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quinta-feira, 15 de junho de 2017

A estrutura do conhecimento

Esquema da percepção segundo Descartes
Nossas crenças justificadas formam uma estrutura nas quais mantêm relações de justificação. O assim chamado problema da estrutura do conhecimento é, na verdade, um problema acerca de qual seja a estrutura desse sistema de crenças justificadas. Dado que as relações que compõem essa estrutura são de justificação, o problema pode ser formulado assim: qual é a estrutura das relações de justificação entre nossas crenças justificadas?

O trilema de Agripa ou de Münchhausen

O problema da estrutura do conhecimento surge a partir do assim chamado trilema de Agripa[1] ou de Münchhausen. A formulação do trilema supõe uma certa concepção da justificação que pode ser denominada inferencialista. Segundo a concepção inferencialista da justificação, uma crença está justificada se, e somente se, ela for inferida validamente de outras crenças justificadas. Por exemplo: a crença de que João chegará atrasado na reunião seria justificada porque foi inferida validamente das seguintes crenças justificadas: João acabou de sair de casa, ele demora no mínimo meia hora para chegar ao local da reunião e a reunião começa em dez minutos. Mas, se uma crença está justificada se, e somente se, ela foi inferida validamente de outras crenças justificadas e a crença de que João acabou de sair de casa é justificada, então ela deve ter sido inferida validamente de outras crenças justificadas, talvez da crença de que João acabou de comunicar isso pelo telefone. Mas se essa última crença é justificada, ela também deve ter sido inferida de ao menos uma crença justificada, talvez a crença de que foi João quem falou ao telefone e que ele não tem o hábito de mentir. E assim por diante as crenças vão regredindo às demais que as justificam. Mas até onde esse regresso se extende? Há apenas três possibilidades e parece que nenhuma delas é aceitável. A primeira possibilidade é que o regresso se extende ao infinito (sem se repetir). Se esse for o caso e se for necessário percorrer toda a cadeia de crenças do regresso para justificar uma crença, então nenhuma crença é justificada, pois é impossível percorrer uma cadeia infinita de crenças. A segunda possibilidade é que o regresso, em algum ponto, retorna à crença que se queria justificar (e se repete). Isso tornaria a cadeia de crenças viciosamente circular. Ora, uma inferência circular não justifica uma crença, pois uma crença não pode ser justificada por ela mesma. Embora a inferência
P
Logo, P
seja dedutivamente válida, ela não justifica a crença em P. A terceira possibilidade é que o regresso tem um fim em uma crença não-justificada e, portanto, arbitrária. Se a crença em P1 é, supostamente, justificada por P2, que é justificada por P3, que é justificada por P4, que é justificada por P5, que não é justificada, então, na verdade, P4 não é justificada, pois foi inferida de uma crença não-justificada. Mas então P3 tampouco é justificada, pois foi inferida de P4, que não é justificada. P2 tampouco é justificada, pois foi inferida de P3, que não é justificada. Por fim, P1 tampouco é justificada, pois foi inferida de P2, que não é justificada. A conclusão cética aparentemente inevitável desse argumento é que não é possível justificar uma crença e, portanto, o conhecimento não é possível.

Infinitismo, coerentismo e fundacionalismo

Há três tipos de teorias sobre a estrutura do conhecimento que são apresentadas como soluções para o trilema de Agripa. O infinitismo procura mostrar que, embora não pareça, o regresso ao infinito das justificações não implica que as crenças que compõem esse regresso não estejam justificadas. O coerentismo, por sua vez, procura mostrar que, embora não pareça,  circularidade da cadeia de justificações não implica que as crenças que compõem esse regresso não estejam justificadas. O fundacionalismo, entretanto, rejeita a concepção inferencialista de justificação, sem a qual o trilema não pode ser formulado, e sustenta que o regresso das justificações termina em crenças que são justificadas, mas não porque são inferidas de outras crenças.

O infinitista procura justificar sua teoria criticando o coerentismo e o fundacionalismo e tentando mostrar que o regresso ao infinito das justificações não é vicioso, mas virtuoso, ou seja, não é um problema epistêmico, mas justamente é o que possibilita satisfazer as exigências de uma boa teoria da estrutura do conhecimento. O regresso seria vicioso apenas se, para que uma crença fosse justificada, devêssemos percorrer toda a cadeia infinita de crenças. Essa seria uma tarefa logicamente impossível, pois exigiria a realização de infinitas ações. Portanto, se essa fosse de fato uma condição necessária para que uma crença fosse justificada, então nenhuma crença poderia ser justificada. O infinitista alega que essa não é uma condição necessária para a justificação. O que é necessário é que as crenças componham uma cadeia infinita de justificações. Se isso acontecer, as crenças dessa cadeia estarão justificadas, mesmo que seja impossível percorrer toda a cadeia. O infinitismo é a teoria com o menor número de adeptos.

O infinitismo sofre muitas objeções. Algumas das principais são as seguintes. Se o infinitismo está correto, então aquele que possui uma crença justificada possui infinitas crenças. Todavia, uma mente finita como a nossa é incapaz de ter infinitas crenças. Logo, o infinitismo deve estar errado. Um outra objeção consiste em afirmar que o infinitismo é incapaz de explicar a origem e transmissão da justificação ao longo da cadeia infinita de justificações. Afinal, como essa cadeia infinita se origina?

O coerentismo, na sua forma mais forte, afirma que pertencer a um conjunto de crenças coerente não é apenas necessário, mas suficiente para que uma crença seja justificada.[2] Uma grande dificuldade do coerentismo é definir de maneira satisfatória a propriedade da coerência. Um consenso é que ela envolve consistência lógica. Mas é claro que isso não pode ser suficiente porque há abundantes exemplos de proposições sabidamente falsas que fazem parte de conjuntos de crenças logicamente consistentes e nenhuma crença em uma proposição sabidamente falsa pode estar justificada (o que não implica que uma crença justificada não possa ser falsa). Outros elementos que se costuma acrescentar como constitutivos da coerência de um conjunto de crenças são a abrangência (quanto mais abrangente, mais crenças sobre mais coisas o conjunto contém) e o poder explicativo (quanto maior o poder explicativo de um conjunto de crenças mais coisas podemos explicar com ele e melhor).

A coerência também envolve a circularidade na cadeira das justificações. Mas isso o coerentista acredita ser não um vício epistêmico dessa cadeia, mas uma virtude. Mas como explicar que a circularidade da cadeia de justificações não é viciosa como a inferência que tem como premissa e conclusão a mesma proposição? Alguns argumentam que a circularidade somente é viciosa quando a cadeia de justificações é muito pequena. Tais coerentistas defendem que a cadeia de justificações é grande o suficiente para que a circularidade não seja viciosa. Outros coerentistas não aceitam essa explicação e afirmam que a circularidade não é viciosa porque o que é justificado na cadeia de crenças coerente é a própria cadeia como um todo, não as suas crenças particulares. A circularidade dessa cadeia, dessa forma, apenas mostraria o caráter holístico o nossos sistema de crenças, onde todas se apoiariam mutuamente. Uma maneira de tornar plausível a idéia de apoio mútuo é por meio de analogias, como aquela com o arco de tijolos. Cada tijolo de um arco de tijolos ao mesmo tempo apóia e é apoiado pelos demais. Todavia, coerentismo ainda envolve afirmar que as crenças de uma cadeia circular de crenças estão justificadas e que, portanto, uma crença é justificada, entre outras coisas, porque apóia indiretamente a si mesmo. Por fim, o coerentismo não elimina a possibilidade de haver dois conjuntos de crenças que atendam a todas as exigências para serem coerentes, embora incompatíveis. Esta seria uma situação paradoxal, em que duas crenças incompatíveis seriam, no entanto, ambas justificadas.

O fundacionalismo é de longe a teoria mais aceita. De acordo com o fundacionalismo, há dois tipos de crenças: as crenças básicas, cuja justificação não depende de outras crenças, e crenças não-básicas, cuja justificação é fornecida pelas crenças básicas. A idéia de crença básica, portanto, é incompatível com a concepção inferencialista da justificação, um dos elementos necessários para se formular o trilema de Agripa. Parte da argumentação a favor do fundacionalismo é uma defesa da inteligibilidade da idéia de crença básica e uma tentativa de mostrar que crenças básicas existem. O restante procura explicar como como as crenças básicas justificam as crenças não-básicas.

Mas como as crenças básicas elas próprias são justificadas, se não são justificadas por meio de outras crenças? O fundacionalismo clássico afirma que as crenças básicas são justificadas ou porque são absolutamente certas ou indubitáveis (Descartes) ou porque são infalíveis, isto é, são geradas por um processo que necessariamente gera crenças verdadeiras, ou porque seu conteúdo são proposições necessárias (não podem ser falsas). Na forma mais simples de fundacionalismo contemporâneo, no que tange a crenças empíricas, crenças básicas seriam crenças sobre experiências perceptuais. O que as justificariam seria essas próprias experiências, que não são crenças. Por exemplo: a crença de que estou vendo vermelho seria justificada pela minha experiência perceptual de ver vermelho, pela sensação visual de vermelho no meu campo visual. E a experiência perceptual justificaria minha crença perceptual, em uma das versões do fundacionalismo, porque ela é confiável, ou seja, tende a gerar crenças verdadeiras. A crença não-básica de que o objeto que estou vendo é vermelho, por sua vez, seria justificada pela crença básica de que vejo vermelho.

Uma objeção comum ao fundacionalismo é que, no final das contas, ele não consegue eliminar a arbitrariedade das crenças básicas., pois nossas experiências não são infalíveis e frequentemente são enganadoras.Todavia, é difícil entender como seria possível a experiência de se ver vermelho, por exemplo, poderia ser falha. O que pode ser falha é a crença não-básica de que o objeto que estou vendo é vermelho.

Sellars formulou outra objeção ao fundacionalismo na forma de um dilema. Crenças e as demais atitudes proposicionais têm conteúdo representacional assertivo, ou seja, conteúdo que pode ser expresso em uma asserção e pode ser verdadeiro ou falso sobre o mundo. Ou a experiência possui conteúdo representacional assertivo ou não possui. Se a experiência possui conteúdo representacional assertivo, então é necessário que algo justifique a correção desse conteúdo e, portanto, a experiência não é o fim da cadeia de justificações. Se a experiência não possui conteúdo representacional assertivo, então ela não poderia desempenhar o papel de justificadora de crenças. Uma resposta a esse dilema consiste em alegar que ao contrário do que a primeira parte do dilema parece supor, a experiência não precisa ser justificada por algo que o sujeito cognoscente possui acesso cognitivo para ser justificadora. Ela pode ser justificadora por ser confiável. A experiência precisa ter essa propriedade, de ser confiável, embora o sujeito cognoscente talvez sequer tenha a crença de que ela a tem.

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[1] Agripa foi um filósofo cético antigo. O trilema é atribuído a ele por Diógenes Laércio.

[2] Não se deve confundir o coerentismo epistêmico com a teoria da verdade como coerência. O coerentismo epistêmico é uma teoria sobre o conhecimento ou justificação, não sobre a verdade. A princípio o coerentismo epistêmico pode ser combinado com a teoria correspondencista da verdade, por exemplo.


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