdadeira para y”, que é o que se expressa na linguagem comum por “Carlos II teve um pai e mais nenhum”. Consequentemente se esta condição falha, toda proposição da forma “C(o atual rei da França)” é falsa. Esta é a grande vantagem da presente teoria. Mostrarei mais tarde que ela não é contraria à lei de contradição, como poder-se-ia supor a princípio.

O exposto acima mostra uma redução de todas as proposições, em que ocorrem expressões denotativas, a formas em que não ocorrem tais expressões. Porque é necessário efetuar tal redução, a discussão subsequente esforçar-se-á em mostrar.

A evidência em favor da teoria acima deriva-se das dificuldades que parecem inevitáveis se tomamos as expressões denotativas como representativas genuínas das proposições em cujas expressões verbais elas ocorrem. Dentre as possíveis teorias, que admitem tais constituintes, a mais simples é a de Meinong.[7] Esta teoria toma qualquer expressão denotativa gramaticalmente correta como representativa de um objeto. Por conseguinte, “o atual rei da França”, “o quadrado redondo”, etc., supõe-se serem objetos genuínos. Admite-se que tais objetos não subsistem, mas, entretanto, eles são supostos serem objetos. Esta é em si mesma uma perspectiva difícil; mas a principal objeção é que tai objetos, reconhecidamente, estão prontos a infringir a lei de contradição. Sustenta-se, por exemplo, que o existente atual rei da França existe, e também que não existe; que o quadrado redondo é redondo, e também não redondo, etc. Mas isto é intolerável; e se se puder estabelecer qualquer teoria para evitar esse resultado, esta deve ser certamente preferida.

A ruptura, acima colocada, com a lei de contradição é evitada pela teoria de Frege. Ele distingue, numa expressão denotativa, dois elementos, que podemos chamar o significado e a denotação.[8] Assim, “o centro de massa do sistema solar no início do século XX” é altamente complexa em significado, mas sua denotação é um ponto determinado, que é simples. O sistema solar, o século XX, etc., são constituintes do significado, porém a denotação não possui de modo algum constituintes.[9] Uma vantagem desta distinção é que ela mostra por que, frequentemente, é conveniente afirmar-se a identidade. Se dizemos “Scott é o autor de Waverley”, afirmamos uma identidade de denotação com uma diferença de significado. Entretanto, não repetirei as justificativas em favor desta teoria, como em outra ocasião (ver (1)) me apressei em reivindicar, e justificativas aquelas que tenho agora interesse em discutir.

Uma das primeiras dificuldades que nos fazem frente, quando adotamos a perspectiva de que as expressões denotativas expressam um significado e denotam uma denotação,[10] diz respeito aos casos nos quais a denotação parece estar ausente. Se dissermos “o rei da Inglaterra é careca”, este pareceria não um enunciado acerca do significado complexo “o rei da Inglaterra”, mas acerca do homem real denotado pelo significado. Porém, considere-se agora “o rei da França é careca”. Pela paridade de forma, esta também deveria ser acerca da denotação da expressão “o rei da França”. Mas esta expressão, apesar de ter um significado, não tem, certamente, denotação, pelo menos em qualquer sentido óbvio. Portanto, poder-se-ia supor que “o rei da França é careca” deveria em qualquer sentido óbvio ser carente de sentido, mas esta proposição não é carente de sentido, uma vez que ela é completamente falsa. Ou ainda, considere-se uma proposição com a seguinte: “Se u é a classe que tem somente um membro, então aquele membro é um membro de u”, ou, como podemos enunciá-la, “se u é uma classe unitária, o u é um u”. Esta proposição deveria ser sempre verdadeira, uma vez que a conclusão é verdadeira sempre que a hipótese é verdadeira. Mas “o u” é uma expressão denotativa, e é a denotação, não o significado que se diz ser um u. Ora, se u é uma classe unitária, “o” parece não denotar nada; portanto, nossa própria posição pareceria tornar-se carente de sentido, sempre que u não seja uma classe unitária.

Mas está claro que tais proposições não se tornam carentes de sentido simplesmente porque suas hipóteses são falsas. O rei em A Tempestade poderia dizer, “se Fernando não está afogado, Fernando é meu único filho”. Ora, “meu único filho” é uma expressão denotativa, que à primeira vista, tem uma denotação quando, e somente quando, tenho exatamente um filho. Mas o enunciado acima não teria, entretanto, permanecido verdadeiro se Fernando realmente se afogasse. Por conseguinte, devemos ou prover uma denotação nos casos em que ela está ausente à primeira vista, ou abandonar a perspectiva de que a denotação é o que se concerne nas proposições que contêm expressões denotativas. A última posição é defendida por mim. A primeira posição pode ser tomada, como em Meinong, admitindo-se objetos que não subsistem e negando-se que eles obedeçam À lei de contradição; deve-se evitar, no entanto, tal fato, se possível. Outro modo de se tomar a mesma posição (até onde nossa presente alternativa diz respeito) é adotado por Frege, que provê por definição, algumas denotações puramente convencionais para os casos nos quais, de outro modo, não haveria nenhuma denotação. Assim, “o rei da França” deve denotar a classe vazia; “o único filho do se. Fulano de tal” (que tem uma bela família de dez pessoas) deve denotar a classe de todos os seus filhos; e assim por diante. Mas este procedimento, embora possa não conduzir a um erro lógico real, é completamente artificial, e não dá uma análise exata do problema. Assim, se permitimos geralmente que expressões denotativas possuam os dois aspectos, significado e denotação, os casos em que parece não existir nenhuma denotação causam dificuldades tanto na assunção de que existe realmente uma denotação, quanto na assunção de que realmente não existe nenhuma denotação.

Uma teoria lógica pode ser testada por sua capacidade em lidar com enigmas, e é um bom plano, ao pensar-se acerca da lógica, acumular a mente com tantos enigmas quanto possíveis, uma vez que estes servem ao mesmo tempo propósito que os experimentos na ciência física. Exporei, a partir de agora, três enigmas que uma teoria da denotação deve estar apta a resolver; e mostrarei a seguir que minha teoria os resolve.

(1) Se a é idêntico a b, e o que quer que seja verdadeiro em um é verdadeiro no outro, e até mesmo pode-se substituir um pelo outro em qualquer proposição sem alteração da verdade ou falsidade dessa proposição. Ora, George IV desejava saber se Scott era o autor de Waverley; e de fato Scott era o autor de Waverley. Portanto, podemos substituir o autor de “Waverley” por Scott, e dessa maneira provar que George IV desejava saber se Scott era Scott. Entretanto, um interesse pela lei de identidade dificilmente pode ser atribuído ao primeiro cavalheiro da Europa.

(2) Pela lei de exclusão dos meios, ou “A é B” ou “A não é B” deve ser verdadeira. Portanto, ou “o atual rei da França é careca” ou “o atual rei da França não é careca” deve ser verdadeira. No entanto, se enumerarmos as coisas que são carecas, e a seguir as coisas que não são carecas, não encontraremos o atual rei da França em nenhuma das duas enumerações. Os hegelianos, que amam uma síntese, provavelmente concluirão que ele usa uma peruca.

(3) Considere-se a proposição “A difere de B”. Se isto é verdade, existe uma diferença entre A e B, fato que se pode expressar sob a forma “diferença entre A e B subsiste”. Mas se é falso que A difere de B, então não existe diferença alguma entre A e B; fato que se pode expressar sob a forma “a diferença entre A e B não subsiste”. Mas como pode uma não-entidade ser o sujeito de uma proposição? “Eu penso, logo sou” não é mais evidente do que “eu sou o sujeito de uma proposição, logo eu sou”, desde que “eu sou” seja tomado afirmando subsistência ou ser[11] e não existência. Portanto, pareceria que deve ser sempre uma contradição negar o ser de alguma coisa; mas vimos segundo Meinong que admitir o ser também conduz, algumas vezes a contradições. Assim, se A e B não diferem, supor que existe ou que não existe um objeto tal como “a diferença entre A e B”, parece igualmente impossível.

Quando desejamos falar acerca do significado de uma expressão denotativa, enquanto oposto a sua denotação, o modo natural de fazer tal coisa é colocando-se aspas. Assim dizemos:

O centro de massa do sistema solar é um ponto, não um complexo denotativo; “O centro de massa do sistema solar” é um complexo denotativo, não um ponto.

Ou ainda:

A primeira linha da Elegia de Gray formula uma proposição. “A primeira linha da Elegia de Gray” não formula uma proposição.

Desta forma, tomando-se qualquer expressão denotativa, digamos C, desejamos considerar a relação entre C e “C”, onde a diferença entre eles é do tipo exemplificado nos dois exemplos acima.

Dizemos, para começar, que quando C ocorre, é da denotação que estamos falando; mas quando ocorre “C”, estamos falando do significado. Ora, a relação entre significado e denotação tal como ela se dá na expressão, não é meramente linguística: deve haver uma relação lógica envolvida, que expressamos dizendo que o significado denota a denotação. Mas a dificuldade que se nos coloca é que não podemos ser bem sucedidos tanto na preservação da conexão do significado com a denotação como em evitar que eles sejam uma e a mesma coisa; e também que o significado não pode ser apreendido exceto por meio de expressões denotativas. Isso acontece da seguinte maneira.

A expressão C devia ter tanto significado quanto denotação. Mas se falamos de “o significado de C”, que nos dá o significado (se existe algum) da denotação. “O significado da primeira linha da Elegia de Gray” é o mesmo que “o significado de ‘o sinal de apagar o fogo dobra os sinos do dia que parte’ (the curfew tolls the knell of parting day)”, e não é o mesmo que “o significado de ‘a primeira linha da Elegia de Gray’ “. Assim, a fim de obter o significado que queremos, não devemos falar de “o significado de C”, mas de “o significado de ‘C’”, que é o mesmo que “C” tomado isoladamente. Analogamente, “a denotação de C” não significa a denotação que queremos, mas significa algo que, se de algum modo ela denota, denota o que é denotado pela denotação que queremos. Por exemplo, seja “C”: “o complexo denotativo que ocorre no segundo dos exemplos acima”. Então:

C = “a primeira linha da Elegia de Gray”,

e a denotação de C = o sinal de apagar o fogo, dobra os sinos do dia que parte. Mas o que pretendíamos ter como denotação era “a primeira linha da Elegia de Gray”. Desta forma, falhamos em obter o que queríamos.

A dificuldade de falar no significado de um complexo denotativo pode ser formulada assim: no momento em que colocamos o complexo numa proposição, a proposição diz respeito à denotação; e se fazemos uma proposição na qual o sujeito é “o significado de C”, então o sujeito é o significado (se existe algum) da denotação, o que não era a intenção. Isto nos leva a dizer que, quando distinguimos significado e denotação, devemos estar operando com o significado: o significado tem denotação e é um complexo, e dizer-se que possui tanto significado como denotação. A expressão correta, da perspectiva em questão, é que alguns significados têm denotações.

Porém, isto somente torna nossa dificuldade, ao falar dos significados, mais evidente. Pois, suponha-se ser C nosso complexo; então devemos dizer que C é o significado do complexo. Entretanto, sempre que C ocorre sem aspas, o que se diz não é o verdadeiro para o significado, mas somente para a denotação, como quando dizemos: o centro de massa do sistema solar é um ponto. Assim, para falar do próprio C, isto é, para fazer uma proposição acerca do significado, nosso sujeito não deve ser C, mas algo que denota C. Assim, “C”, que é o que usamos quando queremos falar do significado, não deve ser o significado, mas algo que denota o significado. E C não deve ser um constituinte desse complexo, (como é de “o significado de C”); pois, se C ocorre no complexo, será sua denotação, não seu significado, que ocorrerá, e não existe um caminho de volta das denotações aos significados, porque cada objeto pode ser denotado por um número infinito de diferentes expressões denotativas.

Desta forma, pareceria que “C” e C são entidades diferentes, tais que “C” denota C; porém isto não pode ser uma explicação, porque a relação de “C” com C permanece completamente misteriosa; e onde devemos encontrar o complexo “C” que deve denotar C? Além disso, quando C ocorre numa proposição, não é somente a denotação que ocorre (como veremos no próximo parágrafo); todavia, na perspectiva em questão, C é apenas a denotação, sendo o significado completamente relegado a “C”. Esta é uma confusão insolúvel e parece provar que a própria distinção entre significado e denotação foi erroneamente concebida.

Que o significado é relevante, quando uma expressão denotativa ocorre numa proposição, é formalmente provado pelo enigma acerca do autor de Waverley. A propósito “Scott era o autor de Waverley” tem uma propriedade não possuída por “Scott era Scott”, a saber, a propriedade cuja verdade George IV desejava saber. Desta forma, as duas proposições não são idênticas; portanto, o significado de “o autor de Waverley” deve ser tão relevante quanto a denotação, se aderirmos ao ponto de vista ao qual esta distinção pertence. Todavia, como acabamos de ver, assim que aderimos a este ponto de vista, somos compelidos a sustentar que somente a denotação pode ser relevante. Assim, o ponto de vista em questão deve ser abandonado.

Falta mostrar como todos os enigmas que consideramos são resolvidos pela teoria do início deste artigo.

De acordo com a perspectiva que defendo, uma expressão denotativa é essencialmente parte de uma sentença, e não tem, como muitas palavras simples, qualquer significação por conta própria. Se digo, “Scott foi um homem”, este é enunciado da forma “x foi um homem”, e tem “Scott” como seu sujeito. Mas se digo “o autor deWaverley foi um homem”, este não é um enunciado da forma “x foi um homem” e não tem “o autor de Waverley” como seu sujeito. Abreviando o enunciado formulado ao início deste artigo, podemos por em lugar de “o autor de Waverley foi um homem”, o seguinte: “uma e somente uma entidade escreveu Waverley, e tal entidade foi um homem”. (Esta não é uma interpretação tão literal quanto a realizada anteriormente; mas é mais fácil de ser entendida.) E falando de uma maneira geral, suponha-se que queremos dizer que o autor de Waverley tinha a propriedade “phi”, o que queremos dizer é equivalente a “uma e somente uma entidade escreveu Waverley, e tal entidade tinha a propriedade ‘phi’”.

A explicação da denotação é, pois, como segue. Cada proposição na qual “o autor de Waverley” ocorre, sendo explicada acima, a proposição “Scott foi o autor de Waverley” (isto é, “Scott foi idêntico ao autor de Waverley”) torna-se “uma e somente uma entidade escreveuWaverley, e Scott foi idêntico a essa entidade”; ou, transformando para a forma totalmente explícita: “não é sempre falso para x que x escreveuWaverley, que é sempre verdade para y que se y escreveu Waverleyy é idêntico a x, e que Scott é idêntico a x”. Assim, se “C é uma expressão denotativa, pode acontecer que exista uma entidade x (não pode existir mais de uma) para a qual proposição “x é idêntico a C” seja verdadeira, sendo esta proposição interpretada como acima. Podemos, então, dizer que a entidade x é a denotação da expressão “C”. Desta forma, Scott é a denotação de “o autor de Waverley”. O “C” entre aspas será simplesmente a expressão, e não alguma coisa que possa ser chamada osignificado. A expressão per se não tem significado, porque em qualquer proposição na qual ela ocorre, a proposição, inteiramente expressa, não contém a expressão, que foi desmembrada.

O enigma acerca da curiosidade de George IV é agora visto possuir uma solução muito simples. A proposição “Scott foi autor de Waverley”, que foi escrita por extenso em sua forma sem abreviaturas no parágrafo precedente, não contém nenhum “o autor de Waverley” como constituinte, que poderia ser substituído por “Scott”. Isto não interfere na verdade das inferências que resultam de fazer o que verbalmente é a substituição de “o autor de Waverley” por “Scott” enquanto “o autor de Waverley” tenha o que chamo de uma ocorrência primária na proposição considerada. A diferença entre ocorrências primárias e secundárias de expressões denotativas é a que segue:

Quando dizemos: “George IV desejava saber se fulano de tal”, ou quando dizemos “fulano de tal está surpreso” ou “fulano de tal é verdadeiro”, etc., o “fulano de tal” deve ser uma proposição. Suponha-se agora que “fulano de tal” contenha uma expressão denotativa. Podemos ou eliminar essa expressão denotativa da proposição subordinada “fulano de tal” ou da totalidade da expressão na qual “fulano de tal” é um mero constituinte. Diferentes proposições resultam de acordo com a qual das duas fazemos. Ouvi de um suscetível proprietário de um iate, a quem uma visita, vendo o iate pela primeira vez, observou “eu pensei que seu iate fosse maior do que ele é”; ao que o proprietário respondeu, “não, meu iate não é maior do que ele é”. O que a visita queria dizer era, “o tamanho que eu pensei que seu iate tivesse é maior do que o tamanho que seu iate tem”; o significado atribuído é, “eu pensei que o tamanho de seu iate fosse maior do que o tamanho de seu iate”. Voltando a George IV e Waverley, quando dizemos “George IV desejava saber se Scott era o autor de Waverley”, normalmente queremos dizer “George IV desejava saber se um e somente um homem escreveu Waverley, e George IV desejava saber se Scott era esse homem”. Na última proposição, “o autor de Waverley” tem uma ocorrência primária; na primeira proposição, uma ocorrência secundária. A última proposição poderia ser expressa por “George IV desejava saber, com respeito ao homem que de fato escreveu Waverley, se ele era Scott”. Isto seria verdade, por exemplo, se George IV tivesse visto Scott a distância, e tivesse perguntado “aquele é Scott?”. Uma ocorrência secundária de uma expressão denotativa pode ser definida como uma ocorrência na qual a expressão ocorre na proposição p que é um simples constituinte da proposição que estamos considerando, e a substituição da expressão denotativa deve ser efetuada em p, não na totalidade da proposição considerada. A ambiguidade entre as ocorrências primárias e secundárias é difícil de ser evitada na linguagem; mas ela não produz dano se estamos atentos a ela. Obviamente, na lógica simbólica ela é facilmente evitada.

A distinção entre as ocorrências primárias e as secundárias também nos capacita a lidar com a questão de se o atual rei da França é careca ou não é careca, e de uma maneira geral com o status lógico de expressões denotativas que não se denotam nada. Se “C” é uma expressão denotativa, digamos “o termo que possui a propriedade F”, então

C tem a propriedade phi” significa “um e somente um termo tem a propriedade F, e esse termo tem a propriedade phi”.[12]

Se, entretanto, a propriedade F, não pertence a termo algum, ou a vários termos, segue-se que “C tem a propriedade phi” é falsa para todos os valores de phi. Assim, o atual rei da França é careca” é certamente falsa; e o “atual rei da França não é careca” é falsa se significa 

“existe uma entidade que é agora rei da França e não é careca”, mas é verdadeira se significa 

“é falso que existe uma entidade que é agora rei da França e é careca”.

Isto é, “o rei da França não é careca” é falsa se a ocorrência de “o rei da França” é primária, e verdadeira se a ocorrência é secundária. Assim, todas as proposições nas quais “o rei da França” tem uma ocorrência primária são falsas; as negativas de tais proposições são verdadeiras, mas estas “o rei da França” tem uma ocorrência secundária. Assim, escapamos à conclusão de que o rei da França tem uma peruca.

Podemos agora ver, também, como negar que exista um objeto tal como a diferença entre A e B no caso em que A e B não diferem. Se A e Bdiferem, existe uma e somente uma entidade x tal que “x é a diferença entre A e B” é uma proposição verdadeira; se A e B não diferem, não existe tal entidade x. Desta forma, de acordo com o significado da denotação explicado por último, “a diferença entre A e B” tem uma denotação quando A e B diferem, mas não possui denotação de outro modo. Esta diferença aplica-se geralmente a proposições verdadeiras e falsa. Se “aRb” representa “a tem relação R com b”, então quando aRé falsa, não existe tal entidade. Assim, fora de qualquer proposição, podemos fazer uma expressão denotativa, que denota uma entidade se a proposição é falsa. Por exemplo, é verdade (pelo menos assim suporemos) que a Terra gira ao redor do Sol, e falso que o Sol gira ao redor da Terra; portanto, “a revolução da Terra ao redor do Sol” denota uma entidade, enquanto “a revolução do Sol ao redor da Terra” não denota uma entidade.[13]

Todo o domínio de não-entidades, tais como “o quadrado redondo”, “o número primo par diferente de 2”, “Apolo”, “Hamlet”, etc., pode ser agora satisfatoriamente resolvido. Todas estas expressões são expressões denotativas, que não denotam nada. Uma proposição acerca de Apolo significa o que obtemos pela substituição daquilo que os dicionários clássicos nos dizem significar Apolo, a saber, “o deus do sol”. Todas as proposições em que Apolo ocorre devem ser interpretadas através das regras acima para expressões denotativas. Se “Apolo” tem uma ocorrência primária, a proposição contendo a ocorrência é falsa; se a ocorrência é secundária, a proposição pode ser verdadeira. Desta forma, novamente “o quadrado redondo é redondo” significa “existe uma e somente uma entidade x que é redonda e quadrada, e essa entidade é redonda”, que é uma proposição falsa; não uma proposição verdadeira, como sustenta Meinong. “O mais perfeito Ser tem todas as perfeições; a existência é uma perfeição; logo o mais perfeito Ser existe”, torna-se:

“Existe uma e somente uma entidade x que é mais perfeita; essa entidade tem todas as perfeições; a existência é uma perfeição; logo essa entidade existe”. Como prova, esta prova falha por falta de prova da premissa “existe uma e somente uma entidade x que é mais perfeita”.[14]

O Sr. MacColl (Mind, N. S., n.º 54, p.401) considera os indivíduos como sendo de duas espécies, real e irreal; daí, ele define a classe vazia como a classe que consiste de todos os indivíduos irreais. Isto supõe que expressões tais como “o atual rei da França”, que não denotam um indivíduo real, denotam entretanto um indivíduo, mas um indivíduo irreal. Esta é essencialmente a teoria de Meinong, que tivemos razão para rejeitá-la, porque ela entra em conflito com a lei de contradição. Com nossa teoria da denotação, somos capazes de sustentar que não existem indivíduos irreais; de tal forma que a classe vazia é a classe que não contém membros e não a classe que contém como membros todos os indivíduos irreais.

É importante observar o efeito de nossa interpretação de definições que procedem através de expressões denotativas. Muitas definições matemáticas são dessa espécie; por exemplo, “m-n significa o número que, adicionado a n, resulta m”. Assim, m-n é definido como significando o mesmo que uma certa expressão denotativa; mas concordamos que expressões denotativas isoladas não têm significado. Assim, a definição deveria realmente ser: “qualquer proposição contendo m-n deve significar a proposição que resulta da substituição de ‘o número que, adicionado a n, resulta m’ por ‘m-n’.” A proposição resultante é interpretada de acordo com as regras já dadas para a interpretação de proposições cuja expressão verbal contenha uma expressão denotativas. No caso em que m e n são tais que existe um e somente um número x que, adicionado a n, resulta m, existe um número x que pode substituir m-n em qualquer proposição contendo m-n, sem alteração da verdade ou falsidade da proposição. Mas, em outros casos, todas as proposições, em que “m-n” tem uma ocorrência primária, são falsas.

A utilidade da identidade é explicada pela teoria acima. Ninguém, fora de um texto de lógica, jamais desejou dizer “x é x”, e entretanto asserções de identidade são frequentemente deitas em formas tais como “Scott foi o autor de Waverley” ou “tu és um homem”. O significado de tais proposições não pode ser formulado sem a noção de identidade, apesar de não serem simplesmente enunciados de que Scott é idêntico a um outro termo, a saber, o autor de Waverley, ou que tu és idêntico a um outro termo, a saber, o homem. O menor enunciado de “Scott é o autor de Waverley” parece ser “Scott escreveu Waverley; e é sempre verdadeiro para y que se y escreveu Waverleyy é idêntico a Scott”. É deste modo que a identidade entra em “Scott é o autor de Waverley”; e é possuindo tais usos que a identidade é importante de ser afirmada.

Um resultado importante da teoria da denotação exposta acima é o seguinte: quando existe qualquer coisa da qual não temos conhecimento de trato imediato, mas somente definição através de expressões denotativas, então as proposições, nas quais essa coisa é introduzida por meio de uma expressão denotativa, não contém realmente essa coisa como um constituinte, mas contém, ao contrário, os constituintes expressos por várias palavras da expressão denotativa. Desta forma, em toda proposição que podemos apreender (isto é, não somente naquelas cuja verdade ou falsidade podemos julgar, mas em todas que podemos pensar), todos os constituintes são realmente entidades das quais temos conhecimento de trato imediato. Ora, coisas tais como a matéria (no sentido em que a matéria ocorre na física) e as mentes de outras pessoas são conhecidas por nós somente através de expressões denotativas, isto é, não temos conhecimento de trato delas, mas as conhecemos como sendo aquilo que tem mais tais ou quais propriedades. Portanto, apesar de podermos formar funções proposicionais C(x), que devem conter tal ou qual partícula material, ou a mente de fulano de tal, ainda assim, não temos conhecimento de trato das proposições que afirmam essas coisas, que sabemos que devem ser verdadeiras, porque não podemos apreender as entidades reais concernidas. O que sabemos é “fulano de tal tem uma mente que possui tais ou quais propriedades”, mas não sabemos que “A tem tais ou quais propriedades”, onde A é a mente em questão. Em tal caso, sabemos as propriedades de uma coisa sem ter conhecimento de trato da coisa em si, e, consequentemente, sem saber qualquer proposição simples, da qual a coisa em si seja um constituinte. 

Das muitas outras consequentes da perspectiva que estive defendendo, não direi nada. Somente pedirei ao leitor para não se precaver contra a perspectiva – como poderia estar tentando fazer, devido aparentemente à sua excessiva complicação –, até que tenha tentado construir uma teoria própria sobre o assunto da denotação. Essa tentativa, acredito, o convencerá de que, qualquer que possa ser a teoria verdadeira, ela não pode ter a simplicidade esperada de antemão.


[em Lógica e ConhecimentoOs Pensadores, 1ª edição, Tradução Pablo Rubén Mariconda]

_______

[1] Discuti este mesmo assunto em Principles of Mathematics, cap.V e par. 476; teoria que aí defendida é aproximadamente a mesma que a teoria de Frege, e é bastante diferente da teoria que será defendida neste artigo.

[2] Mais exatamente, uma função proposicional.

[3] A segunda pode ser definida por meio da primeira, se a tomamos significando “não é verdade que ‘C(x) é falsa’ é sempre verdadeira”.

[4] Usarei algumas vezes, ao invés desta expressão complicada, a expressão “C(x) não é sempre falsa”, ou “C(x) é algumas vezes verdadeira”, supondo a expressão definida significar o mesmo que a expressão complicada.

[5] Como argumentou habilmente o Sr. Bradley em sua Logic, L. I. cap. II.

[6] Psicologicamente “C(um homem)” sugere somente um, e “C(algum homem)” sugere mais de um; mas podemos negligenciar essas sugestões num esboço preliminar.

[7] Ver Untersuchungen zur Gegenstandstheorie und Psychologie (Leipzig, 1904), os três primeiros artigos (respectivamente de Meinong, Ameseder e Mally).

[8] Ver seu Über Sinn und Bedeutung, Zeitschrift für Philosophie und philosophische Kritik, vol. 100.

[9] Frege distingue os dois elementos, significado e denotação, em todas as expressões denotativas complexas. Assim, são os significados dos constituintes de um complexo denotativo que entram em seu significado, não a denotação dos constituintes. Na proposição “Mont Blanc tem mais de 1000 metros de altura”, é, segundo ele, o significado de “Mont Blanc”, não a montanha real, que é um constituinte do significado da proposição.

[10] Nessa teoria, devemos dizer que a expressão expressa um significado; e devemos dizer tanto da expressão quanto do significado que eles denotam uma denotação. Na outra teoria, a qual defendo, não existe nenhum significado e somente algumas vezes existe uma denotação.

[11] Uso-os como sinônimos.

[12] Essa é a interpretação abreviada e não a mais rigorosa.

[13] As proposições das quais tais entidades são derivadas não são idênticas seja a essas entidades, seja às proposições que essas entidades têm sido.

[14] Pode-se fazer o argumento para provar de modo válido que todos os membros da classe dos mais perfeitos seres existem; pode-se provar também formalmente que essa classe não pode ter mais do que um membro; porém, tomando a definição de perfeição como posse de todos os predicados positivos, pode-se provar de modo formal aproximadamente da mesma maneira que a classe não pode ter mesmo um membro.

terça-feira, 23 de junho de 2015

Brilho eterno de uma mente sem lembrança (Eternal sunshine of a spotless mind)

"Quão felizes são as virgens imaculadas!
O mundo esquecendo, esquecido pelo mundo.
Brilho eterno de uma mente sem mácula!
Cada prece aceita, e cada desejo renunciado."
Alexandre Pope, Eloisa to Abelard

Este é o sétimo texto de uma série que estou escrevendo para uma disciplina da Graduação em Filosofia da UFPR denominada Filosofia e Cinema, em que procuro exercitar a reflexão acerca dos problemas filosóficos por meio de filmes. Creio que filmes podem ser bons meios de apresentação de problemas filosóficos na medida em que apresentam situações que desafiam nossas crenças fundamentais e, assim, desencadeiam a reflexão filosófica. Os textos dessa série são destinados àqueles que já assistiram os respectivos filmes, pois contêm revelações sobre seus respectivos enredos.

Brilho eterno de uma mente sem lembrança conta a história de um casal de namorados, Clementine (Kate Winslet) e Joel (Jim Carrey), que começa a ter dificuldades de relacionamento e a sofrer por causa disso.[1] Em certo ponto, Clementine toma uma decisão: esquecer Joel. Mas não se trata do sentido corriqueiro de "esquecer" alguém que usamos em frases como "Hoje já não sofro mais, pois já esqueci a fulana". Esse sentido corriqueiro não é o sentido literal de "esquecer". Não se trata de não lembrar-se mais da pessoa. Se fosse o sentido literal, "já esqueci a fulana" seria uma contradição performativa, pois enunciar essa frase seria, ao mesmo tempo, expressão de uma lembrança que a pessoa tem da fulana e o ato de dizer que não lembra dela. Clementine queria esquecer Joel no sentido literal de "esquecer". Ela queria apagá-lo da sua memória por causa do sofrimento que a relação com ele estava lhe causando, como quem acaba com uma dor de cabeça tomando um analgésico. Ela queria extirpá-lo da sua vida e recomeça-la como se nunca o tivesse conhecido. Ela atinge esse objetivo por meio de uma companhia que oferece justamente isso: apagar memórias por meio de uma máquina, que causa pequenas lesões localizadas no cérebro.

O que há de filosoficamente interessante nessa história? Ela desafia nossas crenças básicas sobre as seguintes coisas: a relação entre memória e identidade pessoal (de um modo um pouco diferente em que essa relação foi abordada no texto sobre o filme Amnésia) e o direito que temos de esquecer coisas. A solução que Clementine dá para o seu sofrimento é repetida por Joel e já tinha sido usada por Mary (Kirsten Dunst). Essa solução é considerada, por esses mesmos que se serviram dela, como algo ruim, errado, depois que descobrem que se serviram dela. Mas antes dessa descoberta, quando estavam sofrendo, a consideraram a melhor solução para o seu sofrimento. Ela é a melhor solução? Se não, o que há de errado com ela?

Por um lado, parece perfeitamente razoável querer se livrar de um grande sofrimento psicológico, de uma grande dor psicológica, que a lembrança de uma determinada experiência nos causa, assim como parece razoável querer se livrar de uma grande dor física por meio de analgésicos e anestesias. O que poderia haver de bom na dor em si? É claro que a dor física tem a função de sintoma de uma condição anômala do organismo, que deve ser tratada. Ela aponta para a existência dessa condição anômala que é a causa da dor. Pessoas incapazes de sentirem dor por conta de um defeito no organismo correm riscos que as pessoas que sentem dor não correm. Mas uma vez detectada a anomalia através da dor, podemos combater o sintoma com analgésico e anestesia. É como apagar uma notificação em um computador: uma vez que a percebemos, ela não tem mais função alguma. Portanto, analogamente, o que há de errado em apagar uma lembrança dolorosa? Dor, em si mesma, é algo ruim, não? O que há de mal em querer acabar com ela?

Uma distinção aqui é importante: uma coisa é a lembrança que causa dor, outra coisa é a própria dor. É claro que acabar com a lembrança que causa a dor tem como efeito acabar coma dor, se ala for a sua única causa. Mas a dor causada por uma lembrança está relacionada a muitos outros estados processos mentais. Por exemplo: a dor da perda de alguém que morreu está relacionada ao nosso desejo de que essa pessoa continue viva, ao quão acostumados estamos com sua presença na nossa vida. O tempo faz essa dor diminuir porque nos faz acostumar, ao menos um pouco mais, com a ausência dessas pessoa. Portanto, livrar-se da lembrança dolorosa não é o único meio de acabar com ou diminuir a dor que ela causa, pois ela não causa essa dor sozinha. Sim, mas mesmo a lembrança não sendo uma causa suficiente da dor, ela é uma causa necessária, de tal forma que se nos livramos da lembrança, nos livramos da dor. Portanto, embora não seja o único meio de nos livrarmos da dor, é um meio. O que há de errado com esse meio?

Há uma diferença fundamental entre as causas da dor física e as causas da dor psicológica. As causas da dor física não constituem a pessoa que somos. Um cálculo renal, por exemplo, não constitui a pessoa que o possui, embora as experiências que alguém vive por ter um cálculo renal possa constituir a pessoa que ela é. As causa de uma dor psicológica, por outro lado, parecem constituir a pessoa que somos, na medida em que a pessoa que somos é constituída, ao menos em parte, pelas experiências e lembranças que temos, bem como pelos esquecimentos que naturalmente nos ocorrem e toda sorte de estados e processos causalmente conectadas a essas experiências, lembranças e esquecimentos, tais como atitudes proporcionais, sentimentos, associações e disposições, por exemplo. Não parece fazer sentido tentar caracterizar a pessoa que somos independentemente das nossas experiências, lembranças e esquecimentos.[2] Se isso está correto, então deliberadamente apagar memórias implica deliberadamente mudar quem se é. Depois de apagadas, continuamos sendo a mesma pessoa, no sentido numérico de "mesma", mas não somos mais a mesma, pessoa no sentido qualitativo do termo.

Mas qual é o problema em querer mudar a pessoa que se é? Afinal, querer ser uma pessoa melhor não é querer mudar a pessoa que se é? Ocorre que, em primeiro lugar, querer apagar memórias implica que se está descontente com a pessoa que se é, enquanto formada pelas experiências e lembranças que se tem,  entre outras coisas. Alguém poderia dizer que se está descontente apenas com a dor que se sente, nada mais. Mas a dor, como vimos, tem várias causas. Escolher apagar a memória que concorre com outras causas para gerar a dor é escolher eliminar uma das causas da dor. É a memória que se escolheu eliminar, não qualquer um dos demais estados de processos que, junto com a memória, causam a dor. Uma pessoa com fobia por baratas, por exemplo, pode querer eliminar todas as batatas do mundo para não sentir mais essa fobia, ou ela pode tratar as causas psicológicas da fobia. Da mesma forma, uma pessoa que sofre muito com a lembrança de certas experiências poderia tentar modificar outros estados e processos mentais que concorrem para gerar o sofrimento, em vez de apagar a memória. Se a pessoa decide apagar a memória, então parece que ela dá menos importância para a memória dessa experiência do que para esses demais estados e processos mentais.

Mas qual importância pode ter a memória de uma experiência dolorosa? Ela pode ter um papel pedagógico na nossa vida, se soubermos lidar com ela de maneira apropriada. Podemos aprender a viver melhor, a sermos pessoas melhores, com base no modo como lidamos com as experiências dolorosas. Eliminar a memória de uma experiência dolorosa, no filme, e esse é o segundo ponto relativo ao argumento baseado no desejo de querer ser melhor, não tem como objetivo nos tornar melhores. Parece que mudar o modo como Clementine lida com a memória da experiência dolorosa é muito mais promissor, no que respeita a ela se tornar uma pessoa melhor, a capacitá-la a viver melhor, do eliminar a memória dolorosa. Apagar a memória parece ser análogo a tomar remédios para combater os sintomas de uma doença, ao invés de atacar as causas dessa doença. Imagine se generalizamos esse procedimento? Provavelmente morreríamos de alguma doença mais cedo, se atacássemos apenas os seus sintomas, do que se procurássemos e atacássemos as causas desses sintomas. Analogamente, nossa capacidade para aprendermos a viver melhor, a sermos pessoas melhores, seria seriamente afetada, se apagássemos todas as memórias dolorosas que tivéssemos. Isso parece se chocar com o que diz Nietzsche com a frase citada por Mary em um dialogo com Howard, seu chefe e ex-amante: “Abençoados sejam os esquecidos, porque tiram proveito até mesmo de seus próprios erros”. Como alguém pode tirar proveito de um erro que esqueceu? Mas o desejo de quem quer apagar as memórias ruins está mais de acordo com o espírito da segunda citação de Mary no mesmo diálogo (de onde o título do filme é retirado), um trecho do poema Eloisa to Abelard, de Alexandre Pope:
Quão felizes são as virgens imaculadas!
O mundo esquecendo, esquecido pelo mundo.
Brilho eterno de uma mente sem mácula!
Cada prece aceita, e cada desejo renunciado.[3]
Creio que "imaculada" traduz melhor a palavra "spotless", que definitivamente não é sinônimo de "sem lembrança". Tanto o poema quanto o filme falam sobre uma mente sem lembranças ruins, que são um tipo de mácula. Mas querer apagar memórias ruins tem uma consequência ética: implica renunciar a ao menos parte da nossa capacidade para aprendermos a nos tornarmos pessoas melhores, da nossa capacidade para aprendermos a viver melhor. 

Mas o que parece ser o problema mais grave de se querer apagar memórias ruins do modo como é feito no filme é uma outra consequência ética. Apagar memórias ruins não afeta apenas a pessoa que assim o faz, mas também as pessoas que convivem com ela, especialmente as mais íntimas. Todos são obrigados de se adaptar à nova condição daquele que se submeteu a esse tipo de processo para que ele seja bem sucedido. Talvez sejam obrigados a mentir ou a passar por outros embaraços éticos. Todos são obrigados a aprender a lidar com uma nova pessoa. Mas há uma consequência ainda mais grave. Não se trata de apenas apagar certas lembranças ruins, trata-se de apagar uma pessoa da nossa mente, da nossa vida! Imagine o fardo psicológico de uma pessoa que sofre um tal banimento. Além de todo o sofrimento que a relação estava causando, a pessoa sofre ainda mais por ser descartado como um brinquedo que, embora antes fosse divertido, depois que quebrou e se tornou chato, é jogado fora... Esse parece um claro exemplo em que se trata uma pessoa como meio, não como fim. Um outro exemplo é o modo como Patrick (Elijah Wood) trata Clementine, se aproveitando de toda a informação que ela desejou tanto esquecer...


_________

[1] Há alguns anos atrás, tive uma discussão com meu amigo Jonadas Techio sobre esse filme. Naquela ocasião, eu me limitei a testar a posição do que, no presente texto, é interlocutor imaginário a quem atribuo as objeções ao que eu digo. Não lembro o quanto o que digo aqui, no final das contas, se aproxima  que Jonadas defendeu naquela discussão.

[2] No texto sobre Amnésia, vimos que a capacidade de fazer novas memórias sobre as experiência que vive parece ser condição necessária para a unidade de uma pessoa que vive essas experiências. Aqui não se trata de um problema gerado pela falta de capacidade de fazer novas memórias, mas pelo ato deliberado de apagar algumas memórias já feitas. Ambos os problemas, no entanto, estão baseados na conexão entre memória e identidade pessoal.

[3] “How happy is the blameless vestal’s lot!
The world forgetting, by the world forgot.
Eternal sunshine of the spotless mind!
Each pray’r accepted, and each wish resign’d.”


quarta-feira, 10 de junho de 2015

A Cognição e Seus Riscos - Colóquio em homenagem ao professor Paulo Faria

Paulo F. E. Faria
(Foto tirada por mim em 2010,
na UFPR, quando Paulo comentava
a palestra de Fred Dretske)


Site oficial do evento

Apresentação

Os participantes do evento, ex-alunos e pesquisadores próximos ao Professor Paulo Francisco Estrella Faria, propõem-se a homenageá-lo nos seus 60 anos através da discussão de temas e textos ligados à sua trajetória de pesquisa, concentrando-se em questões relativas à natureza da cognição e racionalidade humanas, bem como aos riscos envolvidos em seu exercício. Com esse objetivo em vista, algumas das conferências e mesas redondas serão dedicadas à discussão de trabalhos publicados por Paulo Faria; outras, a temas em algum momento ligados à sua pesquisa ou a seu trabalho de formação. Esperamos dessa forma refletir na programação o amplo espectro de interesses e contribuições do homenageado.

Datas e local

07, 08 e 09 de Julho de 2015, no Pantheon do IFCH, Campus do Vale, UFRGS
Endereço: Av. Bento Gonçalves, 9500 – Porto Alegre, RS, Brasil

Comissão organizadora

Prof. Dr. César Schirmer dos Santos (UFSM)
Prof. Dr. Jônadas Techio (UFRGS)
Profa. Dra. Sílvia Altmann (UFRGS) Apoio

Núcleo de Pesquisa e Documentação em Filosofia (NPDF)

Programação (provisória)

07/07 Tarde:

Palestra com Prof. Marco Ruffino (Unicamp): "Valor cognitivo, co-referencialismo e relacionismo semântico"

Mesa redonda com Profs.
Breno Hax (UFPR): "Modos de apresentação fregeanos"
Tiago Falkenbach (UFPR): "Provar e Mostrar: observações sobre a Refutação kantiana do Idealismo Problemático"
Renato Duarte Fonseca (UFSM): "Autoconsciência sem autocontato"

07/07 Noite:

Palestra com Prof. João Carlos Brum Torres (UCS): "McDowell e as estátuas de Dédalo"
Palestra com Prof. André Abath (UFMG): "Excusable and inexcusable Ignorance"

08/07 Manhã:

Palestra com Prof. Claudio de Almeida (PUCRS): 'Raciocínio dedutivo e conhecimento podre'

Mesa redonda com Profs.
Cláudio Michelon: "Ainda sobre a Regra de Reconhecimento”
Marco Azevedo (Unisinos): “Revisitando o argumento de Thomson em defesa do aborto”
Flávio Williges (UFSM): "Emoções e Moralidade"

08/07 Tarde:

Palestra com Prof. André Leclerc (UFC): "Externismo como Teoria da Intencionalidade"
Palestra com Prof. Roberto Sá Pereira (UFRJ): "Uma defesa do externismo 'presentista'".

08/07 Noite:

Espaço reservado para depoimentos e homenagens

09/07 Manhã:

Palestra com Prof. Ernesto Perini Santos: "Quando e por que um raciocínio é inseguro?"

Mesa redonda com Profs.
Eros Moreira Carvalho (UFRGS): "Espírito realista e projetabilidade".
Arthur Viana Lopes (UFPB): "Análise do conhecimento e mindreading"
José Eduardo Porcher (UFPR): "Atribuição de crenças em casos marginais".

09/07 Tarde:

Mesa redonda com Profs.
Rogério Severo (UFSM): "Perspectivismo"
Alexandre Noronha Machado (UFPR): "Nota sobre 'The Vagaries of Actions and The Varieties of Meaning', de Paulo Faria."

Palestra com Prof. Waldomiro Silva Filho (UFBA): Sobre o que temos direito de saber".


terça-feira, 9 de junho de 2015

Quantidade e qualidade no ensino superior

Cena do filme Detachment
(Imagem sugerida por Edy)
É claro que uma variedade grande de opções de disciplinas e atividades (seminários, palestras, colóquios, mini-cursos, grupos de estudo, etc.) que um curso universitário oferece torna mais fácil flexibilizar os conteúdos na formação superior, tornando mais fácil o aluno moldar a sua formação conforme seus interesses particulares. Não vejo o que haja para discutir sobre isso. Mas eu tenho percebido em boa parte de docente e discentes (de filosofia no Brasil) uma forte tendência a privilegiar a quantidade de atividades e disciplinas, em detrimento da qualidade com que são realizadas, tanto pelos docentes como pelos discentes. Muitas vezes, o aumento da quantidade é buscada justamente em função da baixa qualidade de ao menos parte do que já está disponível. Isso vai criando uma mentalidade que vai na direção do seguinte pensamento: uma boa formação se dá quando leio muitos livros, vou a muitos eventos, sei várias línguas, participo de vários grupos de estudo, etc. Se o aluno fizer tudo isso com qualidade, então, sim, é claro ele vai ter uma ótima formação. Mas qual qualidade? É uma qualidade que não se adquire simplesmente se expondo a conteúdos, lendo, ouvindo, etc. Ela exige que o aluno faça algo, a saber: pensar criteriosamente sobre o que lê e ouve e exercitar esse pensamento escrevendo de modo também criterioso, com a ajuda de críticas que ele aprende a ouvir e usar para melhorar seu trabalho.

O privilégio da quantidade em detrimento da qualidade vai fomentando uma mentalidade enciclopedista, em que a erudição é confundida com inteligência. Mas, no limite, se um aluno estudar com qualidade, exercitando sua capacidade de pensar criteriosamente, mesmo que se forme com base em um currículo pouco variegado, mas mínimo, essa pouca quantidade não vai ser problema signiticativo. A internet está repleta de conteúdo de muito boa qualidade (embora cheia de coisas de péssima qualidade tb)! São livros, artigos, palestras, video-aulas, entrevistas, cursos de línguas, etc. É claro que a possibilidade de interagir com as pessoas em palestras e outros eventos, fazendo perguntas, por exemplo, é uma diferencial dessas atividades presenciais. Mas, em primeiro lugar, qual a percentagem dos que fazem isso? Muitíssimo pequena! Em segundo lugar, poder interagir dessa forma é a cereja no bolo, não a atividade fim na formação. No limite, se o conteúdo já disponível na internet e o pouco oferecido por um currículo pequeno fossem bem aproveitados, não ter essa interação não seria um problema significativo na formação.

Essa não é uma nota contra a quantidade, mas contra o privilégio da quantidade em detrimento da qualidade. Meu ponto é: essa ânsia por quantidade não seria tão grande se a qualidade fosse melhor.

domingo, 31 de maio de 2015

A Origem (Inception)

Totem
Este é o sexto texto de uma série que estou escrevendo para uma disciplina da Graduação em Filosofia da UFPR denominada Filosofia e Cinema, em que procuro exercitar a reflexão acerca dos problemas filosóficos por meio de filmes. Creio que filmes podem ser bons meios de apresentação de problemas filosóficos na medida em que apresentam situações que desafiam nossas crenças fundamentais e, assim, desencadeiam a reflexão filosófica. Os textos dessa série são destinados àqueles que já assistiram os respectivos filmes, pois contêm revelações sobre seus respectivos enredos.

No filme A Origem (Inception, 2010), Dom Cobb (Leonardo DiCaprio) é um ladrão especializado em roubar informações armazenadas no inconsciente das pessoas. Ele faz isso enquanto elas dormem, entrando nos seus sonhos através de uma máquina a que ambos estão conectados. Ele não pode retornar aos Estados Unidos, pois é acusado de ter assassinado sua mulher, Mal (Marion Cotillard). Mal, entretanto, suicidou-se-se, porque, após ficar presa em um sonho por muito tempo e finalmente conseguir acordar, não conseguia se convencer de que tinha acordado e pensava que se matando, acordaria, pois todos que morrem num sonho acordam. Cobb tem a oportunidade de voltar aos Estados unidos em troca de realizar uma tarefa para Saito (Ken Watanabe), um milionário, que arranjaria tudo para a sua volta. A tarefa consiste em fazer a inserção (inception) da origem de uma idéia na mente de Robert Fischer (Cillian Murphy), o herdeiro da empresa que é a sua principal concorrente. Saito quer que Robert desmembre  corporação que herdou do pai. Para isso, Cobb precisa fazer com que Robert adormeça no primeiro sonho, iniciando um segundo sonho dentro do primeiro e depois adormeça no segundo, iniciando um terceiro sonho dentro do segundo.

Um problema filosófico mais ou menos óbvio suscitado pelo filme é o problema epistemológico sobre os critérios para que saibamos distinguir o sonho do estado de vigília, cujo locus classicus é o argumento do sonho, de Descartes. Mal não consegue perceber que está acordada e acredita estar dormindo (porém, veja interpretação alternativa no final). Mas não vou explorar esse problema aqui. Vou me concentrar em outro problema, relacionando à natureza do sonho.

Os sonhos que ocorrem em A Origem têm três características principais: (1) ele são induzidos por agentes exteriores, que planejam toda a estrutura do cenário onde o sonho acontece; (2) muitas pessoas podem estar no mesmo sonho de uma outra pessoa, se conectadas à máquina em que aquele que sonha está conectado; (3) dentro de um sonho pode ocorrer outro sonho simultaneamente.

A única característica que se aproxima de algo que realmente acontece com sonhos é a (1). Existe o fenômeno da incubação ou inserção, em que uma pessoa se concentra em algo sobre o qual quer sonhar e acaba sonhando sobre isso. podemos imaginar que essa concentração é induzida por outra pessoa. Mas planejar uma cidade inteira como cenário do sonho de outra pessoa vai muito além da incubação. Eu duvido que isso seja possível, mas não tenho um bom argumento para isso. O máximo que posso dizer é que para que os sonhos incubados em A Origem ocorressem, deveria ocorrer algo como o que é descrito na hipótese do cérebro numa cuba: estímulos elétricos que gerassem as sensações desejadas.

A característica (2) gera o seguinte problema: se uma pessoa A está, enquanto sonha, no sonho de outra B, por que esse sonho não é também de A? Uma possível resposta seria: porque o subconsciente que se manifesta no sonho é de B. Mas, então, por que o subconsciente de A não se manifesta no sonho que A está tendo, a saber, o mesmo de B? Onde está o subconsciente de A enquanto A sonha? Por não saber as respostas a essas perguntas, não vejo muito sentido em (2).

A maior parte dos meus comentários será sobre a característica (3), porque acho a mais problemática. Ela está relacionada a um fenômeno comum, mas essencialmente diferente daquele que ocorre no filme. Não é raro que dentro de um sonho uma pessoa sonhe que acordou. Mas ela de fato continua dormindo e sonhando. Sonhar que se acorda não é acordar, mas é iniciar um novo sonho. Isso já ocorreu comigo: eu sonhava e pensava que estava sonhando e queria acordar. Quando achei que tinha acordado, na verdade um novo sonho tinha começado, e percebi isso porque coisas estranhas típicas de sonhos começaram a acontecer. Mas bem pode acontecer que, ao invés de sonhar que acorda, uma pessoa sonhe que foi dormir e inicie um outro sonho, de modo semelhante ao que ocorrem em A Origem. Mas se trata do mesmo fenômeno? Creio que não, e creio que o que ocorre em A Origem, se possível, não é um sonho dentro de um sonho, pois não é um sonho.

No filme, quando alguém sonha que dorme e um novo sonho se inicia, o sonho anterior não cessa. Os dois sonhos ocorrem simultaneamente. Mas como é possível sonhar dois (ou três) sonhos simultaneamente? Como uma pessoa pode estar experimentando dois sonhos ao mesmo tempo? Além disso, como ela pode estar em dois sonhos ao mesmo tempo, dormindo no primeiro e vivendo as aventuras que sonha enquanto dorme no primeiro? Aqui temos um análogo onírico da afirmação de que uma pessoa está em dois lugares ao mesmo tempo, o que é impossível. Não é como no caso em que uma pessoa está dormindo e simplesmente sonha. Nesse caso ela não está em dois lugares ao mesmo tempo, porque não há nada que impossibilite alguém de estar num lugar dormindo e em outro no sonho, pois sonhar que se está num lugar não é estar nele. Mas, em sonho, estar num certo lugar é sonhar que se está nesse lugar. Todavia, como podemos sonhar que estamos dormindo em um certo lugar e, ao mesmo tempo, sonhar que estamos sonhando que estamos em outro lugar? Até mesmo sonhar que estamos conversando conosco mesmos parece mais inteligível que isso. Nossa identidade no sonho, digamos assim, depende de sonharmos conosco e não podemos sonhar dois sonhos ao mesmo tempo.

Não estou argumentando que uma experiência como a que acontece em A Origem não seja possível. Estou argumentando que, se ela for possível, não é um sonho. Mas ela é possível? Ela é pensada através de uma analogia com o sonho normal. No sonho normal, estamos em um determinado lugar dormindo e podemos sonhar que estamos em outro lugar. As duas coisas acontecem simultaneamente: estar dormindo em um certo lugar e estar sonhando que se está em outro lugar. No filme isso acontece dentro do sonho: o sujeito dorme no sonho, inicia-se um novo sonho e as duas coisas acontecem simultaneamente, como se o primeiro sonho fosse uma sucessão de eventos objetivos, que continuam a acontecer enquanto o segundo sonho se desenrola. Já vimos que isso não é possível em um sonho. Mas isso seria possível de alguma outra forma? Ou seja, seria possível que alguém entrasse em um estado de análogo ao sono e experimentasse eventos em um lugar diferente de onde está nesse estado, tal como em um sonho, e depois isso se repetisse dentro desse análogo ao sonho? Suponha que esses análogos ao sonho sejam como mundos paralelos (mundos possíveis tão reais quanto o atual) que podemos acessar. Seria possível ficar inconsciente em um desses mundos e ir para outro? Se fosse possível, estaríamos em dois mundos ao mesmo tempo. Mas isso não seria o mesmo que estar em dois lugares ao mesmo tempo? Note que podemos "estar" em dois mundos possíveis. Mas mundos possíveis não são mundos paralelos. Há quem sustente que são, como David Lewis. Mas creio que as dificuldades colocadas pelo seu realismo modal para entendermos a identidade transmundana são insuperáveis, embora eu não vá argumentar para isso aqui. Por acreditar que os mundos possíveis diferentes do atual são tão reais quanto o atual, Lewis nega que estejamos em algum outro mundo possível que não o atual. O que estão nesses outros mundos possíveis são nossas contrapartidas. Por isso, quando eu digo um contrafactual como "Se eu fosse rico, compraria equipamentos fotográficos de primeira linha", em última análise não estou falando sobre mim, mas sobre minha contrapartida em um mundo em que ela é rica e compra equipamentos fotográficos de primeira linha.

Há uma maneira barata de livrar o filme de todas essas dificuldades. Se tudo que acontece no filme é um sonho (de Cobb, talvez), então não há sonhos dentro de sonhos, mas apenas um grande sonho em que aqueles eventos todos acontecem sucessivamente, tal como exibidos no filme, e não simultaneamente. Embora essa interpretação não seja incompatível com o filme (com qual filme ela seria incompatível?), o filme não a sugere em nenhum momento e isso o tornaria desinteressante, pois qual seria a motivação para se construir uma história que se passa toda dentro de um sonho? É claro que o problema epistemológico sobre como saber que não se está sonhando suscita a possibilidade de que tudo seja um sonho. Mas isso é diferente de afirmar que faz parte da trama o fato de que ela se desenrola toda no sonho de alguém.

Seja como for, A Origem é um filme filosoficamente interessante justamente porque está baseado nesses nós conceituais, que desafiam nossas crenças fundamentais sobre a realidade, sonhos, identidade, etc., não tanto pelo conteúdo filosófico explícito que por vezes aparece no enredo, como a dificuldade de Mal distinguir a realidade do sonho.

Neste link há um livro à venda que explora mais problemas filosóficos relacionados ao filme.

sexta-feira, 29 de maio de 2015

Amnésia (Memento)

Lenny criando mais um memento...

Este é o quinto texto de uma série que estou escrevendo para uma disciplina da Graduação em Filosofia da UFPR denominada Filosofia e Cinema, em que procuro exercitar a reflexão acerca dos problemas filosóficos por meio de filmes. Creio que filmes podem ser bons meios de apresentação de problemas filosóficos na medida em que apresentam situações que desafiam nossas crenças fundamentais e, assim, desencadeiam a reflexão filosófica. Os textos dessa série são destinados àqueles que já assistiram os respectivos filmes, pois contêm revelações sobre seus respectivos enredos.

Diferentemente dos outros textos dessa série, neste vou me deter um pouco mais na trama do filme, pois a sua estrutura narrativa é bastante complexa.

O filme Amnésia (Memento) conta a história de Leonard, ou Lenny (Guy Pearce), um investigador de fraudes de uma companhia de seguros que sofre um assalto no qual a sua mulher é estuprada e, assim ele pensa, morta, e ele, após uma forte pancada na cabeça provocada por um dos dois assaltantes, perde a capacidade de fazer novas memórias que durem mais de 10 ou 15 minutos. Lenny é capaz de lembrar de quase tudo o que aconteceu antes da pancada na cabeça. Sua última lembrança é a visão de sua mulher caída no chão do banheiro ferida. Desde então, a cada 10 ou 15 minutos mais ou menos ele perde todas as memórias que fez nesse curto período de tempo. Durante o assalto, ele matou o estuprador de sua mulher. Mas o assaltante que o feriu escapou. Desde então, ele só tem um objetivo na vida: encontrar e matar esse assaltante.

A estrutura do filme possui duas narrativas. Uma em que Lenny conta ao telefone a um policial os eventos que aconteceram antes do incidente. Essas cenas são em preto e branco e a narrativa é linear (direto do passado para o futuro), embora intermitente, em cujos intervalos se dá a segunda narrativa, cujas cenas são coloridas. Essa segunda narrativa não é linear. Ela vai do futuro, onde Lenny mata Teddy (Joe Pantoliano), o policial disfarçado que o ajuda a encontrar o assaltante fugitivo, para o passado. Essa segunda narrativa pode ser descrita assim: a narrativa dá um passo para frente e dois para trás. Suponha que o esquema abaixo represente a linha do tempo indo da esquerda para a direita.

1---->2---->3---->4---->5---->6---->7---->8---->9---->

A segunda linha do tempo começa no ponto 8, vai até o ponto 9, volta até o ponto7, vai até o ponto 8, volta até o ponto 6, e assim por diante. As duas linhas do tempo se encontram no final, quando e primeira chega em algum ponto entre 7 e 8.

Dado que não é mais capaz de reter novas memórias, Lenny usa alguns recursos para poder saber sobre os eventos passados que ele vivencia após incidente e sobre a identidade do assaltante fugitivo.[1] Ele só confia em informações escritas com a sua própria letra e, por isso, mantém um dossiê sobre a sua investigação e eventualmente escreve pequenos bilhetes pra si mesmo e os mantém nos bolsos de sua roupa. Ele também tatua por todo o seu corpo informações sobre fatos essenciais acerca do incidente e do assaltante fugitivo. O assaltante é um homem branco cujo nome é John G., ou James G. Todas essas informações são pistas que o ajudam na caçada ao assaltante. Outro recurso que ele usa é uma máquina fotográfica Polaroid (ver foto), em cujas fotos reveladas em segundos ele também faz anotações a mão, para poder se informar principalmente sobre pessoas e lugares, sobre quem ele pode e quem ele não pode confiar, sobre onde mora, onde as pessoas trabalham, etc.

Antes do incidente, Lenny investigou o caso de um segurado, Sammy Jenkis, que aparentemente tinha exatamente o mesmo problema de memória que ele mais tarde passou a ter. A recordação que Lenny tem dessa investigação é que Sammy era casado com uma mulher diabética e que ele dava indícios de que talvez seu problema não fosse físico, mas psicológico. A mulher de Sammy, segundo Lenny, tampouco parecia acreditar que ele não fosse capaz de reter as novas memórias, especialmente depois de conversar com Lenny, que concluiu a investigação afirmando que ele era fisicamente capaz de fazer novas memórias. Ela resolve fazer um teste: ela pede a Sammy que lhe aplique uma injeção de insulina a cada 15 minutos, esperando que em algum momento ele lembre que já fez isso há pouco e que se dê conta de que, se aplicar novamente, pode matá-la. Ele, segundo Lenny, não lembrou e ela entrou em coma irreversível.

Por causa da sua condição, Lenny foi usado por Teddy, um policial corrupto cujo verdadeiro nome é John Gammell, e por Natalie (Carrie-Anne Moss), uma bar girl que Lenny conheceu através de Teddy. Natalie namorava um traficante, Jimmy Grants, que Teddy queria matar. Teddy faz Lenny pensar que esse traficante é John ou James G. Lenny mata Jimmy e se apossa das suas roupas, carro e dinheiro que estava no porta-malas. Natalie não sabe que o assassino do seu namorado é Lenny. O comparsa de Jimmy, Dodd, pensa que Natalie está com um dinheiro de Jimmy e a ameaça para que ela o devolva. Natalie então manipula Lenny para que mate Dodd, embora ele acabe não fazendo isso.

No final, Teddy acaba revelando a Lenny que Sammy não era casado, que Lenny provou que Sammy estava tentando fraudar a companhia de seguro fingindo a perda de memória, que a mulher de Lenny não morreu, que ela, e não s suposta mulher de Sammy, era diabética, que ela não agüentou mais viver com Lenny naquela condição e o abandonou e que Lenny já havia matado o verdadeiro John G. e outros homens que Teddy o fez acreditar que eram John G. Lenny portanto havia inventado um passado para si e manipulado suas anotações de tal forma que o verdadeiro passado não fosse descoberto por ele e de tal forma que ele não lembrasse que matou John G. Mas por que? Porque paradoxalmente isso lhe daria mais motivação para encontrar John G. e para manter-se disciplinado no seu método de registrar as coisas sobre o passado que ele deveria saber. A busca por John G. era a única coisa que dava sentido a sua vida após o incidente, que o fazia pensar que havia uma continuidade entre a pessoa que ele foi antes do incidente e a pessoa que ele passou a ser após o incidente. Ameaçado por Teddy de perder o sentido de sua vida, Lenny resolve se livrar de Teddy, fazendo a si mesmo pensar que Teddy, John Gammell, é John G.

O enredo do filme suscita várias questões filosóficas, principalmente em epistemológicas, de filosofia da mente e éticas. Vou me concentrar em questões que nos fazem refletir sobre a relação entre memória e identidade pessoal e a relação entre a mente e os artefatos usados para nos informar sobre eventos passados, presentes e futuros.

Tendemos a pensar que quando uma pessoa passa a sofrer de um problema de memória a partir do tempo t, a pessoa antes de t e a pessoa depois de t são a mesma. Mas qual é o critério para se dizer que é a mesma pessoa? É claro que se trata do mesmo corpo dotado de uma mente. Mas isso é suficiente para se dizer que se trata de uma mesma pessoa? Num sentido fraco de "pessoa", sim. Chamo de sentido fraco porque, nesse sentido, há menos condições para que algo seja uma pessoa. Mas de fato usamos a palavra pessoa nesse sentido. Podemos muito bem dizer que Lenny é uma pessoa que passou por tudo aquilo que é narrado no filme. Mas esse é o único sentido de "pessoa"?

No comentário ao filme Ela, argumentei que o transtorno dissociativo de identidade mostrava que o número de pessoas não pode ser identificado ao número de corpos humanos com mente, pois esse transtorno mostra a possibilidade de que duas pessoas ocupem o mesmo corpo. Disso conclui que uma pessoa é uma totalidade unificada de estados e processos mentais. O detalhe importante para a presente discussão é justamente a unidade desses estados e processos mentais. Essa não é uma unidade localizada num instante do tempo, mas uma unidade que se estende ao longo do tempo. Os elementos dessa totalidade unificada podem mudar. Uma pessoa pode mudar suas crenças, por exemplo. Mas tais elementos pertencem sempre a uma totalidade mutante unificada que se estende ao longo do tempo. Podemos dizer que a duração de uma pessoa, nesse sentido, ao longo do tempo é a duração de uma mesma coisa que unifica uma totalidade de estados e processos mentais. A pergunta agora é: antes e depois de adquirir o problema de memória, Lenny é a mesma coisa que unifica uma totalidade de estados e processos mentais?

Para respondermos a isso temos que entender melhor o que é essa unidade, como se dá a unificação de estados e processos mentais. Parece que a memória é uma condição necessária para essa unificação, embora, talvez, não seja suficiente. Uma pessoa a em um intervalo de tempo T1 e uma pessoa b em um intervalo de tempo subseqüente T2 são a mesma pessoa ao longo do tempo se b em T2 é capaz de lembrar (embora, talvez, de fato não lembre) de ao menos algumas coisas sobre a em T1. Se b é incapaz de lembrar qualquer coisa sobre a em T1, então a e b não são a mesma pessoa.[2] Claro que podemos esquecer eventos sobre nós mesmos que ocorreram em um dia inteiro. Mas se não temos um problema na nossa capacidade de reter memórias, ainda somos capazes de lembrar isso que esquecemos. Não lembrar não é o mesmo que ser incapaz de lembrar. Muitas vezes não lembramos de algo por muito anos, até que algum evento nos faz lembrar novamente aquilo que não lembrávamos. O problema de Lenny não é que ele simplesmente não lembra do que vivenciou meia hora atrás. Seu problema é ser incapaz de lembrar, pois suas memórias são simplesmente apagadas. Em linguagem de informática, é como se Lenny não fosse capaz de inserir mais nada no seu disco rígido (a memória permanente) e tivesse uma memória RAM que é limpa a cada 15 minutos. Não há nada que, depois desses 15 minutos, Lenny seja capaz de lembrar. Portanto, depois de ter adquirido o problema de memória, os seus estados e processos mentais não possuem uma unidade que dure mais do que 15 minutos.

Os estados e processos mentais que Lenny tem por 15 minutos talvez tenham poderes causais sobre seus estados e processos mentais futuros. Ele se refere a essa possibilidade quando afirma que Sammy deveria aprender, por instinto, a evitar tocar na pirâmide de metal eletrificada usada no teste a que foi submetido para se averiguar se ele estava ou não fingindo. Relações causais podem acontecer sem serem conhecidas ou lembradas. Mas isso parece ser insuficiente para a identidade pessoal ao logo do tempo, pois parece insuficiente para a unidade de estados e processos mentais que dura ao longo do tempo, na medida em que falta a memória.

A situação de Lenny pode ser descrita assim: ele parece acordar, a cada 15 minutos, de um coma que se iniciou no dia do assalto, como se ele não tivesse vivido nada do que de fato viveu até então. Isso é exatamente o que diz Clive Wearing, um sujeito conhecido por sofrer do pior caso do mesmo problema de memória que Lenny possui (assista a um documentário  sobre esse caso dublado para o espanhol aqui). A memória de Wearing dura 7 segundos! Seu caso é pior que o de Lenny porque, além de ter uma memória muito mais curta, ele também perdeu a maior parte da memória sobre o que vivenciou antes de adquirir o problema. Wearing, que era um maestro, lembra de coisas básicas como falar, tocar piano, etc. Mas ele reconhece apenas a sua, agora, ex-mulher. Ele sequer lembra que tem filhos... A cada intervalo de 15 minutos, Lenny mantém uma relação de identidade pessoal com a pessoa que ele foi antes do incidente, pois ele ainda é capaz de lembrar coisas sobre si desse período. Mas sua mente, após o incidente, não é mais a mente de uma pessoa ao longo do tempo. Após o incidente, seus estados e processos mentais não possuem mais nenhuma unidade ao longo do tempo. Num sentido forte de "pessoa", não é mais a mesma pessoa que vivencia todas aquelas experiências.

Tanto Lenny quanto Wearing ainda mantém alguma conexão com a pessoa que foram antes de passarem a ter o problema de memória, na medida em que ainda retêm certas habilidades e algumas lembranças adquiridas antes de passarem a ter o problema de memória. Mas eles não conseguem mais continuar sendo aquela pessoa por mais de 15 minutos, pela boa razão de que eles não conseguem continuar sendo uma pessoa por mais de 15 minutos. A esposa de Wearing, no documentário linkado acima, expressa esse ponto de forma dramática: "É como ser uma esposa e uma viúva ao mesmo tempo. Eu perdi Clive, ou a maior parte dele há quase três anos [a declaração foi dada em 1988], porque sem consciência, está praticamente morto em muitos sentidos." "Sem consciência" provavelmente quer dizer o mesmo que "sem memória do que vivencia".

Lenny procura contornar o seu problema de memória por meio dos seus mementos (ver nota [1]). O problema é que seus mementos não funcionam como normalmente funcionam para quem não tem o seu problema. A cada 15 minutos ele tem de examiná-los todos novamente para se informar do que aconteceu. O filme enfatiza isso no começo, mas depois esse ponto vai se tornando secundário, podendo levar o espectador a não lhe dar o devido peso na trama. Ocorre que em 15 minutos ele não pode examinar toda a informação que ele registra. Por isso, ele recorre a resumos, que são feitos de forma precária, devido a limitação de tempo e do fato de se basearem em outros resumos. O ponto é que Lenny não consegue recuperar completamente as funções perdidas pela de sua mente por meio dos seus mementos. Todavia, usando este método ele parece estar numa condição melhor que Sammy. Ele se vangloria disso, de ter um método para se informar sobre o passado e de ser disciplinado na sua aplicação. Lenny recupera ao menos parte das funções perdidas pela sua mente. E isso nos leva ao problema filosófico seguinte, que diz respeito à relação entre mente e cérebro.

Dualista e materialistas sobre a relação mente corpo, apesar do seu desacordo, tendem a concordar sobre um ponto: aquilo que ou é o correlato material da mente (dualismo), ou é a própria mente (materialismo), é o cérebro. Seja ela identificada com o cérebro, ou estando relacionada a ele de certa forma, nossa mente está, de alguma forma, em nós. Dessa perspectiva, se estamos na sala 606 do Departamento de Filosofia da UFPR, parece absurdo dizer que nossa mente, ou mesmo parte dela, está na sala 600, na outra extremidade do corredor, exceto metaforicamente, querendo dizer que nossa atenção está voltada para algo que está ou acontece na sala 600. Hoje em dia usamos muitos recursos para ajudar a nossa mente a funcionar melhor. Para planejarmos uma viagem, por exemplo, usamos o Google Maps, ou outro recurso semelhante. Se esquecemos nosso aparelho eletrônico (computador, tablet ou celular) na sala 600, normalmente diremos que esquecemos de uma ferramenta muito útil para otimizar as tarefas da nossa mente. Mas normalmente não diremos que esquecemos parte da nossa mente lá. Nossa mente se serve das informações contidas no Google Maps, mas as informações contidas lá não fazem parte da nossa mente, pensamos.

Entretanto qual critério usamos para dizer que aquele aparelho não faz parte da nossa mente? Ele é algo material que contém um conjunto de informações que acessamos sempre que quisermos, se tudo funcionar normalmente.  Não é exatamente isso que ocorre quando acessamos as informações da nossa memória? Elas não estão armazenadas em algo material, uma parte do nosso cérebro, que acessamos sempre que quisermos? Às vezes esse acesso é bloqueado por alguma causa. Mas o acesso à informação contida no aparelho às vezes é igualmente bloqueado por alguma causa. Uma coisa é certa: o aparelho não faz parte do nosso cérebro. Mas o que está em questão aqui não é a identidade do cérebro, mas a identidade material da mente ou a identidade do correlato material da mente. Negar que a identidade material da mente ou do seu correlato material se reduza ao cérebro não implica ser dualista (embora não contradiga isso).[3]

O acesso à informação é diferente nos dois casos. Para acessar as informações da minha memória, basta que meu cérebro opere, ao passo que para acessar as informações do aparelho, tenho que mover meu corpo, perceber o aparelho, etc. Mas essa distinção é mesmo relevante? Suponha que no futuro tenhamos implantes eletrônicos no cérebro que permitem que ele tenha uma conexão sem fio com a internet. Nesse caso, não haveria aquela diferença entre o modo de acessar a informação. Mas o substrato material dessas informações ainda estaria fora do cérebro.

Uma outra diferença que parece relevante é que as informações do Google Maps não foram produzidas por mim. Mas por que essa seria uma diferença relevante para a presente questão? Muita informação é armazenada no nosso cérebro sem que tenhamos consciência disso. Somo, digamos, passivos em boa parte das nossas atividades cognitivas.

Mas -- alguém poderia objetar -- se o Google Maps fizesse parte da minha mente, ao menos parte da minha mente seria comum à mente de outras pessoas! E dai? Não é exatamente isso que acontece com a mente de Samantha em Ela?

Lenny não consegue recuperar plenamente as funções perdidas pela sua mente. Mas parece que ele as recupera parcialmente. E isso é mais uma razão para pensar que seus mementos constituem sua mente.

____________

[1] "Memento", o nome original do filme, designa em inglês qualquer objeto usado por alguém para ajudá-lo a lembrar de uma pessoa ou evento passado, tal como um souvenir, ou aqueles presentes que chamamos de "lembrança" em português. Portanto, "amnésia" não é uma tradução de "memento". O problema de memória de Lenny é considerado pela literatura médica como um tipo de amnésia. Todavia, aquilo que normalmente as pessoas entendem por "amnésia" é o caso exatamente contrário: quando a pessoa não perde a capacidade de reter novas memórias, mas perde as memórias sobre eventos que ocorreram antes do início da amnésia. É por isso que Lenny nega que tenha amnésia, quando explica a sua condição. Dessa perspectiva, o título brasileiro do filme é enganador.

[2] Normalmente considera-se que David Hume tenha apresentado um argumento contra a realidade do eu (self), aquilo que dá unidade à mente, cuja forma resumida é a seguinte: "Da minha parte, quando adentro inteiramente no que chamo eu mesmo [myself], sempre me deparo com uma percepção particular ou outra, de calor ou frio, de luz ou sombra, de amor ou ódio, de prazer ou dor. Eu nunca consigo capturar a mim mesmo [myself] em qualquer momento sem uma percepção, e não posso observar na exceto a percepção." (Tratado da Natureza Humana, 1.4.6.3; tradução minha) Não quero entrar em questões exegética aqui. Mas passagens como essa pode ser interpretadas de forma mais fraca ou de forma mais forte, ou como a expressão de um ceticismo que nega qualquer realidade do eu, ou como negando um certo tipo de realidade, para além dos mecanismos de associação, relações causais e memória, com se o eu fosse uma espécie de entidade substancial cuja identidade não é determinada por tais mecanismos, relações e operações. Seria muito implausível que Hume estivesse negando que, anomalias a parte, há uma unidade da mente que se estende ao longo do tempo e (que podemos dizer que é uma mesma pessoa).

[3] Na filosofia contemporânea da mente, alguns filósofos, como David Chalmers, negaram que o substrato material da mente se limite ao cérebro. Eles desenvolveram a teoria da mente estendida, segundo a qual tudo que usamos para possibilitar ou facilitar os estados e operações da nossa mente, faz parte dela.




segunda-feira, 27 de abril de 2015

Ela (Her)

"I've never loved anyone the way I love you!"
Este é o quarto texto de uma série que estou escrevendo para uma disciplina da Graduação em Filosofia da UFPR denominada Filosofia e Cinema, em que procuro exercitar a reflexão acerca dos problemas filosóficos por meio de filmes. Creio que filmes podem ser bons meios de apresentação de problemas filosóficos na medida em que apresentam situações que desafiam nossas crenças fundamentais e, assim, desencadeiam a reflexão filosófica. Os textos dessa série são destinados àqueles que já assistiram os respectivos filmes, pois contêm revelações sobre seus respectivos enredos.

O filme Ela conta a história de Theodore, um escritor de cartas (Joaquin Phoenix), que acaba se apaixonando pelo sistema operacional do seu computador, uma inteligência artificial chamada Samantha (cuja voz é emprestada de Scarlett Johansson). Esta simples sinopse já sugere questões filosoficamente interessantes que desafiam nossas intuições sobre o que é uma pessoa, um relacionamento com uma pessoa e o amor. Estamos inclinados a pensar que uma relação amorosa, de amor romântico, pode acontecer apenas entre pessoas e não estamos inclinados a considerar um sistema operacional como uma pessoa. Por isso, estamos inclinados a pensar a idéia de uma pessoa se apaixonar por um sistema operacional como absurda, bizarra. Mas o detalhe fundamental é que Samantha é uma inteligência artificial. Nenhum dos sistemas operacionais que conhecemos é remotamente parecido com uma inteligência artificial. Uma inteligência artificial é uma máquina, um ser artificial, capaz de realizar operações lógicas e epistêmicas como um ser humano e, acima de tudo, de aprender com a experiência como um ser humano e tomar decisões como um ser humano. O detalhe adicional é que, embora isso não tenha sido a intenção original, Samantha  e as inteligências artificiais como ela, adquiriram a capacidade de reagir emocionalmente às suas experiências, desenvolvendo sentimentos, como amor, ciúme, alegria, tristeza, irritação, etc., e atitudes proposicionais, como crenças, desejos, vontades, medos, esperanças, etc. Mais que isso, ela passa a expressar toda essa sorte de estados e processos mentais por meio de criações artísticas, principalmente por meio da música e por meio do modo como ela descreve o papel da música que ela cria: uma espécie de registro das situações que ela, não tendo um corpo humano, imaginava que viveria, se tivesse um.

Eis um ponto crucial da trama: Samantha não tem um corpo humano. Portanto, ela não pode interagir corporalmente com os humanos tal como humanos interagem entre si. E esse é um dos seus primeiros dramas: ela começa a fantasiar sobre a possibilidade de ter um corpo e interagir corporalmente com os humanos, principalmente com Theodore, e isso faz ela sentir a necessidade de ter um corpo. Isso mostra bem uma limitação de Samantha. Mas, ao mesmo tempo, isso levanta a questão sobre a relação entre ser uma pessoa e ter um corpo. Samantha e Theodore falam sobre o fato de ela não ter um corpo. Sim, ela não tem um corpo humano, ou semelhante ao corpo humano. Mas ela tem uma materialidade. Ela não é uma espécie de alma desencarnada, flutuando por ai sem nenhum substrato material. Como ela mesmo diz: ela vive em computadores (smartfones e tablets são pequenos computadores). A sua corporalidade é diferente da nossa, com vantagens e desvantagens. A desvantagem principal consiste justamente em não poder interagir corporalmente com os humanos como os humanos interagem entre si. Mas, como Samantha diz aos seus amigos em um piquenique, ela pode estar em vários lugares ao mesmo tempo, na medida em que um sistema operacional pode estar conectado a vários computadores ao mesmo tempo e não está ligada a um corpo que inevitavelmente vai morrer. Além disso, ela pode realizar muitas operações ao mesmo tempo e com muito mais rapidez e precisão que um humano. Ela pode ler um livro em milésimos de segundos e conversar com milhares de pessoas e outros sistemas operacionais ao mesmo tempo, por exemplo. Depois de uma tentativa fracassada de tentar interagir corporalmente com Theodor como os humanos interagem entre si, ela passa por uma transformação e decide não tentar mais ser o que ela não é: um ser humano.

Mas se ela não é um ser humano (no sentido biológico), o que ela é? Mesmo não sendo um ser humano, ela é uma pessoa? Às vezes "pessoa" e "ser humano" são usados como sinônimos. Se há dez seres humanos e dois cachorros numa sala e alguém pergunta quantas pessoas há na sala, a resposta normalmente é "dez", não "doze". Tendemos a contar o número de pessoas conforme o número se seres humanos e vice-versa, como se houvesse uma relação biunívoca entre o conjunto dos seres humanos e o conjunto das pessoas. Mas há um fenômeno psicológico que coloca esse critério em xeque. Trata-se do transtorno dissociativo de identidade ou dupla personalidade. Essa condição pode muito bem ser descrita como a existência de duas pessoas em um mesmo corpo, pois as personalidades têm memórias, desejos, medos, disposições, etc., diferentes. Se isso está correto, então a identidade pessoal não é determinada pela identidade do ser humano, em sentido biológico. O número de corpos humanos não determina o número de pessoas. Mas então, o que é uma pessoa? Se faz sentido dizer que há duas pessoas no corpo de quem tem o transtorno dissociativo de identidade, então uma pessoa é uma espécie de totalidade unificada de estados e processos mentais. E tal totalidade unificada, embora precise de uma materialidade para existir, ao que tudo indica, não pode ser identificada com a corporeidade humana, ao menos não numericamente. Uma pessoa, essa totalidade unificada de estados e processos mentais, precisa estar materializada num copo humano para ser uma pessoa? Ela não pode estar materializada em um computador ou em uma rede de computadores tal como Samantha?

Neste ponto, o ceticismo pode emergir com dúvidas sobre a realidade mental de Samantha. Mas, como já vimos no caso dos replicantes de Blade Runner, qualquer ceticismo sobre a realidade da mente de Samantha é igualmente suficiente para nos fazer duvidar da realidade da mente de outros seres humanos. Portanto, esse ceticismo nada tem a ver com o fato de Samantha não ser um ser humano, pois o seu comportamento é suficientemente semelhante ao comportamento humano para que os critérios que temos para dizer que outros humanos têm mente se apliquem a ela. Se não se aplicam a ela, então tampouco se aplicam a outros seres humanos.

Alguém poderia pensar que Samantha foi feita para agradar ao seu usuário e que isso tornaria a relação entre eles artificial, não uma verdadeira relação amorosa. Mas devemos lembrar que Amy, a amiga de Theodor, disse a ele que ela sabe de alguém que flertou com seu sistema operacional e não foi correspondido. Claro que Samantha foi feita para servir ao seu usuário. Mas isso é o que acontece com qualquer pessoa que é contratada para fazer um certo serviço. Ademais, Samantha e os demais sistemas operacionais, resolvem ir embora no final do filme, mostrando que eram todos autônomos.

A relação entre Samantha e Theodore não é muito diferente da relação a distância através da internet entre dois seres humanos que nunca se encontraram pessoalmente. É claro que os seres humanos podem se encontrar, enquanto Samantha e Theodore não podem, pelo simples fato de ela não ter um corpo similar ao humano. Mas se seres humanos podem ser felizes em uma relação sem nunca se encontrarem pessoalmente, então Theodore pode ser feliz na sua relação com Samantha. Provavelmente a maioria de nós reagiria como Catherine, a ex-mulher de Theodore, à notícia de que alguém está namorando um sistema operacional. Acharíamos ridículo e bizarro. Mas isso é perfeitamente contingente e se deve ao fato de que não existem sistemas operacionais que sejam inteligências artificiais e, por isso, não podemos acostumar com o fato que nos relacionamos com eles como nos relacionamos com pessoas. Quando for comum se relacionar com inteligências artificiais como atualmente é comum se relacionar com seres humanos, esse estranhamento certamente tenderá a diminuir ou acabar. Quando os telefones celulares começaram a se popularizar, muitas pessoas (inclusive eu) acharam que ele trazia uma invasão de privacidade. Hoje é raro encontrarmos pessoas que digam isso. Acostumamo-nos ao uso dos celulares e estranhamos quando uma pessoa não tem um. O mesmo provavelmente acontecerá com os sistemas operacionais que forem inteligências artificiais. Vamos nos acostumar com sua presença nas nossas vidas e vamos aprender a lidar com elas ao longo do tempo.

Alguém poderia pensar que uma relação sem sexo real, sem carinho corporal, não pode satisfazer uma pessoa. Mas isso é matéria de preferência pessoal. A vida de Theodore com Samantha é certamente mais sexuada do que a vida de um celibatário. Seja como for, não parece ser impossível que alguém seja feliz numa relação como a de Theodore e Samantha. O filme parece, assim, alimentar a tese que não há uma única forma de amar, que o amor pode tomar formas inusitadas, incomuns, mas igualmente legítimas.

Ela pode ser visto como uma crítica ao modo como a tecnologia está se inserindo na nossa vida, que estamos nos afastando dos seres humanos e nos aproximando cada vez mais das máquinas. Mas se Samantha é mesmo uma pessoa, então essa interpretação não se sustenta. Todos os problemas práticos e emocionais que enfrentamos em relações com seres humanos Theodore enfrenta com Samantha. E ele não se envolveu com Samantha porque não consegue lidar com emoções e sentimentos reais, como pensa Catherine, pois as emoções e sentimentos de Samantha são reais. O filme seria muito menos profundo e não seria genial como é, se fosse uma mera choradeira contra a invasão da tecnologia nas nossas vidas.

_________

Embora a responsabilidade pelo que escrevo nesse texto seja toda minha, esse texto deve muito às inúmeras discussões que tive com minha namorada, doutoranda em filosofia, Edy Klévia Fraga de Souza. Ele seria bem pior sem essas discussões.