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quarta-feira, 25 de março de 2015

Matrix

"Ignorância é uma benção!"
Este é o segundo texto de uma série que estou escrevendo para uma disciplina da Graduação em Filosofia da UFPR denominada Filosofia e Cinema, em que procuro exercitar a reflexão acerca dos problemas filosóficos por meio de filmes. Creio que filmes podem ser bons meios de apresentação de problemas filosóficos na medida em que apresentam situações que desafiam nossas crenças fundamentais e, assim, desencadeiam a reflexão filosófica. Os textos dessa série são destinados àqueles que já assistiram os respectivos filmes, pois contêm revelações sobre seus respectivos enredos.

O filme Matrix (1999), apresenta um cenário cético que é semelhante a outros já imaginados na história da filosofia a fim de argumentar contra a possibilidade do conhecimento do mundo exterior, o mundo que conhecemos por meio dos sentidos e que acreditamos ser objetivo. Isso por si só já seria de interesse filosófico. Mas há algumas perguntas de igual interesse filosófico sobre o enredo do filme que sequer são formuladas por personagens do filme, muito menos respondidas. Vamos primeiro ao cenário cético.

No filme, Thomas Anderson, que possui o apelido de Neo, um programador de computadores, descobre de forma dramática que, durante toda a sua vida, sempre esteve numa espécie de banheira, mergulhado em uma geléia que ajuda a mantê-lo vivo, conectado uma rede de supercomputadores que envia sinais elétricos ao seu cérebro, que os "interpreta" como as experiências que Neo julga ter tido de um mundo objetivo. Ele descobre mais: quase todos os seres humanos estão na mesma condição, conectados a essa rede de supercomputadores que é responsável por gerar as experiências de todos. Essa rede chama-se Matrix (matriz, em português). Mas por que esse é um cenário cético? Porque a sua possibilidade é usada pelo cético em um argumento contra a possibilidade do conhecimento do mundo exterior. O mundo exterior, acreditamos, é um mundo objetivo, isto é, um mundo cuja existência não depende de nós nem do nosso conhecimento e cujos eventos ocorrem independente de nossa vontade. Nós conhecemos esse mundo, acreditamos, por meio da nossa mente, que tem experiências desse mundo, mas ele não depende da nossa mente para existir e ser como é. Todavia, essas experiências, que supostamente nos permitem conhecer esse mundo objetivo, são qualitativamente idênticas às experiências que Neo tem quando está conectado à Matrix, pois ambas nada mais são do que o resultado de um certo conjunto de estímulos elétricos que o cérebro recebe. A diferença é a fonte desse estímulo: enquanto a experiência de um mundo objetivo é causada pelos eventos objetivos desse mundo sobre nosso aparelho perceptivo, as experiências de Neo são causadas pela Matrix. Mas se as experiências, nos dois casos, são qualitativamente idênticas, como podemos saber qual é a sua causa? Como podemos saber que não estamos na condição de Neo antes de sair da Matrix? Perece que se sabemos qualquer coisa sobre um mundo exterior objetivo, sabemos que não estamos ligados à Matrix. Mas parece que não sabemos que não estamos ligados à Matrix. Como poderíamos saber? Disso se segue que não sabemos nada sobre um mundo exterior objetivo.

Esse argumento tem a mesma forma de outros argumentos céticos apresentados ao longo da história da filosofia, tal como o argumento do sonho e o argumento do gênio malígno, de Descartes, e o argumento do cérebro numa cuba, de Hilary Putnam. Putnam apresentou um cenário cético semelhante ao apresentado em Matrix, mas muito mais radical. Ao invés de imaginar que nossos corpos poderiam estar em uma cuba ligados à Matrix, Putnam imagina que poderíamos ser cérebros numa cuba ligados a um computador. Descartes imagina que poderíamos estar sonhando um sonho realístico. Essa hipótese foi aventada por Morpheus em uma conversa com Neo. Descartes também imaginou que poderíamos ter sido criados por um gênio maligno, que nos fez de tal forma que sempre nos enganamos, que nossas crenças são sempre falsas. Embora o cenário cético não seja o mesmo em todos esses casos, a forma do argumento cético é a mesma:

Se sei que p e sei que se p, então não-q, então sei que não-q. [Princípio do fechamento espistêmico]
Sei que se p, então não-q. [Verdade conceitual conhecida a priori]
Não sei que não-q. [Premissa cética]
Logo, não sei que p. [Conclusão cética]

Na forma de argumento acima, q é o cenário cético e p é uma proposição qualquer que só sei que é verdadeira se souber que o cenário cético não é o caso. O cenário cético não precisa ser provável ou plausível, basta que seja possível. Sua possibilidade é tudo de que o cético precisa para que seu argumento seja poderoso.

No filme, Neo é retirado da Matrix depois de tomar a decisão de saber o que ela é, porque, supostamente, não se pode saber o que ela é descrevendo-a, mas apenas experimentando-a, olhando-a com os próprios olhos. Mas uma pergunta óbvia que é sugerida pelo argumento cético acima é esta: como Neo sabe que saiu da Matrix? Tudo que ele experimentou após essa suposta saída não pode ser parte do que a Matrix quer que ele acredite? Ou então, tudo que ele experimentou após essa suposta saída não pode ser justamente a entrada na Matrix, de tal forma que antes Neo estava fora dela? Talvez a Matrix queira inserir as pessoas nela justamente fazendo-as acreditar que saíram dela. Se o cético está certo em afirmar que não temos como saber que não estamos no cenário cético, então não temos como saber que saímos dele, se de fato saímos. No filme, esse ponto não é abordado. Tudo se passa como se não pudéssemos saber que estamos na Matrix quando estamos, mas pudéssemos saber que não estamos, quando não estamos. Mas nenhuma razão é oferecida para essa diferença epistêmica.

Quando Neo e Morpheus entram numa simulação da Matrix para iniciar o treinamento de Neo, Neo pergunta "Isso não é real?", "tocando" uma "poltrona". Morpheus então responde com uma pergunta: "O que é real? Como você define 'real'? Se você está falando sobre o que você pode sentir, cheirar, degustar e ver, então 'real' são simplesmente sinais elétricos interpretados pelo seu cérebro." Mas se é assim, então, novamente, como eles podem saber não estão mais na Matrix? Tudo que eles ainda têm não são apenas "sinais elétricos interpretados" pelos cérebros deles? Como sabem que esses sinais não vêm da Matrix? Por outro lado, o que nos impede de concluir que o que experimentamos na Matrix é real, pois lá todos têm "sinais elétricos interpretados" pelos cérebros deles, não?

Mas afinal, o que justifica definir "real" dessa forma? Se o cético tem razão, então toda vez que eu alegar saber algo do mundo exterior, eu não estarei justificado. Sendo assim, como posso justificar essa definição de "real" apelando para o conhecimento que tenho de como funciona o cérebro? Esse não é um conhecimento de algo do mundo exterior? Mas como eu poderia descrever o cenário cético sem esse conhecimento? Mas parece que não é o conhecimento disso que necessitamos, apenas a crença. Tudo que precisamos é acreditar nas premissas do argumento. Precisamos apenas acreditar que temos um cérebro que funciona do modo suposto na descrição do cenário cético.

Ainda naquela conversa inicial entre Neo e Morpheus na simulação de Matrix, Morpheus diz a Neo: "Você tem vivido em uma mundo de sonho, Neo!" Isso sugere que as crenças de Neo sobre o mundo eram todas falsas (erro maciço), como são aquelas que temos quando estamos sonhando. Isso é mesmo verdade? A verdade ou falsidade de nossas crenças dependem do conteúdo que elas têm, depende do que seja aquilo sobre o que estamos pensando. Se estou pensando sobre a, não sobre b, supondo que a não é o mesmo que b, e digo que a é F, então minha crença não vai ser falsa se b não for F, mas apenas se a não for F. Sobre o que as pessoas na Matrix estavam pensando quando estavam pensando sobre uma cadeira que estava à sua frente, por exemplo? Alguém poderia dizer que estavam pensando sobre qualquer coisa, menos sobre uma cadeira real, pois não há nada real na Matrix. Eles estavam pensando que havia uma cadeira em frente a eles quando não havia nenhuma. Não havia? Qual o conteúdo da frase "Há uma cadeira na minha frente" para as pessoas da Matrix? Como elas aprenderam o conteúdo dessas palavras? Não foi por meio das experiências que elas tiveram na Matrix? Elas não aprenderam a chamar de cadeira algo que se apresentava na experiência deles de uma determinada forma? Portanto, eles não estavam falando a verdade quando chamavam de cadeira aquilo que se apresentava dessa forma na experiência deles? E um raciocínio análogo vale para "estar em minha frente". Portanto, de acordo com os critérios que as pessoas da Matrix usavam sua linguagem, a maior parte de suas frases era verdadeira. Essas pessoas aprenderam a pensar e a falar a partir das experiências da Matrix e foram essas experiências, não as experiências que nós, que supostamente não estamos na Matrix, temos que determinaram o conteúdo de suas crenças e frases. Elas podem estar erradas sobre a natureza última daquilo que causa as experiências que eles têm. Mas isso nós, que supostamente não estamos na Matrix, também podemos estar.

Alguém poderia dizer que as pessoas na Matrix não experimentavam um mundo objetivo. Mas quais critérios nós, que supostamente não estamos na Matrix, temos para dizer que algo é objetivo? O que queremos dizer com "objetivo"? Sejam quais forem os critérios, uma coisa é certa: a causa das experiências na Matrix é objetiva, pois a Matrix em si mesma é objetiva. A causa do que as pessoas na Matrix chamam de experiência de uma cadeira não é a mesma que a causa do que nós, que supostamente não estamos na Matrix, chamamos de experiência de uma cadeira. Mas isso só é verdade no nosso sentido de "causa". Pois no sentido de "causa" da linguagem das pessoas da Matrix, a causa do que eles chamam de experiência de uma cadeira é o que eles chamam de cadeira real, objetiva. Nós dizemos que uma cadeira é real ou objetiva quando os eventos envolvendo a cadeira ocorrem de acordo com certas regularidades naturais (que descobrimos por meio da regularidade das nossas experiências) e independentemente da nossa vontade, exceto quando tais eventos envolverem nossas ações sobre a cadeira. Mas as conseqüências das nossas ações não dependem da nossa vontade e também ocorrem de acordo com aquelas regularidades. Todavia, esses não são exatamente os mesmos critérios de objetividade aplicado na Matrix?

O enredo de Matrix já foi muito comparado com o famoso Mito da Caverna, que aparece na República de Platão. Essa comparação obviamente pode ser feita, mas vou me abster de fazê-la porque me interessa mais apresentar problemas filosóficos por meio do filme do que uma doutrina de um filósofo particular. Mas há algo no filme relacionado ao Mito da Caverna que eu desejo explorar aqui. Cypher, o traidor de Morpheus (ver foto), decide pedir para voltar para a Matrix sem punição pelo que fez contra ela em troca de entregar Morpheus para os agentes da Matrix. Ele decidiu isso porque a vida na Matrix era, para ele, mais prazerosa que a vida fora dela. E o prazer, nesse caso, vinha da comodidade da vida na Matrix. Em última análise, ele era um escravo da Matrix. Mas ele não percebia essa condição justamente por estar na Matrix, vivendo uma vida mais cômoda que a que ele passou a ter fora dela, lutando contra a Matrix em condições muito difíceis, que envolviam risco de vida. Ele quis se tornar um escravo voluntário. Preferiu perder a sua liberdade real em nome de uma escravidão prazerosa. Essa situação desafia nossa visão comum da escravidão por duas razões. Em primeiro lugar, geralmente pensamos a escravidão como uma condição involuntária, forçada. Em segundo lugar, geralmente pensamos a escravidão como uma condição não-prazerosa. Além disso, parece paradoxal decidir livremente perder a liberdade. Isso é análogo a decidir democraticamente pela ditadura. Mas Cypher assim decidiu justamente porque a vida na Matrix oferece uma ilusão de liberdade prazerosa e, por isso, ele passou a amar a condição de escravo muito mais que a de pessoa livre. Essa situação pode ser vista como uma metáfora sobre uma possível relação entre o estado e a mídia corporativa (o "quarto poder"), por um lado, e a maior parte dos cidadãos, por outro. Aqueles que detêm o poder econômico e político podem tentar convencer os cidadãos de que eles têm uma vida confortável, são livres e decidem os rumos políticos e econômicos da nação, quando de fato eles são escravos de um sistema que visa não o benefício deles, mas justamente a manutenção do status quo daqueles que detêm o pode econômico e político. A acomodação de Cypher, sua desistência da luta contra a Matrix, sugere que a luta contra a manutenção do status quo daqueles que detêm o poder econômico e político exige um esforço constante fora da zona de conforto, esforço que nem todos estão dispostos a fazer. Mas antes disso, a luta contra a Matrix, assim como a luta contra a manutenção do status quo daqueles que detêm o poder econômico e político, exige a decisão de iniciar a difícil busca pelo conhecimento da nossa verdadeira condição, busca essa que é cheia de obstáculos colocados pela própria Matrix e conhecimento esse que pode gerar muita frustração, desconforto e dor.


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Definição tradicional de conhecimento

quinta-feira, 9 de julho de 2009

Impossibilidade de uma contradição e atribuição de uma limitação


B: Vamos voltar ao paradoxo da pedra?

A: Sem problema. Tens algo novo?

B: Sim. Andei pensando: um ser não-onipotente pode criar uma pedra que ele prórprio não pode mover, certo?

A: Sim, pode.

B: Mas o ser onipotente, por ser onipotente, não pode fazer isso. Logo, ele não pode fazer algo que um ser não-onipotente pode fazer. Logo, se ele é onipotente, ele não é onipotente, certo?

A: O Ser onipotente pode criar tudo o que um ser não-onipotente pode criar. Se o ser não-onipotente criar uma pedra que ele próprio não pode mover, o ser onipotente pode criar essa pedra.

B: Mas não é isso que estou dizendo que ele não pode criar. Estou dizendo que ele não pode criar uma pedra que ele próprio, o ser onipotente, não pode mover. Ele não pode criar o mesmo tipo de pedra que o ser não-onipotente pode criar, isto é, uma pedra que o seu criador não pode mover.

A: Veja, a afirmação "O ser onipotente não pode criar uma pedra que ele próprio não pode mover" é, certamente, verdadeira. Nisso nós concordamos. Ocorre que, a despeito das aparências em contrário, essa afirmação não atribui uma limitação ao poder do ser onipotente. O que está te iludindo a pensar o contrário é o fato de a expressão "não pode" ocorrer no interior da frase. Trata-se de uma ilusão gramatical. Deixe-me explicar isso por meio de uma analogia. Estás disposto a seguir meu raciocínio?

B: Sim, vá em frente.

A: Se digo que eu não posso ver o que é invisível, estou dizendo algo verdadeiro?

B: Sim.

A: Mas estou atribuindo alguma limitação à minha visão ao dizer que não posso ver o invisível?

B: Bem, tu não podes ver algo, se tua afirmação for verdadeira, não?

A: Eis a ilusão novamente. Para ver que é uma ilusão, responda: concordas que a frase "É impossível que eu veja o invisível" seja uma paráfrase correta de "Eu não posso ver o invisível"?

B: Sim.

A: Mas ao que estamos atribuindo impossibilidade aqui? Note que a paráfrase tem a forma "É impossível que p", onde "p" é uma proposição.

B: Estamos dizendo que a proposição "Vejo algo invisível" é impossível.

A: Exatamente. Estamos dizendo que essa proposição não pode ser verdadeira. E se concordamos que a afirmação original era verdadeira, concordamos que essa paráfrase é verdadeira. Mas por que a proposição "Vejo algo invisível" é impossível?

B: Ora, se vejo algo, o que vejo não é invisível, e se algo for invisível, então não vejo. Dizer que vejo algo invisível é dizer algo contraditório.

A: Concordo. Dizemos que a proposição "Vejo algo invisível" é impossível porque é contraditória. Mas essa contradição se deve ao que? A expressão "vejo algo" é contraditória?

B: Não.

A: A expressão "Eu faço algo com o que é invisível" é contraditória?

B: Também não.

A: A expressão "invisível" é contraditória?

B: Não.

A: Pois bem, a contradição surge apenas quando digo que vejo algo invisível. Em suma: a frase "É impossível que eu veja o que é invisível" apenas atribui impossibilidade a uma proposição contraditória, do mesmo modo como "É impossível que essa bola esférica seja também cúbica". Nem no primeiro caso se atribui limitação à minha visão, nem no segundo casos se atribui uma limitação à capacidade da bola mudar de forma. Minha visão é, infelizmente, limitada, pois outras pessoas conseguem ver coisas que eu não consigo. Mas nem mesmo um cego tem a visão limitada porque não pode ver o invisível. Concordas?

B: Acho que sim. Mas é que a gente diz que não pode ver o invisível... não pode...

A: É, a gente diz. Mas a gente tem que entender a lógica do que está dizendo para não cometer falácias ao raciocinar. A gente também diz "Não podemos dividir um número primo, sem resto, por um número diferente dele mesmo e de um", "Não podemos enunciar todos os números naturais", "Solteiros não podem ser casados", etc. Mas essas afirmações não são atribuições de limitações a nós ou a solteiros. Solteiros não podem ser casados porque se uma pessoa casa, por definição, deixa de ser solteira. Nem sempre que usamos "não pode" estamos atribuindo uma limitação, embora algumas vezes seja isso que estamos fazendo.

B: É, acho que entendo o ponto.

A: Pois bem. Passemos agora à afirmação "O ser onipotente não pode criar uma pedra que ele próprio não pode mover". Concordas que a frase "É impossível que o ser onipotente crie uma pedra que ele próprio não pode mover" seja uma paráfrase correta da frase anterior?

B: Sim, concordo.

A: Pois bem, ao que estamos atribuindo impossibilidade nessa paráfrase?

B; À proposição "O ser onipotente cria uma pedra que ele próprio não pode mover".

A: Isso mesmo. E por que essa proposição é impossível?

B: Porque é contraditória.

A: Concordo. Mas por que ela é contraditória? A expressão "O ser onipotente" é contraditória?

B: Bem, ela ocorre nessa contradição.

A: Sim, ocorre. Mas isso é insuficiente para se dizer que ela é contraditória, pois "círculo" ocorre na contradição "Isso é um círculo quadrado" e não é uma expressão contraditória. Precisas mais que isso para mostrar que "o ser onipotente" é contraditória.

B: É, o fato de uma expressão ocorrer numa contradição não é razão suficiente para se concluir que ela é contraditória. Mas eu teria uma outra razão. Todavia, vou esperar para ver onde queres chegar.

A: Obrigado. Vou lembrar de te perguntar qual razão extra tu tens. A expressão "x cria uma pedra que o próprio x não pode mover" é uma expressão contraditória?

B: Não.

A: A expressão "O ser onipotente cria uma pedra que ele próprio não-F essa pedra" é contraditória?

B: Não.

A: Logo, se concordamos que "o ser onipotente" não é contraditória, a contradição surge apenas quando juntamos a onipotência, a criação de uma pedra pelo ser onipotente e a impossibilidade dessa pedra ser movida pelo ser onipotente.

B: Digamos que sim. Prossiga.

A: Sei que tens algo a dizer. Já vou te dar a palavra. Bem, se meu raciocínio está correto, então tal como no caso da visão, acima, a afirmação "Não é possível que o ser onipotente crie uma pedra que ele próprio não pode mover" apenas diz que a proposição "O ser onipotente cria uma pedra que ele próprio não pode mover" é impossível, porque contraditória. E essa contradição se deve ao arranjo sintático das expressões dessa proposição, não porque alguma dessas expressões seja contraditória. Concordas?

B: Bem, não.

A: Por que?

B: Eu concordo que a proposição "O ser onipotente cria uma pedra que ele próprio não pode mover" é contraditória. Mas ocorre que a definição de ser onipotente, juntamente uma suposição plausível, implicam que essa frase pode ser verdadeira.

A: Estás dizendo que a definição de ser onipotente e uma suposição plausível implicam a proposição "É possível que o ser onipotente crie uma pedra que ele próprio não pode mover"?

B: Isso mesmo.

A: Vamos explicitar isso. Vamos recordar a definição de ser onipotente e formule essas suposições plausíveis.

B: A definição de ser onipotente é: x é onipotente = para todo y, se y é possível, x pode fazer y.

A: Ok, é essa mesmo.

B: A suposição plausível é: um x criar uma pedra que x não pode mover é um estado de coisas possível.

A: Sim, é possível que algum ser crie uma pedra que ele próprio não pode mover.

B: Pois bem, se é possível que algum ser crie uma pedra que ele próprio não pode mover, então o ser onipotente pode fazer isso, pois ele pode fazer tudo que é possível.

A: Fazer o que? Fazer um x que pode criar uma pedra que x não pode mover?

B: Não. Ele pode fazer uma pedra que ele próprio não pode mover.

A: Mas não foi isso que admiti como possível.

B: Não?

A; Claro que não. O que eu admiti como possível foi o seguinte: há um x, tal que x cria uma pedra que x não pode mover. Se isso é o que se está afirmando ser possível, isso o ser onipotente pode fazer: ele pode fazer com que exista um x tal que x cria uma pedra que x não pode mover.

B: Mas ele pode criar uma pedra desse tipo?

A: Qual tipo?

B: Uma pedra que é tal que foi criada por x e x não pode movê-la.

A: Se o que estás perguntando é se está no poder do ser onipotente fazer com que o estado de coisas descrito pela frase "O ser onipotente cria uma pedra que ele próprio não pode mover" se torne real, eu vou dizer que não, pois essa frase é contraditória e, por isso, não descreve nenhum estado de coisas possível.

B: Mas esse é um tipo possível de pedra.

A: Dizer que esse é um tipo possível de pedra é dizer que a seguinte proposição é possível: existe um x tal que x cria uma pedra que x não pode mover. E o ser onipotente pode fazer com que essa proposição seja verdadeira.

B: Mas ele não pode ser o x.

A: Mas isso significa que a proposição "O ser onipotente cria uma pedra que ele próprio não pode mover" é impossível, porque contraditória. Portanto, dizer que ele não pode ser x não é atribuir uma limitação ao seu poder. Permita-me deixar uma coisa clara: para que proves que o ser onipotente é contraditório, o que deves fazer é mostrar que há um estado de coisas possível que o ser onipotente não pode tornar real. Ou seja, deves apresentar uma proposição possível e mostrar que o ser onipotente, por ser onipotente, não pode torná-la verdadeira.

B: Mas já fiz isso. Mostrei que ele não pode ser o x que cria uma pedra que x não pode mover.

A: Ora, repetindo, isso é dizer que a proposição "O ser onipotente cria uma pedra que ele próprio não pode mover" é impossível, porque contraditória. Portanto, esse não é um estado de coisas possível que o ser onipotente não pode tornar real, mas é um estado de coisas impossível (que não é estado de coisas nenhum).

B: Mas tu colocas o ser onipotente nesse estado de coisas. As possibilidades que devemos examinar não podem conter o ser onipotente.

A: Então descreva essa possibilidade.

B: Já fiz isso. O estado de coisas é uma pedra que o seu criador não pode mover.

A: Mas isso eu já mostrei que o ser onipotente pode fazer. Ele pode criar um ser que cria uma pedra que esse ser não pode mover.

B: Mas, como eu também já disse, o ser onipotente não pode ser o criador dessa pedra.

A: Agora não entendi. Há pouco disseste que a descrição do estado de coisas possível que o ser onipotente não poderia tornar real não deveria incluir o ser onipotente. Agora o introduzes nessa descrição dizendo que o ser onipotente não poderia ser o criador da dita pedra. Decida-te. Ele faz parte ou não do estado de coisas possível que ele não pode tornar real?

B: Essa conversa de estados de coisas possíveis é desvio do assunto. O ponto é que há um tarefa possível que o ser onipotente não pode realizar.

A: Mas dizer que "há uma tarefa possível que o ser onipotente não pode realizar" nada mais é do que dizer que se colocamos a expressão "o ser onipotente" nos parênteses de "( ) cria uma pedra que ( ) não pode mover", obtemos uma contradição e, por isso, um estado de coisas impossível. E com isso eu concordo. Só que admitir isso não é admitir que o poder do ser onipotente é limitado... Essa ilusão é mais poderosa do que eu pensava! Enuncie uma proposição completa que seja possível e que o ser onipotente, por ser onipotente, não possa tornar verdadeira.

(Continuação de um diálogo inspirado por um debate ocorrido no Orkut)

segunda-feira, 22 de junho de 2009

Onipotência e tarefas possíveis

Ayers Rock - Austrália

B: A onipotência é contraditória, pois uma das tarefas possíveis que um ser onipotente pode realizar, criar uma pedra que não pode ser movida, implica uma limitação da sua onipotência.

A: Estamos de acordo que x é onipotente se e somente se para todo y, se y é uma tarefa possível, então x pode fazer y?

B: Sim, onipotência é isso.

A: Se uma tarefa y é possível, então há um mundo possivel em que y é feito, certo?

B: Certo.

A: Se esse é um mundo possível, então não há nada nele que seja contraditório, seja uma contradição interna, seja uma contradição entre duas coisas, certo? Caso contrário, será um mundo contraditório e, por isso, impossível.

B: Sim, isso mesmo.

A: Mas um mundo em que houvese uma pedra que não pode ser movida e um ser onipotente não seria um mundo contraditório e, portanto, impossível?

B: Sim, mas o que afirmo ser possível é um ser criar uma pedra que não pode ser movida, ponto. Por que fazer referência ao ser onipotente na investigação sobre se isso é possível?

A: Porque estás atribuindo essa tarefa a ele. Estás dizendo que dentre as tarefas possíveis de um ser onipotente está criar uma pedra que não pode ser movida. Por isso estou examinando se isso é mesmo uma tarefa possível: um ser onipotente criar uma pedra que não pode ser movida. Não nego (nem afirmo) que haja ao menos um mundo possível em que haja um x que criou uma coisa que x não pode mover. O que afirmo é que esse x não poderia ser onipotente.

B: Aha! Então admites que ele não pode fazer algo possível!

A: Claro que não. O que afirmo é que isso que dizes que ele deveria poder fazer, por ser onipotente, não é possível. Ninguém tem o poder limitado por não poder fazer o impossível. Essa é uma limitação da tarefa, não do agente. E que seja uma limitação da tarefa se mostra no fato de o mundo em que ela seria realizada haveria uma coisa que não poderia sofrer uma ação possível e um ser que pode realizar todas as ações possíveis. Se o ser onipotente não pode mover a tal pedra, então ele não é onipotente. Se ele é onipoetente, então essa pedra pode ser movida.

B: Ok, esse é um mundo contraditório. Mas a contradição se deve à natureza contraditória da onipotência.

A: Não, a contradição é a seguinte conjunção: no mundo M há um ser onipotente e no mundo M há uma pedra que não pode ser movida. Nenhuma das afirmações dessa conjunção é, isoladamente, contraditória. Afirmar que um ser onipotente deve poder criar uma pedra que não pode ser movida é afirmar que essa contradição deve ser verdadeira, ou seja, é afirmar que deve ser possível esse mundo contraditório. Mas ele é impossível justamente porque é contraditório. Logo, dizer que se um ser é onipotente, ele pode criar uma pedra que não pode ser movida, implica dizer que se um ser é onipotente, ele pode fazer o que não é possível, ou seja, é colocar no escopo do poder de um ser onipotente uma tarefa impossível, como a de desenhar um círculo quadrado.

B: Estás afirmando que o ser onipotente é possível? Parece que sim, pois ficas imaginando mundos possíveis em que ele existe.

A: Não, estou apenas afirmando que a tarefa que supões que ele deveria realizar é impossível. Mas para mostrar isso, tenho que conjecturar sobre os mundos em que ele realizaria essa tarefa. Talvez um mundo em que exista um ser onipotente seja de fato impossível. O ponto é que teu argumento não mostra que ele é impossível. Teu argumento supõe que no escopo da onipotência está uma tarefa impossível e disso conclui que a onipotência é impossível. Mas essa construção do conceito de onipotência é uma petição de princípio.

Meu argumento mostra que um mundo em que houvesse um ser onipotente e uma pedra que não pode ser movida é impossível.

Para evitar mal-entendidos, é melhor descrever as conjecturas sobre esses mundos por meio de condicionais, pois em condicionais não se está afirmando nem o antecedente nem o consequente. Se (note bem, se) o ser onipotente existe em todos os mundos possíveis, então uma pedra que não pode ser movida é impossível, pois ela não existe em nenhum mundo possível em que o ser onipotente existe, ou seja, todos. Se (note bem, se) uma pedra que não pode ser movia é possível, então um ser onipotente não existe no mundo em que essa pedra existe. E se ela existe em todos os mundos possíveis, um ser onipoetente é impossível. A contradição ocorre na conjunção "Há um ser onipotente nos mundos M1, M2,... Mn e há uma pedra que não pode ser movida em ao menos um dos mundos M1, M2,... Mn", mas nenhum dos conjuntados é contraditório, ao menos não por causa do teu argumento. Não é contraditório afirmar a existência de um ser onipotente e negar a possibilidade de uma pedra que não pode ser movida. Logo, não é contraditório afirmar a existência de um ser onipotente.

B: Mas o conceito de uma pedra que não pode ser movida não contém nenhuma contradição. Logo, uma pedra que não pode ser movida é possível.

A: Concordo que não há contradição no conceito de uma pedra que não pode ser movida. Mas consistência do conceito não é suficiente para a possibilidade. Para que um mundo (e portanto as coisas nele) seja possível, não pode haver inconsistência entre os conceitos instanciados nesse mundo. Se há algo em todos os mundos possíveis que é inconsistente com uma pedra que não pode ser movida, então uma pedra que não pode ser movida é impossível, mesmo que seu conceito não possua contradição. Resumindo: consistência do conceito não implica possibilidade, mas a inconsistência do conceito implica impossibildade.

B: Ok, teísta, não tenho uma boa réplica.

A: Teísta? De onde concluíste que sou teísta? Por atacar um argumento para provar a inexistência de Deus? Quem ataca um argumento para provar a existência de Deus é ateu? Se fosse, então São Tomás de Aquino seria ateu.

B: Ok, agnóstico.

A: Não, não, isso também não podes concluir. O que não percebes é que não estou discutindo se Deus existe ou não. Estou apenas tentando mostrar que teu argumento para mostrar que ele não existe não é bom.

(Diálogo inspirado por um pequeno debate ocorrido no Orkut. Continua aqui.)