Translate

Mostrando postagens com marcador Crítica. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Crítica. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 1 de dezembro de 2015

Criticar o senso comum tornou-se... senso comum!

Quando somos introduzidos à filosofia, nossos professores geralmente repetem incansavelmente que ser filósofo é, entre outras coisas, ser crítico. Algumas vezes se explica corretamente o que é ser crítico e nenhum grande problema nasce dessa promoção do espírito crítico. Mas, com muita frequência, se usa "crítico" como sinônimo de "contestador". Pior: com a mesma frequência, se identifica o senso comum - aquele conjunto de crenças pré-teóricas compartilhadas (ao que parece) acriticamente pela maioria das pessoas - como o saco de pancadas dessa contestação. "Ser crítico", então, vira sinônimo de "ser contestador do senso comum", de tal forma que dizer "Isso é senso comum" se torna quase que uma espécie de xingamento intelectual, querendo dizer mais ou menos que quem expressa uma crença do senso comum carece flagrantemente de espírito crítico. Normalmente, os defeitos do senso comum são exemplificados rapidamente por meio de um ou dois casos e já se passa imediatamente a exortar os alunos a fugir dele como o diabo foge da cruz. Essa visão está tão difundida e é absorvida de forma tão fácil e rápida pelos alunos que já se tornou... senso comum! Sim, essa visão do espírito crítico e do senso comum tornou-se incoerente, porque ela é transmitida exatamente do modo como, de acordo com ela, o senso comum transmite suas crenças: sem a devida crítica.

Mas o que é ser crítico? Qual a diferença entre ser crítico e ser contestador? O que é senso comum? Em um texto antigo, eu abordei as duas primeiras perguntas. O resumo do que disse naquele texto e ainda subscrevo é que, em primeiro lugar, a palavra "crítica" é ambígua. No seu sentido original ela não é sinônima de "contestação", embora tenha adquirido esse uso, de tal forma que agora raramente se usa o verbo "criticar" em um sentido diferente de "contestar". Mas é esse sentido original que nos interessa, em especial porque ele é negligenciado por aqueles que exortam os alunos a criticarem o senso comum. A incoerência desses detratores do senso comum começa ai: pela falta de uma análise crítica da natureza da crítica, começando pelo negligência com essa ambiguidade que mencionei. No sentido original, ser crítico, fazer uma crítica é fazer um exame, ou análise, ou avaliação criteriosa, baseada nos melhores critérios cognitivos disponíveis. No caso das crenças, ser crítico em relação a elas é perguntar-se sobre o que as justifica, caso haja alguma razão para colocá-las em dúvida (mais sobre esse último ponto adiante). Nesse sentido, posso muito bem ser crítico em relação a uma crença do senso comum e chegar a conclusão que ela é devidamente justificada. Ou seja, ser crítico em relação a ela não implica contestá-la, não implica tomá-la como falsa. Kant usou "crítica" nesse sentido no título da sua obra mais célebre, a Crítica da Razão Pura. Nesse sentido é que também usamos para falar de críticos de arte e de seus textos, suas críticas. Algumas delas são negativas, outras positivas. Ser crítico, portanto, não é o mesmo que ser revolucionário ou liberal. Um conservador pode ter uma relação crítica com a tradição moral, estética e intelectual que ele quer conservar.

Sim, muitas crenças do senso comum são aceitas sem a devida crítica, ou seja, sem que se pergunte pela justificação para essas crenças. Mas disso não se segue que essas crenças sejam falsas.[1] Entretanto, um ponto que eu quero destacar sobre o senso comum é que ele não difere da ciência em um aspecto: a maior parte de suas crenças é verdadeira. O que ocorre com a avaliação do senso comum por parte dos seus detratores é análogo ao que ocorre com a avaliação que alguns leigos fazem da meteorologia: eles tendem a focar sua avaliação nos erros das previsões meteorológicas, sendo que na maior parte dos casos elas estão corretas, dentro da margem de erro com que operam. Todos (ou a maioria esmagadora de) nós acreditamos que vivemos no planeta terra, que o dia tem 24h, que o astro mais brilhante no céu durante o dia é o Sol, que não podemos respirar embaixo d'água sem equipamentos especiais, que não podemos voar sem o auxílio de algum artificio, que não somos imortais, que sementes germinam quando jogadas no solo fértil e irrigadas, que a chuva é água que cai do céu, que um corpo não podem estar em dois lugares ao mesmo tempo, que o fogo queima, etc. A lista pode se estender indefinidamente, incluindo também crenças morais, psicológicas e sociais adquiridas por meio da experiência de gerações.

Outro ponto importante sobre o senso comum é sua relação com a ciência. A ciência pode muito bem nos fazer revisar nossas crenças do senso comum. Um exemplo que considero claro é a crença de que o espaço ocupado por uma pedra, por exemplo, é mais preenchido por matéria do que vazio. Mas se a matéria é feita de átomos e o espaço ocupado pelos átomos é mais vazio do que preenchido, então o espaço ocupado por uma pedra é mais vazio do que preenchido. Outro exemplo é a crença de que o todo é sempre maior que as partes. Um contra-exemplo dessa crença é o tamanho do conjunto dos números naturais e o tamanho da sua metade, o conjunto dos números naturais pares: ambos têm infinitos elementos. Mas tais revisões não podem ser globais, mas apenas locais. As crenças do senso comum não podem ser maciçamente falsas, pois a ciência começa a partir do senso comum, de tal forma que, se ele estiver maciçamente enganado, então a ciência feita a partir dele não pode estar certa. Descobertas científicas podem nos fazer substituir os conceitos do senso comum por outros. Mas se essas descobertas foram feitas usando-se os conceitos do senso comum, então esse não pode ser um uso maciçamente errado. Por exemplo: para vários propósitos, substituímos o conceito de água do senso comum por outro, cujo critério é molecular, pois se descobriu que a maior parte do que se chamava (corretamente) de água pelos critérios do senso comum é constituído de H2O. Essa descoberta, portanto, se baseia num uso correto do conceito de água do senso comum. O erro maciço implica incompetência no uso do conceito e isso, por sua vez, implica que o conceito não foi sequer adquirido.[2]

Um último e importante ponto sobre o senso comum diz respeito a quem tem o ônus da prova, no caso de dúvidas sobre as crenças do senso comum. (Abordei esse ponto a partir de outro ângulo em outro texto.) Boa parte do senso comum é constituído de crenças básicas, aquelas nas quais suas demais crenças estão baseadas, de tal forma que se tais crenças básicas forem falsas, as demais também são. Isso explica ao menos em parte a inclinação do senso comum para ter tais crenças básicas: revisá-las implica fazer uma grande mudança no nosso sistema de crenças. Por conseguinte, quem quer que duvide da verdade dessas crenças está com o ônus de apresentar uma razão para tal. Dúvidas gratuitas, sem base em quaisquer razões podem, de fato, ser dirigidas arbitrariamente a quaisquer crenças. Mas duvidar é a expressão de um espírito crítico somente se essa dúvida for racional, se for motivada por razões.

Senso é aquilo que está ligado ao que se costuma chamar de bom senso, que se opõe a contra-senso. Senso comum é apenas o bom senso compartilhado. E sensata é a pessoa que possui bom senso. Senso comum é aquele conjunto de crenças que são paradigmas do bom senso. Esse conjunto não possui fronteiras precisas e é mutável. Mas isso não retira a sua importância.

O melhor seria cultivar o espírito crítico sem eleger um saco de pancadas. O espirito crítico é uma forma de lidar com nossas crenças, não uma revolta contra um certo grupo delas. Vista de mais perto, essa revolta se assemelha muito a um elitismo intelectual.


____________

[1] Não se segue nem mesmo que não sejam justificadas, se considerarmos o externalismo (ou externismo) sobre a justificação.

[2] Defendo esse ponto no artigo "Conhecimento, Verdade e Significado".

quinta-feira, 23 de outubro de 2014

Consideração pela opinião alheia

Uma vez um aluno me fez a seguinte crítica: "O senhor não leva em consideração a opinião da gente!". Eu então disse: "Claro que levo. Sempre analiso com cuidado o que vocês dizem. Até ajudo vocês a formularem suas opiniões." Ele então disse: "Mas o senhor sempre tem um argumento contra o que a gente diz!"

Essa reação mostra dois problemas. Um deles é a cegueira para o acordo. É claro que em grande parte dos casos eu concordo com as opiniões dos alunos. Mas aqui ocorre algo análogo à percepção comum da competência dos meteorologistas: apenas os seus erros são notados. Os acertos não viram assunto de conversa.

O outro problema, mais grave, é a visão negativa da crítica. Ela é vista como uma demonstração de falta de respeito, de falta de polidez, mesmo quando é feita da maneira o mais objetiva e gentil possível. Eu creio que isso se deve a um aspecto negativo da nossa cultura: uma visão distorcida da cordialidade, que vê a franqueza e a crítica como falta de cordialidade. Essa visão tem efeitos desastrosos principalmente no âmbito acadêmico, tornando o que poderia ser uma discussão frutífera numa "conversa de comadres".

Todos que me conhecem sabem do meu apreço pela discussão crítica, pelo embate de argumentos. Eu acho que ganho muito com ela. Mas acho que todos podem ganhar com ela, se não a encararem como uma coisa negativa. Meu apreço pela discussão crítica é tal que eu creio que a melhor forma de texto filosófico é o diálogo.

É claro que certas pessoas usam essa visão positiva da franqueza e da crítica para tentar justificar grosserias durante uma discussão. Grosserias, entretanto, simplesmente não se justificam. Todavia, ser franco e crítico não é ser grosseiro ou desrespeitoso.

Apresentar argumentos contra a opinião de alguém não é sinal de falta de respeito ou de consideração. Eu me sinto homenageado quando alguém vem no meu blog e escreve uma crítica respeitosa, mostrando as razões de por que discorda de mim. Um amigo meu, antes de dar uma palestra, às vezes diz: "Estou aqui para receber críticas. Para elogiar o que eu faço, já tenho a minha mãe." O espírito é esse! A crítica nos ajuda a ver onde podemos melhorar nosso trabalho. Reclamar que a pessoa tem argumentos contra o que pensamos é como reclamar que ela está sendo racional! É como se quiséssemos não ser informados de que estamos errando, se esse for o caso.

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

Engano e conhecimento


Estar enganado é crer que algo é o caso quando não é, ou crer que algo não é o caso quando é. Ou seja, estar enganado é crer que as coisas são de um modo quando as coisas são de um modo diferente daquele que acreditamos. Descobrir um engano, portanto, é descobrir que as coisas são de um modo diferente daquele que acreditamos. Logo, não há como descobrir um engano sem que saibamos como as coisas são. Parte da descoberta de um engano consiste em descobrir como as coisas são. Por isso, um método filosófico que pretenda ser nada mais do que uma exibição sistemática de certos enganos não pode se abster de, em alguma medida, dizer como as coisas são. E pode-se dizer isso de outra forma: um método puramente negativo não é possível em filosofia. Isso é algo que Adorno e Horkheimer parecem não ter visto na sua crítica total à razão, criticada por Habermas. Como uma crítica da razão, se essa consiste em mostrar os seus supostos erros, pode não usar a razão para mostrar como as coisas de fato são?

Essa é uma das razões básicas de por que não entendo a interpretação de Wittgenstein como praticando uma filosofia puramente negativa, no sentido em que estou usando esse termo. Como eu posso reconhecer que me extraviei no sem-sentido se não reconheço que não satisfiz as condições para o sentido, sejam elas quais forem, sejam elas mais gerais, sejam mais contextuais. Como Wittgenstein pode não estar apontando para regras gramaticais e ainda querer mostrar que estamos fazendo falsas analogias gramaticais? Como podemos estar usando a linguagem sem dizer nada se isso não é porque não estamos a usando como deveríamos, se quiséssemos dizer algo? Negar que a regras sejam entidades abstratas não é negar que uso da nossa linguagem seja feito de acordo com regras, que podemos reconhecer e cuja tentativa de seguir pode fracassar.

__________

Agradeço a Mauê Zanchet por ler essa postagem e apontar um erro.

terça-feira, 23 de junho de 2009

Medo da crítica

É incrível como algumas pessoas têm medo da crítica! Não consigo entender por que algumas delas ficam tão ofendidas com uma crítica sincera. Eu me sinto honrado em receber uma crítica. É sinal que meu trabalho não está tão ruim a ponto de ser ignorado. É claro que há maneiras agressivas de se fazer críticas, que devem ser evitadas. Mas há pessoas para as quais, não importa o quão gentil a crítica seja expressa, crítica é sempre algo ofensivo, uma expressão de um juízo sobre a pessoa criticada. São pessoas com um ego gigantesco, que só não é maior que sua insegurança em relação à qualidade do seu trabalho. Erros podem indicar que o trabalho é bom, pois alguns erros só podem ser cometidos por quem tem grande domínio sobre um assunto. Mas algumas pessoas querem ouvir apenas elogios.

quinta-feira, 19 de junho de 2008

História da filosofia, exegese e filosofia


Quando eu era estudante de graduação, eu ouvia algumas vezes dizer que Hegel tinha dito que o real é racional. Eu não entendia direito o que se queria dizer com esta frase: "O real é racional"; não entendia que tese se estava atribuindo a Hegel. E não tinha coragem de perguntar, dado o modo como se tratava essa afirmação: como se fosse uma afirmação cujo significado era óbvio. Minha perplexidade aumentava quando ouvia alguns dizerem que Hegel, na verdade, não tinha dito isso. Resultado: eu não tinha inclinação nem para concordar nem para discordar dessa afirmação, quer ela tivesse sido feita por Hegel, quer não.

Depois de anos, esse episódio serve agora para que eu ilustre em minhas aulas algo que penso sobre a natureza da filosofia: ela não se identifica nem com a história da filosofia, nem com a exegese de textos filosóficos. A reflexão que se segue é, em grande medida, simplificadora. Digo isso prevendo objeções óbvias. Sei que as coisas são mais complexas do que como as descrevo. Mas creio que essa complexidade não afeta o essencial do que digo. Algumas das minhas afirmações são deliberadamente vagas. Mas também creio que isso não impede que sejam compreensíveis; ao menos não para um início de conversa.

Diante da frase atribuída a Hegel podemos perguntar:

(1) Hegel realmente afirmou que o real é racional?

Para responder a essa pergunta, precisamos empregar técnicas de historiador, examinando as evidências históricas, pois essa é uma pergunta histórica. Precisamos ler os textos de Hegel para ver se a frase "O real é racional" se encontra em ao menos um deles. Bem, não essa frase, mas uma frase em alemão que possa ser traduzida por essa frase do português. É claro que, para traduzir as frases de Hegel do alemão para o português, temos que considerar o contexto da sua obra em que as frases em alemão aparecem e, para isso, temos que interpretar as frases em alemão de Hegel. Para contornar essa dificuldade, suponhamos que Hegel tenha escrito em português ou que a pergunta (1) tenha sido feita em alemão. Nesse caso, se houvesse uma digitalização das obras completas de Hegel, a pergunta poderia ser respondida por meio de um mecanismo de busca.

Algumas
perguntas da historia da filosofia, poucas, é verdade, são desse tipo: puramente históricas, não exigindo nenhuma habilidade filosófica (sobre o que é habilidade filosófica, falarei mais adiante). A maioria das perguntas importantes de história da filosofia estão entrelaçadas com perguntas exegéticas (sobre interpretação). Por isso podemos chamar esse tipo de pergunta de pergunta histórico-exegética. Mas embora os dois tipos de perguntas de fato apareçam entrelaçadas na maioria dos casos, podemos distinguir claramente o conceito de questão histórica do conceito de questão exegética. Reconhecer uma distinção não significa sustentar que o que é distinto é independente.

Um exemplo de pergunta exegética seria justamente uma que poderíamos fazer após decidirmos que Hegel de fato disse (suponhamos) que o real é racional:

(2) O que Hegel quis dizer com "O real é racional"?

Para responder a essa pergunta, temos que examinar a obra de Hegel e determinar como essa afirmação se insere nela (mas isso não implica que devamos ler tudo o que ele disse para fazer isso). Para isso temos que, digamos, filosofar junto com Hegel, isto é, temos que tentar pensar as coisas do modo como Hegel as pensou. Isso, obviamente, exige habilidade filosófica. É por isso que a qualidade de um bom trabalho histórico-exegético em filosofia é proporcional à habilidade filosófica do historiador-exegeta. Não que grandes filósofos não possam cometer grandes erros histórico-exegéticos. O que estou dizendo é que a falta de habilidade filosófica resulta sempre em um trabalho histórico-exegético de qualidade ruim. Parte da razão disso, a parte principal, diz respeito ao princípio de caridade, sobre o qual falarei mais adiante.

Perguntas sobre a influência de um determinado pensador sobre outro também são histórico-exegéticas. Mas há perguntas mais sofisticadas que (1) que têm um caráter mais histórico do que exegético, tal como as perguntas sobre o contexto da história das idéias em que uma determinada filosofia foi elaborada. Por exemplo: qual era o estado da física à época que Descartes escreveu as Meditações Metafísicas?

(Um exemplo de grande trabalho histórico-exegético, por causa do seu teor filosófico, é o livro Wittgenstein On Rules and Private Language, de Saul Kripke. Há uma grande controvérsia sobre se ele interpretou Wittgenstein corretamente ou não. E há inclusive um controvérsia sobre se os críticos da sua interpretação interpretaram o livro de Kripke corretamente. Mas isso não tira o mérito do seu livro, que, certo ou errado, ajudou a melhorar o nível do debate exegético sobre a obra de Wittgenstein. Uma das razões do livro de Kripke ser bom é que ele é um grande filósofo. (Cf. Paradoxos filosóficos e história da filosofia.))

Depois de ter respondido às perguntas (1) e (2), uma terceira pergunta pode ainda ficar sem reposta:

(3) Devo concordar com Hegel e pensar que o real é racional?

Essa pergunta pede por uma justificação da afirmação. Para respondê-la, não basta saber qual justificação Hegel ofereceu para a sua afirmação, se ofereceu alguma. É necessário submeter essa justificação a uma avaliação crítica (cf. Crítica (avaliação criteriosa)) E mesmo que (por hipótese) Hegel não tenha oferecido uma justificação, podemos pensar por conta própria se ela poderia ser justificada. Creio que esse é o tipo de pergunta filosófica propriamente dita. Lidar com perguntas filosóficas propriamente ditas exige autonomia de pensamento, exige a ousadia que Kant pedia aos esclarecidos.

Não quero afirmar que a tarefa de se responder às perguntas filosóficas possa ser feita independentemente de se responder perguntas histórico exegéticas. Apenas acho que há duas maneiras de se conceber a relação entre perguntas histórico-exegéticas e perguntas filosóficas e uma delas é a maneira filosófica propriamente dita. Pode-se lidar com as perguntas filosóficas como um meio para se lidar com as perguntas histórico-exegéticas ou pode-se lidar com as perguntas histórico-exegéticas como um meio para se lidar com as perguntas filosóficas. É a segunda maneira de relacionar esses dois tipos de perguntas que eu diria que é a maneira filosófica. A primeira é a maneira histórico-exegética. Alguém que toma as perguntas histórico-exegéticas como um fim, vai lidar com as perguntas filosóficas apenas na medida em que é necessário para lidar com as perguntas histórico-exegéticas. Vai procurar lidar com a pergunta sobre a natureza do real, para ficar com o mesmo exemplo, apenas na medida em que isso é necessário para entender o que Hegel quis dizer com a tese que o real é racional. Talvez examine o que os contemporâneos de Hegel objetaram a essa tese e quais respostas Hegel ofereceu a essas objeções, mas não porque esteja interessado em tomar uma posição em relação à questão filosófica. Mas aquele que toma as perguntas histórico-exegéticas como um meio para lidar com as perguntas filosóficas vai lidar com perguntas histórico-exegéticas apenas na medida em que são necessárias para lidar com perguntas filosóficas.

Mas por que seria necessário lidar com perguntas histórico-exegéticas para se lidar com perguntas filosóficas? Eu costumo explicar isso dizendo que fazer filosofia é entrar em um debate sobre questões filosóficas que já está em andamento. Não faz sentido ficarmos arrombando portas abertas (embora seja melhor arrombar portas abertas do que não arrombar porta alguma). Para entrarmos no debate que está em andamento, temos que estudar a história desse debate e interpretar o que os interlocutores disseram até então. E isso exige, é claro, lidar com perguntas histórico-exegéticas.

Não vejo nada de errado em se colocar as perguntas histórico-exegéticas como fim. Não acho que essa seja um atividade inferior em qualquer sentido à atividade que coloca as perguntas filosóficas como fim. Eu apenas acho que são atividades diferentes. Elas são complementares. O modo como a atividade histórico-exegética auxilia o debate filosófico eu já expliquei esquematicamente no parágrafo anterior. Mas como o debate filosófico pode auxiliar a atividade histórico-exegética? Isso tem a ver com o principio de caridade, mencionado acima, que é um princípio exegético. O princípio diz, grosso modo, que devemos atribuir àquele que interpretamos a máxima racionalidade que as evidências textuais permitem. A máxima racionalidade implica que as afirmações interpretadas têm sentido, não contém erros lógicos, são verdadeiras e justificadas. Mas para aplicar esse principio, temos que ter, ao menos em alguns momentos, alguma opinião sobre quais afirmações têm sentido, quais princípios lógicos são corretos, quais afirmações são verdadeiras e quais são justificadas. E isso exige lidar com questões filosóficas propriamente ditas. Por isso, um trabalho histórico-exegético não pode se furtar totalmente de lidar, em primeira pessoa, com questões filosóficas propriamente ditas.

(Para o que Descartes pensa sobre esse tópico, cf. Descartes: Sobre a filosofia e a história da filosofia.)

----------

Imagem: Detalhe de A Escola de Atenas, de Rafael. Embora seja um lugar comum, sempre achei essa pintura uma representação muito boa do que penso serem aspectos essenciais da filosofia. No centro, aparecem Platão e Aristóteles debatendo. Eles seguram livros. Mas são seus livros, onde expõem e defendem as suas filosofias (Platão segura o Timeu e Aristóteles segura o que parece ser a Ética Nicomaquéia).

terça-feira, 28 de novembro de 2006

Crítica

Immanuel Kant
Sei que, para muitos, o que se segue é chuva no molhado.

A maioria das nossas palavras é ambígua, ou seja, é usada com significados diferentes (e às vezes, infelizmente, na mesma ocasião). Um bom exemplo é a palavra ‘crítica’, que algumas vezes sai da boca de alguns alunos de filosofia como uma espada que é desembainhada em nome do bem e contra o mal. Algumas vezes ela é usada quase como uma espécie de nome do seu próprio pensamento, como se quem pensasse de forma diferente o fizesse por não ser “crítico”. Mas esse é um uso meramente retórico, ideológico, propagandista de ‘crítica’, que, portanto, em nada contribui para o diálogo racional entre interlocutores interessados na (busca da) verdade. Nele está implícita a idéia que criticar é apontar defeitos, é ser contestador, pois aquele que se arroga ser critico (nesse sentido) quer dizer que consegue ver os defeitos no modo de pensar daqueles que não concordam com ele. (Isso também está ligado à idéia que ser crítico é ser contra o status quo ou contra a tradição. Voltarei a esse ponto em um instante.)

Bem, de fato usamos a palavra ‘crítica’ algumas vezes assim, como quando dizemos “Quando conversar com ele, não seja muito crítico” querendo dizer “Quando conversar com ele, evite ficar apontando para os seus defeitos”, ou quando dizemos “Ele só sabe criticar, mas não oferece nenhuma solução”. Mas também usamos a palavra crítica em outro sentido, como quando dizemos “Aquela peça de teatro recebeu uma crítica favorável”. É claro que “crítica favorável” significa em parte elogio: é um elogio qualificado, e sua qualidade consiste em ser feito com base em uma avaliação criteriosa, baseada em critérios aceitáveis no que concerne àquilo que está sendo avaliado. O que nos leva a dizer que existe crítica em ambos os contextos? É justamente a presença de uma avaliação criteriosa. Ser crítico é, em geral, ser alguém que avalia o que avalia de maneira criteriosa, conforme os critérios aceitáveis no que concerne àquilo que está sendo avaliado. Ser mais ou menos crítico, nesse sentido, não é apontar mais ou menos defeitos, mas é fazer mais ou menos avaliações baseadas em critérios. Também nesse sentido, alguém pode ao mesmo tempo dizer que algo possui um defeito e não estar sendo crítico, se aquilo que diz não se baseia em critérios aceitáveis concernentes àquilo que está sendo avaliado. Ou seja, é possível apontar defeitos de uma maneira não-crítica.

É claro que a crítica mais notável, que mais chama atenção, é aquela que aponta defeitos, a crítica desfavorável. Por isso, é natural querer exibir habilidade para a crítica apontando defeitos. Mas podemos exibir a mesma dose de habilidade para a crítica defendendo uma opinião de críticas desfavoráveis.[1]

Para abordar um exemplo polêmico, já ouvi alunos dizendo algo como “Temos que criticar o capitalismo!”. “Temos que criticar”? Bem, se isso significa que devemos avaliar criteriosamente o capitalismo, então eu concordo inteiramente. Mas o chamado para avaliar criteriosamente algo deixa em aberto o resultado da avaliação. Um dos resultados possíveis, no presente caso, é que uma forma ou outra de capitalismo seja a melhor dentre as opções de que dispomos. Antes de realizar a avaliação, devemos contar com a possibilidade de encontrar esse resultado. Se o brado “Temos que criticar o capitalismo!” parte do pressuposto que o capitalismo não é a melhor das opções disponíveis, então o brado significa “Temos que mostrar que há alternativas melhores ao capitalismo”. Mas é claro que isso pressupõe uma avaliação criteriosa das opções e, portanto, não é um convite à realização dessa avaliação, mas um convite à sua propaganda. E, correndo o risco de dizer o desnecessário, mostrar que não é a melhor opção não é o mesmo que apontar os defeitos dessa opção, pois talvez as demais tenham defeitos piores. Ou seja, quem atende ao pedido para avaliar criteriosamente o capitalismo deve contar com a possibilidade de o resultado ser que o capitalismo é, dos males, o menor. Por isso, defender o capitalismo de críticas não implica não ser crítico. Logo, se o status quo é capitalista, defender a manutenção do status quo não implica não ser crítico. Enfim, “ser crítico” não é sinônimo de “ser de esquerda” ou “ser socialista” ou “ser anti-capitalista”, etc., mesmo que haja boas razões para se rejeitar o capitalismo em função de uma alternativa melhor.

Um outro tipo de exemplo do que disse acima às vezes surge em discussões entre alunos sobre o método em filosofia. Alguns costumam dizer que o método de um filósofo é mais crítico do que o de outro porque o leva a discordar mais da tradição filosófica que o precedeu. Mas, novamente, esse não é sentido mais amplo e original de ‘crítica’. Nesse sentido mais amplo, é possível defender a tradição de forma crítica. Mas mesmo que seja verdade que, no sentido mais estreito de ‘crítica’, um filósofo seja menos crítico que outro em relação à tradição, ou seja, aponte menos defeitos na tradição que outro filósofo, disso não se segue que sua avaliação da tradição seja menos criteriosa. Ser menos crítico, nesse sentido mais estreito, não é um defeito. Um defeito seria avaliar de forma não criteriosa, seja defendendo, seja apontando defeitos.

__________

[1] Um exemplo clássico de uso da palavra "crítica" no sentido de  "avaliação criteriosa" é o uso que Kant faz ao denominar sua investigação sobre os poderes e limites da razão pura como crítica da razão pura.