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segunda-feira, 26 de agosto de 2019

Sociedade, natureza e naturalismo


Há uma distinção geralmente aceita e aparentemente inócua entre natural e artificial. Natural seria aquilo que é como é sem que para isso a ação humana tenha qualquer papel causal. Por exemplo: as montanhas que formam a cordilheira do Himalaia são naturais, pois nenhuma ação humana desempenhou qualquer papel causal para que elas se formassem. Artificial seria justamente o contrário: seria aquilo que é como é porque a ação humana teve algum papel causal. Por exemplo: falamos de seleção artificial de espécies (por oposição à seleção natural) nos referindo àquelas espécies de seres vivos que criamos por diversas razões: estéticas, medicinais, alimentares, de segurança, sociais, etc. Cães, por exemplo, são lobos modificados por essa seleção artificial.

O natural é normalmente pensado como aquilo que não poderia ser de outro modo, pois é o que é devido exclusivamente às leis naturais. O artificial é normalmente pensando como aquilo que poderia não existir ou ser de outro modo, dado que é efeito das ações humanas, que seriam livres.

Essa distinção entre natural e artificial, embora possa ser útil para alguns propósitos, pode gerar problemas. Se natural é aquilo que é como é sem que para isso a ação humana tenha qualquer papel causal, então o que dizer das próprias ações humanas? Ou elas são naturais ou não são naturais.

Se elas são naturais, então por que aquilo que é efeito dessas ações e de outras causas naturais, o artefato, não é, também, natural? Alguém poderia argumentar: ações humanas não são naturais porque são o efeito de coerções sociais. Mas ser o efeito de coerções sociais somente seria uma razão suficiente para que nossas ações fossem artificiais se tais coerções não fossem, elas próprias, artificiais. Entretanto, o que são essas coerções sociais se não ações de outras pessoas? Como explicar que essas coerções seriam não-naturais?

Uma das causas que geram esses problemas é o fato de a distinção entre natural e artificial, tal como apresentada acima, ser relativa a nós, humanos, e definida a partir das nossas ações. Para um João-de-barro, as coisas que fazemos, nossos prédios, pontes, carros, computadores, etc., são naturais, mas não a sua casa de barro. Ela não existiria sem suas ações. Por ser relativa a nós e nossas ações, tentar aplicar a distinção natural/artificial às nossas ações gera os problemas do parágrafo anterior. Dadas as definições de "natural" e "artificial" acima, perguntar se ações humanas são artificiais parece análogo a perguntar se estou à minha direita. Todas as coisas, exceto eu mesmo, estão ou não estão à minha direita. Todas as coisas, exceto as ações humanas, são, ou naturais, ou artificiais, no sentido definido acima.

Talvez muitos problemas sejam evitados se definirmos "natural" como aquilo que é como é sem que, para isso, a ação de um agente qualquer tenha qualquer papel causal

Mas não há nenhum sentido em que possamos dizer, das ações humanas, que algumas são naturais e outras são artificiais? Em um sentido diferente do definido acima, sim. As ações humanas são naturais no sentido em que são eventos naturais que não são exceções às leis naturais. Essa não é uma definição relativa de "natural", muito menos relativas às nossas ações. Por isso podemos dizer das ações humanas que elas são naturais nesse sentido. Mas há algum sentido em que possamos dizer das ações humanas que algumas são artificiais? Sim, mas esse sentido não se opõe ao sentido de "natural" recém definido. Nesse sentido, uma mesma ação pode ser, ao mesmo tempo, natural e artificial. Uma ação pode ser considerada artificial quando ela é aprendida e natural, em um sentido diferente do recém definido, quando não-aprendida. Para que uma criança aprenda algo, ela deve reagir ao ensino de forma não aprendida. Tais reações são ações naturais. Mas ações aprendidas, mesmo sendo artificiais nesse sentido, são naturais no sentido de não serem exceções às leis naturais.

Essas reflexões mostram que qualquer afirmação que repouse sobre uma distinção entre natural e artificial não esclarecida é, no mínimo, obscura. Em muitas discussões sobre problemas sociais essa distinção é frequentemente evocada, seja de forma explícita, seja de forma tácita. Mas o ponto para o qual quero chamar a atenção é a discussão sobre a metodologia da sociologia, a ciência dos fenômenos sociais. Se as ações humanas não são exceções às leis da natureza, então por que os fenômenos sociais não podem ser estudados usando-se as metodologias das ciências naturais? Por que a sociologia, o estudo dos fenômenos sociais, tais como a ética, a religião, a economia, o gênero, etc., não pode ser naturalizada? Por que há tanta resistência a essa naturalização nas ciências humanas e sociais em geral?

Muito dessa resistência se deve a ignorância e/ou preconceito em relação às ciências naturais. Todavia, um dos focos da resistência teórica bem informada consiste em apontar para uma dificuldade enfrentada por essa naturalização: dar conta dos valores e, principalmente, das normas. O comportamento humano (mas não apenas o humanos) é em boa medida normativo, isto é, determinado por normas ou regras. Isso significa que de algumas ações podemos dizer que são corretas, porque estão de acordo com determinadas regras, e de outras que são incorretas, porque estão em desacordo com determinadas regras. Além disso, algumas regras, as regras morais, são seguidas porque são consideradas (valoradas) boas em si mesmas. Dessa valoração nascem os deveres ou obrigações morais. Os anti-naturalistas argumentam que uma metodologia naturalista não é capaz de explicar o comportamento normativo. Leis naturais não são como regras que seguimos. Em primeiro lugar, a ação de seguir regras é voluntária. Podemos muito bem nos recusarmos a seguir regras. Mas nada do que fazemos pode ser a exceção a alguma lei natural. Além disso, podemos cometer erros na tentativa de seguir regras. Eventos naturais, por sua vez, não podem errar. Sendo assim, como poderíamos explicar a prática de seguir regras por meio de teorias que explicam todos os eventos naturais por meio de leis naturais?

Na esteira desse receito teórico à naturalização da sociologia está o receio de uma darwinismo moral. Uma naturalização da sociologia, argumenta-se, implicaria tratar a ética como um mero instrumento de adaptação evolutiva e isso implicaria que padrões de comportamento que tiveram um papel causal no nosso sucesso evolutivo seriam normativos, ou seja, seriam os padrões de comportamento que deveríamos adotar. Isso enfrenta ao menos dois problemas. O primeiro é o problema da falácia naturalista: inferir como nosso comportamento deve ser de como ele de fato é, ou tem sido. Essa inferência, prima facie, é inválida. O segundo problema consiste no fato de que comportamentos para os quais atualmente temos boas razões para considerar errados seriam aparentemente justificados por um tal darwinismo moral, tal como o comportamento machista, por exemplo. Se a monogamia, a divisão de tarefas entre homens e mulheres, etc., tiveram um importante papel casual no nosso sucesso evolutivo, então uma naturalização da ética implicaria que esses padrões de comportamento seriam normativos.

Parece que os naturalistas têm uma vantagem nessa controvérsia: se as ações humanas não são uma exceção às leis da natureza, então se se pretende que a sociologia seja mesmo uma ciência, parece plausível supor que é possível naturalizar a sua metodologia e que, portanto, é possível dar uma explicação naturalística do comportamento normativo. Se isso for possível, então todas as  disciplinas cognitivas que possuam um componente normativo podem ser naturalizadas. A própria ética poderia ser naturalizada. E provavelmente nosso comportamento normativo tem alguma coisa a ver, sim, com a história evolutiva de adaptação da nossa espécie. Uma maneira de se evitar o darwinismo moral consiste em apontar para a diferença entre, por um lado, explicar naturalisticamente por que adotamos determinados padrões de comportamento e, por outro, justificar esses comportamentos. Essa diferença pode ser explicada de modo claro por meio do exemplo do hábito de consumir produtos de origem animal. É um fato da nossa história evolutiva que nosso cérebro se desenvolveu ao ponto em que está porque consumimos proteína, especialmente aquela contida na carne. E graças ao nosso cérebro, temos uma história de sucesso na seleção natural. De acordo com o darwinismo moral, isso implicaria que é um dever moral comermos carne. Todavia, graças a esse mesmo cérebro, atualmente temos condições de saber que a proteína de que necessitamos para uma vida saudável pode ser encontrada em alimentos de origem vegetal. Portanto, embora seja um fato nosso cérebro evoluiu graças ao consumo de carne, esse fato não tem nenhuma força normativa. Uma reflexão análoga pode ser feita sobre o machismo: mesmo que a monogamia, a divisão de tarefas entre homens e mulheres, etc., tenham tido um importante papel casual no nosso sucesso evolutivo, o fato que essas coisas não são mais necessárias para a manutenção do nosso sucesso evolutivo mostra que tais padrões de comportamento não têm nenhuma força normativa. Por fim, o Darwinismo moral parece estar em si mesmo errado. Não parece ser contraditório que um certo padrão de comportamento, mesmo que prejudicial ao nosso sucesso evolutivo, seja moralmente correto.




sábado, 3 de janeiro de 2015

Clarificar e teorizar

Há ao menos dois pontos de vistas diferentes a partir dos quais se pode estar em uma relação cognitiva com a linguagem: o ponto de vista interno, ou da significação e compreensão, e o ponto de vista externo, ou da teorização.

O ponto de vista externo é o ponto de vista teórico-cognitivo, daquele que constrói teorias para explicar a linguagem de modo geral, tratando-a como um fenômeno natural entre outros. Desse ponto de vista, o objetivo principal é responder perguntas sobre a linguagem que só podem ser respondidas com a obtenção de novos conhecimentos sobre a linguagem, de tal forma que, para isso, não basta tornar mais claro ou explícito o que já sabemos sobre ela. Desse ponto de vista, não é necessário ter qualquer competência no uso da linguagem sobre a qual se teoriza.

O ponto de vista interno é o ponto de vista daquele que já tem uma determinada competência no uso de uma linguagem particular, que certamente inclui saber fazer certas coisas de acordo com certas regras para dizer certas coisas com sentido e para compreender quando outros as dizem. Desse ponto de vista, as perguntas que fazemos sobre a linguagem são respondidas por meio de um exame do que já sabemos como usuários competentes da linguagem que usamos para formular tais perguntas. Não precisamos obter novos conhecimentos, mas simplesmente tornar mais claro o que já sabemos, tanto os elementos desses conhecimentos quanto suas relações entre si. Um perfeito conjunto de exemplos desse tipo de perguntas é o conjunto das perguntas que justamente pedem clarificação, elucidação: Qual é sintaxe lógica de "A baleia é um mamífero"? Qual é a análise semântica de "Eu estou aqui"? Qual é a pragmática de nos permite inferir "Fulano está sendo aguardado" de "Fulano ainda não chegou"? Para responder a essas perguntas, o que devemos fazer é tornar explícitas aquelas regras que já sabemos seguir com competência ao usar as frases citadas. Não precisamos de uma teoria explicativa por meio da qual obtemos novos conhecimentos.

É claro que podemos pensar a explicitação do que implicitamente já sabemos como uma espécie de atividade teórica, num sentido amplo de "teoria". Também podemos pensar na formulação explícita do que implicitamente sabemos como a obtenção de novos conhecimentos. Mas o ponto principal da distinção esboçada acima é que o conhecimento obtido com tal explicitação, se assim podemos falar, é essencialmente distinto daquele que obtemos por meio de teorias explicativas do primeiro tipo, justamente na medida em que o conhecimento obtido por meio de teorias explicativas do primeiro tipo não pode ser obtido apenas por meio da explicitação do que implicitamente já sabemos. Ninguém sabe que a linguagem é ou não é um mecanismo de adaptação evolutiva, por exemplo, apenas tornando explícito o que implicitamente já sabemos.

Alguém poderia pensar, e muitos pensaram, que podemos responder as perguntas que fazemos do ponto de vista da significação/compreensão podem ser respondidas por meio de teorias explicativas construídas do ponto de vista da teorização. Mas isso implicaria que poderíamos ser usuários competentes da linguagem e não saber, nem mesmo implicitamente, que regras seguimos ao usá-la, pois as teorias explicativas construídas do ponto de vista da teorização visam produzir novos conhecimentos, conhecimentos que ainda não temos, nem mesmo implicitamente. A regras que seguimos ao usar a linguagem seriam, então, como leis naturais, que são efetivas independentemente do nosso conhecimento, implícito ou explícito. A normatividade do uso da linguagem, o fato de esse uso poder ser correto ou incorreto em relação a certas regras, deveria, portanto, se explicada de forma naturalista, isto é, por meio de uma teoria explicativa produzida do ponto de vista da teorização.

Todavia, como explicar, dessa perspectiva, a diferença entre seguir uma regra e agir de acordo com ela? Agir de acordo com uma regra não parece ser uma condição suficiente para seguir essa regra. Uma pessoa pode agir de acordo com uma regra por puro acidente. É necessário a pessoa tenha a intenção de seguir a regra para a estar seguindo.Mas como ela pode ter a intenção de estar seguindo uma regra que nem mesmo implicitamente ela conhece?

Além desse problema, essa concepção de regra implica a possibilidade do erro maciço e essa possibilidade é incompatível com o nosso único critério para a posse de um conceito expresso por uma expressão lingüística: a competência no uso dessa expressão.[1]

Há ao menos alguns problemas filosóficos, para se dizer o mínimo, que somente podem ser formulados e resolvidos do ponto de vista da compreensão. Um conjunto de exemplos paradigmáticos são os problemas filosóficos acerca da verdade.

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[1] Defendo isso no meu "Conhecimento, verdade e significado".


terça-feira, 17 de abril de 2012

Workshop Wittgenstein - Linguagem, Pensamento e Normatividade

L. Wittgenstein
Data: 14 e 15 de maio de 2012

Local: PUCRS, Auditório do Prédio 5 – Campus Central


Programação:

14.05.2012

09h15min - Conferência de Abertura

L. Wittgenstein and M. Polanyi on Personal Knowledge
Prof. Dr. Marcel Niquet (Goethe-University)

10h15min - Intervalo

10h30min - PALESTRA

O ceticismo sobre outras mentes
Prof. Dr. Jônadas Techio (UFRGS)

12h00min - Almoço

14h00min - PALESTRA

O metro padrão tem um metro de comprimento?
Prof. Dr. Alexandre Machado (UFPR)

15h00min - Intervalo

15h15min - PALESTRA

A matemática no Tractatus Logico-Philosophicus
Prof. Dr. Rogério Saucedo (UFSM)

16h15min - Intervalo

16h30min - PALESTRA

Sobre o Potencial da Noção de Uso na Determinação do Significado
Prof. Dndo. Juliano do Carmo (PUCRS/UFPEL)

15.05.2012

09h00min - MINI-CURSO

Fundamentação da Ética do Discurso: Uma Reconstrução do debate entre K. O. Apel e Jürgen Habermas 1972 - 1998
Prof. Dr. Marcel Niquet (Goethe-University)

12h00min - Almoço

14h00min - PALESTRA

Wittgenstein´s remarks on Frazer´s ´The Golden Bough´: An anthropological hermeneutics of ´strange´ forms of life?
Prof. Dr. Marcel Niquet (Goethe-University)

15h15min - PALESTRA

A Bipolaridade Essencial da Proposição no Tractatus Logico-Philosophicus
Profª. Dra. Sílvia Altmann (UFRGS)

16h30min - PALESTRA

Sobre a Distinção Dizer-Mostrar no Tractatus Logico-Philosophicus
Profª. Dra. Janyne Sattler (UFSC)

17h30min - ENCERRAMENTO

16.05.2012

09h00min - MINI-CURSO

Fundamentação da Ética do Discurso: Uma Reconstrução do debate entre K. O. Apel e Jürgen Habermas 1972 - 1998
Prof. Dr. Marcel Niquet (Goethe-University)

14h00min - MINI-CURSO

Fundamentação da Ética do Discurso: Uma Reconstrução do debate entre K. O. Apel e Jürgen Habermas 1972 - 1998
Prof. Dr. Marcel Niquet (Goethe-University)

17.05.2012

09h00min - MINI-CURSO

Fundamentação da Ética do Discurso: Uma Reconstrução do debate entre K. O. Apel e Jürgen Habermas 1972 - 1998
Prof. Dr. Marcel Niquet (Goethe-University)

PUCRS - Campus Central

terça-feira, 21 de junho de 2011

O paradoxo de Kripkenstein


Temos algumas intuições sobre as relações entre significado, compreensão, regras e verdade. Parece que o significado é normativo no seguinte sentido: se usamos uma expressão lingüística com um determinado significado, então alguns usos dessa expressão estão de acordo com esse significado e os demais estão em desacordo. É como se o significado fosse constituído por uma regra ou regras que determinam o uso correto da expressão. Compreender a expressão, nesse caso, parece implicar saber quais são essas regras. O uso correto parece, então, ser uma conseqüência desse conhecimento. No caso de um predicado, o uso correto da expressão parece ser aquele em que o usamos para dizer verdadeiramente que algo possui ou não a propriedade que ele expressa/representa. Se "tigre", por exemplo, significa tigre, então o uso primitivo correto desse predicado é o uso em que dizemos de tigres que são tigres e do que não são tigres que não são tigres. O significado de "tigre" parece determinar esses usos como corretos. E essa determinação parece ser objetiva na medida em que ela se dá independentemente da nossa vontade e do nosso conhecimento: não importa o quanto queiramos, dizer que um leopardo é um tigre (por desconhecimento) é algo que está simplesmente em desacordo com o significado usual de "tigre".

Saul Kripke, em um famoso livro sobre as reflexões de Wittgenstein sobre seguir regras[1], apresenta um paradoxo cético sobre as regras e o significado. Ele expressa dúvidas sobre se o paradoxo é mesmo de Wittgenstein. Mas ele chama atenção para o fato de ele ser importante, não importando quem o formulou originalmente. Kripke tampouco subscreve as idéias que ele expõe. Por isso, alguns comentadores forjaram o nome "Kripkenstein", para designar Wittgenstein, tal como lido por Kripke, como o autor do paradoxo, quer esse seja o Wittgenstein real, quer não seja. O próprio Kripke nunca apresentou uma solução de sua autoria para o paradoxo.


O paradoxo cético

O paradoxo é formulado inicialmente tendo como exemplo a linguagem elementar da aritmética. Mas os seus resultados podem ser generalizados para qualquer linguagem. O primeiro passo na apresentação do paradoxo consiste em chamar atenção para o fato que para toda pessoa, há o maior número com a qual ela realizou uma adição. Números maiores que esse são números com as quais ela nunca realizou adições. Essas adições nunca realizadas são ocasiões de uso dos numerais e do sinal de adição que nunca se apresentaram antes ao usuário da linguagem aritmética. Suponhamos que uma criança tenha realizado somas apenas com números menores que 57 e seu professor, no processo de ensinar adição, apresente o seguinte problema:

68+57=?

Qual seria a resposta correta? Naturalmente, responderíamos "125". E essa resposta, como Kripke chama atenção, parece correta tanto do ponto de vista metalinguístico quanto do ponto de vista aritmético. Ela tanto é o resultado de se usar "+" de acordo com o seu significado usual quanto é o resultado correto de se adicionar 68 a 57. O paradoxo cético é formulado para desafiar nossas intuições metalingüísticas. O desafio começa com a simples pergunta: como a criança sabe que, de acordo com o significado usual de "+", "125" é a resposta correta ao problema "68+57=?"? Esse problema nunca apareceu nas lições de aritmética que ela recebeu do professor. Portanto, como ela sabe que o que ela aprendeu (o significado de "+") determina essa resposta como a correta? Para que essa dúvida se torne racional, não-gratuita, Kripke introduz uma, digamos, possibilidade cética. Seja a função quadição, cujo sinal é "⊕", a seguinte função:

x⊕y=x+y, se x,y<57
x⊕y=5 em qualquer outro caso

Essa definição deixa claro que os resultados da adição e da quadição são os mesmos quando essas funções são aplicadas a números menores que 57. Eles divergem apenas quando aplicados a 57 ou números maiores que 57. Por isso, todos os usos passados da linguagem aritmética por parte da criança são compatíveis tanto com o fato de ela ter usado "+" para significar a adição quanto com o fato de ela ter usado "+" para significar a quadição. Logo, os seus usos passados não constituem o fato de ela ter usado "+" para significar a adição. Mas, então, que fato é esse? O que deveríamos dizer à criança que respondesse "5" ao problema aritmético acima e justificasse sua resposta dizendo que ela está de acordo com a função ensinada pelo professor, a saber, a quadição?

Alguém poderia pensar que se deveria responder essa criança dizendo que ela, ao responder "5", não fez o mesmo que vinha fazendo quando realizava operações com números menores que 57. Mas o apelo à identidade aqui é inútil, pois o que determina que ela continuou ou não fazendo o mesmo é a regra que ela estava seguindo. Se ela estava seguindo a regra da quadição, então ela continuou fazendo o mesmo.

Mas não bastaria explicar melhor a regra que estava sendo ensinada para corrigir essa interpretação bizarra que a criança faz da explicação inicial e "+"? Mas assim como ela deu uma interpretação bizarra da primeira explicação, ela pode dar uma interpretação bizarra para a segunda. E se uma terceira explicação for oferecida para corrigir a interpretação bizarra da segunda, está terceira também pode receber uma interpretação bizarra. E assim por diante, ad infinitum. O que parece que se deveria oferecer para parar esse regresso ao infinito de explicações é uma explicação que não pudesse ser interpretada de modo bizarro. E esta explicação parece ser a apresentação do fato que o professor significou adição por meio de "+".

Deve-se notar que o desafia cético foi inicialmente formulada em termos epistêmicos: como a criança sabe que, de acordo com o significado usual de "+", "125" é a resposta correta ao problema "68+57=?"? Mas o problema não é epistêmico, e sim metafísico. Trata-se de uma pergunta sobre se há e o que é o fato de a criança significar adição por "+", ou seja, sobre se há e quais são as condições necessárias e suficientes para que a criança tenha significado adição por meio de "+". A pergunta pode, inicialmente, ser formulada em termos epistêmicos por causa da relação entre esse fato e o conhecimento metalingüístico. Para se saber que ela significou adição por meio de "+" deve ser um fato que ela significou adição por meio de "+" e deve-se conhecer esse fato. O desafio cético consiste em perguntar que fato é esse. E vencer esse desafio consiste em descrever de modo não trivial esse fato. Se não há nenhum fato que constitui o significar adição por meio de "+", então ninguém sabe que a criança (ou qualquer pessoa) significou adição por meio de "+", nem que ela não significou adição por meio de "+". Chamemos esse tipo de fato de fato semântico. Para ser um fato semântico, um fato tem de satisfazer duas condições: devem ser normativos (devem determinar usos corretos de um expressão) e seu conhecimento deve justificar os usos de uma expressão.

Os principais candidatos a fato semântico são: os usos passados da expressão lingüística, intenções e disposições. Kripke também examina uma tentativa de se responder ao cético que se baseia na idéia de explicação pela melhor hipótese. Ele por fim examina brevemente a concepção platonista do significado. Todos esses candidatos são descartados, por diferentes razões.

O fato de que a criança significou adição por meio de "+" deve ser diferente do fato que significou quadição por meio dessa expressão. Como vimos, é por isso que os usos passados não podem constituir esse fato, pois eles são compatíveis com o fato de ela ter significado quadição.

A intenção parece mais promissora que os usos passados porque ela parece como que antecipar a realidade e, por isso, transcender os usos passados. Quando tenho a intenção de abrir a porta, o conteúdo dessa intenção determina o que deve ser feito para que a intenção se realize. Parece então que o fato de a criança ter significado adição é o fato de ela ter intencionado usar "+" de acordo com a função adição. Esse fato, em primeiro lugar, não pode conter a intenção  de realizar todos os usos possíveis de "+", pois estes são infinitos e o conteúdo de uma intenção deve ser finito. Por outro lado, ter a intenção de usar "+" de acordo com a função adição é ter a intenção de significar adição. A intenção de significar adição, em vez de quadição, não pode solucionar o problema, pois ela justamente supõe que há algo como o estado de coisas que estamos chamando significar adição. Ninguém pode ter a intenção de que o estado de coisas E se realize se E não é estado de coisas algum. Em vez de solucionar o problema, o apelo à intenção supõe que o problema está resolvido.

As disposições parecem superar a finitude dos usos passados no seguinte sentido: enquanto os usos passados e as intenções parecem determinar apenas um número finito de usos de "+", uma disposição parece poder determinar um número infinito de usos. A significação seria, pois, a disposição para dar as respostas corretas aos infinitos problemas e adição. Dessa forma, mesmo que um certo problema de adição nunca tenha sido enfrentado, a disposição pode determinar o uso correto de "+" nesse problema. Há três problemas enfrentados por essa resposta. Embora elas determinem mais usos do que aqueles realmente feitos ou conhecidos, disposições de fato não determinam um número infinito de usos de "+". Além disso, as descrições das disposições não são normativas. Do fato que alguém tem a disposição para usar uma expressão de uma certa forma não se segue que ela deva ser usada dessa forma. Por fim, prece que nós por vezes desenvolvemos disposições para cometer erros sistemáticos ao tentar seguir uma determinada regra. Mas, de acordo com o disposicionalismo semântico, estes não seriam erros, mas apenas usos da expressão de acordo com outra regra. Sendo assim, essa teoria não acomoda a intuição de que podemos cometer erros sistemáticos tentando seguir uma determinada regra.

Uma explicação pela melhor hipótese não poderia ser útil aqui porque, tal como o apelo a intenção, essa resposta supõe como explicado o que se quer explicar. Estará explicado o que é formular hipóteses sobre qual fato semântico ocorre se já estiver explicado o que é um fato semântico.

Uma teoria platonista do significado, como a de Frege, que diz que os significados (os sentidos, na terminologia de Frege) são entidades abstratas que são captadas pelos atos psicológicos de pensar e determinam objetivamente o que está de acordo com esse significado, não seria de ajuda aqui, pois o que se quer explicar é justamente o que é o ato de captar a função de adição (de significar adição), por oposição a captar a função de quadição (significar quadição).

Podemos apresentar o argumento cético resumidamente do seguinte modo:
(1) Se há o fato de que S significou adição por meio de "+", então ou eles são os usos passados que S fez de "+", ou a intenção de S de significar adição por meio de "+", ou é a disposição de S para dar as respostas corretas aos problemas de adição, ou é o fato descrito pela explicação que apela para a melhor hipótese sobre o que S significou, ou é o fato que S capta a função (uma entidade abstrata) adição.
(2) O fato de que S significou adição por meio de "+" não é nem os usos passados que S fez de "+", nem a intenção de S de significar adição por meio de "+", nem é a disposição de S para dar as respostas corretas aos problemas de adição, nem é o fato descrito pela explicação que apela para a melhor hipótese sobre o que S significou, nem é o fato que S capta a função (uma entidade abstrata) adição.
(3) Logo, não há o fato de que S significou adição por meio de "+".
Generalizando esta conclusão para qualquer expressão linguística, obtemos o paradoxo cético, que consiste em concluir (C):
(C) Não há fatos semânticos.
Essa conclusão parece ter um corolário:
(A) As palavras da nossa linguagem não têm significado, são como balbucios ininteligíveis.
E é por isso que a conclusão do argumento cético, (C), parece paradoxal. (A) é evidentemente absurda (insane, diz Kripke). Se nossas palavras não têm significado, então são ininteligíveis. Se (A) é verdadeira, portanto, tão (A) é ininteligível.

A solução cética

A solução cética desse paradoxo, oferecida por Kripkenstein consiste em aceitar (C) e mostrar que (A) não se segue de (C). Ela é uma solução cética justamente porque parte da aceitação da conclusão cética. Todas as demais tentativas de solução, por meio dos diversos candidatos a fato semântico, são tentativas de se dar uma solução direta ao paradoxo.

O que está em questão, segundo a solução cética, é o modo de explicação do significado de enunciados semânticos da forma "S significa X por meio de 'X'" (onde S é o sujeito que usa a expressão "X") e enunciados normativos da forma "S age corretamente ao usar a expressão 'X'". O paradoxo cético é formulado, segundo Kripke, sob a suposição que tal explicação deveria ser dada em termos de condições de verdade, isto é, condições necessárias e suficientes para S significar X por meio de "X". A satisfação de tais condições seria o fato semântico. Se não há condições necessárias e suficientes para os enunciados semânticos, então isso significa que não há fatos semânticos. Essa teoria do significado teria sido defendida por Wittgenstein no Tractatus. Nas Investigações Filosóficas, Wittgenstein teria substituído essa teoria por uma teoria das condições de asserção justificada. De acordo com essa teoria, o significado de um enunciado é determinado por condições em que sua asserção é justificada e pelo papel que a prática de asseri-los desempenha na nossa forma de vida comunitária.

Nossa comunidade tem práticas de usar expressões lingüísticas. Quando usamos enunciados semânticos da forma "S significa X por meio de 'X'" e enunciados normativos da forma "S age corretamente ao usar a expressão 'X'", o fazemos para reconhecer S, o sujeito de nossas atribuições, como alguém competente na prática de usar "X" e, assim, como um membro da nossa comunidade. Esse reconhecimento da nossa comunidade se dá depois que S passa em suficientes testes para a sua competência. S passa nos testes justamente se a comunidade está inclinada a concordar com o seu uso de "X", não porque a comunidade constata que as condições necessárias e suficientes para que os enunciados semânticos e normativos sejam verdadeiros foram satisfeitas. Dessa forma, nossas expressões têm significado na medida em que nossos enunciados semânticos e normativos têm condições de asserção justificada. Portanto, (A) é falsa, embora (C) seja verdadeira.

Não se deve pensar as condições de asserção justificada, segundo Kripkenstein, em termos das condições de verdade. Fazer isso seria pensar que "S significa X por meio de 'X'" significa o mesmo que (tem como condição necessária e suficiente) "A comunidade concorda que S significa X por meio de 'X'". Ou seja, isso seria trocar condições de verdade individualistas por condições de verdade comunitaristas.

Essa solução do paradoxo cético, segundo Kripke, e ai está uma das grandes novidades do seu livro, tem como corolário a exclusão da possibilidade de uma linguagem privada, isto é, uma linguagem que apenas o seu usuário pode compreender. Isso ocorre porque as condições de asserção justificada são comunitárias e isso tem como conseqüência que a linguagem é essencialmente social. Uma linguagem privada é essencialmente não-social. Logo, ela é impossível. Normalmente se pensa que o assim chamado argumento da linguagem privada, ou seja, o argumento contra a tese de que nossa linguagem fenomênica é privada (e, de resto, toda a nossa linguagem, se ela fosse redutível à linguagem fenomênica), localiza-se numa parte das Investigações (§§243-315) posterior às reflexões sobre seguir uma regra (§§142-242), porque ela introduz novas premissas, sem as quais aquela tese não pode ser refutada.

Há uma grande controvérsia sobre a correção exegética do livro de Kripke. Um dos principais pontos dessa controvérsia é se, para Wittgenstein, a linguagem era mesmo essencialmente social. Há quem discorde, como P.M.S Hacker, o primeiro Gordon P. Baker (que no final da vida começou a revisar sua primeira interpretação de Wittgenstein) e eu mesmo. Entre os que concordam com Kripke está Norman Malcolm, que era aluno de Wittgenstein.[2]

Seja como for, em meio à discussão da solução cética, surgiu a questão sobre se um sujeito desde sempre fisicamente isolado (um Crusoé inato) poderia criar uma linguagem. Essa é a questão sobre a possibilidade de uma linguagem solitária, distinta da questão sobre a possibilidade de uma linguagem privada. Elas são distintas, mesmo que Kripke esteja certo ao pensar que e a última questão possa ser respondida com uma resposta à primeira.

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[1] Kripke, S. (1982) Wittgenstein on Rules and Private Language. Oxford: Blackwell.

[2] Ver esp. Baker, G.P. & Hacker, P.M.S. (1992) Wittgenstein: Rules, Grammar and Necessity. vol. 2 of an Analytical Commentary on the Philosophical Investigations. Oxford: Blackwell; Baker, G.P. & Hacker, P.M.S. (1984). Scepticism, Rules and Language. Oxford: Blackwell. Hacker, P.M.S.;(1990) Wittgenstein: Meaning and Mind. Vol. 3 de An Analytical Commentary on Wittgenstein’s Philosophical Investigations. Oxford: Basil Blackwell. Malcolm, N. (1989). "Wittgenstein on Language and Rules". Philosophy, 64 pp. 5-28; Machado, A.N. (2007) Lógica e Forma de Vida. São Leopoldo: Editora Unisinos.

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Leituras

Kripke, S. Wittgenstein on Rules and Private Language
Wittgenstein on Rules and Private Language Ultimate Homepage
Private Language (Stanford Encyclopedia of Philosophy)
Ludwig Wittgenstein (Stanford Encyclopedia of Philosophy)
Ludwig Wittgenstein (Internet Encyclopedia of Philosophy)