Algumas vezes dizemos "Não sei o que quero". Mas o que significa isso? Essa é uma afirmação epistêmica sobre o conteúdo da nossa mente? É uma confissão de ignorância sobre os produtos da nossa faculdade volitiva? Geralmente quando dizemos isso estamos numa situação de conflitos de vontades. Nessa situação, queremos duas ou mais coisas incompatíveis. Dois objetos da vontade são incompatíveis quando não podem ambos serem realizados. Por exemplo: posso querer morar numa determinada cidade, A, por certas razões, e também morar em outra cidade, B, por outras razões. Isso é perfeitamente possível; tão possível que às vezes queremos duas coisas que não sabemos que são incompatíveis, como realizar uma ação que não sabemos ser ilegal e não ser punido pela lei, por exemplo. Pois bem, diante de uma tal situação de um consciente conflito de vontades, podemos ficar em dúvida sobre qual das vontades conflitantes é a mais forte, que impele mais. Por isso, podemos expressar essa dúvida justamente dizendo "Não seio o que quero", que seria uma espécie de abreviação de "Não sei o que mais quero". E numa tal situação, pode-se descobrir que, fazendo abstração das razões, o que se mais quer é morar em A, embora haja mais razões para se morar em B. Nesse caso, podemos escolher entre seguir o impulso da vontade irracional ou seguir a razão. Esse é o conflito entre o que se mais quer e o que se deve fazer. É claro que se a vontade de fazer o que é mais racional prevalecer, podemos dizer que essa foi a vontade mais forte. Mas isso não impede que, fazendo-se abstração das razões, a vontade irracional seja a mais forte. Às vezes, mesmo fazendo-se abstração das razões, a vontade irracional é mais fraca. Em suma, se usada dessa forma, a frase "Não sei o que quero" é uma confissão de ignorância não sobre o que queremos, mas sobre o que mais queremos.
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* Texto redigido a partir de uma conversa com Laiz Fraga.
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sexta-feira, 1 de julho de 2011
sexta-feira, 24 de setembro de 2010
Fred Dretske na UFRGS
O Programa de Pós-Graduação em Filosofia da UFRGS estará recebendo, nos próximos dias 11 e 12 de Novembro de 2010, o Prof. Fred Dretkse, da Duke University (Emeritus, Stanford University), um dos mais importantes e influentes filósofos de nossos dias, autor de contribuições fundamentais à epistemologia e à filosofia da mente
Em sua estadia em Porto Alegre, o Prof. Dretske proferirá duas palestras:
Quinta-feira, 11/11/2010, às 15:30h, no Pantheon do IFCH: "What We See: The Texture of Conscious Experience"
Sexta-feira, 12/11/2010, às 14h, no Pantheon do IFCH: "I Think I Think, Therefore I Am... I Think: Skeptical Doubts About Self Knowledge"
Em sua estadia em Porto Alegre, o Prof. Dretske proferirá duas palestras:
Quinta-feira, 11/11/2010, às 15:30h, no Pantheon do IFCH: "What We See: The Texture of Conscious Experience"
Sexta-feira, 12/11/2010, às 14h, no Pantheon do IFCH: "I Think I Think, Therefore I Am... I Think: Skeptical Doubts About Self Knowledge"
terça-feira, 28 de abril de 2009
Cognitivismo e linguagem privada
Esse Eros é demais: o sujeito me oferece uma objeção e a réplica! Ele comentou minha postagem anterior assim:
Tenho a impressão de que talvez se possa bloquear o argumento pró-cognitivismo pelo argumento do Wtitgenstein contra a linguagem privada. Se lemos a justificação de "Eu estou com dou" como baseada no conhecimento direto que tenho da minha dor, temos de explicar como se dá este conhecimento ou que tipo de relação privilegiada é esta que tenho com a minha dor. Tradicionalmente, o conhecimento direto de X envolve a pressuposição de que o sujeito é capaz de reconhecer, em diferentes encontros com y, y2, y3..., que y, y2 e y3 são instâncias de X, onde X, por exemplo, pode ser a dor. Ora, esta pressuposição é justamente atacada pelo argumento de Wittgenstein contra a linguagem privada. Há de se ver se há outra leitura para o conhecimento direto que não dependa dessa capacidade não-linguística de reconhecer particulares como sendo de um determinado tipo.
Bem, o não-cognitivismo é geralmente atribuído a Wittgenstein porque parece ser a sua maneira lidar com as manifestações dado o seu (assim chamado) argumento da linguagem privada (interpretado de forma tradicional). Eu tinha mencionado isso de passagem na discussão posterior à minha aula inaugural. Mas acho que tua auto-replica não indica claramente onde está o erro do argumento em favor do cognitivismo. Qual premissa é falsa e por que? Era nisso que eu estava a pensar esses dias. Perece que o problema está em dizer que dirigir a atenção para a dor é um ato epistêmico. Veja: se dirijo a atenção para algo, isso somente é um ato epistêmico se ou a própria atenção produz conhecimento, ou ela é acompanhada por algum processo que produz conhecimento. A primeira alternativa parece ser falsa. A segunda parece implicar que temos uma faculdade que produz conhecimento sobre aquilo ao qual dirigimos a atenção, a saber, nossos estados mentais. Mas que faculdade é essa e como ela funciona? E aqui parece não haver alternativa a não ser explicá-la como uma faculdade que gera conhecimento privado de entidades que, portanto, são epistemicamente privadas. E ai entra tua auto-réplica. De certa forma, a premissa que dizia que dirigir a atenção era um ato epistêmico supunha justamente o que estava em questão: a existência de uma faculdade que gera autoconhecimento.
Fora isso, eu ainda tenho problemas com o fato de não haver critérios específicos para se dizer que alguém acredita estar com dor quando não dirige a sua atenção para sua dor. Mas sobre isso escreverei em postagens futuras.
quarta-feira, 15 de abril de 2009
Expressivismo
(esq. p/ dir.) Eros, Lúcio, Raphael e eu
Ontem dei uma aula inaugural na UFPR. Falei sobre o expressivismo acerca das manifestações, isto é, das frases em primeira pessoa do presente do indicativo que contém um verbo psicológico, tal como "Eu sinto dor". Tentei mostrar que o expressivismo de Wittgenstein concilia o caráter apofântico (o caráter de ter um conteúdo que é ou verdadeiro ou falso) com o caráter não-cognitivo das manifestações. Apresentei também uma crítica à teoria de Dorit Bar-On para explicar o caráter cognitivo das manifestações. Minha crítica consistiu em mostrar que, segundo a teoria de Bar-On, o fator de verdade (truth maker) das manifestações (sentir dor, no caso de "Sinto dor") é a mesma coisa que o seu justificador (sentir dor). Isso implicaria que faria sentido dizer "Eu sei que sinto dor porque eu sinto dor". Entretanto, o meu amigo, professor Eros Carvalho, apresentou uma objeção que, naquele momento, me pareceu fatal ao não cognitivismo. Ele chamou atenção para o fato de algumas vezes desviarmos a atenção de uma dor, justamente para que não soframos muito com ela. Continuamos a sentir a dor, embora nossa atenção esteja dirigida a outra coisa. Se alguém nos pergunta se sentimos dor, parece que o que fazemos para responder é um ato epistêmico, dirigir a atenção para a dor. Esse ato justificaria nossa manifestação "Sinto dor", mas seria diferente do seu fator de verdade. Se se trata mesmo de um ato espistêmico que justifica a manifestação, então parece que as manifestações são cognitivas (ao menos esse tipo). Mas há uma série de perguntas que deveriam ser respondidas antes de se concluir que esse argumento é decisivo. Em postagens futuras vou formular algumas dessas perguntas.
sexta-feira, 16 de maio de 2008
Bar-On: sobre a ordem da investigação acerca das manifestações (avowals)
Geralmente as discussões sobre os problemas filosóficos relativos às peculiaridades das auto-atribuições de estados mentais no tempo presente, as manifestações (avowals), partem da suposição que as manifestações não apenas expressam proposições capazes de serem verdadeiras ou falsas, mas veiculam conhecimento que o seu autor tem de si mesmo. Bar-On argumenta -- corretamente, na minha opinião -- que uma investigação sobre a natureza das manifestações não deve iniciar a partir desse ponto, pois isso fecha a possibilidade para considerações não epistêmicas da natureza das manifestações, tal como o expressivismo simples, que ela não advoga (ver post anterior).
(i) Por que as manifestações são geralmente tratadas como inigualavelmente seguras?
(ii) As manifestações veiculam auto-conhecimento privilegiado?
(iii) O que permite que tenhamos auto-conhecimento privilegiado?
Nem toda resposta a (i) implica uma resposta positiva a (ii). Não desafiar epistemicamente um proferimento, por si só, não implica tratar esse proferimento como a veiculação de conhecimento seguro. Não desafiamos epistemicamente alguém que diz "Ai!", mas não porque "Ai!" veicule um conhecimento seguro.
Aquilo para o qual quero chamar a atenção aqui é que, de acordo com esse modo de ver as coisas, a filosofia da linguagem ocupa ao menos o primeiro estágio da uma investigação filosófica em torno de certos problemas. Antes de resolver os problemas epistemológicos relacionados às manifestações, devemos examinar que tipo de ato de fala consiste em proferir manifestações. Acredito que, mutatis mutandis, uma estratégia similar deveria ser adotada em filosofia da matemática.
Antes que possamos determinar se manifestações refletem um tipo especial de conhecimento que possuímos, precisamos entender o que os sujeitos fazem quando manifestam, e por que manifestações são tratadas tão diferentemente de outros pronunciamentos. [Speaking My Mind, p. 13]Ela, então, ordena as principais perguntas da investigação assim (pp. 11-12):
(i) Por que as manifestações são geralmente tratadas como inigualavelmente seguras?
(ii) As manifestações veiculam auto-conhecimento privilegiado?
(iii) O que permite que tenhamos auto-conhecimento privilegiado?
Nem toda resposta a (i) implica uma resposta positiva a (ii). Não desafiar epistemicamente um proferimento, por si só, não implica tratar esse proferimento como a veiculação de conhecimento seguro. Não desafiamos epistemicamente alguém que diz "Ai!", mas não porque "Ai!" veicule um conhecimento seguro.
Aquilo para o qual quero chamar a atenção aqui é que, de acordo com esse modo de ver as coisas, a filosofia da linguagem ocupa ao menos o primeiro estágio da uma investigação filosófica em torno de certos problemas. Antes de resolver os problemas epistemológicos relacionados às manifestações, devemos examinar que tipo de ato de fala consiste em proferir manifestações. Acredito que, mutatis mutandis, uma estratégia similar deveria ser adotada em filosofia da matemática.
quinta-feira, 15 de maio de 2008
Neo-Expressivismo

Estou lendo Speaking My Mind: Expression and Self-Knowledge, de Dorit Bar-On (Oxford: OUP, 2004). Resenhas do livro podem ser encontradas no final da página de Bar-On. Nesse livro, Bar-On procura expor e defender o que ela própria denomina "neo-expressivimo", uma teoria de uma certa classe de auto-atribuições de estados mentais, as manifestações (avowals). As manifestações são frases ou pensamentos em que um sujeito atribui a si mesmo estados mentais no presente do indicativo, tal como "Eu sinto dor", "Eu penso que vai chover", "Eu odeio George W. Bush", etc. O neo-expressivismo procura conciliar elementos do que ela denomina "expressivismo simples", uma teoria não epistêmica (geralmente atribuída a Wittgenstein) e das teorias epistêmicas das manifestações.
Segundo o expressivismo simples, as manifestações não são verdadeiras ou falsas, mas apenas expressam os estados mentais que parecem atribuir ao sujeito, do mesmo modo como "Ai!", por exemplo, apenas expressa dor e não é uma expressão verdadeira ou falsa. É óbvio que, de acordo com o expressivismo simples, manifestações não podem veicular auto-conhecimento, conhecimento da própria mente, pois sequer são verdadeiras ou falsas.
As teorias epistêmicas das manifestações, por outro lado, partem do fato de as manifestações não apenas serem verdadeiras ou falsas, mas veiculam, na maior parte dos casos, auto-conhecimento, entendido aqui como um juízo recognicional que o sujeito faz de si mesmo e que está de algum modo justificado. Cada versão das teorias epistêmicas procura, então, determinar o tipo de faculdade que permite o auto-conhecimento, assim entendido, o que inclui uma consideração da natureza das entidades que são assim conhecidas.
O problema com o expressivismo simples, segundo Bar-On, é que ele não respeita a continuidade semântica entre atribuições de estados mentais de primeira e terceira pessoas. E essa continuidade é fortemente apoiada poraolgo análogo ao famoso "ponto de Geach": podemos usar manifestações como antecedentes ou conseqüentes de condicionais ou como premissas ou conclusões de inferências. Mas apenas o que pode ser verdadeiro ou falso pode ser assim usado.
O problema como as teorias epistêmicas, segundo Bar-On, é que elas não conseguem explicar os principais aspectos epistêmicos das manifestações, a saber: o fato de as manifestações estarem normalmente protegidas de avaliações epistêmicas, o fato de as manifestações serem tomadas geralmente como verdadeiras, a assimetria epistêmica entre primeira e terceira pessoas, etc.
O neo-expressivismo, tal como as teorias epistêmicas, defende que as manifestações são verdadeiras ou falsas e que veiculam auto-conhecimento. Mas, diferentemente das teorias epistêmicas, defende que não há nenhuma faculdade especial envolvida no auto-conhecimento e que as manifestações não são juízos recognicionais que o sujeito faz de si mesmo. Bar-On argumenta que os principais aspectos epistêmicos das manifestações, inclusive o fato de veicularem auto-conhecimento, podem ser todos explicados pelo fato de elas também expressarem os estados mentais que atribuem ao sujeito. E nisso o neo-expressivismo se assemelha ao expressivismo simples.
Esse é o resumo da ópera. Pretendo postar mais coisas sobre esse livro em breve. E dessa vez espero cumprir a promessa.
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