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domingo, 3 de agosto de 2008

Norris: sobre a consistência do realismo


De boas inteções o inferno está cheio. O livro Epistemologia, de Christopher Norris (Porto Alegre: Artmed, 2007), é escrito com boa intenção e é relativamente bem informado sobre os debates contemporâneos em epistemologia. Um dos destaques do livro é a tentativa de estabelecer um diálogo entre as tradições analíticas e continental. Quando li isso na introdução fiquei empolgado, esperando enriquecer minha visão sobre o assunto. Mas em uma certa passagem do segundo capítulo, Norris atribui a Dummett uma tese que ele não sustenta e que é facilmente criticável:
Dummett considera que o discurso sobre a verdade deveria ser substituido pelo discurso sobre a 'assertibilidade garantida', e que essa última deveria ser restringida somente àquelas proposições para os quais possuímos meios confiáveis de prova ou de verificação. De outra forma, estaremos diante de uma declaração autocontraditória, no sentido de sabermos que a proposição x é verdadeira ou falsa -- isto é, que ela possui um valor de verdade objetivo que está sujeito ao princípio da bivalência -- embora não possamos determinar sua verdade ou falsidade por meio do que sabemos ou mediante nossas capacidades investigativas. [pp. 39-40]
Mas é fácil ver que não há nenhuma contradição em se dizer que sabemos que é verdade que ou P ou não-P e dizer que não sabemos se é verdade se P ou se é verdade se não-P. "Sei que P ou não-P" não implica "Ou sei que P ou sei que não-P". Analogamente, "Sei que essa barra possui alguma extensão" não implica "Sei qual é a extensão dessa barra". E Dummett nunca sustentou que houvesse implicação ai.

Além disso, mais adiante no livro, Norris descreve o primeiro dos três argumentos de Dummett contra o realismo assim:
seria impossível que nós adquiríssemos um conhecimento efetivo da linguagem, senão mediante a compreensão das condições de verdade (mais precisamente das condições de assertabilidade garantida) que se aplicam às diversas proposições aceitas ou endossadas pelos membros da nossa comunidade lingüística. [p. 40]

Mas antes ele tinha dito que, segundo Dummett, "o discurso sobre a verdade deveria ser substituido pelo discurso sobre a 'assertibilidade garantida'". Como então a análise deve ser das condições de verdade? E como isso pode ser uma análise das condições de assertibilidade garantida? O problema é que Dummett formula seu projeto de dois modos, como mostra Kirkham, em Teorias da Verdade. Ora ele o formula como um abandono do conceito de verdade na análise do significado, ora ele o formula como uma nova análise do conceito de verdade. Mas Norris parece não notar isso e apresenta Dummett de modo confuso, ao invés de apresentar a (ao menos aparente) confusão de Dummett.

Devo frisar que Norris defende o realismo explicitamente no seu livro.

O livro em geral não é ruim, mas tem coisas como as que aponto acima.

domingo, 18 de maio de 2008

Sobre o sentido da(s) frase(s) do mentiroso


Um "diálogo" entre Putnam e Kripke.
Qualquer tratamento do conceito de verdade deve circunscrever esse paradoxo [Kripke, S. (1975) "Outline of a Theory of Truth", The Journal of Philosophy, vol. 72, n. 19, p. 692]
Nossa primeira tendência é desqualificar a sentença do mentiroso como algo sem sentido, no sentido literal de "sem sentido". Mas se há algo que podemos objetar a respeito da sentença, está longe de ser óbvio o que seja, pois a sentença é correta gramaticalmente -- ela não é nem vaga nem ambígua, e nem comete nenhum equívoco categorial: sentenças estão entre as coisas que podem ser portadores de verdade. [...] Assim, parece que não se pode objetar nada à sentença do mentiroso, por mais estranha que ela seja. Poder-se-ia, claro, tentar mostrar que objeções contra a sentença do mentiroso, mas isso teria de ser mostrado, e essa tarefa tem se revelado extremamente complicada de se fazer. [Kirkham, Richard. (2003) Teorias da Verdade. São Leopoldo: Unisinos, p. 376 (A tradução não é minha. Eu não traduziria "sentence" por "sentença".)]
Considere as frases (1) e (2):

(1) A frase (2) é verdadeira.
(2) A frase (1) é falsa.

Portanto, se a frase (1) for verdadeira, então ela é falsa. Essa é uma formulação não auto-referencial do paradoxo do mentiroso, que algumas vezes é usada, como Kirkham o faz na parte omitida do trecho citado acima, para mostrar que o paradoxo do mentiroso não é um paradoxo sobre frases auto-referentes, isto é, frases que dizem algo sobre si mesmas, tal como

(3) A frase (3) é falsa.

Mas seja qual for a formulação do paradoxo, auto-referencial ou não, há algo que permanece o mesmo em todas elas: elas, aparentemente, nomeiam um portador de verdade e predicam falsidade dele (leiam essa última afirmação de modo frouxo, como uma observação gramatical, não como uma análise lógica). Mas -- e esse é o ponto importante -- não está determinado o que o portador de verdade está dizendo. Para que uma frase da forma

"P" é falsa

faça sentido, diga alguma coisa, "P" deve ter sentido, deve dizer alguma coisa. Mas o que está sendo dito por (1)? Em (1) ocorre um aparente nome de um suposto portador de verdade, "A frase (2)", e se predica a verdade desse portador. Portanto, o que (1) diz depende do que esse portador de verdade, a frase (2), diz. Mas o que a frase (2) diz? Em (2) ocorre o aparente nome de um outro portador de verdade, "A frase (1)", e se predica a falsidade desse portador. Portanto, o que (2) diz depende do que esse portador de verdade, a frase (1), diz. E voltamos à estaca zero. Portanto, parece não haver nenhum genuíno portador de verdade sendo referido nas frases (1) e (2) por meio de "A frase (2)" e "A frase (1)" e, por isso, as frases (1) e (2) não parecem ser genuínos portadores de verdade. Uma reflexão análoga, mutatis mutandis, pode ser feita sobre a frase (3).

As frases (1), (2) e (3) realmente estão em boa ordem gramatical, sua sintaxe é correta e não são nem ambíguas nem vagas. Mas elas não são nem ambíguas nem vagas porque para ter essas qualidades, uma frase precisa ter sentido. E o que tentei fazer é apresentar razões para se pensar que, contrário às aparências, (1), (2) e (3) não têm sentido.

(Veja postagem posterior: Mentiroso Quantificado)

quinta-feira, 30 de novembro de 2006

Deflacionismo, redundância e minimalismo


Uma pergunta de um aluno me chamou atenção para algo: Richard Krikham, em Theories of Truth, chama de tese deflacionária aquilo que normalmente se entende por teoria da verdade como redundância. Dummett também o faz na contracapa de Truth, de Paul Horwich. Consequência: Kirkham diz que Horwich não defende a tese deflacionária, o que soa muito estranho. Mas há algo em comum entre aquilo que Kirkham chama de tese deflacionária e a teoria de Horwich, que o próprio Horwich chama de minimalismo. Mas Kirkham não tem um nome para isso. Por isso, a terminologia de Horwich é melhor. Ele usa os termos assim:

Deflacionismo: tese segundo a qual a verdade não é uma proporiedade substancial, cuja natureza está oculta à espera de uma descoberta. O conteúdo do conceito de verdade pode ser completamente explicado por meio do esquema T:

(T) "P" é verdadeira sse P

Teoria da redundânica (geralmente atribuida a Frank P. Ramsey): é o deflacionismo mais a tese segundo a qual (T) é uma equivalência intensional, ou seja, uma sinonímia. Para o teórico da redundância, "é verdadeira" é um pseudo-predicado que não denota nenhuma propriedade.

Minimalismo: é o deflacionismo mais a tese que (T) é uma equivalência essencial (extensional necessária), mas não intensional. Segundo o minimalista, o predicado "é verdadeira" é um predicado genuíno que denota uma propriedade genuína, não uma propriedade naturalística, mas uma propriedade lógica. O minimalista sobre a verdade tem uma concepção minimalista de predicado e propriedade (cf. Truth, §9).

É estranho que Kirkham ignore essas distinções e apresente a família de teorias da verdade à qual pertence o minimalismo de Horwich por meio da tese mais fraca, que o próprio Horwich não aceita. Isso é estranho mesmo sabendo que Kirkham não é nem um teórico da redundância, nem um minimalista.

(Pequena revisão 20/06/08)