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quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

Conhecimento e a exclusão do engano

Paul Robeson como Otelo e Peggy Ashcroft
como Desdêmona (Londres, 1930)
É mais do que óbvio que o conhecimento e o engano são incompatíveis, de tal forma que não é possível que eu saiba que p e esteja enganado ao crer que p (onde estar enganado ao crer que p é crer que p e ser o caso que não-p). Mas há uma maneira enganadora de expressar esse ponto. Trata-se de dizer que se sei que p, não posso estar enganado ao crer que p. Esse modo de expressão é enganador por causa do deslocamento do escopo do operador modal. Na frase
(1) Necessariamente, se sei que p, não estou enganado ao crer que p
O escopo do operador modal "Necessariamente" é o condicional "se sei que p, não estou enganado ao crer que p". É o condicional como um todo que está sendo dito ser necessário.

Isso é bem diferente no caso de interpretarmos literalmente a frase
(2) Se sei que p, necessariamente não estou enganado ao crer que p
ou a sua forma equivalente mais usual
(3) Se sei que p, não posso estar enganado ao crer que p
Nesse caso, o escopo do operador modal é o consequente da condicional. É o consequente do condicional que se está dizendo ser necessário. Formalmente, se interpretadas literalmente, as frases (1)-(3) pode ser expressa assim (onde Nec=necessariamente e Pos=possivelmente):
(1') Nec(P -> ~Q)
(2') P -> Nec(~Q)
(3') P -> ~Pos(Q)
Podemos usar a frase (2) ou (3) para dizer o que é dito mais claramente com a frase (1). Fazemos isso algumas vezes. Mas isso requer não interpretar (2) e (3) literalmente. Seja como for, se forem interpretadas dessa forma não literal, (2) e (3) parecem estar dizendo algo tão verdadeiro quanto (1), pois estarão dizendo a mesma coisa. Nesse caso, (2') e (3') não serão a formalização correta de (2) e (3). A formalização correta dessas frases é a mesma de (1), a saber (1').

A pergunta importante agora é, interpretadas literalmente e formalizadas por meio de (2') e (3'), (2) e (3) são verdadeiras? Uma das consequências de (2 e (3), assim interpretadas, é que para qualquer proposição, se for possível que eu esteja enganado quando alego saber que ela é verdadeira, então eu não sei que ela é verdadeira, pois se é possível que eu esteja enganado ao crer (ou saber) que p, então não necessariamente não estou enganado ao crer que p. O argumento para mostrar que não sei que p, então, seria:
(4) Se sei que p, então necesseriamente não estou enganado ao crer que p.
(5) Se é possível que eu esteja enganado ao crer que p, então não necessariamente não estou enganado ao crer que p.
(6) É possível que eu esteja enganado ao crer que p.
(7) Logo, não necessariamente não estou enganado ao crer que p. [de (5) e (6), por modus ponens]
(8) Logo, não sei que p. [de (4) e (7), por modus tollens]
A consequência de (1) e (2), portanto, é o que eu chamo de tese do conhecimento infalível:
(I) Somente há conhecimento sobre aquilo acerca do qual é impossível enganar-se. 
Essa tese está longe de ser óbvia, para se dizer o mínimo, pois a maior parte de nossas alegações de conhecimento bem justificadas - desde as da vida comum até as da ciência - são sobre aquilo acerca do qual podemos estar enganados. Isso torna (I) altamente implausível e, por isso, tem o ônus da prova quem acredita nela. Qual justificação poder-se-ia dar a ela? Deve-se notar que inferir (2) ou (3) de (1) é uma falácia, a qual chamo falácia do conhecimento infalível. Portanto, não pode ser essa inferência que justifica a tese do conhecimento infalível.

Quer tenha cometido essa falácia, quer não, a tese do conhecimento infalível é aceita por Descartes nas suas Meditações Metafísicas. O critério que ele aceita para justificar a alegação de conhecimento, entretanto, é a seguinte tese, que eu chamo de tese cartesiana da atribuição de conhecimento:
(C) s sabe que se e somente se é impossível que s esteja enganado ao crer que p.
A diferença entre (2) e (C) é que (C) afirma uma equivalência entre (i) "s sabe que p" e (ii) "é impossível que s esteja enganado ao crer que p", enquanto que (2) afirma apenas que (ii) implica (i).

Alguém poderia alegar que (2) é verdadeira porque, se fosse falsa, então seria possível estar enganado sobre algo que se sabe. Mas essa alegação implica que a negação de (2) implica a negação de (1), e isso é simplesmente falso. A negação de (2) simplesmente implica que se (i) "s sabe que p" for verdadeira, disso não se segue a necessidade de (iii) "s não está enganado ao crer que p", não implica a possibilidade da conjunção de (i) e (iii).

Não vejo nenhuma boa razão para crer em (2) e, a fortiori, em (C). É por isso que é falacioso argumentar contra uma alegação de conhecimento dizendo "Mas é possível que você esteja enganado ao crer que p; logo, você não sabe que p". O conhecimento exclui o engano, sim, não a possibilidade do engano. Se sei, é o caso que não estou enganado, não que não posso estar enganado. Mas dizer isso não é dizer que é possível que eu saiba & esteja enganado.

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Para um diálogo mais detalhado sobre esse tema, ver Conhecimento, engano, justificação e verdade.

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