BEM-VINDO!

Neste blog eu posto reflexões provisórias sobre problemas filosóficos que me interessam. Comentários, sugestões e críticas são muito bem-vindos. Envie-me um email. (Há um mecanismo de busca acima, na coluna esquerda e um sistema de busca por palavra-chave abaixo. If you can read English or some other language, there is a mechanical translator on the left column.)

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quarta-feira, 7 de outubro de 2009

XIII Colóquio Conesul de Filosofia das Ciências Formais

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PROGRAMAÇÃO

Sábado, 24/10/2009:

20:30 – 21:00 Cerimônia de abertura
21:00 – 22:30 Conferência de abertura:

Oswaldo Chateaubriand (PUC-Rio): Verdade e Conhecimento Matemático
Frank Thomas Sautter (UFSM): moderador

Domingo, 25/10/2009:

10:00 – 11:00 Alexandre Noronha Machado (UFPR): Medição e Contingente a priori
11:00 – 12:00 Guido Imaguire (UFC): Sobre a Natureza da Lógica e da Matemática

14:30 – 15:30 Dirk Greimann (UFC): O Problema Júlio César
15:30 – 16:30 Marco Ruffino (UFRJ): O Problema Júlio César
16:30 – 17:00 Coffee-break
17:30 – 18:00 André Porto (UFG): Os naturais dados por Deus: indução e recursão
18:00 – 19:00 Paulo Veloso (UFRJ): Os naturais dados por Deus: indução e recursão


Segunda-feira, 26/10/2009:

10:00 – 12:00 Reunião PROCAD/CAPES “Aspectos lógico-filosóficos da negação” (restrita aos pesquisadores)

14:00 – 15:00 Jorge Molina (UNISC, UERGS): A crítica de Leibniz à geometria algébrica cartesiana: comparando programas de pesquisa
15:00 – 16:00 Oscar Esquisabel (UNLP): Leibniz: lógica, metafísica y matemática
16:00 – 16:30 Coffee-break
16:30 – 17:30 Wagner Sanz (UFG): A Noção de Construção Intuicionista e BHK
17:30 – 18:30 Javier Legris (UBA): Demostración, semántica y la concepción universalista del lenguaje

Terça-feira, 27/10/2009:

10:00 –11:00 Jaime Rebello (UFRGS): Ontologia e Entidades Matemáticas
11:00 – 12:00 Rogério Corrêa (UFSM): Sobre a Natureza das Operações no Tractatus

14:30 – 15:30 Carlos Miraglia (UFPEL): É a geometria de Kant visual?
15:30 – 16:30 Jairo José da Silva (UNESP): O Conceito de Estrutura Matemática
16:30 – 17:00 Coffee-break
17:00 – 18:00 Luiz Carlos Pereira (PUC-Rio): título a confirmar
18:00 – 19:00 José Seoane (UDELAR): Elucidando el concepto de demostración. Observaciones sobre Chateaubriand.

Quarta-feira, 28/10/2009:

10:00 – 11:30 Conferência de encerramento

Abel Lassalle Casanave (UFSM): Demonstrações katholicas e demonstrações ectheticas
Frank Thomas Sautter (UFSM): moderador

Teses filosóficas


Como às vezes é imensamente difícil abandonar uma tese filosófica! Como dizia Wittgenstein a propósito da inclinação a dizer certas coisas, é tão difícil quanto o é, às vezes, conter as lágrimas.

sábado, 3 de outubro de 2009

Conhecimento, engano, justificação e verdade

Tempo salvando a Verdade da Falsidade, de Françoise Lemoyne (1737)


O diálogo que se segue deveria ser lido em conjunto com a postagem O conceito de conhecimento. Ele nasceu de agradáveis conversas com vários amigos, sem os quais ele teria ficado pior do que está. Dentre esses amigos estão Luiz Eva, Tiago Falkenbach, Lúcio Lobo, Eros Moreira e Flávio Williges. (Revisado em 08/10/09.)

A: Sei que chove.

B: Então não podes estar enganado.

A: Não posso? Ou não estou?

B: Não estás e não podes estar.

A: Eu somente não estou enganado quando não posso estar enganado?

B: Bem, o fato é que se sabes, não podes estar enganado. Se estás enganado, então é porque crês que chove e não está chovendo. E se não está chovendo, então não sabes que chove. O conhecimento implica a verdade da crença que se alega saber ser verdadeira e o engano implica a falsidade da crença que se alega saber ser verdadeira

A: Concordo. Mas o que queres dizer poderia ser dito também assim: necessariamente, se sei que chove, não estou enganado.

B: Bem, sim.

A: Mas essa última formulação é mais fraca que a anterior.

B: Mais fraca? Que queres dizer?

A: Quero dizer que ela não tem certa implicação problemática que a anterior tem.

B: Qual implicação?

A: A afirmação "Se sei, não posso estar enganado" implica que sempre que for possível que eu esteja enganado, não sei. Mas a afirmação "Necessariamente, se sei, não estou enganado" não tem essa implicação. Ela implica apenas que, necessariamente, se estou enganado, não sei.

B: Mas tu não concordas que se posso estar enganado, então não sei?

A: Claro que não.

B: "Claro que não"? Como é possível que eu esteja enganado e saiba?

A: Mas não foi isso que eu disse. Veja, uma coisa é dizer que é possível que eu esteja enganado e saiba, outra muito diferente é dizer que sei e poderia estar enganado. Se estivesse enganado, então não saberia, pois, necessariamente, se sei, não estou enganado. Mas o fato de eu saber não torna meu engano uma impossibilidade lógica. Aqui ocorre algo análogo ao que ocorre em outros âmbitos. O fato de chover agora não torna o não chover agora uma impossibilidade lógica. Ou seja, mesmo que "Chove" seja agora verdadeira, não é necessariamente verdadeira. Analogamente, mesmo que "Sei que chove" seja agora verdadeira, não é necessariamente verdadeira.

B: Mas veja, se eu posso estar enganado agora, como posso agora saber? Isso não implica que posso saber e estar enganado agora?

A: Mas não estou dizendo que, agora, posso estar enganado e saber. Estou dizendo que, mesmo que eu agora saiba, eu poderia estar enganado. Ou seja, se agora sei, isso não se deve ao fato de ser uma impossibilidade lógica que agora eu não saiba.

B: Bem, com isso eu concordo.

A: Mas é justamente por isso que é enganador dizer "Se sei, não posso estar enganado". Se essa frase diz apenas o mesmo que "Necessariamente, se sei, não estou enganado", então tudo bem. Mas se por meio dela somos levados a crer que somente sabemos quando o engano é uma impossibilidade lógica, então somos levados a crer em algo falso.

B: Hum, ok. Mas tu tens que concordar que a possibilidade de eu estar enganado está excluída pelo fato de eu saber, não?

A: Se com isso queres dizer que o meu saber e o meu estar enganado são estados de coisas incompatíveis, concordo. Mas, novamente, tua formulação é uma maneira enganadora de se dizer isso.

B: Por que?

A: Porque sugere fortemente que somente podemos saber se mostrarmos que não é possível que estejamos enganados.

B: Mas não é isso que fazemos quando nossa alegação de conhecimento é verdadeira?

A: Claro que não. O que fazemos é mostrar que não estamos enganados, não que não é possível que estejamos enganados. Novamente, aqui ocorre algo análogo ao que ocorre em outros âmbitos: para nos convencermos de que chove agora, não precisamos mostrar que não chover agora é uma impossibilidade lógica.

B: Mas veja, se estou convencido de que sei, então a possibilidade de que eu esteja enganado não pode ficar aberta para mim.

A: Se com isso queres dizer que estar convencido de que sei implica estar convencido de que a possibilidade de eu estar enganado não é uma atualidade, então concordo. Mas ela não deixa de ser uma possibilidade para mim apenas porque estou convencido de que não é uma atualidade.

B: Bem, sim, mas não é isso que estou querendo dizer. O que quero dizer é que todas as possibilidades incompatíveis com meu saber devem ser descartadas por aquilo que me convence de que sei. Por exemplo: se sei que chove e isso é incompatível com eu estar dormindo, então o que me convence de que sei é algo que descarta a possibilidade de eu estar dormindo, ou seja, é algo que me convence de que essa possibilidade não é o caso.

A: Estás dizendo que algo somente me convence de que sei que está chovendo, somente justifica minha alegação de conhecimento, se me convence **antes** de que todas as possibilidades incompatíveis com eu saber que chove não são o caso?

B: Bem, ao menos todas as possibilidades incompatíveis **conhecidas**.

A: Ou seja, se alego saber que p e sei que p implica nã0-q, então o que quer que justifique minha crença que p deve fazê-lo justificando minha crença que não-q. É isso?

B: Isso mesmo. Por exemplo: se não tens justificação para crer que não estás sonhando, então não tens justificação para crer que chove.

A: Mas por que a justificação que tenho para crer que chove, por exemplo, estar olhando pela janela e vendo pingos caírem do céu, etc., não é suficiente para crer que não estou sonhando?

B: Porque essa justificação é compatível com a possibilidade de eu estar sonhando.

A: Então uma justificação para crer que chove é algo que implica logicamente que chove, certo? Pois se minha justificação para crer que chove deve ser incompatível com todas as possibilidades incompatíveis com minha crença, então não é possível que essa justificação seja verdadeira e minha crença seja falsa, ou seja, minha justificação implica logicamente minha crença.[nota 1]

B: Correto.

A: Não quero negar que quando essa exigência está satisfeita, então sei. Mas de onde vem a crença de que essa exigência deve estar satisfeita em qualquer caso de conhecimento? Creio que ela vem justamente do mal-entendido ligado à frase "Se sei, não posso estar enganado" apresentado anteriormente.

B: Qual mal-entendido?

A: O de inferir (2) "Se sei, não posso estar enganado" de (1) "Necessariamente, se sei, não estou enganado". (2) parece plausível porque (1) é plausível e (2) parece ser implicada por (1). Mas (2) não é implicada por (1) e nosso conceito de conhecimento não nos compromete com (2), mas apenas a (1).

B: Não concordo. Creio que nosso conceito de conhecimento nos compromete com (2).

A: Deixe-me tentar mostrar que estás enganado.

B: Podes tentar. Mas duvido que consigas.

A: OK, mas me siga com atenção.

B: Estou atento.

A: Em primeiro lugar, vamos ver quais seriam os desiderata de uma boa teoria do conhecimento.

B: OK.

A: Um deles é acomodar a assim chamada definição tradicional de conhecimento, a saber, que um sujeito S sabe que p se e somente se (1) S crê que p, (2) é verdade que p e (3) S está justificado ao crer que p.

B: Concordo. Se isso puder ser feito, tanto melhor.

A: Outro desideratum é não conflitar com a facticidade do conhecimento, isto é, com a tese que, se sei que p, então p.

B: Sim, claro.

A: Por fim, uma boa teoria do conhecimento deve mostrar como o conhecimento é diferente de uma adivinhação sortuda. Mesmo que a sorte possa ter algum papel na aquisição de conhecimento, não pode ser **apenas** por sorte que se obtém conhecimento. Se alguém apostar na Mega-Sena um conjunto de números que escolheu olhando para as placas dos carros que estavam estacionados em frente à casa lotérica e acertar, não vamos dizer que ele sabia quais números seriam sorteados.

B: Também concordo com isso.

A: Podemos descrever tua posição como a de alguém que sustenta que o conhecimento tem uma quarta condição, além das três tradicionais. Essa condição descreveria uma relação entres as condições (2) e (3), a saber, (4) a condição (3) implica logicamente a condição (2).

B: Ela poderia ser descrita também como a de alguém que sustenta uma tese sobre a condição (3), e não uma quarta condição. Mas a escolha entre as duas descrições é mesmo meio arbitrária.

A: Sim. Bem, eu não vou apresentar uma teoria do conhecimento. O que vou fazer é mostrar que uma teoria do conhecimento que negue (4) não necessariamente precisa desistir de um dos três desiderata listados há pouco.

B: Não vejo como.

A: Veja bem, se a definição tradicional de conhecimento está correta, então se as condições (1)-(3) estão satisfeitas, então há conhecimento. E se há conhecimento e o conhecimento é factivo, então aquilo que se sabe é o caso. Mas, se (4) é falsa, o conhecimento é factivo não porque (3) implica logicamente (2), mas porque, trivialmente, se as condições (1)-(3) estão satisfeitas, assim está uma delas, a saber, a condição (2).

B: Como assim?

A: Suponha que S sabe que chove. Se S sabe que chove, então S crê que chove, é verdade que chove e S está justificado ao crer que chove. Logo, se S sabe que chove, então é verdade que chove.

B: Sim, mas isso só é o caso se a justificação para S crer que chove implicar que é verdade que chove.

A: Bem, sei que essa é tua tese. Mas, como acabei de mostrar, negá-la não implica negar a tese da facticidade do conhecimento, tampouco implica negar a definição tradicional de conhecimento. A facticidade do conhecimento é uma conseqüência trivial da definição tradicional de conhecimento.

B: Mas se negamos (4), então é possível que haja duas pessoas S1 e S2 tais que, em tempos diferentes, t1 e t2, respectivamente, S1 e S2 crêem que chove e estão igualmente justificados ao crerem que chove, mas, enquanto S1 sabe que chove, porque em t1 é verdade que chove, S2 não sabe que chove, pois em t2 não é verdade que chove.

A: Sim, é graças à natureza que sabemos alguma coisa. [nota 2]

B: Mas então não temos como distinguir entre conhecimento e adivinhação sortuda! S1 sabe que p porque tem a sorte de ser verdade que p em t1. E S2 não sabe que p porque tem o azar de não ser verdade que p em t2.

A: Não. Esse é um falso dilema. Não é o caso que ou (3) implica logicamente (2), ou o conhecimento é adivinhação sortuda. E podemos ver que se trata de um falso dilema se notarmos que o que justifica a crença de S que chove pode ser algo que, embora não implique logicamente que chove, é um processo tal que gera muito mais crenças verdadeiras do que falsas, muito mais do que a média de acertos por adivinhação sortuda. Trata-se, portanto, de um processo confiável de geração de crenças. Se tanto S2 quanto S1 geraram a crença que chove por meio de um processo confiável, então a justificação de ambos é suficiente para o conhecimento, se combinada com a verdade de sua crença. S2 realmente teve má sorte. Mas S1 não sabe **apenas** porque teve boa sorte.

B: Mas então aquilo que justifica a crença fornece um apoio indutivo para ela?

A: Sim. Não estou dizendo que é sempre assim, mas que pode ser assim, ou seja, que não precisa sempre implicar logicamente a verdade da crença.

B: Mas o apoio indutivo admite graus e o conhecimento não os admite. Se estivesses correto, então o conhecimento admitiria graus. Não entendo isso. Se sei que chove, então não posso vir a saber mais que chove.

A: Mas por que não posso vir a saber mais que chove? Não dizemos às vezes "Tu sabes **melhor** que eu que…" ou "Tu sabes **bem** que…"? E aqui quero apontar para um outro desideratum de uma boa teoria do conhecimento, que não mencionei antes porque é mais problemático que os demais: uma boa teoria do conhecimento não deve entrar em conflito com nossos critérios ordinários para a atribuição de conhecimento. Nenhuma teoria que assuma (4) pode satisfazer esse desideratum. Ordinariamente admitimos graus de conhecimento, pois admitimos graus para a justificação.

B: Tanto pior para nossos critérios ordinários de conhecimento. Isso apenas mostra que eles são insuficientes para o conhecimento.

A: Como sabes? Se não podes apelar para nossos critérios ordinários de atribuição de conhecimento, como sabes que nosso conceito de conhecimento é tal que tais critérios não são suficientes para ele? Como sabes que o conhecimento não admite graus? [nota 3]

B: ...

[a ser continuado...]
___________

[nota 1] "…não podemos afirmar que S sabe que p (onde p é uma proposição qualquer) a menos que sejam satisfeitas as seguintes condições: (1ª) S acredita que p; (2ª) p é verdadeira e (3ª) S tem boas razões para acreditar que p. […] O que significa com efeito 'ser uma boa razão' nesse caso? O candidato mais célebre -- e o mais domesticado -- a parafrasear essa expressão é 'implica logicamente'. E de fato penso que ninguém poria em dúvida que alguém sabe que p quando ele acredita que p é verdadeira, ele sabe que r, r implica logicamente p (ou, inversamente, p é dedutível de r) e, por último, ele sabe que r implica logicamente p." Barbosa Filho, Balthazar, "Saber, Fazer e Tempo", em E. Da Rocha Marques et al (org.), Verdade, Conhecimento e Ação, São Paulo: Loyola, 1999, p. 16. Quando o Prof. Balthazar fala que "ninguém poria em dúvida…", ele parece estar dizendo que é uma condição apenas suficiente para o conhecimento que a condição (3) implique a condição (2). Mas quando ele fala de "paráfrase", não há dúvida que ele está considerando-a uma condição necessária.

[nota 2] Wittgenstein afirma algo semelhante em Sobre a Certeza: "É sempre por um favor da natureza que sabe-se alguma coisa" (§505)


terça-feira, 22 de setembro de 2009

O espelho da finitude


Nas encruzilhadas da vida
a voz da eternidade fica mais perceptível.
Entretanto, não fica mais clara,
nem menos ambígua.
Mas fala através de todas as bocas,
de todas as coisas,
mesmo as mais quietas e discretas.
Às vezes parece caçoar da nossa angústia, quando,
em meio à agitação de uma novidade encantadora,
mostra tudo o que é possível,
sem, porém, ao menos dar pistas
do que é mais certo, do que gera menos dor.
A vertigem da eternidade
apresenta uma possibilidade descoberta
como uma fruta madura,
que chega na hora de uma fome de vida.
Mas provavelmente essa voz é apenas um eco
de um grito animal cheio de medo e desejo,
cheio do que pode e quer, mas tem medo de ser.

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Bolsa Prodoc na UFPR

O Programa de pós Graduação em Filosofia da Universidade Federal do Paraná informa que está prorrogando o prazo de inscrição de candidatos a uma bolsa Prodoc, para dar continuidade a um projeto já em execução sobre filosofia da matematica. A bolsa destina-se a doutores em filosofia que não possuam vínculo empregatício. O período da bolsa vai do segundo semestre de 2009 ao final de 2010, com possibilidade de renovação. Os interessados devem enviar um projeto sucinto sobre filosofia da matemática e temas afins, com plano de atividades, e currículo, até o dia 30 de setembro, para esse e-mail (Esse é um formulário por meio do qual será informado o endereço de e-mail para enviar os anexos.). Mais informações sobre o projeto Prodoc em execussão podem ser obtidas por meio desse mesmo email.

domingo, 13 de setembro de 2009

O conceito de conhecimento

O cético, ou ao menos um tipo de cético, pretende mostrar que não satisfazemos ao menos uma das condições necessárias para saber. Mas, para nos convencer, ele deve nos convencer que essas, sejam quais forem, são condições necessárias para saber. Ele deve nos convencer que o conteúdo do conceito de conhecimento contém essas condições. Uma estratégia para isso é examinar o nosso modo ordinário e/ou científico de usar o verbo "saber" e as demais palavras dessa família. Austin adota essa estratégia, não para defender o ceticismo, mas para atacá-lo. Criticando Austin, Stroud procura mostrar que é inválido inferir teses sobre o conteúdo do conceito de conhecimento de afirmações sobre nosso modo de uso do verbo "saber", pois os critérios desse uso frequentemente obedecem a objetivos práticos, a despeito dos nossos objetivos epistêmicos. Mas como Stroud pode justificar isso, dado que não está aberta para ele a possibilidade de apelar para o exame do nosso uso do verbo "saber"? Ele poderia dizer, embora de fato não diga, que há uma distinção entre usos práticos e epistêmicos de "saber". Mas como ele poderia justificar essa distinção? Parece que apenas se ele já tivesse conhecimento sobre quais são nossos objetivos epistêmicos, isto é, sobre quais são as condições a serem satisfeitas para que saibamos. E voltamos a estaca zero. De nada adianta dizer que, de acordo com a definição ordinária de conhecimento, nós conhecemos, mas que, de acordo com a definição filosófica, seja isso o que for, não conhecemos. Sem uma justificação de que a definição filosófica é, de algum modo, melhor, a discussão seria meramente verbal. E dada a conseqüência cética contra-intuiiva dessa definição filosófica, ela parece ser justamente pior. A discussão, obviamente, não encerra aqui. Mas para ela avançar, o cético precisa dizer como ele conhece o conteúdo do conceito de conhecimento, o que já parece paradoxal o suficiente...

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Colóquio Conteúdo e Contexto

21 e 22 de outubro de 2009
Pantheon do IFCH
UFRGS, Porto Alegre

Segunda-feira, 21 de outubro de 2009

13h30–15h - Marco Ruffino (UFRJ), ‘Quantificação, Contexto e Intenção’
15h–16h30 - Paulo Faria (UFRGS), ‘Contexto e Inferência’
16h30–17h - Coffee break
17h–18h30 - César Schirmer dos Santos (UFRGS), 'Ludlow sobre memória e contexto’

Terça-feira, 22 de outubro de 2009

13h30–15h - João Carlos Brum Torres (UFRGS/UCS), ‘Categorias, Esquemas e Indexicalidade’
15h–16h30 - Ernesto Perini Santos (UFMG), ‘Duas Críticas ao Contextualismo e uma Resposta’
16h30–17h - Coffee break
17h–18h30 - André Leclerc (UFPB), ‘Compreensão Lingüística Espontânea e Contexto’

terça-feira, 8 de setembro de 2009

O quão radical é a tradução de Quine?

Em Word and Object (Cambridge/MA: The MIT Press, 1960; tradução no prelo), no famoso capitulo II, sobre a indeterminação da tradução, no início da descrição da situação de tradução radical, uma situação em que a linguagem traduzida é completamente desconhecida e não há auxilio de intérpretes, mas apenas o comportamento observável dos falantes, verbal e não-verbal, e os estímulos que ele recebe do ambiente, Quine diz:
Mas como ele [o lingüista numa situação de tradução radical] deve reconhecer o assentimento e dissentimento do nativo quando ele os ouve? Gestos não devem ser tomados pelo valor de face; os gestos dos turcos são aproximadamente o reverso dos nossos. O que ele deve fazer é adivinhar a partir da observação e ver como suas adivinhações funcionam. [...] Não obstante inconclusivos que são esses métodos, eles geram uma hipótese de trabalho. Se dificuldades extraordinárias advêm em todos os passos subseqüentes, o lingüista pode decidir descartar a hipótese e adivinhar novamente. [p. 29]
Mas aqui uma pergunta (que me incomoda desde que ouvi falar da reflexão de Quine pela primeira vez) se impõe: como o tradutor pode "ver como suas adivinhações funcionam"?

Na passagem omitida no trecho acima, Quine diz:
Desse modo, suponha que ao perguntar "Gavagai?", e coisa semelhante, na nítida presença de coelhos e coisas semelhantes, ele dê as respostas "Evert" e "York" com freqüência suficiente para ele supor que elas correspondem a "Sim" e "Não", mas não tem nenhuma noção de qual é qual. Então ele tenta o experimento de ecoar os pronunciamentos voluntários do próprio nativo. Se de modo bem regular ele responde "Evert" ao invés de "York", ele é encorajado a tomar "Evert" como "Sim". [p. 29]
Bem, sim, se o nativo dá assentimento ao uso de "Evert" quando o Tradutor está tentando testar a hipótese que "Evert" deve ser traduzido por "Sim", então ele é encorajado a manter sua hipótese. Mas, o problema não era saber qual é o comportamento de assentimento e dissentimento do nativo?

Isso me lembra a seguinte reflexão de Wittgenstein:
Suponha que você foi, como um explorador, a um país desconhecido com uma língua bem estranha para você. Em que circunstâncias você diria que as pessoas lá deram ordens, as entenderam, as obedeceram, rebelaram-se contra elas, e assim por diante?

O comportamento comum da humanidade é o sistema de referência por meio do qual interpretamos uma linguagem desconhecida. [Investigações Filosóficas, §206, Oxford: Blackwell, 1999]
A reflexão aqui, me parece, é paralela à uma reflexão que se pode fazer sobre o aprendizado. Para que seja possível que uma criança aprenda as primeiras lições a que a submetemos, ela deve reagir de um modo que nós não ensinamos. Ela deve ter reações naturais apropriadas, comuns a todas as crianças capazes de aprender. Analogamente, um substrato de reações comuns é necessário para que a interação com um povo desconhecido propicie as condições para uma tradução da sua língua para a nossa, por mais limitada que seja essa tradução.