![]() |
| Robert Hanna |
As palestras serão sobre tópicos do seu livro Kant and the Foundations of Analytic Philosophy (Oxford: OUP, 2001). Elas serão proferidas em inglês.
Primeira palestra, 23 de maio, 15:00h
![]() |
| Robert Hanna |
![]() |
| Heidegger |
Toda interpretação se funda na compreensão. O sentido é o que se articula como tal na interpretação e que, na compreensão, já se prelineou como possibilidade de articulação. Na medida em que a proposição (o "juízo") se funda na compreensão, representando uma forma derivada de exercício de interpretação, ela também "possui" um sentido. O sentido, porém, não pode ser definido como algo que ocorre em um juízo ao lado e ao longo do ato de julgar. No presente contexto, a análise temática da proposição visa várias coisas.
Em primeiro lugar, pode-se mostrar na proposição de que maneira a estrutura-"como", contitutiva de toda compreensão e interpretação, é suscetível de modificação. Com isso a compreensão e interpretação aparecem com maior nitidez. Em segundo lugar, a análise da proposição ocupa um lugar privilegiado na problemática de uma ontologia fundamental, uma vez que no início decisivo da antiga ontologia, somente o logos [em grego no original] constituía o fio condutor de acesso ao ente propriamente dito e da determinação do ser dos entes. Por fim, há muito tempo a proposição vale como o lugar próprio e primário da verdade. Esse fenômeno acha-se tão intimamente acoplado ao problema do ser que a presente investigação terá de se deparar necessariamente, em seu curso, com o problema da verdade. Ela já se encontra, embora implicitamente, na dimensão desse problema. A análise da proposição também pretende preparar o advento desta problemática.Atribuiremos a seguir três significados à palavra proposição. São significados auridos do fenômeno por ela designado, inter-relacionados entre si e que, em sua unidade, delimitam a estrutura completa da proposição. [Martin Heidegger, Ser e Tempo, §33 (Petrópolis: Vozes)]

Em sua Encyclopedia of Wines and Spirits, Alex Lichine descreve [o Xerez] com essas palavras:
A coisa mais interessante sobre o Xerez [...] é o peculiar sistema por meio do qual sua melhor qualidade é mantida. Um Xerez muito velho, muito fino, tem o poder de educar e melhorar um mais jovem. Por causa disso, os vinhos antigos são mantidos nos barris mais velhos que os fabricantes chamam soleira. Essa é uma série de tonéis [casks] graduados pela idade. Uma série é feita a partir de tonéis grandes [butts] idênticos. A classe mais antiga em uma soleira é aquele chamado Soleira. A segunda mais antiga é a primeira Criadeira, a terceira é a segunda Criadeira, e assim por diante. Quando o vinho é dragado da Soleira, é dragado em quantidades iguais de cada tonel grande. Então inicia-se um sistema progressivo no qual a Soleira é recarregada pela primeira Criadeira, que por sua vez é recarregada pela segunda Criadeira, etc. O resultado mágico desse processo é que o último tonel permanece eternamente o mesmo em qualidade. Um tonel de 1888, por exemplo, dificilmente mantém uma colher da sua safra original. Mas cada substituição colocada de volta dentro dele durante os anos foi educada para ser 1888, e substituições por vir serão escoladas no mesmo padrão. Por meio desse sistema, é possível não apenas preservar a mesma qualidade e caráter do vinho ao longo dos anos, mas também, por constantemente renovar [refreshing] os tipos Finos com vinhos mais novos, evitar que perca seu frescor [freshness].
Nesse sistema de bombas e barris encontramos um meio de descrever a relação entre a filosofia tradicional e a filosofia contemporânea. Tomando emprestado a expressão de Lichine, podemos dizer que a filosofia mais antiga tem o poder de educar e melhorar a nova filosofia. E a nova filosofia não apenas preserva a qualidade e caráter da filosofia mais antiga, mas tem a capacidade de renová-la [refresh it]. Combinação, preservação e renovação [refreshment] são, portanto, as características que definem a relação entre a filosofia presente e sua história. Mas agora a questão é se a metáfora da Soleira se ajusta aos fatos. A filosofia analítica do séc. XX é um vinho novo? Ou é como um vinho antigo que perdeu o seu frescor [freshness]?
A questão é composta pelo fato de ser difícil dar uma definição precisa de "filosofia analítica", dado que ela não é tanto uma doutrina específica quanto uma concatenação frouxa de abordagens de problemas.
[Stroll, Avrum. (2000) Twentieth Century Analytic Philosophy. New York: Columbia University Press pp. 4-5. Na foto, Stroll saboreia queijo e vinho. Será um xerez?]

Magee: Você inclui nisso [no rol de perguntas filosóficas] ou exclui disso as perguntas muito antigas sobre como o mundo começou, como a vida começou?
Quine: Eu excluo essas da filosofia. "Como o mundo começou?" é um problema para o físico ou astrônomo, e, naturalmente, tem havido conjecturas sobre isso. "Como a vida começou?" é um problema para o biólogo, que tem feito muito progresso nos anos recentes. "Por que o mundo começou?", "Por que a vida começou?", por outro lado, eu penso, são pseudo-perguntas, porque não posso imaginar o que seria a resposta.
Magee: Você pensa que, porque não há nenhuma resposta concebível para essas perguntas, elas são perguntas sem sentido (meaningless)?
Quine: Sim.
Magee: Em outras palavras, você considera as tarefas centrais da filosofia a análise e elucidação de conceitos que são centrais para áreas da atividade humana e também de noções particulares como o que é para uma coisa causar outra, o que é para uma coisa existir, o que é para uma coisa, digamos, ser uma lei científica, as noções mais gerais que são o tecido conector do pensamento que temos que usar, temos que empregar em atividades específicas em que pessoas como os cientistas, ou poderia ser políticos, advogados, estão engajados. Esse é um modo correto de formular sua visão?
Quine: Sim, eu concordo com isso.