Problemas Filosóficos

BEM-VINDO!

Neste blog eu posto reflexões provisórias sobre problemas filosóficos que me interessam e algum material didático de caráter introdutório para uso nas minhas aulas na graduação. Comentários, sugestões e críticas são muito bem-vindos. Envie-me um email, comente as postagens ou assine o livro de visitantes. (Há um mecanismo de busca acima, na coluna esquerda e um sistema de busca por palavra-chave abaixo. If you can read English or some other language, there is a mechanical translator in the left column.) Licensed under a Creative Commons License. Citações são permitidas, se a fonte for mencionada.



Atualizações: Por Email | Postagens | Comentários


terça-feira, 31 de janeiro de 2012

O problema da linguagem privada

"Eu tenho dor"
A linguagem fenomênica é aquela formada por enunciados fenomênicos, ou seja, enunciados predicativos em que ocorrem verbos fenomênicos. Verbos fenomênicos são verbos psicológicos para estados mentais com qualidade fenomênica, isto é, estados mentais que surgem como efeito do ambiente sobre os sentidos, tais como a dor, as sensações visuais, auditivas, olfativas, etc. Exemplos de enunciados fenomênicos são “Eu tenho dor” e “Ele vê vermelho”.

Nas seções 243-315 das Investigações Filosóficas (IF), Wittgenstein lida com uma problema filosófico relacionado à linguagem fenomênica: o problema da linguagem privada, uma linguagem que apenas o seu usuário pode compreender. Geralmente denomina-se as reflexões contidas nessa parte do livro como “argumento da linguagem privada”, uma expressão infeliz porque enganadora, na medida em que sugere que Wittgenstein oferece um argumento a favor da linguagem privada. Todavia, embora Wittgenstein não ofereça um argumento a favor da linguagem privada, ele tampouco oferece um argumento contra a linguagem privada em geral. Naquelas reflexões, Wittgenstein não está interessado em examinar o conceito de linguagem privada in abstracto. O que lhe interessa examinar é a tese específica que a nossa linguagem fenomênica é uma linguagem privada. Por isso, é melhor denominar aquelas reflexões como “o problema da linguagem privada”.

Mas quem defende que a nossa linguagem fenomênica é privada? Aparentemente, Frege defendeu uma versão dessa tese no seu artigo tardio “O Pensamento” (Der Gedanke). O próprio Wittgenstein aparentemente também defendeu uma versão da mesma tese no seu período intermediário (entre o Tractatus e as Investigações Filosóficas), quando defendia o projeto da construção de uma linguagem fenomenológica (uma linguagem artificial que exibisse a mesma multiplicidade lógica dos "fenômenos", os dados da experiência sensível imediata). Mas mesmo que esse não seja o caso (adiante retornarei ao que Frege diz naquele artigo), com relação a esse problema, importa menos determinar se alguém defendeu essa tese do que determinar se alguém defendeu teses que implicam que a nossa linguagem fenomênica é privada.[1] Pois a Wittgenstein interessa examinar a tese que a nossa linguagem fenomênica é privada na medida em que ela é implicada por “teses” que ele julga serem irremediavelmente problemáticas, embora muito comuns a uma grande parte da tradição filosófica. Trata-se de duas teses: a tese da semântica agostiniana e a tese da privacidade cartesiana da mente. Vejamos a primeira.

As Investigações Filosóficas começam com uma apresentação da semântica agostiniana, isto é, das principais teses do modelo de análise semântica sugerido por uma passagem das Confissões, de Santo Agostinho, citada por Wittgenstein.[2] Essa semântica está operante na formulação da primeira premissa do argumento a favor da tese que nossa linguagem fenomênica é privada. Segundo esse modelo de análise semântica, uma expressão lingüística tem conteúdo semântico apenas se ela está associada de modo apropriado a uma entidade distinta da expressão lingüística. É realizando essa associação que significamos, que dotamos a expressão de conteúdo. E é conhecendo essa associação que compreendemos a expressão. A entidade associada à expressão lingüística tem uma natureza distinta, conforme for a versão mais específica da semântica agostiniana: ela pode ser física, mental ou abstrata. Mas o que todas essas versões têm em comum é a tese que significamos e compreendemos por meio de uma associação da expressão lingüística a uma entidade. Aplicada ao caso específico da linguagem fenomênica, a semântica agostiniana resulta na tese que o conteúdo semântico dos verbos fenomênicos é dado e compreendido por meio de uma associação entre esses verbos e os estados mentais fenomênicos. Por exemplo: o conteúdo semântico da palavra “dor” é dado pela associação da palavra “dor” à dor. Sendo assim, compreende essa palavra quem sabe ao que ela está associada.

A segunda premissa do argumento a favor da tese que nossa linguagem fenomênica é privada é a tese da privacidade cartesiana da mente.[3] Há dois tipos de privacidade, mas uma delas é mais importante para o problema da linguagem privada. Segundo a concepção cartesiana da mente, um estado mental tem privacidade ôntica (ou da posse), pois é impossível que outra pessoa, além daquela que o possui, o possua. Por exemplo: nenhuma outra pessoa pode ter a dor que uma pessoa tem em um determinado momento. Outras podem no máximo ter uma dor exatamente igual. O outro tipo de privacidade, o mais importante, está relacionado com uma certa assimetria existente entre enunciados fenomênicos de primeira pessoa do presente e os demais enunciados fenomênicos, em tempos e/ou pessoas diferentes. Que haja algum tipo de assimetria entre, por exemplo, "Eu tenho dor" e "Ele tem dor", parece que não há muita controvérsia. Mas a tradição cartesiana em filosofia da mente e epistemologia se baseia na tese que trata-se de uma assimetria epistêmica. Na sua versão mais fraca, essa tese é defendida em conjunto com a tese da simetria semântica entre esses dois tipos de enunciados. Dizer que há uma simetria semântica entre eles significa dizer, por exemplo, os enunciados "Eu tenho dor" dito por mim e "Ele tem dor" dito por outra pessoa se referindo a mim por meio de "Ele" têm exatamente o mesmo conteúdo semântico, enunciam o mesmo estado de coisas. A diferença estaria apenas no modo como o valor de verdade é conhecido por cada um que realiza tais enunciados. E essa seria a assimetria epistêmica entre eles. Eu sei que tenho dores de modo direto e infalível. Outros, na melhor das hipóteses, podem saber apenas de modo indireto e falível, nunca com o tipo de certeza que eu mesmo posso ter.

O modo tradicional de se explicar o conhecimento de outras mentes nessa tradição consiste em dizer que esse conhecimento se baseia em um argumento por analogia. Eu sei que tenho dores de modo direto e infalível e percebo que há uma correlação empírica entre minhas dores e de meu comportamento: geralmente, embora nem sempre, quando tenho dor, me comporto de uma determinada forma e, quando não tenho dor, não me comporto dessa forma. Embora essa correlação seja contingente, ela parece ser suficiente para que possamos realizar um raciocínio por analogia que nos daria conhecimento provável das outras mentes. Com base no conhecimento dessa correlação entre meus estados mentais fenomênicos e meu comportamento, infiro que outros, provavelmente, quando exibem um comportamento semelhante, têm o mesmo estado mental. De modo igualmente provável, quando não exibem tal comportamento, não têm esse estado mental.

Mas há problemas com essa explicação. Em primeiro lugar, se conhecimento de uma mente é o que eu tenho da minha própria mente, então aquilo que tenho a respeito de outras mentes, seja o que for, não é conhecimento.[4] Em segundo lugar, o argumento por analogia parece pressupor que outros têm mente. Se eles têm mente, então meu argumento por analogia parece justificar de algum modo minhas crenças sobre seus estados mentais. Mas se é assim, então meu argumento por analogia não serve para justificar minha crença de que eles têm mente. A existência de um dos termos da analogia, a mente alheia, não é conhecida por meio desse tipo de argumento, mas é pressuposta por ele. Em terceiro lugar, a assimetria epistêmica parece implicar uma assimetria semântica entre enunciados fenomênicos em primeira pessoa e enunciados fenomênicos em terceira pessoa. Assim pensou Frege. Se "vermelho", por exemplo, refere-se a uma sensação visual que eu tenho, então dizer que outro vê vermelho seria dizer que outro tem a sensação que eu tenho. Mas outro não pode ter a minha sensação. E mesmo que pudesse, eu não poderia saber. Portanto, se eu sei que outro vê vermelho, então "vermelho" em "Ele vê vermelho" não pode significar o mesmo que significa em "Eu vejo vermelho". Portanto, parece que, afinal, "Eu vejo vermelho" dito por mim e "Ele vê vermelho" dito por outra pessoa se referindo a mim por meio de "Ele" não têm o mesmo conteúdo semântico. Mas Frege defendeu uma espécie de esquizofrenia semântica dos nomes de cores: eles se referem tanto a uma sensação privada, quando digo que vejo vermelho, por exemplo, quanto a algo objetivo, quando digo que um certo objeto é vermelho, por exemplo.

Seja na sua versão mais fraca, seja na sua versão mais forte, a tese da assimetria epistêmica implica que apenas eu posso saber que meus enunciados fenomênicos de primeira pessoa do presente são verdadeiros. Apenas eu posso saber que tenho dor, por exemplo. Outros podem apenas conjecturar.

Mas se, de acordo com a semântica agostiniana, compreende "dor" quem sabe ao que ela está associada, e, no meu caso, ela está associada aquilo que apenas eu posso conhecer, minha dor, então outros não podem compreender esse termo quando digo "Eu tenho dor". Portanto, minha linguagem fenomênica é uma linguagem privada. E aqui estamos diante de um paradoxo, ou seja, de um argumento aparentemente válido, cujas premissas parecem verdadeiras mas a conclusão parece falsa. Aparentemente, foi para evitar esse paradoxo que Frege defendeu aquilo que chamei de esquizofrenia semântica.

Wittgenstein ataca ambas as premissas desse argumento. O ataque à semântica agostiniana se dá por meio do que se costuma denominar expressivismo sobre enunciados fenomênicos em primeira pessoa do presente, ou manifestações (Äusserungen, em alemão, avowals, em inglês). Essa análise das manifestações faz parte do seu ataque à tese que há uma assimetria epistêmica entre as manifestações e os demais enunciados fenomênicos, na medida em que é um ataque à tese que as manifestações são cognitivas. Segundo Wittgenstein, as manifestações substituem a expressão natural dos estados mentais, tal como o choro, no caso da dor, por exemplo (cf. IF §244). A função de "Eu tenho dor" consiste em expressar a dor, tal como o choro o faz. A enunciação de "Eu sinto dor" é um comportamento artificial de dor, por oposição ao comportamento natural. Porém, em ambos os casos esse comportamento torna a dor manifesta.

Mas alguém poderia pensar que a função expressiva das manifestações não está em contradição com o seu caráter cognitivo (assim como a função expressiva dos enunciados assertivos sinceros - eles expressam crenças - não está em contradição com seu caráter cognitivo). Entretanto, Wittgenstein tem um argumento contra o caráter cognitivo das manifestações. Se ser uma crença verdadeira justificada é uma condição necessária para ser conhecimento, então não pode ser o caso que a justificação seja idêntica ao fator de verdade. A justificação para "Sei que p" (onde p é um fato qualquer) não pode ser o fato que p. Todavia, o que poderia justificar a crença que tenho dor? O que eu poderia dar como resposta à pergunta "Como você sabe que tem dor?"? A inclinação natural seria dizer "Eu sei que tenho dor porque eu a sinto". Mas qual seria a diferença entre "Eu tenho dor" e "Eu sinto dor"? Se não há diferença, então a resposta natural tem a seguinte forma: Eu sei que p porque p. Entretanto, parece que o fato que minha crença é verdadeira não pode ser o que a justifica.

Mas da negação do caráter cognitivo das manifestações se segue que elas não têm valor de verdade, não são apofânticas? A maioria dos intérpretes de Wittgenstein pensa que sim, porque pensam que do caráter apofântico de um enunciado se segue que ele é cognitivo. Mas isso somente seria o caso se o conceito de verdade tivesse alguma implicação epistêmica. Entretanto, ele somente teria implicação epistêmica se a teoria deflacionista da verdade fosse falsa. Se essa teoria está correta, então atribuir valor de verdade a um enunciado não tem nenhuma implicação metafísica ou epistêmica. De acordo com uma versão do deflacionismo, o minimalismo de Paul Horwich, embora o predicado verdade não possa ser eliminado da linguagem sem perda da sua capacidade expressiva, sua função é meramente lógico-sintática. Ele apenas cumpre um papel lógico-sintático na construção de certas generalizações e de certas asserções de proposições desconhecidas ("Tudo que fulano disse é verdadeiro" e "A primeira coisa que fulano disser amanhã é verdadeira", p.ex.). Wittgenstein parece defender uma espécie de concepção deflacionista da verdade. Ele diz que
'p' é verdadeira = p
'p' é falsa = não-p
(IF §136)
E ele oferece um critério absolutamente deflacionista, lógico sintático, para o reconhecimento de portadores de verdade:
...uma criança poderia ser ensinada a distinguir entre proposições e outras expressões ao se dizer a ela “Pergunte a si mesmo se podes dizer ‘é verdadeira’ depois dela. Se as palavras se ajustam, então é uma proposição”. (IF §137)
E é claro que as palavras em "'Eu sinto dor' é verdadeira" se ajustam. E enunciados estéticos, morais e normativos também passam nesse teste. Mas disso não se segue nenhuma tese metafísica ou epistêmica sobre esses enunciados. Portanto, o caráter apofântico das manifestações não implica que elas sejam cognitivas.

Um problema sério é enfrentado por aquele que negam o caráter apofântico das manifestações é o que Peter Geach chama de "o ponto de Frege". Como explicar enunciados que são funções de verdade e a validade das inferências nas quais as manifestações ocorrem? Como explicar o enunciado "Ou eu sinto dor, ou ele sente dor"? Como ele pode ser uma função de verdade se uma de suas partes não é nem verdadeira nem falsa? Como explicar a validade da seguinte inferência?
Eu tenho dor.
Ele tem dor.
Logo, há pelo menos duas pessoas que têm dor.
Uma inferência é válida quando é impossível que suas premissas sejam verdadeiras e sua conclusão seja falsa. Mas essa explicação não se aplicaria ao caso acima, se uma das premissas não fosse nem verdadeira, nem falsa.

Wittgenstein oferece um espécie de experimento mental para atacar frontalmente a tese que nossa linguagem fenomênica é privada (IF §258). Ele nos convida a imaginar como seria a gênese de uma linguagem privada. Suponha eu queira manter o diário da ocorrência de uma sensação, marcando "S" em um calendário cada dia em que ela ocorre. Nenhuma definição de "S" pode ser formulada, pois trata-se da primeira expressão da linguagem privada, e uma definição com termos da linguagem pública a tornaria uma expressão da linguagem pública. Mas parece que posso dar a mim mesmo uma definição ostensiva de "S", não do modo usual, mas concentrado a atenção na sensação. Wittgenstein então argumenta que essa cerimônia não estabelece o significado de "S", pois, para tal, ela deveria me fazer lembrar corretamente da conexão entre "S" e a sensação. Mas não há nenhum critério de correção para a memória. O problema não se origina de um ceticismo sobre a confiabilidade da memória. O problema é que, sem critério de correção para a memória, não tenho sequer como saber se ela é ou não confiável. Em última análise, sequer posso saber se tenho memória de eventos privados, seja confiável, seja não-confiável. Por isso, o que quer que me pareça correto será correto. Mas isso implica que o conceito de correção não tem uso nessa circunstância.

__________

[1] Peter Hacker (em Insight and Illusion) toma o exemplo de John Locke como o defensor das teses que implicam que a linguagem fenomênica é uma linguagem privada.

[2] Para a apresentação do problema aqui não importa determinar se Santo Agostinho realmente defendeu tal semântica. Basta que a referida passagem citada por Wittgenstein a sugira.

[3] Pode haver alguma controvérsia sobre se Descartes realmente sustentou essa concepção da mente. Mas também nesse caso, para a apresentação do problema, não importa determinar se esse é ou não caso. Basta que os textos de Descartes ao menos a sugiram.

[4] Acredito que a concepção cartesiana de conhecimento, baseada na noção de certeza absoluta, origina-se de tomar o conhecimento da mente de si como o modelo para o conhecimento em geral.
__________

Leituras

Hacker, P.M.S. O argumento da linguagem privada (Crítica)
Machado, Alexandre N. Expressivismo e Verdade
Machado, Alexandre N. Frege, Psicologismo e o Problema da Linguagem Privada
Candlish, Stewart, Private Language (Stanford Encyclopedia of Philosophy)


quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Repúdio ao projeto de lei que regulariza a profissão de "filósofo"

Prezados colegas:

Tramita no Congresso Nacional, em regime conclusivo, o projeto de lei nº 2533/11, elaborado pelo depudado Giovani Cherini (PDT/RS)* . Seu objetivo é regulamentar a profissão de filósofo no Brasil. Conforme a proposta do deputado Cherini, o desenvolvimento de projetos socioeconômicos regionais, setoriais ou globais deverão contar com a participação de filósofos devidamente registrados no Ministério do Trabalho. Estarão qualificados para o exercício da profissão todos aqueles que possuírem título de bacharel em filosofia, os diplomados “em cursos similares” no exterior, após terem seus diplomas revalidados, além de mestres e doutores não diplomados que exerçam a atividade há mais de cinco anos. O mencionado projeto de lei também assegura que a profissão de “filósofo” poderá ser exercida por membros titulares da Academia Brasileira de Filosofia e “aos por ela diplomados”. Para conferir a íntegra do projeto de lei, acesse:

Projeto de lei nº 2533/11

Como representante da comunidade de pós-graduação dos cursos de filosofia no Brasil, a ANPOF vem manifestar seu repúdio a tal projeto.

Cursos de filosofia formam professores de filosofia, que podem ou não ser filósofos. Assim também, cursos de literatura formam professores de literaratura, que podem ou não ser literatos. Finalmente, há filósofos e literatos sem titulação acadêmica. É tão absurdo exigir diplomação específica para alguém ser filósofo quanto seria exigir diplomação específica para alguém ser escritor. A filosofia não é e nem deve tornar-se competência exclusiva de um segmento qualquer, seja ele de natureza estamental, profissional ou ideológico.

Acima de tudo, causa-nos estranheza a prerrogativa que o projeto pretende dar à Academia Brasileira de Filosofia, que qualifica como filósofos João Avelange e Carlos Alberto Torres, capitão da seleção de futebol de 1970. Trata-se de uma associação absolutamente inexpressiva no que concerne aos estudos, projetos de pesquisa e ensino da filosofia em nível universitário. A despeito disso, o referido projeto quer transformar essa entidade na representante da filosofia e da “língua filosófica” nacionais” (artigo 7).

Por essas razões, endossamos o abaixo‑assinado que circula na Internet contra o mencionado projeto, que pode ser acessado a partir do link que inserimos abaixo.

Abaixo-assinado

Se estiverem de acordo, é muito importante manifestar a contrariedade também na página da Agência Câmara de Notícias.

Cordialmente,

Vinicius de Figueiredo (Presidente da Diretoria da Associação Nacional de Pós-Graduação em Filosofia – ANPOF)

__________

Fonte: ANPOF


quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Michael Dummett - 1925-2011

Dentre as razões pelas quais eu pensava em fazer meu pós-doutorado na Inglaterra não estava apenas a vontade de rever a terra onde nasceu meu querido filho, mas, dentre outras, também poder trocar algumas idéias com Dummett (com claro prejuízo para ele). Mas infelizmente isso não é mais possível. Morreu ontem, dia 27 de dezembro de 2011, Sir Michael Anthony Eardley Dummett (1925-2011). Dummett não foi apenas um filósofo, especialista em filosofia da linguagem, da lógica, da matemática e na obra de Frege. Ele também foi um ativista, lutando principalmente contra o racismo, entre outras causas. Eis um trecho do seu obituário no The Guardian: (por A.W. Moore)
His first major publication, Frege: Philosophy of Language (1973), appeared when he was at the comparatively ripe age of 48. One reason why it had not appeared earlier was that he had made a conscious decision to pursue what he conceived as his duty to oppose the racism that had become manifest in Britain. He completed the book when he reluctantly concluded that he no longer had any significant contribution to make to the fight and felt justified in returning to "more abstract matters of much less importance to anyone's happiness or future". He commented in the book's preface on the deep shock of having discovered, some years previously, that Frege himself, whom he had always revered "as an absolutely rational man", was a virulent racist. "From [this discovery]," he wrote, "I learned something about human beings which I should be sorry not to know; perhaps something about Europe, also."
Dummett influenciou muito meu modo de pensar sobre os problemas filosóficos, de fazer filosofia, de tal forma que não foi com pouca tristeza que recebi a notícia da sua morte. Uma grande perda!

Benjamin Murphy, Michael Dummett (Internet Encyclopdia of Philosophy)


terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Doutorado em Filosofia da UFPR

Complexo da Reitoria
Em breve estarão abertas as inscrições para seleção para a primeira turma do recém criado Curso de Doutorado em Filosofia do Departamento de Filosofia da Universidade Federal do Paraná. As inscrições vão de 16 de janeiro de a 17 de fevereiro de 2012. Haverá 5 vagas distribuídas em 3 linhas de pesquisa:

- Ética e Política
- História da Filosofia
- Metafísica e Epistemologia

Leia o edital aqui. Leia o regimento do Programa de Pós-Graduação em Filosofia aqui. A ficha de inscrição pode ser encontrada aqui.


sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Sei que existo?

R. Descartes
Uma afirmação P justifica outra Q não apenas quando P implica Q, mas quando P é mais certa que Q. Sendo assim, o que poderia, para mim, justificar a afirmação que eu existo? Se nada, faz sentido dizer que sei (ou que não sei) que existo? Uma coisa é certa: não faz sentido (é ininteligível) duvidar que eu existo.*
__________

* De uma conversa em aula com Rafael Ribeiro.


sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Colóquio Sobre a Certeza

Wittgenstein e von Wright

12 a 16 de Dezembro
Salvador, Auditória da FFCH, Pavilhão Raul Seixas


Segunda 12/12

9:30 hs – Apresentação do Colóquio por João Carlos Salles

10:00 hs – Conferência de abertura: José Arthur Giannotti, Imagem do mundo como o dito do dizer

14:00 hs – Antonio Ianni Segatto, No princípio era o ato

15:30 hs – Horacio Luján Martínez, Wittgenstein sobre a certeza: o movimento final para a coincidência entre querer e fazer?

Terça 13/12

9:00 hs – Waldomiro José da Silva Filho, Certeza e transparência

10:30 hs – André Leclerc, Conhecimento e disposições em Wittgenstein: o §149 das Investigações Filosóficas e o anti-disposicionalismo

14:00 hs – Bortolo Valle, A obra Da Certeza

15:30 hs – Mirian Donat, Consciência e visão de mundo no Da Certeza

17:00 hs – Wagner Teles de Oliveira, A Certeza e a Gramática dos Conceitos Psicológicos

Quarta 14/12

9:00 hs – Marciano Spica, As contribuições de On Certainty para a compreensão das crenças religiosas

10:30 hs – Darlei Dall’Agnol, Existem certezas morais básicas?

14:00 hs – Mauro Engelmann, As "idéias mais fecundas" de Wittgenstein

15:30 hs – Alexandre Noronha Machado, Wittgenstein e Kripke

17:00 hs – Rafael Lopes Azize, O pano de fundo das regras

Quinta 15/12

9:00 hs – André Porto, Propriedades matemáticas acidentais?
Leia o resumo

10:30 hs – João Vergílio Cuter, Uma reminiscência do Tractatus

Sexta 16/12

14:00 hs – Cristiane Gottschalk, A natureza dos fundamentos do conhecimento em Wittgenstein e suas implicações no ensino

15:30 hs – Valério Hillesheim, Wittgenstein e a noção de fundamento no Da Certeza

10:00 hs – Conferência de encerramento: Arley R. Moreno, A noção de Bild


Promoção

Programa de Pós-Graduação em Filosofia da UFBA
Grupo de Pesquisa Filosofia Moderna e Contemporânea da UFBA
Grupo de Trabalho Wittgenstein da ANPOF
Grupo de Pesquisa Filosofia da Linguagem e do Conhecimento da UFBA


Comissão organizadora

João Carlos Salles (Coordenador)
Benedito Leopoldo Pepe
Claúdia Bacelar Batista
Serafim Nossa Júnior
Thiago Dória
Wagner Teles de Oliveira


Inscrições

Inscrições na secretaria da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da UFBA, em São Lázaro,
de segunda a sexta até o dia 12 de dezembro, das 9 às 12 horas.

Informações: (71) 3283-6431

Site do evento: http://www.efg.ufba.br/certeza/index.html


Colóquio Wittgenstein: Investigações em Andamento



Data: 29 de novembro a 01 de Dezembro.
Local:  UNIFESP, São Paulo, Guarulhos, SP


PROGRAMAÇÃO

29/nov 

20h – CONFERÊNCIA DE ABERTURA

Local: Campus Guarulhos, sala 1

30/nov

9h-10h – COMUNICAÇÕES I

Uma crítica inferencialista ao “jogo de linguagem” dos construtores nas Investigações Filosóficas
Marcelo Maroldi (USP)

Conceitos e semelhanças de família em Wittgenstein: uma leitura a partir das Investigações Filosóficas
Fernando L. Aquino (UNIFESP)

Wittgenstein e a Filosofia
Raquel Krempel (USP)

10h-13h – MESA I

Cinco Maçãs Vermelhas
Prof. Dr. João Vergílio G. Cuter (USP)

Certa Imagem da Linguagem: sobre o início das Investigações
Prof. Dr. Marcelo Carvalho (UNIFESP)

O corpo humano é a melhor imagem da alma humana – Percepção de aspectos e o problema das outras mentes
Prof. Dr. Jônadas Techio (UFRGS)

Local: Vila Clementino - Anfiteatro da Escola Paulista de Enfermagem

15h-18h – MESA II 

Mecânica no Tractatus e a “linguagem da física” nas Observações
Prof. Dr. Bento Prado Neto (UFSCar)

Propriedades Matemáticas acidentais?
Prof. Dr. André Porto (UFG)

Argumentos para Atributos
Prof. Dr. Pedro Santos (UNIFESP)

Local: Vila Clementino - Anfiteatro da Escola Paulista de Enfermagem Rua Napoleão de Barros, 754, térreo

01/dez

9h-10h30 – COMUNICAÇÕES II

Proposição e Verdade em Frege
Luciano Carvalho Cardoso (UNIFESP)

Imagens Fundacionais em Da Certeza
Maíra de Cinque Pereira da Costa (USP)

O conceito de 'a priori' e sua função normativa nas Investigações Filosóficas
Giovane Rodrigues (USP)

Acerca da harmonia entre linguagem e realidade
Ricardo Ploch (USP)

10h30-13h30 – MESA III

Observações acerca da filosofia da matemática em Wittgenstein
Prof. Dr. Tiago Tranjan (UNIFESP)

Tempo e identidade: as aulas de 1936 e o argumento da linguagem privada
Prof. Dr. Guilherme Ghisoni (UFG)

Wittgenstein e Kripke: Sobre a natureza do metro padrão
Prof. Dr. Alexandre N. Machado (UFPR)

Local: Vila Clementino - Anfiteatro Leitão da Cunha

Endereços

Anfiteatro da Escola Paulista de Enfermagem
Rua Napoleão de Barros, 754, térreo, Vila Clementino

Anfiteatro Leitão da Cunha
Rua Botucatu, Vila Clementino

Informações e Inscrições

http://humanas.unifesp.br/filosofia/ dissoilogoi@uol.com.br
Programa de Pós-Graduação em Filosofia - UNIFESP Fone: 3381 2148 posfilosofia@unifesp.br

Organizadores

Prof. Dr. Marcelo Carvalho
Prof. Dr. João Vergílio G. Cuter
Prof. Dr. Bento Prado Neto

Realização

UNIFESP – UFSCar – USP


sexta-feira, 1 de julho de 2011

"Não sei o que quero"

Algumas vezes dizemos "Não sei o que quero". Mas o que significa isso? Essa é uma afirmação epistêmica sobre o conteúdo da nossa mente? É uma confissão de ignorância sobre os produtos da nossa faculdade volitiva? Geralmente quando dizemos isso estamos numa situação de conflitos de vontades. Nessa situação, queremos duas ou mais coisas incompatíveis. Dois objetos da vontade são incompatíveis quando não podem ambos serem realizados. Por exemplo: posso querer morar numa determinada cidade, A, por certas razões, e também morar em outra cidade, B, por outras razões. Isso é perfeitamente possível; tão possível que às vezes queremos duas coisas que não sabemos que são incompatíveis, como realizar uma ação que não sabemos ser ilegal e não ser punido pela lei, por exemplo. Pois bem, diante de uma tal situação de um consciente conflito de vontades, podemos ficar em dúvida sobre qual das vontades conflitantes é a mais forte, que impele mais. Por isso, podemos expressar essa dúvida justamente dizendo "Não seio o que quero", que seria uma espécie de abreviação de "Não sei o que mais quero". E numa tal situação, pode-se descobrir que, fazendo abstração das razões, o que se mais quer é morar em A, embora haja mais razões para se morar em B. Nesse caso, podemos escolher entre seguir o impulso da vontade irracional ou seguir a razão. Esse é o conflito entre o que se mais quer e o que se deve fazer. É claro que se a vontade de fazer o que é mais racional prevalecer, podemos dizer que essa foi a vontade mais forte. Mas isso não impede que, fazendo-se abstração das razões, a vontade irracional seja a mais forte. Às vezes, mesmo fazendo-se abstração das razões, a vontade irracional é mais fraca. Em suma, se usada dessa forma, a frase "Não sei o que quero" é uma confissão de ignorância não sobre o que queremos, mas sobre o que mais queremos.

_________

* Texto redigido a partir de uma conversa com Laiz Fraga.