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Heidegger |
Toda interpretação se funda na compreensão. O sentido é o que se articula como tal na interpretação e que, na compreensão, já se prelineou como possibilidade de articulação. Na medida em que a proposição (o "juízo") se funda na compreensão, representando uma forma derivada de exercício de interpretação, ela também "possui" um sentido. O sentido, porém, não pode ser definido como algo que ocorre em um juízo ao lado e ao longo do ato de julgar. No presente contexto, a análise temática da proposição visa várias coisas.
Em primeiro lugar, pode-se mostrar na proposição de que maneira a estrutura-"como", contitutiva de toda compreensão e interpretação, é suscetível de modificação. Com isso a compreensão e interpretação aparecem com maior nitidez. Em segundo lugar, a análise da proposição ocupa um lugar privilegiado na problemática de uma ontologia fundamental, uma vez que no início decisivo da antiga ontologia, somente o logos [em grego no original] constituía o fio condutor de acesso ao ente propriamente dito e da determinação do ser dos entes. Por fim, há muito tempo a proposição vale como o lugar próprio e primário da verdade. Esse fenômeno acha-se tão intimamente acoplado ao problema do ser que a presente investigação terá de se deparar necessariamente, em seu curso, com o problema da verdade. Ela já se encontra, embora implicitamente, na dimensão desse problema. A análise da proposição também pretende preparar o advento desta problemática.Atribuiremos a seguir três significados à palavra proposição. São significados auridos do fenômeno por ela designado, inter-relacionados entre si e que, em sua unidade, delimitam a estrutura completa da proposição. [Martin Heidegger, Ser e Tempo, §33 (Petrópolis: Vozes)]
Por que estou citando essa passagem de um texto de Heidegger? Porque concordo com ele? Não. Porque discordo? Também não. Não tenho certeza de ter entendido tudo o que ele diz nessa passagem. Meu objetivo com essa citação é apresentar um caso paradigmático de contra-exemplo de um preconceito muito difundido na academia: que "filosofia da linguagem" é sinônimo de "filosofia analítica" ou ao menos de "filosofia analítica da linguagem". Ernst Tugendhat, que foi um estudioso de Heidegger, chama um de seus livros Lições Introdutórias à Filosofia Analítica da Linguagem (Ijuí: Unijuí; Tugendhat dedica o livro à memória de Heiddeger). Ele tem o cuidado de colocar o qualificativo "analítica", o que deixa espaço para se pensar em uma filosofia da linguagem não analítica. E acho que o §33 de Ser e Tempo, o trecho inicial do qual eu citei acima, bem como o §34 ("Dasein e discurso. A linguagem"), exemplificam bem essa alternativa, sem entrar no mérito de se é uma boa ou má alternativa. Heidegger está se propondo fazer uma análise da proposição e está dizendo que essa análise ocupa um lugar privilegiado na principal tarefa que ele realiza em Ser e Tempo, e que é a principal tarefa da sua filosofia nessa época. Essa análise não é uma atividade filosófica? E seu tema central não é a linguagem? Se sim, então o que falta para se admitir que se trata de uma filosofia da linguagem?
Outra afirmação importante de Heidegger é que a linguagem era entendida desde os gregos (os que iniciaram a ontologia antiga) como o fio condutor da ontologia. Essa tese atribuída aos gregos (correta ou incorretamente) é muito próxima da afirmação que a filosofia, mesmo a metafísica, deve ser feita por meio da análise da linguagem, uma tese geralmente atribuída aos filósofos analíticos (mas que nem todos os filósofos analíticos aceitam). Portanto, segundo Heidegger, essa tese, que ele combate em Ser e Tempo, não passou a ser defendida apenas com o advento da filosofia analítica no final do séc. XIX. Ou seja, de acordo com Heidegger, de há muito tempo a filosofia atribui importância filosófica crucial à análise da linguagem.
Esse contra-exemplo paradigmático do preconceito referido acima serve para mostrar que, seja qual for a diferença que haja entre filosofia analítica e filosofia continental, se há alguma, essa diferença não é uma diferença de temática. Mas há contra-exemplos análogos de preconceitos análogos: o preconceito que epistemologia, filosofia da ciência, filosofia da lógica e filosofia da matemática são disciplinas apenas da filosofia analítica. Platão e Kant, por exemplo, não tinham uma reflexão espistemológica (que influencia os debates até hoje)? Heidegger não tinha uma reflexão filosófica sobre a natureza da ciência? Hegel não tinha uma filosofia da lógica? Husserl, o professor de Heiddeger, não tinha uma filosofia da matemática?
Mas há um outro preconceito: que filósofos analíticos não estão interessados em história da filosofia. Se isso fosse o caso, eles não estariam interessados na história da filosofia analítica. E se não estivesses interessados nisso, então eles teriam que entrar no debate sobre os problemas que eles querem tratar sem saber como esse debate se desenrolou até sua inserção no mesmo. Mas é difícil ver como isso seria possível. É claro que há muitos filósofos analíticos que fazem história da filosofia, e de alta qualidade. Talvez eles não façam a história da filosofia do modo como os filósofos não-analíticos fazem, ou não sobre os autores preferidos dos filósofos não analíticos. Mas isso já é outra questão. Bertrand Russell, escreveu um livro sobre Leibniz. Bernard Williams escreveu um livro sobre Descartes. A tese de doutorado de Donald Davidson é sobre Platão. Gilbert Ryle escreveu um livro sobre Platão. Peter Strawson escreveu um livro sobre Kant. E hoje em dia a há muitos livros de filósofos analíticos sobre filosofia medieval. Isso são apenas uns poucos contra-exemplos paradigmáticos desse último preconceito. Mas há ainda filósofos analíticos que estudam Hegel, Marx e outros filósofos paradigmaticamente não-analíticos. Entre esses estudiosos de Hegel estão Robert Brandom, John McDowell e Peter Hylton, esse último um grande historiador da filosofia analítica e autor de um artigo que faz parte do Cambridege Companion to Hegel. A abordagem analítica de Marx deu origem ao que se costuma chamar de marxismo analítico.
Eu abordo brevemente um outro preconceito contra a filosofia analítica nesta postagem. Trata-se de pensar que os filósofos analíticos resolvem problema filosóficos como matemáticos, de modo puramente formal, aplicando um algoritmo a um conjunto de dados para obter um certo resultado...
Lutar contra esses preconceitos não é fácil! Às vezes a gente não sabe nem por onde começar...
Desidério Murcho oferece uma análise das causas de tais preconceitos, em Compreender as críticas à filosofia analítica, e mostra a importância de se compreender essas causas para se compreender melhor esses preconceitos e, com isso, poder lidar melhor com eles.
Termino com a sugestão de dois textos importantes para ajudar a compreender a filosofia analítica:
François Recanati, "Pela Filosofia Analítica".
Timothy Williamson, "Depois da viragem linguística?".