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segunda-feira, 9 de setembro de 2013

A "irrealidade" do passado

-- Estou intrigado com uma questão.

-- Qual?

-- Em virtude do que a minha afirmação de que fui ao cinema ontem é verdadeira -- ou falsa?

-- Em virtude de teres ido ao cinema ontem -- ou de não teres ido. O que mais seria?

-- Mas veja: para que uma afirmação seja verdadeira, não é necessário que um determinado estado de coisas seja o caso?

-- No caso de afirmações sobre o presente, sim.

-- Não, isso vale para qualquer afirmação. Uma afirmação é verdadeira em virtude de o mundo ser como ela afirma que ele é. E o que ela afirma é a existência de um certo estado de coisas. Se esse estado de coisas existe, então a afirmação é verdadeira. Caso contrário, é falsa. Mas agora resposda: qual estado de coisas a afirmação "Fui ao cinema ontem" afirma existir?

-- Tu teres ido ao cinema ontem?

-- Não, o estado de coisas é eu no cinema. Ontem é o tempo em que esse estado de coisas deve ser o caso para que a afirmação seja verdadeira.

-- Bem, de certa forma, sim.

-- Então me diga: esse estado de coisas é o caso agora?

-- Não.

-- Mas se ele não é o caso, então como a afirmação pode ser verdadeira?

-- Ela é verdadeira porque ele foi o caso.

-- Mas se agora não há nada que torne essa afirmação verdadeira, se nenhum estado de coisas existente a torna verdadeira, como ela pode ser verdadeira agora?

-- O que a torna verdadeira é esse estado de coisas ter sido o caso ontem.

-- Mas se ele não é mais o caso, então como ela pode ser verdadeira agora? Não é necessário que esse estado de coisas esteja lá no passado sendo o caso? Esse estado de coisas precisa ser o caso no passado. Portanto, o passado, de certa forma, deve ser tão real quanto o presente. A diferença entre um estado de coisas presente e um estado de coisas no passado não é que um é real e o outro não é. A diferença é que um é o caso no presente e o outro é o caso no passado. Dessa forma, as afirmações "Eu estou no cinema" e "Eu fui ao cinema" são verdadeiras pela mesma razão: porque o estado de coisas que ambas afirmam existir é o caso no passado e no presente, respectivamente. E algo análogo pode ser dito sobre o futuro. Não concordas?

-- De modo algum!

-- Mas como pode ser verdade que fui ao cinema ontem, se nenhum estado de coisas real corresponde ao que é afirmado?

-- Para que seja verdade que fui ao cinema ontem, tudo que é necessário é que o estado de coisas de eu estar no cinema tenha sido o caso ontem, não que ele esteja sendo o caso no passado.

-- Mas então afirmações sobre o passado, diferentemente das afirmações sobre o presente, não correspondem a nada real?

-- Você certamente pode dizer que a afirmação "Fui ao cinema ontem" corresponde ao fato de que fui ao cinema ontem. Mas você não vai estar dizendo nada muito substancial.

-- Nada substancial?

-- Nada. Negar essa "realidade" do passado não é defender uma tese metafísica substancial e problemática, mas é reconhecer uma confusão conceitual advinda da falsa analogia entre frases no presente e frase no passado. A falsa analogia consistem em pensar que um certo estado de coisas deve ser o caso para que ambas as frases sejam verdadeiras. No caso do presente, não parece haver problema, pois há uma coincidência entre o tempo do verbo da frase e o tempo da exigência metafísica: um certo estado de coisas deve ser o caso para que a frase "estou indo ao cinema" seja verdadeira. Mas no caso da frase no passado, o que significa dizer que um certo estado de coisas deve ser o caso para que a frase "fui ao cinema ontem" seja verdadeira? Como pode esse estado de coisas ser o caso, se a frase é sobre o passado? Parece então que esse estado de coisas deve ter alguma realidade, embora esteja no passado, como se os estados de coisas passados e presentes fossem igualmente reais, só que em tempos diferentes. Mas nenhum estado de coisas deve ser o caso para que a frase "fui ao cinema ontem" seja verdadeira. Um determinado estado de coisas deve ter sido o caso, para que essa frase seja verdadeira. "Estou indo ao cinema" é verdadeira se e somente se estou indo ao cinema. "Fui ao cinema ontem" é verdadeira se e somente se fui ao cinema ontem.

Um comentário:

  1. Sobre “A irrealidade do passado”
    Parte III

    Continuando na concomitância, para todos aqueles que saboreiam o bolo na agência espacial, o irmão gêmeo na Terra não passaria de um fato registrado em um tempo longínquo, um mero relato em livros de história, pois há muito já teria morrido. Mais além, seus filhos, os filhos dos seus filhos e os filhos dos filhos dos seus filhos também teriam morrido. É verdade, para os técnicos da agência espacial, que o gêmeo na Terra em realmente olhou para seu irmão do espaço com um telescópio? Ou melhor, o gêmeo na Terra teria realmente existido? Os técnicos da agência, ao observarem o astronauta por um supertelescópio, não estariam então olhando diretamente para o passado? Se nos orientarmos pela tese do vínculo entre realidade de existência e tempo presente; se a realidade, para ser verdade, tiver de ser tal que seja o caso de um estado de coisas, então a realidade só assim é no presente, mas que presente? Presente para quem? Não será verdade que algum dia o irmão da Terra olhou para o irmão do espaço? Se é verdade para o irmão astronauta mas não é verdade para os cientistas da agência espacial, então a verdade de uma determinada realidade depende de quem questiona a verdade dessa realidade? Quando o irmão em Terra olhar para seu calendário e verificar que a viagem do seu irmão no espaço já dura 20 anos, sentir saudade e resolver “ligar” para falar com o “mano” viajante, quando este atender (ignoramos agora o fato de que o irmão em Terra não viveria tempo suficiente para ser atendido pelo irmão no cosmos) perguntará ao “terráqueo”: por que tanta saudade, se apenas algumas horas se passaram? Dirá o que não viajou que o viajante está louco, pois lá se vão 20 anos.
    O que é presente é o que é passado nesse caso? Se para o estabelecimento da verdade sobre a realidade do conteúdo de uma afirmação precisarmos nos valer do tempo, parece também ser necessário então admitir que essa realidade esteja vinculada a categorias atribuídas também ao tempo, dentre elas a relatividade. Se é o caso, não nos parece necessário, logo, que e a realidade seja também relativa? Ou melhor, é o caso então que a verdade da realidade não esteja lá no passado mas em um presente alternativo, relativo ao nosso?

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