Podemos mentir e dizer a verdade no mesmo ato lingüístico? Suponhamos que alguém coloque um documento numa certa gaveta e que outra pessoa, João, testemunhe isso. Depois disso, sem que João saiba, alguém retira o documento da gaveta. Outra pessoa, Pedro, pergunta a João se o tal documento está na referida gaveta e João pensa: vou mentir e dizer que ele não está na gaveta. E João diz isso. João está ou não está mentindo? Ele não está sendo sincero. Mas tampouco ele está dizendo algo falso.*
Suponhamos que tenhamos testemunhado todos os eventos acima, exceto a retirada do documento da gaveta. Além disso, suponhamos que João nos tenha dito que, embora soubesse que o documento está na gaveta, ele iria dizer que ele não estava lá. Obviamente, João está enganado ao pensar que sabe onde está o documento. Mas não sabemos disso. O que diríamos que ele iria fazer? É claro que diríamos que ele iria mentir. Mas suponhamos que, depois desses acontecimentos, descubramos que o documento, afinal, não estava na gaveta. O que diríamos? Que essa foi a descoberta que João não mentiu? Parece que tem algo de errado em se dizer isso. Mas também sentimos que há algo de errado em se dizer que alguém disse a verdade ao mentir. Por que? Porque na grande maioria dos casos em que queremos dizer uma falsidade, em que queremos mentir, dizemos algo falso. Mas, assim como podemos dizer algo falso quando somos sinceros, isto é, quando dizemos algo que esperamos que seja verdadeiro, com a intenção de informar, podemos dizer uma verdade quando mentimos, isto é, quando dizemos algo que esperamos que seja falso, com a intenção de enganar. A mentira, portanto, assim como a sinceridade, não exige nem conhecimento, nem verdade, mas apenas crença. Assim como quando juramos dizer a verdade em um tribunal, estamos jurando ser sinceros, quando juramos não dizer falsidades, estamos jurando não mentir. Ninguém nos acusa de sermos mentirosos apenas com base no fato de dizermos algo falso, assim como ninguém nos elogia por sermos sinceros apenas com base no fato de dizermos uma verdade. Em ambos os casos a intenção também conta. Somos sinceros mesmo quando dizemos algo falso querendo dizer algo verdadeiro, assim como somos mentirosos mesmo quando dizemos algo verdadeiro querendo dizer algo falso.
Em suma, mentir é o contrário da sinceridade, ou seja, é asserir a (ou fingir a asserção da) proposição contraditória da proposição acreditada. (Ver importante comentário de Eros de Carvalho.)
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* Uma versão desse exemplo me foi apresentado por Vitor Mauro Bragança em uma conversa sobre esse tema.
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segunda-feira, 26 de abril de 2010
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