Translate

Mostrando postagens com marcador Dummett. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Dummett. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Michael Dummett - 1925-2011

Dentre as razões pelas quais eu pensava em fazer meu pós-doutorado na Inglaterra não estava apenas a vontade de rever a terra onde nasceu meu querido filho, mas, dentre outras, também poder trocar algumas idéias com Dummett (com claro prejuízo para ele). Mas infelizmente isso não é mais possível. Morreu ontem, dia 27 de dezembro de 2011, Sir Michael Anthony Eardley Dummett (1925-2011). Dummett não foi apenas um filósofo, especialista em filosofia da linguagem, da lógica, da matemática e na obra de Frege. Ele também foi um ativista, lutando principalmente contra o racismo, entre outras causas. Eis um trecho do seu obituário no The Guardian: (por A.W. Moore)
His first major publication, Frege: Philosophy of Language (1973), appeared when he was at the comparatively ripe age of 48. One reason why it had not appeared earlier was that he had made a conscious decision to pursue what he conceived as his duty to oppose the racism that had become manifest in Britain. He completed the book when he reluctantly concluded that he no longer had any significant contribution to make to the fight and felt justified in returning to "more abstract matters of much less importance to anyone's happiness or future". He commented in the book's preface on the deep shock of having discovered, some years previously, that Frege himself, whom he had always revered "as an absolutely rational man", was a virulent racist. "From [this discovery]," he wrote, "I learned something about human beings which I should be sorry not to know; perhaps something about Europe, also."
Dummett influenciou muito meu modo de pensar sobre os problemas filosóficos, de fazer filosofia, de tal forma que não foi com pouca tristeza que recebi a notícia da sua morte. Uma grande perda!

Benjamin Murphy, Michael Dummett (Internet Encyclopdia of Philosophy)

domingo, 3 de agosto de 2008

Norris: sobre a consistência do realismo


De boas inteções o inferno está cheio. O livro Epistemologia, de Christopher Norris (Porto Alegre: Artmed, 2007), é escrito com boa intenção e é relativamente bem informado sobre os debates contemporâneos em epistemologia. Um dos destaques do livro é a tentativa de estabelecer um diálogo entre as tradições analíticas e continental. Quando li isso na introdução fiquei empolgado, esperando enriquecer minha visão sobre o assunto. Mas em uma certa passagem do segundo capítulo, Norris atribui a Dummett uma tese que ele não sustenta e que é facilmente criticável:
Dummett considera que o discurso sobre a verdade deveria ser substituido pelo discurso sobre a 'assertibilidade garantida', e que essa última deveria ser restringida somente àquelas proposições para os quais possuímos meios confiáveis de prova ou de verificação. De outra forma, estaremos diante de uma declaração autocontraditória, no sentido de sabermos que a proposição x é verdadeira ou falsa -- isto é, que ela possui um valor de verdade objetivo que está sujeito ao princípio da bivalência -- embora não possamos determinar sua verdade ou falsidade por meio do que sabemos ou mediante nossas capacidades investigativas. [pp. 39-40]
Mas é fácil ver que não há nenhuma contradição em se dizer que sabemos que é verdade que ou P ou não-P e dizer que não sabemos se é verdade se P ou se é verdade se não-P. "Sei que P ou não-P" não implica "Ou sei que P ou sei que não-P". Analogamente, "Sei que essa barra possui alguma extensão" não implica "Sei qual é a extensão dessa barra". E Dummett nunca sustentou que houvesse implicação ai.

Além disso, mais adiante no livro, Norris descreve o primeiro dos três argumentos de Dummett contra o realismo assim:
seria impossível que nós adquiríssemos um conhecimento efetivo da linguagem, senão mediante a compreensão das condições de verdade (mais precisamente das condições de assertabilidade garantida) que se aplicam às diversas proposições aceitas ou endossadas pelos membros da nossa comunidade lingüística. [p. 40]

Mas antes ele tinha dito que, segundo Dummett, "o discurso sobre a verdade deveria ser substituido pelo discurso sobre a 'assertibilidade garantida'". Como então a análise deve ser das condições de verdade? E como isso pode ser uma análise das condições de assertibilidade garantida? O problema é que Dummett formula seu projeto de dois modos, como mostra Kirkham, em Teorias da Verdade. Ora ele o formula como um abandono do conceito de verdade na análise do significado, ora ele o formula como uma nova análise do conceito de verdade. Mas Norris parece não notar isso e apresenta Dummett de modo confuso, ao invés de apresentar a (ao menos aparente) confusão de Dummett.

Devo frisar que Norris defende o realismo explicitamente no seu livro.

O livro em geral não é ruim, mas tem coisas como as que aponto acima.

quinta-feira, 7 de junho de 2007

Sara Ellenbogen, Wittgenstein's Account of Truth


Estou lendo lentamente Wittgenstein's Account of Truth (SUNY Press, 2003), de Sara Ellenbogen. É um livro muito bom, não apenas porque, a julgar pelo que li até agora (p. 72), interpreta Witttgenstein corretamente, mas porque apresenta Wittgenstein como a melhor posição no debate contemporâneo entre realismo e anti-realismo semântico. Mesmo que se discorde desse segundo ponto, o livro mostra por quê a posição apresentada deve ser considerada.

Há dois pontos comuns entre o livro de Ellenbogen e minha tese (no prelo): Wittgenstein não é nem um realista nem um anti-realista semântico e o reconhecimento do caráter deflacionário do predicado "é verdadeira" não implica, como pensa Paul Horwich, que o debate entre realistas e anti-realistas não é um debate sobre a verdade. Segundo Ellenbogen, tanto realistas quanto anti-realistas em semântica têm algo em comum: uma concepção realista da verdade, ou seja, uma concepção que procura determinar o significado de "é verdadeira" por meio de uma teoria geral, independentemente do seu uso em diferentes contextos, embora alguns anti-realistas, como Dummett, aleguem defender uma concepção de significado como uso. Elenbogen argumenta que o uso está sendo concebido por esses antirealistas de modo realista, independentemente dos nossos critérios para o uso e, por isso, independentemente dos (possivelmente transcendendo os) nossos limites epistêmicos.

A posição de Ellenbogen pode ser resumida com algo que digo na minha tese: a tradicional oposição entre condições de verdade e condições de asserção justificada (adotada por Saul Kripke e Crispin Wright, p.ex.) apresenta um falso dilema. Para Wittgenstein, os critérios determinam as condições da asserção justificada como verdadeira, mas não de maneira transcendente. Podemos mudar nossos critérios. Mas isso não implica revisar nossas alegações de conhecimento feitas com base nos antigos critérios, mas implica uma mudança conceitual. Isso conciliaria a função semântica e epistemológica dos critérios com a facticidade do conhecimento (Sei que p implica p.).

A leitura desse livro à época que eu estava escrevendo minha tese teria me ajudado a formular algumas coisas de modo mais claro. Mas também teria feito que meu atraso para finalizar a redação da tese fosse ainda maior.