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quinta-feira, 28 de junho de 2018

Clareza filosófica


Em um quarto escuro, com pouca iluminação, é difícil enxergar o que ele contém, se é que é possível. Se você acende uma luz nele, o torna claro e torna mais fácil ver o que ele contém. Se você guarda algo em um recipiente opaco, também é difícil ver o que ele contém, se é que é possível. Se você guarda a mesma coisa em um recipiente transparente, isso torna fácil vê-la nesse recipiente. A clareza e transparência dos pensamentos (entendidos aqui como o conteúdo de frases indicativas) são concebidas por meio dessa analogia com a clareza e transparência visuais. Trata-se de uma analgia porque os pensamentos não são objetos da visão. Não faz sentido dizer de um pensamento que ele está bem ou mal iluminado por uma luz física, ou que está contido em um recipiente físico transparente.

Mas o que, nos pensamentos, corresponderia à iluminação e transparência físicas? Pensamentos claros ou transparentes são aqueles que seus elementos e estrutura são facilmente identificáveis. E o que torna esses elementos e estrutura facilmente identificáveis é a expressão do pensamento, aquilo que o torna publicamente manifesto, tal como a fala ou a escrita, e o contexto em que o pensamento é expresso. A escolha de palavras e estruturas sintáticas, portanto, determina a clareza e transparência da expressão do pensamento. E essa escolha é guiada por vários critérios, sempre relativos ao público visado, ao contexto de enunciação, etc. Essa relatividade da clareza e transparência em relação ao contexto implica que uma expressão pode ser mais clara e transparente em certos contextos e menos clara e transparente em outros. Por exemplo: se os interlocutores dominam o simbolismo de um sistema de lógica formal, então eles podem usá-lo para expressar claramente a estrutura dos pensamentos. Mas o uso de tal simbolismo seria um empecilho para a clareza e transparência, se um dos interlocutores não o dominasse.

Os critérios da clareza, além de serem relativos ao contexto e ao público visado, não são algorítmicos, não têm aplicação mecânica. Mas há algumas diretrizes gerais que se pode formular para se tornar mais claro o que é a clareza. No nível do vocabulário, da escolha de palavras, a clareza é tanto maior quanto mais evitarmos palavras ambíguas, ou seja, palavras com mais de um significado. Evitar totalmente a ambiguidade é quase impossível, porque é muito raro que uma palavra não tenha mais de um significado. Além disso, o dano que a ambiguidade causa à clareza depende do contexto. Por maior que seja a quantidade de significados que uma palavra tenha, há contextos em que é claro com qual significado ela está sendo usada. Todavia, há contextos em que não é claro com qual dos seus possíveis significados uma palavra está sendo usada. Por isso, aquele que quer ser claro deve prestar atenção na ambiguidade das palavras e desambiguá-las sempre que perceber a probabilidade de mal-entendido por causa da ambiguidade. A ambiguidade não atinge apenas palavras, mas também frases completas. Muitas vezes a ambiguidade de uma frase se deve à sua estrutura. O uso cuidadoso de vírgulas e pontos às vezes é o que basta para tornar a estrutura da frase mais clara.[1] Frases muito longas tendem a tornar sua estrutura pouco clara (Kant é famoso pelo hábito de escrever frases gigantescas). Outra diretriz importante, já exemplificada pelo caso do simbolismo lógico, consiste em escolher o vocabulário mais conhecido pelo público visado. Alguns acreditam que uma maneira de embelezar um texto consiste em buscar no dicionário sinônimos pouco usados (tal como "missiva", que é sinônimo de "carta"), mas o que acabam por fazer é tornar o texto semelhante a uma fala do personagem de Jô Soares baseado no modo excessivamente empolado e um tanto arcaico de Jânio Quadros falar. Filosofia não é (embora não seja incompatível com) poesia. É claro que o ideal é escrever um texto belo e claro. Entretanto, entre beleza e clareza, em filosofia, a clareza tem prioridade. Por isso, é sempre melhor usar as palavras mais conhecidas pelo público visado.[2] Se for imprescindível usar um termo que o público visado desconhece, então deve-se explicar o significado desse termo. Essa explicação, claro, deve ser feita por meio do uso de palavras conhecidas pelo público visado, caso contrário se explicará o obscuro por meio do pouco claro.

A clareza e transparência dos pensamentos também devem ser buscadas na expressão de raciocínios. De nada adianta indicar claramente a conclusão de um raciocínio, se suas premissas não estão claramente indicadas. Isso torna difícil identificar a justificação oferecida para essa conclusão e, portanto, torna difícil avaliar criticamente essa justificação.

Pensamentos claramente expressos são mais facilmente apreendidos e isso facilita a comunicação e a avaliação crítica desses pensamentos. Se um pensamento não é claramente expresso, então isso torna difícil identificá-lo e, portanto, difícil avaliá-lo criticamente. A falta de preocupação com a clareza, por isso, envolve uma falta de preocupação em facilitar a comunicação e a avaliação crítica dos pensamentos expressos. É claro que a intenção que uma pessoa tem de ser clara não garante, por si só, que ela seja bem sucedida. Mas, pelas razões já apresentadas, pior que querer ser claro e não conseguir é não ter preocupação com a clareza. Não ter preocupação com a clareza é contribuir com o obscurantismo.

Até aqui algo sobre a clareza foi implicitamente admitido: ela admite graus, ou seja, pode-se ser mais ou menos claro, mais ou menos obscuro. Existe uma falácia muito difundida sobre a clareza que é um caso especial de uma falácia sobre propriedades que admitem graus em geral: dado que não podemos atingir o grau máximo da clareza, pois sempre resta algum grau de obscuridade, então a busca por clareza é uma tarefa fútil. Esse raciocínio seria tão sensato quanto este: dado que não podemos atingir o grau máximo de racionalidade, pois resta sempre algum grau de irracionalidade, então a busca por racionalidade é fútil. Como se um elevado grau de racionalidade, embora não o máximo, pudesse ser pior que grau nenhum! Uma tal tese implausível está, no mínimo, carente de um bom argumento. Argumento? Mas procurar argumentos para teses não é procurar racionalidade?

A claridade filosófica depende da claridade da expressão de pensamentos e raciocínios. A claridade filosófica é o estado visado no enfrentamento de problemas filosóficos, que são sintomas da falta de clareza reflexiva dos nossos conceitos e crenças fundamentais. Na reflexão filosófica, visamos tornar a estrutura do nosso sistema conceitual e doxástico (ou seja, de crenças) clara, a fim de resolver ou dissolver os problemas filosóficos.[3] Trata-se de identificar os elementos desse sistema e suas relações, cuja visão é embaçada pelos problemas filosóficos.


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[1] Há uma piada bem conhecida sobre a ambiguidade estrutural de uma frase. Soldados perguntaram por telégrafo ao seu superior o que deveriam fazer com um prisioneiro que vigiavam: "Soltar? Ou matar?" O superior então responde: "Soltar não matar". Os soldados mataram o prisioneiro, porque interpretaram a frase assim: "Soltar não, matar". Mas o que o superior quis dizer foi: "Soltar, não matar".

[2] Nos texto desse blog eu procuro evitar ao máximo usar termos técnicos, porque o público visado inclui pessoas interessadas em filosofia que tenham pouco conhecimento sobre o assunto.

[3] Um problema filosófico é respondido quando se oferece uma resposta para ele. Um problema filosófico e dissolvido quando se mostrar que ele estava baseado em algum tipo de erro, seja uma falsidade, seja um contra-senso.



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