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sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Sei que existo?

R. Descartes
Uma afirmação P justifica outra Q não apenas quando P implica Q, mas quando P é mais certa que Q. Sendo assim, o que poderia, para mim, justificar a afirmação que eu existo? Se nada, faz sentido dizer que sei (ou que não sei) que existo? Uma coisa é certa: não faz sentido (é ininteligível) duvidar que eu existo.*
__________

* De uma conversa em aula com Rafael Ribeiro.

5 comentários:

  1. Não sei se tem a ver e se já não foi refutado..

    Mas não seria o clássico "cogito" ?

    "Penso, logo existo."

    A própria afirmação de que "penso", envolve o ato de pensar sobre o processo de pensar em si. (seria um dos pouco verbos recorrentes que pode ter como objeto o próprio verbo)..

    Ora, a afirmação de que penso seria algo mais certo do que existo pois não é possível duvidar de que penso, pois tal dúvida também é pensamento, também é processo..

    Agora dá para simular uma dúvida sobre o existo para fins de exercício na tentativa de superar a dúvida. Neste sentido, "existo" é menos imune a dúvida que o penso..

    Se para pensar implica a existencia de algo que pensa, esta seria a segunda premissa, pois o nada não pensa..

    Então o cogito justifica o existo...

    Pelo menos é o que entendo do pouco que sei de Descartes..

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  2. NidsCovery: Obrigado pelo comentário. Sim, estou falando algo sobre o Cogito. A imagem de Descartes na postagem não é acidental. -- Dá pra duvidar que eu existo? Como? Se não dá, então "Eu penso" e "Eu existo" estão no mesmo patamar epistêmico. Talvez seja por isso que, nas Meditações, Descartes não formule o Cogito como um argumento, mas assim: "Eu penso, eu sou".

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  3. No entanto "existir" pressupõe mais informação e premissas do que "pensar", ainda que "pensar" seja um processo complexo. A intuição muitas vezes esconde premissas por trás de palavras. Por exemplo, o que entende-se por "existo" (eu existo) ? Existir como um ser humano que neste momento escreve no micro num blog ? Posso neste caso ser fruto de um computador que produziu um programa que "pensa" que existe como um ser humano num mundo material que digita num micro. Ou seja é possível a dúvida, pois ela é viável. Entende-se existir por viver ? Sou um ser vivo que tem consciencia ? Podemos produzir a mesma dúvida acima: um computador que produziu um programa que pensa que é um ser vivo que tem consciencia. Existo não é algo que está imune a dúvida porque pressupõe um monte de coisas aceitas intuitivamente.

    Já "penso", ainda que pensar envolva processos que nem conhecemos, é um verbo básico: tenho consciencia de que estou pensando, não interessa, ou não afeta o conceito, se sou um ser vivo que pensa por si ou um produto de um computador que pensa por mim. A dúvida sobre este verbo é inviável, não há como duvidar que esteja pensando, ainda que possamos duvidar do sujeito.

    O cogito é mais básico e por ele posso deduzir que ALGO existe para pensar, pois pensamento não surge do nada (esta é a terceira premissa intuitiva básica: que o nada não pode pensar.. será ?? hehehe!)

    Att
    Nildson de Avila (PS: NidsCovery = Nildson, esqueci de assinar o ultimo comentário)

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  4. Nildson: Tudo de que posso duvidar (se posso) é da existência do mundo exterior, no qual está meu corpo, se eu tiver um. Mas não posso duvidar que eu existo. Qualquer investigação que eu realize para verificar o valor de verdade de "Eu existo" supõe minha existência. Eu posso estar enganado sobre a minha natureza, minha essência, mas não sobre minha existência. Por isso, não acho que "eu penso" tenha alguma vantagem epistêmica sobre "eu existo".

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  5. Concordo com o Alexandre Machado. O existo é indubitável no sentido de "existo enquanto o que ora pensa", outros predicados que se pretenda sustentar é que dependem de informação adicional que requer um suporte epistêmico contingente.

    Sobre a questão principal, eu tendo a não reconhecer qualquer tipo de ganho cognitivo numa consideração indubitável. Em parte me inspiro em Wittgenstein, que pelo que entendo, recusaria até sentido a estas proposições. Eu não chego a tanto, mas entendo que se não faz sentido duvidar de algo não há propriamente contexto para dizer que você sabe que alguma coisa é o caso, porque você não tem parâmetros para dizer o que não seria o caso, o que tornaria falsa a sua declaração. Então você não tem critérios para sustentar sua convicção e não há propriamente nada que você possa dizer que sabe.

    Em especial, eu neste ponto tendo a seguir o que o Tugendhat diz naquele livro dele sobre autodeterminação e autoconsciência, de novo, se eu entendi bem: "Eu" pronunciado como expressão ocasional, como acho que é o caso do cogito cartesiano, é uma referência não-identificadora. Ela só refere a quem a profere, mas não serve para identificar este alguém em outra situação de proferimento. Para tanto, seria preciso outro predicado por meio do qual o referido anteriormente pudesse ser reidentificado, mas qualquer predicado deste tipo seria um dado epistêmico contingente e não mais indubitável (não vou complicar metendo Kripke aqui, por que me parece que o cogito não permite uma situação de batismo ordinária, em que uma pessoa concreta recebe um nome que é adotado nos modos de vida de uma comunidade, até porque acho que isto exigiria também algum sortal que pudesse ser publicamente empregado no batismo - por outro lado, isto sugere que o que o "eu" designa no âmbito do cogito não é bem o que ordinariamente consideramos ser uma pessoa). Então, no cogito não está sendo dito propriamente um estado de coisas, que pudesse ser verificado ou que identificasse um objeto acessível em outras situações de proferimento. Embora tenha a aparência de uma sentença, ele tem a mesma autoridade em termos de efetividade e asserção que uma pergunta teria (do meu estudo em Heidegger, estou concluíndo que é mesmo primordialmente a expressão de um questionamento). Logo, o "existo" aqui não teria o mesmo sentido do operador existencial da lógica de predicados.

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