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segunda-feira, 24 de março de 2025

Dúvida

A madre (Meryl Streep) e a mãe de Donald (Viola Davis) em uma cena antológica.)
A madre Beauvier (Meryl Streep) e
a mãe de Donald (Viola Davis)
em uma cena antológica.

Este é o nono texto de uma série que estou escrevendo para uma disciplina da Graduação em Filosofia da UFPR denominada Filosofia e Cinema, em que procuro exercitar a reflexão acerca dos problemas filosóficos por meio de filmes. Creio que filmes podem ser bons meios de apresentação de problemas filosóficos na medida em que apresentam situações que desafiam nossas crenças fundamentais e, assim, desencadeiam a reflexão filosófica. Os textos dessa série são destinados àqueles que já assistiram os respectivos filmes, pois contêm revelações sobre seus respectivos enredos.

Dúvida, conta a história de quatro protagonistas: Padre Brendan Flynn (Philip Seymour Hoffman), responsável por um paróquia que inclui uma escola católica de ensino fundamental, Irmã Aloysius Beauvier (Meryl Streep), uma madre superiora, diretora da escola, Irmã James (Amy Adams), uma das professoras da escola e a Senhora Miller (Viola Davis), mãe de um dos alunos da escola, Donald Miller (Joseph Foster), o primeiro aluno negro da escola. A história se passa em 1964. 

A irmã Beauvier é extremamente tradicional, conservadora, rígida e intolerante com seus alunos e subordinados, sempre exigindo o que, na concepção dela, é a perfeição moral de acordo com o catolicismo. Ela começa a levantar dúvidas sobre o Padre Flynn justamente quando ele faz um sermão em que defende que a dúvida pode ter um papel religioso tão importante quanto a certeza. A irmã James, então, testemunha alguns eventos envolvendo o Padre Flynn e Donald e leva um deles aos ouvidos da irmã Aloysius. Esses eventos são: ela vê o padre Flynn colocar no armário de Donald a camisa de Donald e observa um comportamento estranho do aluno em aula, se prostrando sobre o braço como se estivesse com sono ou cansado e exalando cheiro de álcool ao falar com ela. A irmã James conta apenas o último evento à irmã Beauvier, que fica ainda mais desconfiada e se torna convicta de que o padre está agindo de forma moralmente errada com o menino, abusando sexualmente dele. Mas, fora esse escasso indício, ela não tem mais nada para justificar a sua crença.

Em uma cena crucial do filme, a irmã Aloysius chama o padre Flynn para uma conversa na sua sala junto com a irmã James supostamente para tratar de preparativos para as festividades de Natal.. Como a irmã James chega atrasada, o padre Flynn tem de esperar a sua chegada para adentrar o escritório da madre, porque essa era a regra: um mínimo de duas mulheres quando a reunião era de um homem e uma mulher. A irmã Aloysius consegue conduzir a conversa de tal modo que acaba por mudá-la para um outro assunto. Ela relata que sabe que Donald Miller voltou para a aula de uma reunião com o padre se comportando de modo estranho e com hálito de álcool. O padre Flynn, então, desconfortável com aquela conversa, acabou contando que Donald, que é coroinha e auxilia o padre nas missas, havia sido flagrado tomando vinho do altar. O menino de doze anos implorou para não ser destituído do papel de coroinha. O padre Flynn concordou, desde que o acontecido não se tornasse público. A irmã James ficou aliviada com o relato do Padre, que foi embora. Mas a irmã Aloysius não acreditou nele e disse à irmã James que iria derrubá-lo. A irmã James então tem uma pequena explosão de indignação e diz que a Irmã Aloysius está convicta porque não gosta do padre Flynn, porque ele usa unhas compridas, porque ele colocou três torrões de açúcar no café, porque ele gosta de canções de Natal seculares (que a própria irmã James também gosta), porque ele escreve com uma esferográfica, etc.

No meio da conversa com a irmã Aloysius, o padre Flynn teve uma idéia para um novo sermão que ele anotou em uma caderneta com uma esferográfica, objeto odiado pela irmã Aloysius. O sermão era sobre a intolerância. No sermão, ele contou a história de uma mulher que fez fofoca e, ao se confessar, perguntou a um padre se ela tinha pecado. O padre disse que sim e pediu que ela fosse para casa, pegasse um travesseiro, o abrisse com uma faca em cima do telhado de suas casa e, no outro dia, voltasse para falar com ele. Ela fez isso e, no outro dia, o padre perguntou: o que aconteceu. Ela respondeu: um mundo de penas saiu do travesseiro e o vento levou. O padre então pediu a ela que recolhesse todas as penas que o vento levou. Ela respondeu que isso era impossível. O padre então concluiu: isso é o que acontece na fofoca. Uma vez espalhada, não é possível mais desfazer o seu dano. O sermão é uma clara referência ao fato de que o relato da irmã James havia causado na irmã Aloysius a crença de que o padre Flynn estava fazendo coisas erradas com Donald, mesmo com insuficiente evidência.

A irmã Aloysius telefona para a mãe de Donald e pede a ela para conversarem pessoalmente. Na conversa, a irmã, com algum rodeio, revela sua suspeita. A senhora Miller diz que o pai de Donald o espancou por causa do episódio do vinho. Ela procura minimizar as suspeita da irmã e pede a ela para tolerar qualquer coisa que esteja acontecendo até junho (até o verão), quando Donald se forma e vai para o ensino médio. A irmã então diz que acha que foi o padre Flynn que deu o vinho a Donald porque ambos estão tendo uma relação imprópria. A senhora Miller então chega ao ponto de dizer que se o padre Flynn o quer, que o tenha, que alguns garotos querem ser pegos, que o pai de Donald não bateu brutalmente nele por ele ter bebido vinho no altar, mas por causa da "natureza" do menino. Ela afirma que por ela ser negro e ter essa natureza, Donald precisa de um homem que cuide dele e o encaminhe na vida. A irmã fica horrorizada e pergunta que tipo de mãe ela é e as respostas da senhora Miller vão todas nas direção do cuidado especial que Donald precisa. As coisas que a senhora Miller diz sobre o assunto se desviam grandemente de um purismo moral, que é exatamente a posição da irmã Aloysius.

O último episódio importante a ser destacado é o fato de que, em uma discussão em que pressiona o padre Flynn para que confesse o que ela acredita ser seus crimes, a irmã Aloysius acaba mentindo que telefonou para a paróquia anterior do padre Flynn e que uma irmã daquela paróquia havia relatado comportamentos inadequados do padre. O padre fica indignado dizendo que é tudo mentira e pede que ela ligue para o atual padre daquela paróquia, porque esse é o procedimento segundo a hierarquia da igreja, procedimento não realizado pela irmã Aloysius. A pressão e ameaça de difamação da irmã Aloysius, de destruir a reputação do padre Flynn, é tão grande que o padre acaba por pedir transferência para outra paróquia e, no final, acaba sendo promovido pelos seus superiores.

O filme pode ser interpretado, à primeira vista, como uma crítica à Igreja Católica, ainda mais porque foi lançado em 2008, alguns anos depois da publicação da série de reportagens investigativas do jornal The Boston Globe, em 2002, que revelou um padrão de abuso de crianças por parte de padres católicos estadunidenses e que foi acobertado pelos seus superiores. Essa série de reportagens tornou esses escândalos sexuais e outros no mundo inteiro envolvendo padres católicos ainda mais agudo do que era nos anos 80 e 90, pois foi seguida de novas revelações e denúncias nos EUA e no resto do mundo. Boston, onde as investigações começaram, é próxima a Nova York, onde se passa a história de Dúvida. Todavia, o filme seria muito menos filosoficamente interessante se criticar a Igreja Católica fosse seu espírito. Ele é um filme genial e tão interessante filosoficamente justamente porque, em primeiro lugar, ele não decide a questão sobre se o padre Flynn abusa ou não de Donald, deixando o expectador na mesma condição epistêmica precária da irmã Aloysius, que deve decidir o que pensar sobre o caso com base nas evidências disponíveis a ela. E essas evidências estão longe de serem suficientes para se ter certeza de que houve abuso.

O clima de denúncias contra padres católicos naquela época pode nos inclinar a tomar o lado da irmã Aloysius, pois alimenta nossa sede por justiça. Mas isso seria precipitado, não apenas pela escassez de evidências, mas porque vai contra um dos pilares do direito contemporâneo: o princípio da presunção da inocência. Nossa sede por punir culpados não pode ser maior que nossa sede por não punir inocentes. Por isso, o ônus da prova é sempre de quem acusa. O acusado não necessita nunca provar que é inocente. Parte-se da suposição inicial de que ele é inocente, até que o acusador ofereça evidências, que estão para além de toda dúvida razoável, de que o acusado é culpado. Ocorre muitas vezes que as evidências, mesmo sendo insuficientes para mostrar que o acusado é culpado, são tais que nos despertam a suspeita de que ele seja culpado. Entretanto, uma suspeita baseada em evidências insuficientes não é uma crença devidamente justificada, e todo juízo sobre assuntos tão delicados deve ser formado com base em evidências que justifiquem a crença, seja sobre a culpa, seja sobre a inocência, seja sobre o fato que o melhor é suspender o juízo, ou seja, reconhecer que não há evidência suficientes nem para se crer que o acusado é culpado, nem para se crer que ele é inocente.

O filme explora muito a nossa sede por justiça combinada com nossa falta de evidências suficientes para justificar nossa crença. Mas ele também provoca a reflexão sobre como corremos o risco de sermos injustos quando deixamos nossa sede por justiça prevalecer em uma tal combinação. Nossa convicção de que o acusado é culpado não pode ser a justificação para acreditar que ele é culpado, mas justamente o contrário: nossa justificação para acreditar que o acusado é culpado, se suficiente, é a justificação para a nossa convicção. Mesmo que o acusado seja, de fato, culpado, crer que ele é culpado sem evidências suficientes é contar coma mera sorte de que essa crença seja verdadeira. Esse ponto se evidencia muito na fala da irmã Aloysius, quando ela diz que seu juízo é baseado na sua experiência, como se essa experiência fornecesse uma regra infalível para julgar certos tipos de casos, quando, de fato, isso não é o caso. Mesmo que na maioria dos casos suspeitos tenha havidos abuso, disso não se segue que no caso em questão tenha havido abuso. São necessárias provas para cada um dos casos particulares para se chegar a uma crença justificada sobre cada um deles.

O que pode motivar alguns a ficarem do lado da irmã Aloysius é o fato do padre Flynn ter, no final, pedido transferência. Afinal, quem não deve não teme, não é? Mas não nos esqueçamos que ela ameaçou a acabar com a sua reputação com base em uma confessa mentira, com base em mera fofoca. E reputações podem ser destruídas dessa forma. O caso da Escola Base, em São Paulo, é paradigmático aqui. A reputação do casal Shimada, proprietários da escola de ensino fundamental, e de dois funcionários, foi irreversivelmente destruída sem nenhum reparo proporcional, depois que uma professora da escola e um motorista foram acusados de abusar sexualmente de alguns alunos, sem nenhuma prova. Vários veículos da grande imprensa foram condenados a pagar indenizações aos acusados, mas isso nunca trouxe uma compensação pelos danos causados por esse linchamento midiático. Os Shimada morreram antes de receberem todas suas indenizações.

Um outro filme que dramatiza bem esse tipo de situação é A Caça, em que um professor primário é acusado de assédio com base nos relatos de uma criança, aluna dele, que se apaixona por ele e se revolta ao ver sua paixão não correspondida.

A principal lição filosófica de Dúvida é chamar a atenção para a importância da suspensão do juízo em certas ocasiões. Essa é uma atitude comum na ciência, que às vezes se abstém de um juízo sobre certos assuntos durante séculos, antes que evidências suficientes finalmente surjam para tal juízo. É uma visão ingênua e cognitivamente arrogante acreditar que devemos responder com certeza a todas as questões, mesmo que as evidências para as hipóteses disponíveis sejam todas insuficientes.


quarta-feira, 27 de outubro de 2021

XIX Colóquio Brasileiro Sobre o Ceticismo - Encontro do GT Ceticismo 2021


PROGRAMAÇÃO


Quarta-feira, dia 27 de outubro de 2021


13h30 - Boas Vindas aos participantes

Coordenação da mesa: Luiz Eva

14h00 - Bruno Alonso (Doutorando UFRJ) – A crise cética de Montaigne  

14h30 - Marcelo Oliveira (Mestre UFMG) – Catolicismo, Ceticismo e Paradoxo na Apologia de Raimond Sebond de Montaigne 

15h00 - Intervalo

Coordenação da mesa: Waldomiro Silva Filho

15h10 - Rodrigo Pinto de Brito (UFRRJ) – A disputa entre Empiristas e Racionalistas de acordo com Galeno no De Sectis 

15h55 - Gisele Amaral (UFRN) - Favorino de Arles e a defesa da argumentação pro e contra

16h40 - Intervalo

Coordenação da mesa: Danilo Marcondes  

17h00 -  Roberto Bolzani (USP) – Considerações sobre a gênese do Filósofo Cético  

18h15 - Waldomiro Silva Filho (UFBA) - A Arte Cética da Conversação

Comentário: André Abath (UFMG) - Discordância e Reflexão Erotética


Quinta-feira, dia 28 de outubro de 2021


Coordenação da mesa: Rodrigo Brito

14h00 - Vinicius França (Pós-doutoramento UFMG) – O papel epistemológico da consciência nas Meditações de Descartes

14h30 - Ana Cláudia Teodoro (Doutoranda UFMG) – Dúvida e certeza em Descartes e Locke

15h00 - Intervalo

15h10 - Carlota Salgadinho (PUC-RJ) – O ceticismo de Hume no contexto do New Hume Debate

15h40 - Luiz A. Eva (UFABC) - Locke e o ceticismo cartesiano

16h25 - Intervalo

Coordenação mesa: Gisele Amaral

16h45 - Luiz Fernando Barrère Martin (UFABC) - Liberdade de caráter a que nenhuma filosofia pode ser estranha: considerações hegelianas sobre a agogé cética

17h30 - Eros Carvalho (UFRGS) - O disjuntivismo ecológico e o argumento causal 

18h15 - Intervalo

18h25 - Alexandre Machado (UFPR) - Pode alguém não ter crenças?


Sexta-feira, dia 29 de outubro de 2021


Coordenação da mesa: Luiz Fernando Barrère

14h00 - Robson Araújo (Mestre UFMG) - Ceticismo em “The Matrix”

14h30 - Mateus Uchôa (Doutorando UFMG) - Dos índios e dos não-humanos. Espectros extramodernos do ceticismo de Montaigne

15h00 - Intervalo

15h10 - Roberto Nitsche (Doutorando UFSM) - O Ceticismo de Peijnenburg e Atkinson em Relação ao Uso de Experimentos de Pensamento

15h40 - Marcelo Maciel (UFRRJ) - Sexto Empírico e Max Weber sobre a Causalidade

16h10 - Intervalo

Coordenação da mesa: Plínio Smith

16h30 - Danilo Marcondes (PUC-RJ/ UFF) - O narrador não-confiável como figura do cético

17h15 - Hilan Bensusan (UnB) Diaphonia e Incompletude

18h00 - Intervalo

Coordenação da mesa: Luiz Eva

18h10 - Plínio Smith (Unifesp) – Sexto sobre crença, opinião e dogma: a solução para o debate entre as interpretacões urbana e rústica

19h00 - Encerramento


        
Organização:  GT Ceticismo/ANPOF 
Não serão fornecidos certificados para ouvintes.

Inscrições para participação no Zoom: gtceticismo@gmail.com, até a véspera.

Transmissão ao vivo pelo youtube no endereço do Canal do GT Ceticismo:  https://www.youtube.com/channel/UCRV2gUPbHj5gL0zRuYFYqhg

terça-feira, 1 de dezembro de 2015

Criticar o senso comum tornou-se... senso comum!

Quando somos introduzidos à filosofia, nossos professores geralmente repetem incansavelmente que ser filósofo é, entre outras coisas, ser crítico. Algumas vezes se explica corretamente o que é ser crítico e nenhum grande problema nasce dessa promoção do espírito crítico. Mas, com muita frequência, se usa "crítico" como sinônimo de "contestador". Pior: com a mesma frequência, se identifica o senso comum - aquele conjunto de crenças pré-teóricas compartilhadas (ao que parece) acriticamente pela maioria das pessoas - como o saco de pancadas dessa contestação. "Ser crítico", então, vira sinônimo de "ser contestador do senso comum", de tal forma que dizer "Isso é senso comum" se torna quase que uma espécie de xingamento intelectual, querendo dizer mais ou menos que quem expressa uma crença do senso comum carece flagrantemente de espírito crítico. Normalmente, os defeitos do senso comum são exemplificados rapidamente por meio de um ou dois casos e já se passa imediatamente a exortar os alunos a fugir dele como o diabo foge da cruz. Essa visão está tão difundida e é absorvida de forma tão fácil e rápida pelos alunos que já se tornou... senso comum! Sim, essa visão do espírito crítico e do senso comum tornou-se incoerente, porque ela é transmitida exatamente do modo como, de acordo com ela, o senso comum transmite suas crenças: sem a devida crítica.

Mas o que é ser crítico? Qual a diferença entre ser crítico e ser contestador? O que é senso comum? Em um texto antigo, eu abordei as duas primeiras perguntas. O resumo do que disse naquele texto e ainda subscrevo é que, em primeiro lugar, a palavra "crítica" é ambígua. No seu sentido original ela não é sinônima de "contestação", embora tenha adquirido esse uso, de tal forma que agora raramente se usa o verbo "criticar" em um sentido diferente de "contestar". Mas é esse sentido original que nos interessa, em especial porque ele é negligenciado por aqueles que exortam os alunos a criticarem o senso comum. A incoerência desses detratores do senso comum começa ai: pela falta de uma análise crítica da natureza da crítica, começando pelo negligência com essa ambiguidade que mencionei. No sentido original, ser crítico, fazer uma crítica é fazer um exame, ou análise, ou avaliação criteriosa, baseada nos melhores critérios cognitivos disponíveis. No caso das crenças, ser crítico em relação a elas é perguntar-se sobre o que as justifica, caso haja alguma razão para colocá-las em dúvida (mais sobre esse último ponto adiante). Nesse sentido, posso muito bem ser crítico em relação a uma crença do senso comum e chegar a conclusão que ela é devidamente justificada. Ou seja, ser crítico em relação a ela não implica contestá-la, não implica tomá-la como falsa. Kant usou "crítica" nesse sentido no título da sua obra mais célebre, a Crítica da Razão Pura. Nesse sentido é que também usamos para falar de críticos de arte e de seus textos, suas críticas. Algumas delas são negativas, outras positivas. Ser crítico, portanto, não é o mesmo que ser revolucionário ou liberal. Um conservador pode ter uma relação crítica com a tradição moral, estética e intelectual que ele quer conservar.

Sim, muitas crenças do senso comum são aceitas sem a devida crítica, ou seja, sem que se pergunte pela justificação para essas crenças. Mas disso não se segue que essas crenças sejam falsas.[1] Entretanto, um ponto que eu quero destacar sobre o senso comum é que ele não difere da ciência em um aspecto: a maior parte de suas crenças é verdadeira. O que ocorre com a avaliação do senso comum por parte dos seus detratores é análogo ao que ocorre com a avaliação que alguns leigos fazem da meteorologia: eles tendem a focar sua avaliação nos erros das previsões meteorológicas, sendo que na maior parte dos casos elas estão corretas, dentro da margem de erro com que operam. Todos (ou a maioria esmagadora de) nós acreditamos que vivemos no planeta terra, que o dia tem 24h, que o astro mais brilhante no céu durante o dia é o Sol, que não podemos respirar embaixo d'água sem equipamentos especiais, que não podemos voar sem o auxílio de algum artificio, que não somos imortais, que sementes germinam quando jogadas no solo fértil e irrigadas, que a chuva é água que cai do céu, que um corpo não podem estar em dois lugares ao mesmo tempo, que o fogo queima, etc. A lista pode se estender indefinidamente, incluindo também crenças morais, psicológicas e sociais adquiridas por meio da experiência de gerações.

Outro ponto importante sobre o senso comum é sua relação com a ciência. A ciência pode muito bem nos fazer revisar nossas crenças do senso comum. Um exemplo que considero claro é a crença de que o espaço ocupado por uma pedra, por exemplo, é mais preenchido por matéria do que vazio. Mas se a matéria é feita de átomos e o espaço ocupado pelos átomos é mais vazio do que preenchido, então o espaço ocupado por uma pedra é mais vazio do que preenchido. Outro exemplo é a crença de que o todo é sempre maior que as partes. Um contra-exemplo dessa crença é o tamanho do conjunto dos números naturais e o tamanho da sua metade, o conjunto dos números naturais pares: ambos têm infinitos elementos. Mas tais revisões não podem ser globais, mas apenas locais. As crenças do senso comum não podem ser maciçamente falsas, pois a ciência começa a partir do senso comum, de tal forma que, se ele estiver maciçamente enganado, então a ciência feita a partir dele não pode estar certa. Descobertas científicas podem nos fazer substituir os conceitos do senso comum por outros. Mas se essas descobertas foram feitas usando-se os conceitos do senso comum, então esse não pode ser um uso maciçamente errado. Por exemplo: para vários propósitos, substituímos o conceito de água do senso comum por outro, cujo critério é molecular, pois se descobriu que a maior parte do que se chamava (corretamente) de água pelos critérios do senso comum é constituído de H2O. Essa descoberta, portanto, se baseia num uso correto do conceito de água do senso comum. O erro maciço implica incompetência no uso do conceito e isso, por sua vez, implica que o conceito não foi sequer adquirido.[2]

Um último e importante ponto sobre o senso comum diz respeito a quem tem o ônus da prova, no caso de dúvidas sobre as crenças do senso comum. (Abordei esse ponto a partir de outro ângulo em outro texto.) Boa parte do senso comum é constituído de crenças básicas, aquelas nas quais suas demais crenças estão baseadas, de tal forma que se tais crenças básicas forem falsas, as demais também são. Isso explica ao menos em parte a inclinação do senso comum para ter tais crenças básicas: revisá-las implica fazer uma grande mudança no nosso sistema de crenças. Por conseguinte, quem quer que duvide da verdade dessas crenças está com o ônus de apresentar uma razão para tal. Dúvidas gratuitas, sem base em quaisquer razões podem, de fato, ser dirigidas arbitrariamente a quaisquer crenças. Mas duvidar é a expressão de um espírito crítico somente se essa dúvida for racional, se for motivada por razões.

Senso é aquilo que está ligado ao que se costuma chamar de bom senso, que se opõe a contra-senso. Senso comum é apenas o bom senso compartilhado. E sensata é a pessoa que possui bom senso. Senso comum é aquele conjunto de crenças que são paradigmas do bom senso. Esse conjunto não possui fronteiras precisas e é mutável. Mas isso não retira a sua importância.

O melhor seria cultivar o espírito crítico sem eleger um saco de pancadas. O espirito crítico é uma forma de lidar com nossas crenças, não uma revolta contra um certo grupo delas. Vista de mais perto, essa revolta se assemelha muito a um elitismo intelectual.


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[1] Não se segue nem mesmo que não sejam justificadas, se considerarmos o externalismo (ou externismo) sobre a justificação.

[2] Defendo esse ponto no artigo "Conhecimento, Verdade e Significado".

sexta-feira, 11 de outubro de 2013

Ceticismo e conversa-fiada

As virtudes argumentativas da posição cética são bem conhecidas. Essas virtudes são exercitadas na busca por dúvidas racionais que visam destruir as convicções dogmáticas e, por meio disso, suspender o juízo sobre uma determinada questão. E mesmo não-céticos podem se beneficiar dessas virtudes imaginando dúvidas sobre aquilo que estão defendendo. A diferença em relação aos céticos está no fato de que os não-céticos acreditam que podem refutar tais dúvidas.

Entretanto, há o risco de que céticos involuntariamente adotem uma atitude dogmática com relação à própria dúvida racional. Isso ocorre quando o cético passa a pensar que deve haver uma dúvida racional irrefutável para toda tese sustentada pelo dogmático. Nos piores casos, um sintoma possível dessa atitude é o que quero chamar de conversar fiado (bullshitting, em inglês)[1]: argumentar a partir de premissas que não se sabe se são verdadeiras nem plausíveis -- e tampouco se está interessado em saber -- apenas com o intuito de "ganhar" o debate, que, nesse caso, seria fazer crer que se apresentou uma dúvida racional à tese que está sendo defendida pelo interlocutor do cético. Quem se engaja na conversa-fiada, por isso, não está interessado na verdade. Essa é, claro, uma atitude intelectualmente desonesta.

Não estou dizendo nem que todo cético se engaja em conversa-fiada, nem que todo que se engaja em conversa-fiada é cético. Não estou nem mesmo dizendo que todo cético que escorrega para a atitude dogmática em relação à dúvida racional se engaja em conversa-fiada. Estou dizendo apenas que, para os céticos dogmáticos intelectualmente desonestos, a conversa-fiada é uma estratégia conveniente, quase inevitável. E, obviamente, não é conveniente apenas para eles. Mas para eles a conveniência é maior, dado que estão tentando fazer o interlocutor ver a necessidade de suspender o juízo.

A partir disso quero apontar para a importância que uma ação reflexiva da dúvida tem para uma saudável posição cética (seja ela local, seja global): o mesmo cuidado que dedicamos para formular dúvidas de primeira ordem contra os dogmatismos de primeira ordem devemos dedicar para formular dúvidas de segunda ordem contra o ceticismo dogmático, procurando sinais da sua versão desonesta, a conversa fiada.

Para uma postagem relacionada a essa, leia Fanatismo por uma crença justificada.
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[1] Para uma análise detalhada desse conceito, ver o livro de Harry Frankfurt, On Bullshit (traduzido para o Português como Sobre Falar Merda.)

domingo, 20 de junho de 2010

Ceticismo

Jovem Dormindo, de Johannes Vermeer
Em linguagem ordinária, "ceticismo" é geralmente uma atitude epistêmica caracterizada pela dúvida, de tal forma que, algumas vezes, "ser cético" e "ter dúvidas" são quase sinônimos. Dizemos "Eu sou cético quanto à existência de Deus" querendo dizer o mesmo que "Tenho dúvidas sobre se Deus existe" ou "Eu duvido que deus exista". Dúvida é o contrário da certeza e ambos são atitudes proposicionais.[1] A dúvida é um estado passível de grau que enfraquece a crença que p (onde "p" é uma proposição qualquer), que no grau máximo implica a descrença, ou seja, o não acreditar que p, o que não implica (nem exclui) acreditar que ~p (onde "~" é o sinal de negação). Quando temos alguma dúvida sobre se p, temos algum grau de desconfiança que a proposição que p não é verdadeira. Por exemplo: se temos alguma dúvida que Lula ganhará as eleições, então é porque estamos em um estado tal que enfraquece nossa crença que ele ganhará a eleição. Se a dúvida for no máximo grau, então deixamos de acreditar que Lula ganhará a eleição. Mas isso pode não implicar que passamos a acreditar que Lula não vai ganhar a eleição, pois podemos simplesmente não acreditar em nenhuma das opções.

O ceticismo filosófico é uma família de posições filosóficas também associadas à dúvida. O termo "cético" vem do grego e designava, na Grécia antiga, o que hoje consideramos um tipo de cético. Esse tipo cético se opunha tanto aos dogmáticos quantos aos acadêmicos. Os dogmáticos eram aqueles que acreditavam não apenas que o conhecimento é possível, mas que nós o temos.[2] Os acadêmicos acreditavam que o conhecimento era impossível. Os céticos (ou pirrônicos) concordavam com os dogmáticos sobre a possibilidade do conhecimento mas concordavam com os acadêmicos que nós não o temos. Por isso eles sustentavam que deveríamos continuar investigando ("sképsis" significa investigação em grego).[3]

O ceticismo moderno ou cartesiano é uma posição filosófica que nem sempre é sustentada por um filósofo real, de carne e osso.[4] Muitas vezes trata-se de um interlocutor imaginário que apresenta razões para duvidar que tenhamos ou possamos ter conhecimento. Mas qual é a utilidade de se debater com um interlocutor imaginário? A utilidade vai depende da qualidade do argumento que esse interlocutor imaginário oferecer. Ele pode ser visto como uma espécie de voz crítica interior, sempre disposta a apresentar razões para pensar que o que estamos defendendo está errado. O exemplo paradigmático desse tipo de ceticismo é aquele apresentado na primeiras das Meditações Metafísicas de Descartes. Todavia, Descartes não era um cético. Ele queria encontrar novos fundamentos para a ciência. Mas ele aceitava os padrões de exigência epistêmicas do cético, pois aquilo que ele almejava encontrar era a certeza absoluta, ou seja, uma proposição cuja verdade resiste ao mais poderoso argumento cético. Mas ele queria encontrar essa certeza aplicando o método cético: a dúvida. Portanto, ele queria encontrar a certeza absoluta por meio da dúvida. Mas a dúvida não poderia ser gratuita. Ela deveria ser racional. Ela deveria ser justificada por meio de razões, de argumentos. Portanto, quaisquer que fossem os princípios que determinam a racionalidade, que devemos seguir para sermos racionais, deveriam estar fora do escopo da dúvida racional, ou seja, não poderiam ser postos em dúvida. Descartes apresenta três argumento céticos, nas Meditações. Aqui vou apresentar apenas dois: o argumento do sonho e o argumento do gênio maligno. 

Sei que se sei o que está acontecendo no mundo exterior (que agora estou sentando em frente a um computador à noite, em meu apartamento, em Curitiba, digitando um texto), então não estou dormindo. Parece que disso posso concluir que, se sei o que está acontecendo no mundo exterior, sei que não estou dormindo. Descartes então nos desafia apresentar uma justificação para a crença de que não estamos dormindo, lembrando que muitas vezes em que acreditamos nisso, acabamos por acordar e notar que estávamos dormindo. Diante da falta de justificativa, eu deveria concluir que não sei que não estou dormindo. Mas, se é o caso que se sei o que está acontecendo no mundo exterior, sei que não estou dormindo, e acabei de concluir que não sei se estou dormindo, então eu deveria concluir que não sei o que está acontecendo no mundo exterior. Esse argumento pode ser generalizado para todos os instantes de tempo. Em algum momento eu sei alguma coisa sobre o mundo exterior apenas se nesse momento eu sei que não estou dormindo. Se em nenhum momento eu sei que não estou dormindo, então o resultado é que eu não sei nada sobre o mundo exterior.[5]

Esse argumento coloca em xeque apenas meu conhecimento do mundo exterior. Como diz Descartes, quer eu esteja acordado, quer eu esteja dormindo, 2+2=4. As verdades matemáticas estão fora do escopo da dúvida gerada pelo argumento do sonho. As verdades matemáticas são postas em dúvida pelo argumento do gênio maligno. Imaginemos que exista um ser maligno muito poderoso que me criou de tal forma que eu me engane até mesmo sobre crenças matemáticas. Ele me fez de tal forma que todas as minhas crenças sobre o mundo exterior e minhas as crenças matemáticas são falsas. Sei que se sei alguma coisa sobre matemática, então não fui criado por um gênio malígno. Parece então que eu posso concluir que, se sei alguma coisa sobre matemática, então sei que não fui criado por um gênio malígno. Descartes nos desafia a justificar a crença de que sabemos que não fomos criados por um gênio malígno. Diante da minha falta de justificativa, eu deveria concluir que não sei que não fui criado por um gênio malígno. Mas então, por modus tollens, eu deveria concluir que não sei nada sobre matemática.

Hilary Putnam, no sec. XX, apresentou um argumento semelhante ao argumento do sonho no que diz respeito a colocar em xeque nosso conhecimento do mundo exterior. Trata-se do argumento do cérebro numa cuba.[6] Imagine que você seja um cérebro mantido vivo em uma cuba e esteja ligado por meio de fios a um computador. Esse computador, através de um software, envia impulsos elétricos ao cérebro de tal forma que os sinais recebidos são "interpretados" pelo cérebro como sendo a realidade que você experimenta e tem experimentado até agora. Se isso for verdade, então você não tem corpo e tudo que você sempre acreditou ser o mundo exterior não existe. Você sabe que, se isso for o caso, então você não tem conhecimento sobre mundo exterior. Parece que disso você pode concluir que, se você tem conhecimento sobre o mundo exterior, então você sabe que não é um cérebro numa cuba. Mas qual justificação você poderia dar para a crença de que você não é um cérebro numa cuba? Diante da falta de justificação, você deveria concluir que não tem conhecimento sobre o mundo exterior.

Esses três argumentos compartilham uma forma comum. A primeira premissa parece ser uma instância de um princípio geral chamado princípio do fechamento epistêmico:
Se sei que p e sei que se p, então q, então sei que q.
No caso do argumento do cérebro numa cuba, uma instância desse princípio poderia ser:
(1) Se sei que tenho mãos e sei que se tenho mãos, então não sou um cérebro numa cuba, então sei que não sou um cérebro numa cuba.
A premissa seguinte consiste em afirmar o segundo dos conjuntados do antecedente:
(2) Sei que se tenho mãos, então não sou um cérebro numa cuba.
A premissa (2) parece ser uma verdade conceitual. Quem a nega parece não ter entendido ao menos uma de suas proposições componentes. A premissa seguinte é aquela que resulta do desafio cético, a saber, a negação do conseqüente de (1):
(3) Não sei que não sou um cérebro numa cuba.
A conclusão então seria:
(4) Não sei que tenho mãos.
Esse argumento parece válido, as premissas parecem verdadeiras, mas a conclusão parece falsa. Trata-se, pois, de um paradoxo. Ele pode ser generalizado para qualquer proposição sobre o mundo exterior, que ocuparia o lugar de "p" no princípio do fechamento epistêmico. O argumento cético, portanto, tem a seguinte forma:
Se sei que p e sei que se p, então q, então sei que q.
Sei que se p, então q.
Não sei que q.
Logo, não sei que p.
Uma diferença entre o ceticismo moderno e o ceticismo antigo é que, enquanto o cético antigo procurava viver de acordo com o seu ceticismo, o cético moderno faz uma diferença entre a dúvida teórica e a dúvida prática, entre vida prática e busca pela verdade. A partir dessa distinção, a dúvida cética seria concebida como uma dúvida teórica, que temos na nossa busca pela verdade, e não uma dúvida prática, que temos na nossa vida cotidiana. Na nossa vida cotidiana, não podemos deixar de acreditar que há mundo exterior sem tornar nossas ações impossíveis. Mas se a dúvida teórica não é uma dúvida que aparece na nossa vida cotidiana, onde estamos interessados em agir, mas apenas quando estamos fazendo filosofia e interessados na verdade, então podemos ser céticos e continuar a acreditar no que acreditamos na vida cotidiana. Na vida cotidiana, em função dos nossos interesses práticos, estaríamos interessados não na verdade, mas em probabilidades. [7]

Descartes  acreditou refutar o argumento do gênio maligno por meio de uma prova da existência de um Deus sumamente bom e que é meu criador. Se um tal Deus existisse, ele não faria com que eu me enganasse de tal forma que eu não pudesse perceber meu erro. Isso significa que, se acreditar que p e estiver de posse da melhor justificação possível para crer que p, então deve ser verdade que p. Se fosse falso que p, então eu estaria enganado e não poderia saber. Ao argumento do sonho Descartes ofereceu o critério da continuidade: a vigília é contínua enquanto que os sonhos são descontínuos. Putnam procurou refutar seu argumento do cérebro numa cuba tentando, por meio de uma teoria do significado, provar a seguinte disjunção: ou eu sou um cérebro numa cuba, mas não posso pensar que sou, ou eu posso pensar que sou um cérebro numa cuba, mas não sou.

Uma outra forma de se responder ao ceticismo consiste em dizer que o cético representa mal o conceito de conhecimento nos seus argumentos. Para usar uma analogia de Stroud, o cético seria como alguém que procura provar que não há médicos em Nova York a partir da seguinte definição de "médico": médico é alguém que consegue curar qualquer doença. Somada à afirmação de que não há ninguém em Nova York que seja capaz de curar qualquer doença, essa definição implica que não há médicos em Nova York. A objeção óbvia a esse argumento é que ele parte de uma definição errada de "médico". A objeção ao ceticismo seria essencialmente a mesma: o cético parte de uma definição errada de conhecimento para concluir que não temos conhecimento. Esse erro de definição se manifestaria em exigências exageradas para a posse do conhecimento. O princípio do fechamento epistêmico seria uma tal exigência. Se ele é verdadeiro, então somente sabemos alguma coisa se soubermos que todas as proposições sabidamente incompatíveis com o que julgamos saber são falsas. A estratégia do cético consiste, em geral, justamente em escolher uma dessas proposições incompatíveis com o que julgamos saber e desafiar-nos a justificar nossa crença na sua falsidade. Mas nem na vida cotidiana nem na ciência exigimos isso. John L. Austin formulou uma crítica desse tipo ao ceticismo e Stroud a respondeu com base na distinção entre vida prática e busca pela verdade (ver nota 4). 

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[1] Na postagem Definição tradicional de conhecimento há uma explicação breve do que é uma atitude proposicional.

[2] Não se deve confundir "dogmático" nesse sentido com o sentido em que se usa essa expressão para criticar a atitude de quem sustenta crenças sem nenhuma justificação e mesmo contra evidências em contrário. "Dogmático", no sentido usado acima, é apenas o nome de um tipo de filósofo que não é nem acadêmico nem cético. O dogmático é justamente aquele que julga ter justificação para suas crenças verdadeiras (ver Definição tradicional de conhecimento).

[3] Essa caracterização dessas três correntes está baseada na interpretação de Sexto Empírico, um cético pirrônico. Há algum debate sobre a sua correção. (Agradeço ao colega e amigo, Prof. Luiz Eva, por me fazer essa observação.) Para uma excelente explicação breve das formas e história do ceticismo antigo, ver o artigo de Danilo Marcondes, na Enciclopédia de Termos Lógico-Filosóficos, editada por João Branquinho, Desidério Murcho e Nelson Gonçalves Gomes (São Paulo: Martins Fontes, 2006). Para uma história do ceticismo moderno, ver o livro de Richard Popkin, The History of Scepticism from Erasmus to Spinoza.

[4] Chamar esse tipo de ceticismo de moderno não implica pensar que apenas esse tipo de ceticismo era discutido ou defendido na filosofia moderna. A razão dessa denominação é o fato de ele ter surgido na filosofia moderna. Esse tipo de ceticismo também aparece na filosofia contemporânea, assim como na filosofia contemporânea podemos encontrar filósofos cuja posição filosófica se aproxima do ceticismo antigo (ou assim se pode argumentar). (Agradeço ao colega e amigo, Prof. Luiz Eva, por me fazer ver a importância e se esclarecer esse ponto.)

[5] Barry Stroud, em The Significance of Philosophical Scepticism, defende o argumento do sonho de vários tipos de críticas.

[6] Putnam, H. (1982) "Brains in a vat". in: Reason, Truth and History. Cambridge: Cambridge University Press.

[7] Agradeço ao Prof. e amigo Eros de Carvalho por me lembrar de comentar esse ponto. A distinção entre vida prática e busca pela verdade acima é problemática e tem sido criticada. Stroud a defende para rebater a crítica de Austin ao ceticismo (ver nota 5).
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Leituras

Skepticism (Stanford Encyclopedia of Philosophy)
Certainty (Stanford Encyclopedia of Philosophy)
Descartes' Epistemology (Stanford Encyclopedia of Philosophy)
Contemporary Skepticism (Internet Encyclopedia of Philosophy)
Brains in a Vat (Stanford Encyclopedia of Philosophy)
The brain in a vat argument (Internet Encyclopedia of Philosophy)
Moral Skepticism (Stanford Encyclopedia of Philosophy)
Medieval Skepticism (Stanford Encyclopedia of Philosophy)
Ancient Greek Skepticism (Internet Encyclopedia of Philosophy)
Ancient Skepticism (Stanford Encyclopedia of Philosophy)
Cicero's Academic Skepticism (Internet Encyclopedia of Philosophy)
Pyrrho (Internet Encyclopedia of Philosophy)