É notável os mal-entendidos que podem advir do que é sugerido pela forma gramatical de certas definições formuladas em linguagem ordinária. (Falo isso baseado principalmente na minha experiência como professor.) Ao se perguntar o que é uma crença, por exemplo, é comum ouvir a resposta: "Crença é o que é verdade para alguém". Bem entendida, essa definição não enuncia nada polêmico. Mas a sua forma gramatical sugere coisas polêmicas. Em primeiro lugar, ela sugere que toda crença é verdadeira, pois diz, em parte, que uma crença é o que é verdade. Além disso, o que é pior, essa formulação sugere, por meio da expressão "para alguém", que a verdade é relativa. Se eu tenho a crença que chove e João tem a crença que não chove, então, de acordo com a formulação acima, é verdade, para mim, que chove e é verdade, para João, que não chove. Logo, o que é verdade é relativo a alguém para o qual isso é verdade. Essa interpretação da definição enganadora acima está relacionada ao uso muito difundo das expressões altamente enganadoras "as minhas verdades", "as tuas verdades", "as verdades dele".
Alguém que tenha caído nessa armadilha gramatical deveria pensar um pouco no que está contido no pacote que está comprando: se eu e João acreditamos, ao mesmo tempo, respectivamente, que chove e que não chove e a verdade é relativa, então é ao mesmo tempo verdade que chove e que não chove. Ou seja, o relativismo, tal como descrito acima, implica que contradições podem ser verdadeiras.
Uma maneira de se interpretar a definição problemática acima que não engendra essas teses polêmicas consiste em notar que dizer que algo é verdade para alguém é uma maneira enganadora de dizer que alguém considera algo como verdadeiro. Obviamente que, de modo geral, considerar algo como verdadeiro não implica que seja verdadeiro, pois podemos muito bem estar enganados. O que é relativo, digamos assim, é o considerar algo como verdadeiro, não o ser verdadeiro. E isso é trivial, pois não há crença que não seja a crença de alguém. Mas a verdade não é de ninguém, por assim dizer. O que se quer dizer com "as minhas verdades", "as tuas verdades" e "as verdades dele" é "as minhas crenças", "as tuas crenças" e "as crenças dele", ou seja, "o que eu considero verdadeiro", "o que tu consideras verdadeiro" e "o que ele considera verdadeiro".
Uma maneira de evitar essas sugestões hipnóticas é oferecer uma definição alternativa que não contenha essas sugestões. E uma tal alternativa é: "Crença é o considerar (ou tomar) algo como verdadeiro". Essa definição não sugere uma confusão entre ser verdadeiro e ser considerado verdadeiro.
Obviamente, essas considerações não são uma refutação definitiva do relativismo sobre a verdade. Há argumentos sofisticados em favor do relativismo. Apenas quero mostrar, para quem isso não é evidente, que o argumento acima não é um deles.
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domingo, 25 de maio de 2008
quarta-feira, 21 de maio de 2008
Ordinary Objects: metafisica e confusão lingüística

Eis um pequeno trecho da resenha de Ordinary Objects (Oxford University Press, 2007), de Amie L. Thomasson:
In Ordinary Objects, Amie Thomasson mounts a spirited and vigorous defense of the reality of ordinary objects. She maintains that negative arguments like those just canvassed, despite their diversity in origin and in superficial form, exhibit similar problems arising from questionable background assumptions about matters of meaning, reference, possibility, and necessity. Such assumptions include the view that it makes sense to use words like 'thing' and 'object' in a perfectly general and generic way, and the view that it makes sense to ask (when using the words this way) which kinds of things or objects really exist. Thomasson holds, in opposition to these two assumptions, that fully meaningful uses of such words depend on their being explicitly or implicitly governed, in context, by more specific categories, e.g., "furniture item" or "governmental agency" or "dancing style." This allows her to reply to argument (2), for instance, this way:Se Thomasson está correta, então temos mais um exemplo de um conjunto de problema filosóficos que se origina de uma confusão lingüística ou conceitual. Ainda não li o livro. Mas a julgar pela resenha, parece leitura obrigatória sobre o assunto.
"if we interpret generic existence questions as using 'thing' or object' in an entirely 'neutral' sense, we have reason to think that they are incomplete and unanswerable . . . and the failure to find a uniform answer [to the question when several objects compose another object] that yields the objects of common sense would be no reflection on the issue of whether or not those objects exist, but reflect only the fact that the question is ill formed." (p. 136)
(Notre Dame Philosophical Reviews, 2008.05.22. Autor da resenha: Terry Horgan, University of Arisona.)
Algumas publicações de Thomasson podem ser encontradas na sua página profissional.
quinta-feira, 15 de maio de 2008
Gauker: sobre a instanciação universal
terça-feira, 13 de março de 2007
(EN2) A Existência dos Números
- Parece problemático dizer que os números existem porque não podemos observá-los, não sabemos onde estão, etc. - Mas porque algo existente deveria ser observável e estar em algum lugar? Essa exigência é imposta pelo conteúdo de "existir"? Não dizemos que existe a função de coordenador do departamento? E podemos observar essa função? Ela está em algum lugar? - Certamente podemos observar alguém exercendo essa função em algum lugar. - Mas analogamente podemos observar numerais exercendo certa função em algum lugar (no quadro, na tela do computador, na folha de papel, etc.). E dizemos que dois numerais expressam o mesmo número justamente quando ambos exercem a mesma função dentro da linguagem a qual pertencem.
sábado, 3 de março de 2007
(EN1) A Existência dos Números

- Números existem? - Bem, dizemos coisas como "Existe um número que somado a ele mesmo é igual a 8". Se essa afirmação é verdadeira, então números existem, não? - Mas a milenar controvérsia ontológica sobre as entidades matemáticas não pode ser resolvida assim, por meio de um apelo cego à nossa linguagem ordinária, pode? - Bem, é a linguagem dos matemáticos! - Mas talvez eles estejam enganados. - Se estiverem, então afirmações como a mencionada acima são falsas. E se forem, então a verdade não tem muita importância, tem? Mas antes de mais nada: por que parece problemático dizer que números existem?
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