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quarta-feira, 7 de agosto de 2019

"Não pense, mas olhe!"


Nas Investigações Filosóficas, em meio à apresentação do conceito de semelhança de família por meio dos exemplos de jogos , Wittgenstein diz: "Não pense, mas olhe!" Essa frase famosa está entre uma das mais mal compreendidas daquele livro. Há três erros mais comuns na interpretação dessa frase. O primeiro consiste em atribuir a Wittgenstein a tese que, se queremos definir um termo examinando seus exemplos, devemos examinar apenas as suas propriedades evidentes, que podemos perceber apenas olhando. O segundo consiste em atribuir a Wittgenstein uma espécie de anti-intelectualismo, como se pudéssemos ter clareza sobre um significado de um termo apenas olhando para os exemplos aos quais o termo se aplica verdadeiramente, sem pensar. O terceiro consiste em atribuir a Wittgenstein a tese que os membros de uma extensão de um conceito de semelhança de família não possuem condições necessárias ou condições suficientes para pertencerem a essa extensão. Mas antes de ver por que esses são tremendos erros de interpretação, baseados em uma extrema falta de caridade interpretativa, vejamos o que Wittgenstein estava tentando explicar.

Nas secções 65-78, Wittgenstein está tentando mostrar que nem todos os conceitos são definíveis em termos de condições necessárias e suficientes que constituiriam uma essência geral. Mas ele não está fazendo isso por meio de exemplos costumeiros de conceitos vagos, como o conceito de calvice ou de pilha. O tipo de indeterminação conceitual para a qual que ele está chamando atenção é explicado por meio de uma analogia com as semelhanças físicas visíveis que os membro de uma família têm uns com os outros.

Alguns membros de uma família são semelhantes porque têm os olhos e a boca semelhantes, outros porque têm o nariz e boca semelhantes, outros porque têm os olhos e o nariz semelhantes, outros porque têm a boca e o cabelo semelhantes, etc. Em geral os membros de uma família não possuem todas as características físicas visíveis em comum. Mas eles se assemelham da forma recém descrita. Algo análogo acontece com os membros da extensão de certos conceitos, tal como conceito de jogo. Quando aprendemos o conceito de jogo, não aprendemos primeiramente uma definição em termos de condições necessárias e suficientes, as características comuns a todos os jogos e apenas a jogos. Aprendemos o conceito por meio de alguns exemplos paradigmáticos de jogos. Depois disso, reconhecemos outros exemplos de jogos por meio da sua "semelhança de família" com os já conhecidos. Mas Wittgenstein não está negando dogmaticamente que jogos não possuem uma essência expressável em uma definição em termos de condições necessárias e suficientes. Ele está tentando mostrar que a posse desse conceito não depende do conhecimento de uma tal definição ou do reconhecimento de que os membros da extensão do conceito satisfazem um conjunto de condições necessárias e suficientes. Essa posse depende apenas do conhecimento de exemplos paradigmáticos e do reconhecimento da semelhança entre esses exemplos e os demais casos.

Wittgenstein explica esse tipo de indeterminação conceitual também por meio de uma outra analogia: a unidade da extensão do conceito de jogo é constituída como as fibras de uma corda constituem a resistência da corda, não porque todas as fibras percorram todo o comprimento da corda, mas porque as primeiras se entrelaçam firmemente com as segundas, que se entrelaçam firmemente  com as terceiras, e assim por diante, até as últimas fibras. As características que tornam os jogos semelhantes são como as fibras das cordas.

É quando Wittgenstein está examinando os exemplos de jogos que ele escreve a famosa frase. Ele convida o leitor a examinar os exemplos de jogos para verificar por si mesmo se eles possuem um conjunto de características que todos os jogos possuem e apenas jogos possuem. Ele então adverte: "Não pense, mas olhe!" Nesse contexto, essa advertência serve para freiar uma certas tendências que temos em filosofia: a tendência a negligenciar o exame dos exemplos ou, quando os examinamos, a tendência a manter uma dieta unilateral de exemplos, onde aqueles que poderiam dificultar a defesa de uma certa tese são negligenciados. Por exemplo: a maioria daqueles que tentam definir jogos em termos de condições necessárias e suficientes, pensa em jogos em termos de uma atividade onde há adversários, onde um vence ou pode vencer e o outro perde ou pode perder. Estes negligenciam jogos como paciência, por exemplo, que se joga sozinho e não há nem ganhador, nem perdedor. Essa tendência é o que Wittgenstein tem em mente quando diz "Não pense". Ele quer dizer: não selecione exemplos com base em alguma definição prévia implícita de "jogo". Essa advertência, portanto, nada tem a ver com qualquer tipo de anti-intelectualismo. "Olhe", por sua vez, significa algo como: examine todos os tipos de exemplos.

A analogia com as características físicas visíveis dos membros de uma família não se baseia na negação de que os membros de uma família têm uma característica física comum que é necessária e suficiente para pertencer a essa família. Se se trata de uma família biológica, é claro que todos têm um ancestral em comum. E é claro que essa não é uma característica evidente, que se pode observar olhando os membros da família. Mas Wittgenstein nunca quis defender a tese de que as semelhanças entre os membros da extensão de um conceito de semelhança de família deveria ser constituída de características evidentes. Elas sequer necessitam ser intrínsecas e podem muito bem ser propriedades relacionais.

Por fim, Wittgenstein nunca quis negar que haja condições necessárias ou condições suficientes para que algo pertença à extensão de um conceito de semelhança de família. A diferença é sutil, mas importante. Wittgenstein questionava se havia um conjunto de condições individualmente necessárias & conjuntamente suficientes para que algo pertença à extensão de um conceito de semelhança de família. Uma condição necessária para ser um jogo é ser uma atividade, por exemplo. Mas essa não é uma condição suficiente. Uma condição suficiente para ser um jogo é ser xadrez, por exemplo. Mas essa não é uma condição necessária.


segunda-feira, 22 de março de 2010

Definições e condições necessárias e suficientes


Quando uma pergunta da forma "O que é ___?" é feita, uma das coisas que se pode querer com essa pergunta é uma definição, num certo sentido de "definição". Por exemplo: "O que é circunferência?" Uma resposta seria a seguinte definição: "Circunferência é uma figura fechada em que todos os pontos eqüidistam de um determinado ponto". Esse tipo de definição apresenta certas propriedades que, necessariamente, toda circunferência possui e que apenas circunferências possuem. Para algo ser uma circunferência, deve possuir essas propriedades e se algo possuir essas propriedades, não precisa possuir mais nenhuma outra para ser uma circunferência. Em outras palavras, essa definição apresenta as condições necessárias e suficientes para que algo seja uma circunferência.[1]

De modo geral, se A é uma condição necessária para que algo x seja F, então se x não for A, então x não é F e, necessariamente, se x for F, então x é A. Por outro lado, se B for uma condição suficiente para que algo x seja F, então se x for B, então x é F. Consequentemente, as seguintes inferências são válidas (embora não devido à sua forma) [2]:

(1) x é F.
(2) Portanto, x é A.

(3) x não é A.
(4) Portanto, x não é F.

(5) x é B.
(6) Portanto, x é F.

Nem toda condição necessária é suficiente e nem toda condição suficiente é necessária. Por exemplo: ter assento é uma condição necessária para que algo seja uma cadeira. Se algo não tiver assento, então não é uma cadeira. Mas não basta que algo tenha assento para que seja uma cadeira. Essa não é uma condição suficiente para que algo seja uma cadeira. Muitas outras coisas têm assento e não são cadeiras.

Agora suponhamos que exista um clube de subtenentes e sargentos do exército, cuja condição necessária para ser sócio seja ou ser subtenente do exército, ou ser sargento do exército. Se uma pessoas não for nem subtenente do exército, nem sargento do exército, essa pessoa não poderá ser sócia desse clube. Ser subtenente do exército é uma condição suficiente para uma pessoa ser sócia do clube. O mesmo vale para a propriedade de ser sargento do exército. Todavia, ser subtenente do exército não é uma condição necessária para que uma pessoa seja sócia do clube. Se ela for sargento do exército, como vimos, isso é suficiente. Por outro lado, ser sargento do exército tampouco é uma condição necessária para que uma pessoa seja sócia do clube. Se ela for subtenente, como vimos, isso é suficiente. Portanto, cada uma dessas propriedades, consideradas isoladamente, é uma condição suficiente, mas não necessária, para que uma pessoa seja sócia do clube. O que é uma condição necessária é ser, ou subtenente do exército, ou sargento do exército. Outro exemplo: ser o vermelho é uma condição suficiente para que algo seja uma cor, mas não é uma condição necessária. Nada necessita ser o vermelho, para ser uma cor.

Um terceiro exemplo: de acordo com a definição tradicional de "homem", no sentido de "ser humano", uma homem é um animal racional. Se essa definição está correta (e não precisamos decidir isso para entender o exemplo), então ser um animal e ser racional são condições individualmente necessárias e conjuntamente suficientes para que algo seja um ser humano. Nenhuma dessas condições é individualmente suficiente, ou seja, não basta ser animal para ser um ser humano, nem basta ser racional para ser um ser humano.

As noções de condições necessárias e suficientes estão tradicionalmente associadas ao que se costuma chamar de essência ou ser de alguma coisa. A definição de "homem" acima apresentaria a essência do ser humano, aquilo que faz com que algo seja um ser humano e não outra coisa, ou seja, o seu ser. De modo geral, a essência de X nada mais é do que as condições necessárias e suficientes para que algo seja X.

Parte do que se costuma chamar de método socrático de filosofar (o método usado por Sócrates) consiste em fazer perguntas da forma "O que é ___?" e dar contra-exemplos das definições oferecidas como respostas. Por exemplo: "O que é coragem?" Suponha que alguém responda a essa pergunta com a seguinte definição: coragem é a disposição para enfrentar qualquer perigo. Podemos facilmente encontrar um contra-exemplo dessa definição. Um soldado que tivesse a disposição para enfrentar sozinho um exército inimigo não é corajoso, mas temerário. Esse é um contra-exemplo daquela definição de "coragem", porque, embora esteja de acordo com a definição, não é um caso de coragem. Essa definição, portanto, é muito permissiva, pois permite chamar de coragem algo que não é coragem. Outro exemplo: "O que é jogo?" Suponha que alguém responda a essa pergunta com a seguinte definição: "Jogo é uma atividade divertida onde alguém ganha e alguém perde". Também é fácil encontrar um contra-exemplo dessa definição. Paciência é um jogo e nele ninguém ganha e ninguém perde.[3] Esse é um contra-exemplo daquela definição de "jogo", porque, embora esteja em desacordo com a definição, é um caso de jogo. Essa definição, portanto, muito restritiva, pois proíbe chamar de de jogo algo que, na verdade, é jogo. Uma definição adequada, portanto, nem pode ser muito restritiva, nem muito permissiva.

Mas devemos notar algo importante: se ainda não estamos de posse de uma definição de "F" e somos capazes de julgar se as definições propostas possuem ou não contra-exemplos, então somos capazes de identificar casos de coisas que não são F sem estar de posse de uma definição de "F". Mas como podemos fazer isso se não soubermos distinguir entre as coisas que são F e as coisas que não são F? Devemos saber, ao menos em casos paradigmáticos, reconhecer exemplos de coisas que são F e de coisas que não são F a fim de poder reconhecer contra-exemplos de uma definição de "F". Mas como podemos saber isso sem saber o que é F? Parece que, em algum sentido, devemos saber o que é F para sermos capazes de reconhecer exemplos de F e de não-F. Mas se devemos saber o que é F sem ter uma definição de "F", então saber o que é F não é o mesmo que estar de posse de uma definição de "F".

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* Agradeço ao meu amigo e colega Tiago Falkenbach por comentários à uma primeira versão desse texto.

[1] As condições necessárias e suficientes que constituem uma definição não podem ser triviais. Por exemplo: há uma condição necessária e suficiente trivial para que algo seja um jogo, a saber, ser um jogo. Mas "Jogo é jogo", obviamente, não é uma definição de "jogo".

[2] Alguém poderia pensar que essas inferências são entimemas, isto é, inferências com ao menos uma premissas oculta. Mas isso não é o caso, pois elas são válidas do jeito que estão. Devido ao seu conteúdo, não é possível que as premissas dessas inferências sejam verdadeiras e suas conclusões sejam falsas.

[3] Paciência se joga sozinho. Os termos "ganhador" e "perdedor" aplicam-se a quem compete e ninguém compete consigo mesmo jogando paciência.

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Leituras

Definitions (Stanford Encyclopedia of Philosophy)
Necessary and Sufficient Conditions (Stanford Encyclopedia of Philosophy)