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terça-feira, 1 de dezembro de 2015

Criticar o senso comum tornou-se... senso comum!

Quando somos introduzidos à filosofia, nossos professores geralmente repetem incansavelmente que ser filósofo é, entre outras coisas, ser crítico. Algumas vezes se explica corretamente o que é ser crítico e nenhum grande problema nasce dessa promoção do espírito crítico. Mas, com muita frequência, se usa "crítico" como sinônimo de "contestador". Pior: com a mesma frequência, se identifica o senso comum - aquele conjunto de crenças pré-teóricas compartilhadas (ao que parece) acriticamente pela maioria das pessoas - como o saco de pancadas dessa contestação. "Ser crítico", então, vira sinônimo de "ser contestador do senso comum", de tal forma que dizer "Isso é senso comum" se torna quase que uma espécie de xingamento intelectual, querendo dizer mais ou menos que quem expressa uma crença do senso comum carece flagrantemente de espírito crítico. Normalmente, os defeitos do senso comum são exemplificados rapidamente por meio de um ou dois casos e já se passa imediatamente a exortar os alunos a fugir dele como o diabo foge da cruz. Essa visão está tão difundida e é absorvida de forma tão fácil e rápida pelos alunos que já se tornou... senso comum! Sim, essa visão do espírito crítico e do senso comum tornou-se incoerente, porque ela é transmitida exatamente do modo como, de acordo com ela, o senso comum transmite suas crenças: sem a devida crítica.

Mas o que é ser crítico? Qual a diferença entre ser crítico e ser contestador? O que é senso comum? Em um texto antigo, eu abordei as duas primeiras perguntas. O resumo do que disse naquele texto e ainda subscrevo é que, em primeiro lugar, a palavra "crítica" é ambígua. No seu sentido original ela não é sinônima de "contestação", embora tenha adquirido esse uso, de tal forma que agora raramente se usa o verbo "criticar" em um sentido diferente de "contestar". Mas é esse sentido original que nos interessa, em especial porque ele é negligenciado por aqueles que exortam os alunos a criticarem o senso comum. A incoerência desses detratores do senso comum começa ai: pela falta de uma análise crítica da natureza da crítica, começando pelo negligência com essa ambiguidade que mencionei. No sentido original, ser crítico, fazer uma crítica é fazer um exame, ou análise, ou avaliação criteriosa, baseada nos melhores critérios cognitivos disponíveis. No caso das crenças, ser crítico em relação a elas é perguntar-se sobre o que as justifica, caso haja alguma razão para colocá-las em dúvida (mais sobre esse último ponto adiante). Nesse sentido, posso muito bem ser crítico em relação a uma crença do senso comum e chegar a conclusão que ela é devidamente justificada. Ou seja, ser crítico em relação a ela não implica contestá-la, não implica tomá-la como falsa. Kant usou "crítica" nesse sentido no título da sua obra mais célebre, a Crítica da Razão Pura. Nesse sentido é que também usamos para falar de críticos de arte e de seus textos, suas críticas. Algumas delas são negativas, outras positivas. Ser crítico, portanto, não é o mesmo que ser revolucionário ou liberal. Um conservador pode ter uma relação crítica com a tradição moral, estética e intelectual que ele quer conservar.

Sim, muitas crenças do senso comum são aceitas sem a devida crítica, ou seja, sem que se pergunte pela justificação para essas crenças. Mas disso não se segue que essas crenças sejam falsas.[1] Entretanto, um ponto que eu quero destacar sobre o senso comum é que ele não difere da ciência em um aspecto: a maior parte de suas crenças é verdadeira. O que ocorre com a avaliação do senso comum por parte dos seus detratores é análogo ao que ocorre com a avaliação que alguns leigos fazem da meteorologia: eles tendem a focar sua avaliação nos erros das previsões meteorológicas, sendo que na maior parte dos casos elas estão corretas, dentro da margem de erro com que operam. Todos (ou a maioria esmagadora de) nós acreditamos que vivemos no planeta terra, que o dia tem 24h, que o astro mais brilhante no céu durante o dia é o Sol, que não podemos respirar embaixo d'água sem equipamentos especiais, que não podemos voar sem o auxílio de algum artificio, que não somos imortais, que sementes germinam quando jogadas no solo fértil e irrigadas, que a chuva é água que cai do céu, que um corpo não podem estar em dois lugares ao mesmo tempo, que o fogo queima, etc. A lista pode se estender indefinidamente, incluindo também crenças morais, psicológicas e sociais adquiridas por meio da experiência de gerações.

Outro ponto importante sobre o senso comum é sua relação com a ciência. A ciência pode muito bem nos fazer revisar nossas crenças do senso comum. Um exemplo que considero claro é a crença de que o espaço ocupado por uma pedra, por exemplo, é mais preenchido por matéria do que vazio. Mas se a matéria é feita de átomos e o espaço ocupado pelos átomos é mais vazio do que preenchido, então o espaço ocupado por uma pedra é mais vazio do que preenchido. Outro exemplo é a crença de que o todo é sempre maior que as partes. Um contra-exemplo dessa crença é o tamanho do conjunto dos números naturais e o tamanho da sua metade, o conjunto dos números naturais pares: ambos têm infinitos elementos. Mas tais revisões não podem ser globais, mas apenas locais. As crenças do senso comum não podem ser maciçamente falsas, pois a ciência começa a partir do senso comum, de tal forma que, se ele estiver maciçamente enganado, então a ciência feita a partir dele não pode estar certa. Descobertas científicas podem nos fazer substituir os conceitos do senso comum por outros. Mas se essas descobertas foram feitas usando-se os conceitos do senso comum, então esse não pode ser um uso maciçamente errado. Por exemplo: para vários propósitos, substituímos o conceito de água do senso comum por outro, cujo critério é molecular, pois se descobriu que a maior parte do que se chamava (corretamente) de água pelos critérios do senso comum é constituído de H2O. Essa descoberta, portanto, se baseia num uso correto do conceito de água do senso comum. O erro maciço implica incompetência no uso do conceito e isso, por sua vez, implica que o conceito não foi sequer adquirido.[2]

Um último e importante ponto sobre o senso comum diz respeito a quem tem o ônus da prova, no caso de dúvidas sobre as crenças do senso comum. (Abordei esse ponto a partir de outro ângulo em outro texto.) Boa parte do senso comum é constituído de crenças básicas, aquelas nas quais suas demais crenças estão baseadas, de tal forma que se tais crenças básicas forem falsas, as demais também são. Isso explica ao menos em parte a inclinação do senso comum para ter tais crenças básicas: revisá-las implica fazer uma grande mudança no nosso sistema de crenças. Por conseguinte, quem quer que duvide da verdade dessas crenças está com o ônus de apresentar uma razão para tal. Dúvidas gratuitas, sem base em quaisquer razões podem, de fato, ser dirigidas arbitrariamente a quaisquer crenças. Mas duvidar é a expressão de um espírito crítico somente se essa dúvida for racional, se for motivada por razões.

Senso é aquilo que está ligado ao que se costuma chamar de bom senso, que se opõe a contra-senso. Senso comum é apenas o bom senso compartilhado. E sensata é a pessoa que possui bom senso. Senso comum é aquele conjunto de crenças que são paradigmas do bom senso. Esse conjunto não possui fronteiras precisas e é mutável. Mas isso não retira a sua importância.

O melhor seria cultivar o espírito crítico sem eleger um saco de pancadas. O espirito crítico é uma forma de lidar com nossas crenças, não uma revolta contra um certo grupo delas. Vista de mais perto, essa revolta se assemelha muito a um elitismo intelectual.


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[1] Não se segue nem mesmo que não sejam justificadas, se considerarmos o externalismo (ou externismo) sobre a justificação.

[2] Defendo esse ponto no artigo "Conhecimento, Verdade e Significado".

terça-feira, 16 de junho de 2009

Razões para duvidar e o ônus da prova

Quando filosofamos, temos que começar de algum ponto. Temos que iniciar a nossas investigações filosóficas a partir de algumas afirmações que tomamos como verdadeiras. --- Ou isso não é necessário? Podemos iniciar o filosofar duvidando de tudo? -- Se a dúvida for gratuita, baseada em nada, então sim, podemos. Podemos duvidar gratuitamente da existência do mundo exterior, das afirmações matemáticas e até dos princípios lógicos. Ocorre que tais dúvidas gratuitas dificilmente poderiam ser o início do filosofar. Seria mais adequado chamar isso de o início do enlouquecer. Os hospitais psiquiátricos estão cheios de gente que tem essas dúvidas gratuitas. --- É claro que se queremos duvidar de forma racional, não podemos duvidar daquelas condições mínimas da racionalidade. E a filosofia não deveria ter um início racional, mesmo que dubitante? Não podemos iniciar o filosofar duvidando que a filosofia deve ter um início racional, exceto se essa dúvida for gratuita, pois se, no início do filosofar, oferecermos razões para duvidar que a filosofia deveria ter um início racional, estamos iniciando o filosofar racionalmente e, por isso, estamos fazendo exatamente aquilo que duvidamos que deveríamos fazer. Se resolvemos iniciar o filosofar de modo irracional, então essa decisão não pode ser racional, baseada em razões. Portanto, mesmo que queiramos iniciar o filosofar de modo dubitante, se esse início for racional, nele não podemos duvidar das condições mínimas da racionalidade. Mas quais são essas condições? --- No curso da argumentação anterior, o princípio de não-contradição foi suposto. No início da investigação filosófica ele se apresenta com uma característica importante: ele é intuitivo para a maioria de nós, ou seja, para a maioria de nós ele parece verdadeiro à primeira vista (e é mesmo difícil conceber a possibilidade de que seja falso). --- Mas às vezes o que é intuitivo não se revela falso? --- Sim, isso às vezes acontece. Mas se devemos começar tomando algo como verdadeiro, o que devemos fazer? Devemos tomar como verdadeiro o que parece falso à maioria de nós? Devemos começar pelo contra-intuitivo? --- Bem - talvez se pense - não necessariamente pelo contra-intuitivo, mas pelo que está bem justificado. --- Mas como podemos saber que algo está bem justificado? Não vamos ter que ter razões para isso? E essas razões vão ser o que, se não forem o que nos parece verdadeiro à primeira vista? É claro que isso que nos parece verdadeiro à primeira vista, o que nos é intuitivo, pode se revelar falso no decorrer de nossa investigação. Mas se temos que começar de algum lugar e esse lugar deve ser racional, então o que parece racional é começar pelo que nos parece verdadeiro à primeira vista. --- Mas e se alguém duvidar disso que nos é intuitivo? --- Bem, então essa pessoa terá o ônus da prova. Ou seja, aquele que acredita no que nos é intuitivo no início da investigação não tem a obrigação epistêmica de mostrar que isso que é intuitivo é de fato verdadeiro. Quem tem essa obrigação é aquele que duvida. Se sua dúvida não é gratuita, ele deve fornecer razões para duvidar. Não necessariamente razões para crer que o que é intuitivo é falso, mas no mínimo para crer que há uma boa chance, uma grande probabilidade, de que seja falso. E a simples possibilidade de podermos estar enganados não é por si só uma boa razão para duvidar, pois ninguém duvida que os prédios vão cair apenas porque é possível que os engenheiros tenham errado os cálculos estruturais. [1] --- Mas qual a razão para acreditar que a possibilidade de que estejamos enganados não é uma razão suficiente para duvidar? --- Essa pergunta, nesse contexto, já viola o princípio do ônus da prova. O que se deveria perguntar aqui é: qual a razão para se acreditar que a possibilidade de que estejamos enganados é uma razão suficiente para duvidar? E não nos esqueçamos que estamos falando aqui de razão para duvidar, pois se trata de uma dúvida racional. --- Mas é sempre fácil determinar quem tem o ônus da prova? --- Não, nem sempre é fácil e, em alguns casos, não é possível. Mas disso não se segue que em alguns casos paradigmáticos isso não possa ser feito.
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[1] Muito mais pode ser dito sobre essa possibilidade de estarmos enganados. Mas por economia deixo isso para outra ocasião. Mais sobre isso, ver meus "Nota sobre a Dúvida Cartesiana" e "Conhecimento, Verdade e Significado".