É notável os mal-entendidos que podem advir do que é sugerido pela forma gramatical de certas definições formuladas em linguagem ordinária. (Falo isso baseado principalmente na minha experiência como professor.) Ao se perguntar o que é uma crença, por exemplo, é comum ouvir a resposta: "Crença é o que é verdade para alguém". Bem entendida, essa definição não enuncia nada polêmico. Mas a sua forma gramatical sugere coisas polêmicas. Em primeiro lugar, ela sugere que toda crença é verdadeira, pois diz, em parte, que uma crença é o que é verdade. Além disso, o que é pior, essa formulação sugere, por meio da expressão "para alguém", que a verdade é relativa. Se eu tenho a crença que chove e João tem a crença que não chove, então, de acordo com a formulação acima, é verdade, para mim, que chove e é verdade, para João, que não chove. Logo, o que é verdade é relativo a alguém para o qual isso é verdade. Essa interpretação da definição enganadora acima está relacionada ao uso muito difundo das expressões altamente enganadoras "as minhas verdades", "as tuas verdades", "as verdades dele".
Alguém que tenha caído nessa armadilha gramatical deveria pensar um pouco no que está contido no pacote que está comprando: se eu e João acreditamos, ao mesmo tempo, respectivamente, que chove e que não chove e a verdade é relativa, então é ao mesmo tempo verdade que chove e que não chove. Ou seja, o relativismo, tal como descrito acima, implica que contradições podem ser verdadeiras.
Uma maneira de se interpretar a definição problemática acima que não engendra essas teses polêmicas consiste em notar que dizer que algo é verdade para alguém é uma maneira enganadora de dizer que alguém considera algo como verdadeiro. Obviamente que, de modo geral, considerar algo como verdadeiro não implica que seja verdadeiro, pois podemos muito bem estar enganados. O que é relativo, digamos assim, é o considerar algo como verdadeiro, não o ser verdadeiro. E isso é trivial, pois não há crença que não seja a crença de alguém. Mas a verdade não é de ninguém, por assim dizer. O que se quer dizer com "as minhas verdades", "as tuas verdades" e "as verdades dele" é "as minhas crenças", "as tuas crenças" e "as crenças dele", ou seja, "o que eu considero verdadeiro", "o que tu consideras verdadeiro" e "o que ele considera verdadeiro".
Uma maneira de evitar essas sugestões hipnóticas é oferecer uma definição alternativa que não contenha essas sugestões. E uma tal alternativa é: "Crença é o considerar (ou tomar) algo como verdadeiro". Essa definição não sugere uma confusão entre ser verdadeiro e ser considerado verdadeiro.
Obviamente, essas considerações não são uma refutação definitiva do relativismo sobre a verdade. Há argumentos sofisticados em favor do relativismo. Apenas quero mostrar, para quem isso não é evidente, que o argumento acima não é um deles.
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domingo, 25 de maio de 2008
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