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terça-feira, 23 de junho de 2015

Brilho eterno de uma mente sem lembrança (Eternal sunshine of a spotless mind)

"Quão felizes são as virgens imaculadas!
O mundo esquecendo, esquecido pelo mundo.
Brilho eterno de uma mente sem mácula!
Cada prece aceita, e cada desejo renunciado."
Alexandre Pope, Eloisa to Abelard

Este é o sétimo texto de uma série que estou escrevendo para uma disciplina da Graduação em Filosofia da UFPR denominada Filosofia e Cinema, em que procuro exercitar a reflexão acerca dos problemas filosóficos por meio de filmes. Creio que filmes podem ser bons meios de apresentação de problemas filosóficos na medida em que apresentam situações que desafiam nossas crenças fundamentais e, assim, desencadeiam a reflexão filosófica. Os textos dessa série são destinados àqueles que já assistiram os respectivos filmes, pois contêm revelações sobre seus respectivos enredos.

Brilho eterno de uma mente sem lembrança conta a história de um casal de namorados, Clementine (Kate Winslet) e Joel (Jim Carrey), que começa a ter dificuldades de relacionamento e a sofrer por causa disso.[1] Em certo ponto, Clementine toma uma decisão: esquecer Joel. Mas não se trata do sentido corriqueiro de "esquecer" alguém que usamos em frases como "Hoje já não sofro mais, pois já esqueci a fulana". Esse sentido corriqueiro não é o sentido literal de "esquecer". Não se trata de não lembrar-se mais da pessoa. Se fosse o sentido literal, "já esqueci a fulana" seria uma contradição performativa, pois enunciar essa frase seria, ao mesmo tempo, expressão de uma lembrança que a pessoa tem da fulana e o ato de dizer que não lembra dela. Clementine queria esquecer Joel no sentido literal de "esquecer". Ela queria apagá-lo da sua memória por causa do sofrimento que a relação com ele estava lhe causando, como quem acaba com uma dor de cabeça tomando um analgésico. Ela queria extirpá-lo da sua vida e recomeça-la como se nunca o tivesse conhecido. Ela atinge esse objetivo por meio de uma companhia que oferece justamente isso: apagar memórias por meio de uma máquina, que causa pequenas lesões localizadas no cérebro.

O que há de filosoficamente interessante nessa história? Ela desafia nossas crenças básicas sobre as seguintes coisas: a relação entre memória e identidade pessoal (de um modo um pouco diferente em que essa relação foi abordada no texto sobre o filme Amnésia) e o direito que temos de esquecer coisas. A solução que Clementine dá para o seu sofrimento é repetida por Joel e já tinha sido usada por Mary (Kirsten Dunst). Essa solução é considerada, por esses mesmos que se serviram dela, como algo ruim, errado, depois que descobrem que se serviram dela. Mas antes dessa descoberta, quando estavam sofrendo, a consideraram a melhor solução para o seu sofrimento. Ela é a melhor solução? Se não, o que há de errado com ela?

Por um lado, parece perfeitamente razoável querer se livrar de um grande sofrimento psicológico, de uma grande dor psicológica, que a lembrança de uma determinada experiência nos causa, assim como parece razoável querer se livrar de uma grande dor física por meio de analgésicos e anestesias. O que poderia haver de bom na dor em si? É claro que a dor física tem a função de sintoma de uma condição anômala do organismo, que deve ser tratada. Ela aponta para a existência dessa condição anômala que é a causa da dor. Pessoas incapazes de sentirem dor por conta de um defeito no organismo correm riscos que as pessoas que sentem dor não correm. Mas uma vez detectada a anomalia através da dor, podemos combater o sintoma com analgésico e anestesia. É como apagar uma notificação em um computador: uma vez que a percebemos, ela não tem mais função alguma. Portanto, analogamente, o que há de errado em apagar uma lembrança dolorosa? Dor, em si mesma, é algo ruim, não? O que há de mal em querer acabar com ela?

Uma distinção aqui é importante: uma coisa é a lembrança que causa dor, outra coisa é a própria dor. É claro que acabar com a lembrança que causa a dor tem como efeito acabar coma dor, se ela for a sua única causa. Mas a dor causada por uma lembrança está relacionada a muitos outros estados processos mentais. Por exemplo: a dor da perda de alguém que morreu está relacionada ao nosso desejo de que essa pessoa continue viva, ao quão acostumados estamos com sua presença na nossa vida. O tempo faz essa dor diminuir porque nos faz acostumar, ao menos um pouco mais, com a ausência dessas pessoa. Portanto, livrar-se da lembrança dolorosa não é o único meio de acabar com ou diminuir a dor que ela causa, pois ela não causa essa dor sozinha. Sim, mas mesmo a lembrança não sendo uma causa suficiente da dor, ela é uma causa necessária, de tal forma que se nos livramos da lembrança, nos livramos da dor. Portanto, embora não seja o único meio de nos livrarmos da dor, é um meio. O que há de errado com esse meio?

Há uma diferença fundamental entre as causas da dor física e as causas da dor psicológica. As causas da dor física não constituem a pessoa que somos. Um cálculo renal, por exemplo, não constitui a pessoa que o possui, embora as experiências que alguém vive por ter um cálculo renal possam constituir a pessoa que ela é. As causa de uma dor psicológica, por outro lado, parecem constituir a pessoa que somos, na medida em que a pessoa que somos é constituída, ao menos em parte, pelas experiências e lembranças que temos, bem como pelos esquecimentos que naturalmente nos ocorrem e toda sorte de estados e processos causalmente conectadas a essas experiências, lembranças e esquecimentos, tais como atitudes proporcionais, sentimentos, associações e disposições, por exemplo. Não parece fazer sentido tentar caracterizar a pessoa que somos independentemente das nossas experiências, lembranças e esquecimentos.[2] Se isso está correto, então deliberadamente apagar memórias implica deliberadamente mudar quem se é. Depois de apagadas, continuamos sendo a mesma pessoa, no sentido numérico de "mesma", mas não somos mais a mesma, pessoa no sentido qualitativo do termo.

Mas qual é o problema em querer mudar a pessoa que se é? Afinal, querer ser uma pessoa melhor não é querer mudar a pessoa que se é? Ocorre que, em primeiro lugar, querer apagar memórias implica que se está descontente com a pessoa que se é, enquanto formada pelas experiências e lembranças que se tem,  entre outras coisas. Alguém poderia dizer que se está descontente apenas com a dor que se sente, nada mais. Mas a dor, como vimos, tem várias causas. Escolher apagar a memória que concorre com outras causas para gerar a dor é escolher eliminar uma das causas da dor. É a memória que se escolheu eliminar, não qualquer um dos demais estados de processos que, junto com a memória, causam a dor. Uma pessoa com fobia por baratas, por exemplo, pode querer eliminar todas as batatas do mundo para não sentir mais essa fobia, ou ela pode tratar as causas psicológicas da fobia. Da mesma forma, uma pessoa que sofre muito com a lembrança de certas experiências poderia tentar modificar outros estados e processos mentais que concorrem para gerar o sofrimento, em vez de apagar a memória. Se a pessoa decide apagar a memória, então parece que ela dá menos importância para a memória dessa experiência do que para esses demais estados e processos mentais.

Mas qual importância pode ter a memória de uma experiência dolorosa? Ela pode ter um papel pedagógico na nossa vida, se soubermos lidar com ela de maneira apropriada. Podemos aprender a viver melhor, a sermos pessoas melhores, com base no modo como lidamos com as experiências dolorosas. Eliminar a memória de uma experiência dolorosa, no filme, (e esse é o segundo ponto relativo ao argumento baseado no desejo de querer ser melhor) não tem como objetivo nos tornar melhores. Parece que mudar o modo como Clementine lida com a memória da experiência dolorosa é muito mais promissor, no que respeita a ela se tornar uma pessoa melhor, a capacitá-la a viver melhor, do eliminar a memória dolorosa. Apagar a memória parece ser análogo a tomar remédios para combater os sintomas de uma doença, sem atacar as causas dessa doença. Imagine se generalizamos esse procedimento? Provavelmente morreríamos de alguma doença mais cedo, se atacássemos apenas os seus sintomas, do que se procurássemos e atacássemos as causas desses sintomas. Analogamente, nossa capacidade para aprendermos a viver melhor, a sermos pessoas melhores, seria seriamente afetada, se apagássemos todas as memórias dolorosas que tivéssemos. Isso parece se chocar com o que parece dizer Nietzsche através da frase citada por Mary em um dialogo com Howard, seu chefe e ex-amante: “Abençoados sejam os esquecidos, porque tiram proveito até mesmo de seus próprios erros”. Como alguém pode tirar proveito de um erro que esqueceu? Mas o desejo de quem quer apagar as memórias ruins está mais de acordo com o espírito da segunda citação de Mary no mesmo diálogo (de onde o título do filme é retirado), um trecho do poema Eloisa to Abelard, de Alexandre Pope:
Quão felizes são as virgens imaculadas!
O mundo esquecendo, esquecido pelo mundo.
Brilho eterno de uma mente sem mácula!
Cada prece aceita, e cada desejo renunciado.[3]
Creio que "imaculada" traduz melhor a palavra "spotless", que definitivamente não é sinônimo de "sem lembrança". Tanto o poema quanto o filme falam sobre uma mente sem lembranças ruins, que são um tipo de mácula. Mas querer apagar memórias ruins tem uma consequência ética: implica renunciar a ao menos parte da nossa capacidade para aprendermos a nos tornarmos pessoas melhores, da nossa capacidade para aprendermos a viver melhor. 

Mas o que parece ser o problema mais grave de se querer apagar memórias ruins do modo como é feito no filme é uma outra consequência ética. Apagar memórias ruins não afeta apenas a pessoa que assim o faz, mas também as pessoas que convivem com ela, especialmente as mais íntimas. Todos são obrigados de se adaptar à nova condição daquele que se submeteu a esse tipo de processo, para que ele seja bem sucedido. Talvez sejam obrigados a mentir ou a passar por outros embaraços éticos. Todos são obrigados a aprender a lidar com uma nova pessoa. Mas há uma consequência ainda mais grave. Não se trata de apenas apagar certas lembranças ruins, trata-se de apagar uma pessoa da nossa mente, da nossa vida! Imagine o fardo psicológico de uma pessoa que sofre um tal banimento. Além de todo o sofrimento que a relação estava causando, a pessoa sofre ainda mais por ser descartado como um brinquedo que, embora antes fosse divertido, depois que quebrou e se tornou chato, é jogado fora... Esse parece um claro exemplo em que se trata uma pessoa como meio, não como fim. Um outro exemplo é o modo como Patrick (Elijah Wood) trata Clementine, se aproveitando de toda a informação que ela desejou tanto esquecer...


_________

[1] Há alguns anos atrás, tive uma discussão com meu amigo Jonadas Techio sobre esse filme. Naquela ocasião, eu me limitei a testar a posição do que, no presente texto, é interlocutor imaginário a quem atribuo as objeções ao que eu digo. Não lembro o quanto o que digo aqui, no final das contas, se aproxima  que Jonadas defendeu naquela discussão.

[2] No texto sobre Amnésia, vimos que a capacidade de fazer novas memórias sobre as experiência que vive parece ser condição necessária para a unidade de uma pessoa que vive essas experiências. Aqui não se trata de um problema gerado pela falta de capacidade de fazer novas memórias, mas pelo ato deliberado de apagar algumas memórias já feitas. Ambos os problemas, no entanto, estão baseados na conexão entre memória e identidade pessoal.

[3] “How happy is the blameless vestal’s lot!
The world forgetting, by the world forgot.
Eternal sunshine of the spotless mind!
Each pray’r accepted, and each wish resign’d.”


domingo, 31 de maio de 2015

A Origem (Inception)

Totem
Este é o sexto texto de uma série que estou escrevendo para uma disciplina da Graduação em Filosofia da UFPR denominada Filosofia e Cinema, em que procuro exercitar a reflexão acerca dos problemas filosóficos por meio de filmes. Creio que filmes podem ser bons meios de apresentação de problemas filosóficos na medida em que apresentam situações que desafiam nossas crenças fundamentais e, assim, desencadeiam a reflexão filosófica. Os textos dessa série são destinados àqueles que já assistiram os respectivos filmes, pois contêm revelações sobre seus respectivos enredos.

No filme A Origem (Inception, 2010), Dom Cobb (Leonardo DiCaprio) é um ladrão especializado em roubar informações armazenadas no inconsciente das pessoas. Ele faz isso enquanto elas dormem, entrando nos seus sonhos através de uma máquina a que ambos estão conectados. Ele não pode retornar aos Estados Unidos, pois é acusado de ter assassinado sua mulher, Mal (Marion Cotillard). Mal, entretanto, suicidou-se-se, porque, após ficar presa em um sonho por muito tempo e finalmente conseguir acordar, não conseguia se convencer de que tinha acordado e pensava que se matando, acordaria, pois todos que morrem num sonho acordam. Cobb tem a oportunidade de voltar aos Estados unidos em troca de realizar uma tarefa para Saito (Ken Watanabe), um milionário, que arranjaria tudo para a sua volta. A tarefa consiste em fazer a inserção (inception) da origem de uma idéia na mente de Robert Fischer (Cillian Murphy), o herdeiro da empresa que é a sua principal concorrente. Saito quer que Robert desmembre  corporação que herdou do pai. Para isso, Cobb precisa fazer com que Robert adormeça no primeiro sonho, iniciando um segundo sonho dentro do primeiro e depois adormeça no segundo, iniciando um terceiro sonho dentro do segundo.

Um problema filosófico mais ou menos óbvio suscitado pelo filme é o problema epistemológico sobre os critérios para que saibamos distinguir o sonho do estado de vigília, cujo locus classicus é o argumento do sonho, de Descartes. Mal não consegue perceber que está acordada e acredita estar dormindo (porém, veja interpretação alternativa no final). Mas não vou explorar esse problema aqui. Vou me concentrar em outro problema, relacionando à natureza do sonho.

Os sonhos que ocorrem em A Origem têm três características principais: (1) ele são induzidos por agentes exteriores, que planejam toda a estrutura do cenário onde o sonho acontece; (2) muitas pessoas podem estar no mesmo sonho de uma outra pessoa, se conectadas à máquina em que aquele que sonha está conectado; (3) dentro de um sonho pode ocorrer outro sonho simultaneamente.

A única característica que se aproxima de algo que realmente acontece com sonhos é a (1). Existe o fenômeno da incubação ou inserção, em que uma pessoa se concentra em algo sobre o qual quer sonhar e acaba sonhando sobre isso. podemos imaginar que essa concentração é induzida por outra pessoa. Mas planejar uma cidade inteira como cenário do sonho de outra pessoa vai muito além da incubação. Eu duvido que isso seja possível, mas não tenho um bom argumento para isso. O máximo que posso dizer é que para que os sonhos incubados em A Origem ocorressem, deveria ocorrer algo como o que é descrito na hipótese do cérebro numa cuba: estímulos elétricos que gerassem as sensações desejadas.

A característica (2) gera o seguinte problema: se uma pessoa A está, enquanto sonha, no sonho de outra B, por que esse sonho não é também de A? Uma possível resposta seria: porque o subconsciente que se manifesta no sonho é de B. Mas, então, por que o subconsciente de A não se manifesta no sonho que A está tendo, a saber, o mesmo de B? Onde está o subconsciente de A enquanto A sonha? Por não saber as respostas a essas perguntas, não vejo muito sentido em (2).

A maior parte dos meus comentários será sobre a característica (3), porque acho a mais problemática. Ela está relacionada a um fenômeno comum, mas essencialmente diferente daquele que ocorre no filme. Não é raro que dentro de um sonho uma pessoa sonhe que acordou. Mas ela de fato continua dormindo e sonhando. Sonhar que se acorda não é acordar, mas é iniciar um novo sonho. Isso já ocorreu comigo: eu sonhava e pensava que estava sonhando e queria acordar. Quando achei que tinha acordado, na verdade um novo sonho tinha começado, e percebi isso porque coisas estranhas típicas de sonhos começaram a acontecer. Mas bem pode acontecer que, ao invés de sonhar que acorda, uma pessoa sonhe que foi dormir e inicie um outro sonho, de modo semelhante ao que ocorrem em A Origem. Mas se trata do mesmo fenômeno? Creio que não, e creio que o que ocorre em A Origem, se possível, não é um sonho dentro de um sonho, pois não é um sonho.

No filme, quando alguém sonha que dorme e um novo sonho se inicia, o sonho anterior não cessa. Os dois sonhos ocorrem simultaneamente. Mas como é possível sonhar dois (ou três) sonhos simultaneamente? Como uma pessoa pode estar experimentando dois sonhos ao mesmo tempo? Além disso, como ela pode estar em dois sonhos ao mesmo tempo, dormindo no primeiro e vivendo as aventuras que sonha enquanto dorme no primeiro? Aqui temos um análogo onírico da afirmação de que uma pessoa está em dois lugares ao mesmo tempo, o que é impossível. Não é como no caso em que uma pessoa está dormindo e simplesmente sonha. Nesse caso ela não está em dois lugares ao mesmo tempo, porque não há nada que impossibilite alguém de estar num lugar dormindo e em outro no sonho, pois sonhar que se está num lugar não é estar nele. Mas, em sonho, estar num certo lugar é sonhar que se está nesse lugar. Todavia, como podemos sonhar que estamos dormindo em um certo lugar e, ao mesmo tempo, sonhar que estamos sonhando que estamos em outro lugar? Até mesmo sonhar que estamos conversando conosco mesmos parece mais inteligível que isso. Nossa identidade no sonho, digamos assim, depende de sonharmos conosco e não podemos sonhar dois sonhos ao mesmo tempo.

Não estou argumentando que uma experiência como a que acontece em A Origem não seja possível. Estou argumentando que, se ela for possível, não é um sonho. Mas ela é possível? Ela é pensada através de uma analogia com o sonho normal. No sonho normal, estamos em um determinado lugar dormindo e podemos sonhar que estamos em outro lugar. As duas coisas acontecem simultaneamente: estar dormindo em um certo lugar e estar sonhando que se está em outro lugar. No filme isso acontece dentro do sonho: o sujeito dorme no sonho, inicia-se um novo sonho e as duas coisas acontecem simultaneamente, como se o primeiro sonho fosse uma sucessão de eventos objetivos, que continuam a acontecer enquanto o segundo sonho se desenrola. Já vimos que isso não é possível em um sonho. Mas isso seria possível de alguma outra forma? Ou seja, seria possível que alguém entrasse em um estado de análogo ao sono e experimentasse eventos em um lugar diferente de onde está nesse estado, tal como em um sonho, e depois isso se repetisse dentro desse análogo ao sonho? Suponha que esses análogos ao sonho sejam como mundos paralelos (mundos possíveis tão reais quanto o atual) que podemos acessar. Seria possível ficar inconsciente em um desses mundos e ir para outro? Se fosse possível, estaríamos em dois mundos ao mesmo tempo. Mas isso não seria o mesmo que estar em dois lugares ao mesmo tempo? Note que podemos "estar" em dois mundos possíveis. Mas mundos possíveis não são mundos paralelos. Há quem sustente que são, como David Lewis. Mas creio que as dificuldades colocadas pelo seu realismo modal para entendermos a identidade transmundana são insuperáveis, embora eu não vá argumentar para isso aqui. Por acreditar que os mundos possíveis diferentes do atual são tão reais quanto o atual, Lewis nega que estejamos em algum outro mundo possível que não o atual. O que estão nesses outros mundos possíveis são nossas contrapartidas. Por isso, quando eu digo um contrafactual como "Se eu fosse rico, compraria equipamentos fotográficos de primeira linha", em última análise não estou falando sobre mim, mas sobre minha contrapartida em um mundo em que ela é rica e compra equipamentos fotográficos de primeira linha.

Há uma maneira barata de livrar o filme de todas essas dificuldades. Se tudo que acontece no filme é um sonho (de Cobb, talvez), então não há sonhos dentro de sonhos, mas apenas um grande sonho em que aqueles eventos todos acontecem sucessivamente, tal como exibidos no filme, e não simultaneamente. Embora essa interpretação não seja incompatível com o filme (com qual filme ela seria incompatível?), o filme não a sugere em nenhum momento e isso o tornaria desinteressante, pois qual seria a motivação para se construir uma história que se passa toda dentro de um sonho? É claro que o problema epistemológico sobre como saber que não se está sonhando suscita a possibilidade de que tudo seja um sonho. Mas isso é diferente de afirmar que faz parte da trama o fato de que ela se desenrola toda no sonho de alguém.

Seja como for, A Origem é um filme filosoficamente interessante justamente porque está baseado nesses nós conceituais, que desafiam nossas crenças fundamentais sobre a realidade, sonhos, identidade, etc., não tanto pelo conteúdo filosófico explícito que por vezes aparece no enredo, como a dificuldade de Mal distinguir a realidade do sonho.

Neste link há um livro à venda que explora mais problemas filosóficos relacionados ao filme.

sexta-feira, 29 de maio de 2015

Amnésia (Memento)

Lenny criando mais um memento...

Este é o quinto texto de uma série que estou escrevendo para uma disciplina da Graduação em Filosofia da UFPR denominada Filosofia e Cinema, em que procuro exercitar a reflexão acerca dos problemas filosóficos por meio de filmes. Creio que filmes podem ser bons meios de apresentação de problemas filosóficos na medida em que apresentam situações que desafiam nossas crenças fundamentais e, assim, desencadeiam a reflexão filosófica. Os textos dessa série são destinados àqueles que já assistiram os respectivos filmes, pois contêm revelações sobre seus respectivos enredos.

Diferentemente dos outros textos dessa série, neste vou me deter um pouco mais na trama do filme, pois a sua estrutura narrativa é bastante complexa.

O filme Amnésia (Memento) conta a história de Leonard, ou Lenny (Guy Pearce), um investigador de fraudes de uma companhia de seguros que sofre um assalto no qual a sua mulher é estuprada e, assim ele pensa, morta, e ele, após uma forte pancada na cabeça provocada por um dos dois assaltantes, perde a capacidade de fazer novas memórias que durem mais de 10 ou 15 minutos. Lenny é capaz de lembrar de quase tudo o que aconteceu antes da pancada na cabeça. Sua última lembrança é a visão de sua mulher caída no chão do banheiro ferida. Desde então, a cada 10 ou 15 minutos mais ou menos ele perde todas as memórias que fez nesse curto período de tempo. Durante o assalto, ele matou o estuprador de sua mulher. Mas o assaltante que o feriu escapou. Desde então, ele só tem um objetivo na vida: encontrar e matar esse assaltante.

A estrutura do filme possui duas narrativas. Uma em que Lenny conta ao telefone a um policial os eventos que aconteceram antes do incidente. Essas cenas são em preto e branco e a narrativa é linear (direto do passado para o futuro), embora intermitente, em cujos intervalos se dá a segunda narrativa, cujas cenas são coloridas. Essa segunda narrativa não é linear. Ela vai do futuro, onde Lenny mata Teddy (Joe Pantoliano), o policial disfarçado que o ajuda a encontrar o assaltante fugitivo, para o passado. Essa segunda narrativa pode ser descrita assim: a narrativa dá um passo para frente e dois para trás. Suponha que o esquema abaixo represente a linha do tempo indo da esquerda para a direita.

1---->2---->3---->4---->5---->6---->7---->8---->9---->

A segunda linha do tempo começa no ponto 8, vai até o ponto 9, volta até o ponto7, vai até o ponto 8, volta até o ponto 6, e assim por diante. As duas linhas do tempo se encontram no final, quando e primeira chega em algum ponto entre 7 e 8.

Dado que não é mais capaz de reter novas memórias, Lenny usa alguns recursos para poder saber sobre os eventos passados que ele vivencia após incidente e sobre a identidade do assaltante fugitivo.[1] Ele só confia em informações escritas com a sua própria letra e, por isso, mantém um dossiê sobre a sua investigação e eventualmente escreve pequenos bilhetes pra si mesmo e os mantém nos bolsos de sua roupa. Ele também tatua por todo o seu corpo informações sobre fatos essenciais acerca do incidente e do assaltante fugitivo. O assaltante é um homem branco cujo nome é John G., ou James G. Todas essas informações são pistas que o ajudam na caçada ao assaltante. Outro recurso que ele usa é uma máquina fotográfica Polaroid (ver foto), em cujas fotos reveladas em segundos ele também faz anotações a mão, para poder se informar principalmente sobre pessoas e lugares, sobre quem ele pode e quem ele não pode confiar, sobre onde mora, onde as pessoas trabalham, etc.

Antes do incidente, Lenny investigou o caso de um segurado, Sammy Jenkis, que aparentemente tinha exatamente o mesmo problema de memória que ele mais tarde passou a ter. A recordação que Lenny tem dessa investigação é que Sammy era casado com uma mulher diabética e que ele dava indícios de que talvez seu problema não fosse físico, mas psicológico. A mulher de Sammy, segundo Lenny, tampouco parecia acreditar que ele não fosse capaz de reter as novas memórias, especialmente depois de conversar com Lenny, que concluiu a investigação afirmando que ele era fisicamente capaz de fazer novas memórias. Ela resolve fazer um teste: ela pede a Sammy que lhe aplique uma injeção de insulina a cada 15 minutos, esperando que em algum momento ele lembre que já fez isso há pouco e que se dê conta de que, se aplicar novamente, pode matá-la. Ele, segundo Lenny, não lembrou e ela entrou em coma irreversível.

Por causa da sua condição, Lenny foi usado por Teddy, um policial corrupto cujo verdadeiro nome é John Gammell, e por Natalie (Carrie-Anne Moss), uma bar girl que Lenny conheceu através de Teddy. Natalie namorava um traficante, Jimmy Grants, que Teddy queria matar. Teddy faz Lenny pensar que esse traficante é John ou James G. Lenny mata Jimmy e se apossa das suas roupas, carro e dinheiro que estava no porta-malas. Natalie não sabe que o assassino do seu namorado é Lenny. O comparsa de Jimmy, Dodd, pensa que Natalie está com um dinheiro de Jimmy e a ameaça para que ela o devolva. Natalie então manipula Lenny para que mate Dodd, embora ele acabe não fazendo isso.

No final, Teddy acaba revelando a Lenny que Sammy não era casado, que Lenny provou que Sammy estava tentando fraudar a companhia de seguro fingindo a perda de memória, que a mulher de Lenny não morreu, que ela, e não s suposta mulher de Sammy, era diabética, que ela não agüentou mais viver com Lenny naquela condição e o abandonou e que Lenny já havia matado o verdadeiro John G. e outros homens que Teddy o fez acreditar que eram John G. Lenny portanto havia inventado um passado para si e manipulado suas anotações de tal forma que o verdadeiro passado não fosse descoberto por ele e de tal forma que ele não lembrasse que matou John G. Mas por que? Porque paradoxalmente isso lhe daria mais motivação para encontrar John G. e para manter-se disciplinado no seu método de registrar as coisas sobre o passado que ele deveria saber. A busca por John G. era a única coisa que dava sentido a sua vida após o incidente, que o fazia pensar que havia uma continuidade entre a pessoa que ele foi antes do incidente e a pessoa que ele passou a ser após o incidente. Ameaçado por Teddy de perder o sentido de sua vida, Lenny resolve se livrar de Teddy, fazendo a si mesmo pensar que Teddy, John Gammell, é John G.

O enredo do filme suscita várias questões filosóficas, principalmente em epistemológicas, de filosofia da mente e éticas. Vou me concentrar em questões que nos fazem refletir sobre a relação entre memória e identidade pessoal e a relação entre a mente e os artefatos usados para nos informar sobre eventos passados, presentes e futuros.

Tendemos a pensar que quando uma pessoa passa a sofrer de um problema de memória a partir do tempo t, a pessoa antes de t e a pessoa depois de t são a mesma. Mas qual é o critério para se dizer que é a mesma pessoa? É claro que se trata do mesmo corpo dotado de uma mente. Mas isso é suficiente para se dizer que se trata de uma mesma pessoa? Num sentido fraco de "pessoa", sim. Chamo de sentido fraco porque, nesse sentido, há menos condições para que algo seja uma pessoa. Mas de fato usamos a palavra pessoa nesse sentido. Podemos muito bem dizer que Lenny é uma pessoa que passou por tudo aquilo que é narrado no filme. Mas esse é o único sentido de "pessoa"?

No comentário ao filme Ela, argumentei que o transtorno dissociativo de identidade mostrava que o número de pessoas não pode ser identificado ao número de corpos humanos com mente, pois esse transtorno mostra a possibilidade de que duas pessoas ocupem o mesmo corpo. Disso conclui que uma pessoa é uma totalidade unificada de estados e processos mentais. O detalhe importante para a presente discussão é justamente a unidade desses estados e processos mentais. Essa não é uma unidade localizada num instante do tempo, mas uma unidade que se estende ao longo do tempo. Os elementos dessa totalidade unificada podem mudar. Uma pessoa pode mudar suas crenças, por exemplo. Mas tais elementos pertencem sempre a uma totalidade mutante unificada que se estende ao longo do tempo. Podemos dizer que a duração de uma pessoa, nesse sentido, ao longo do tempo é a duração de uma mesma coisa que unifica uma totalidade de estados e processos mentais. A pergunta agora é: antes e depois de adquirir o problema de memória, Lenny é a mesma coisa que unifica uma totalidade de estados e processos mentais?

Para respondermos a isso temos que entender melhor o que é essa unidade, como se dá a unificação de estados e processos mentais. Parece que a memória é uma condição necessária para essa unificação, embora, talvez, não seja suficiente. Uma pessoa a em um intervalo de tempo T1 e uma pessoa b em um intervalo de tempo subseqüente T2 são a mesma pessoa ao longo do tempo se b em T2 é capaz de lembrar (embora, talvez, de fato não lembre) de ao menos algumas coisas sobre a em T1. Se b é incapaz de lembrar qualquer coisa sobre a em T1, então a e b não são a mesma pessoa.[2] Claro que podemos esquecer eventos sobre nós mesmos que ocorreram em um dia inteiro. Mas se não temos um problema na nossa capacidade de reter memórias, ainda somos capazes de lembrar isso que esquecemos. Não lembrar não é o mesmo que ser incapaz de lembrar. Muitas vezes não lembramos de algo por muito anos, até que algum evento nos faz lembrar novamente aquilo que não lembrávamos. O problema de Lenny não é que ele simplesmente não lembra do que vivenciou meia hora atrás. Seu problema é ser incapaz de lembrar, pois suas memórias são simplesmente apagadas. Em linguagem de informática, é como se Lenny não fosse capaz de inserir mais nada no seu disco rígido (a memória permanente) e tivesse uma memória RAM que é limpa a cada 15 minutos. Não há nada que, depois desses 15 minutos, Lenny seja capaz de lembrar. Portanto, depois de ter adquirido o problema de memória, os seus estados e processos mentais não possuem uma unidade que dure mais do que 15 minutos.

Os estados e processos mentais que Lenny tem por 15 minutos talvez tenham poderes causais sobre seus estados e processos mentais futuros. Ele se refere a essa possibilidade quando afirma que Sammy deveria aprender, por instinto, a evitar tocar na pirâmide de metal eletrificada usada no teste a que foi submetido para se averiguar se ele estava ou não fingindo. Relações causais podem acontecer sem serem conhecidas ou lembradas. Mas isso parece ser insuficiente para a identidade pessoal ao logo do tempo, pois parece insuficiente para a unidade de estados e processos mentais que dura ao longo do tempo, na medida em que falta a memória.

A situação de Lenny pode ser descrita assim: ele parece acordar, a cada 15 minutos, de um coma que se iniciou no dia do assalto, como se ele não tivesse vivido nada do que de fato viveu até então. Isso é exatamente o que diz Clive Wearing, um sujeito conhecido por sofrer do pior caso do mesmo problema de memória que Lenny possui (assista a um documentário  sobre esse caso dublado para o espanhol aqui). A memória de Wearing dura 7 segundos! Seu caso é pior que o de Lenny porque, além de ter uma memória muito mais curta, ele também perdeu a maior parte da memória sobre o que vivenciou antes de adquirir o problema. Wearing, que era um maestro, lembra de coisas básicas como falar, tocar piano, etc. Mas ele reconhece apenas a sua, agora, ex-mulher. Ele sequer lembra que tem filhos... A cada intervalo de 15 minutos, Lenny mantém uma relação de identidade pessoal com a pessoa que ele foi antes do incidente, pois ele ainda é capaz de lembrar coisas sobre si desse período. Mas sua mente, após o incidente, não é mais a mente de uma pessoa ao longo do tempo. Após o incidente, seus estados e processos mentais não possuem mais nenhuma unidade ao longo do tempo. Num sentido forte de "pessoa", não é mais a mesma pessoa que vivencia todas aquelas experiências.

Tanto Lenny quanto Wearing ainda mantém alguma conexão com a pessoa que foram antes de passarem a ter o problema de memória, na medida em que ainda retêm certas habilidades e algumas lembranças adquiridas antes de passarem a ter o problema de memória. Mas eles não conseguem mais continuar sendo aquela pessoa por mais de 15 minutos, pela boa razão de que eles não conseguem continuar sendo uma pessoa por mais de 15 minutos. A esposa de Wearing, no documentário linkado acima, expressa esse ponto de forma dramática: "É como ser uma esposa e uma viúva ao mesmo tempo. Eu perdi Clive, ou a maior parte dele há quase três anos [a declaração foi dada em 1988], porque sem consciência, está praticamente morto em muitos sentidos." "Sem consciência" provavelmente quer dizer o mesmo que "sem memória do que vivencia".

Lenny procura contornar o seu problema de memória por meio dos seus mementos (ver nota [1]). O problema é que seus mementos não funcionam como normalmente funcionam para quem não tem o seu problema. A cada 15 minutos ele tem de examiná-los todos novamente para se informar do que aconteceu. O filme enfatiza isso no começo, mas depois esse ponto vai se tornando secundário, podendo levar o espectador a não lhe dar o devido peso na trama. Ocorre que em 15 minutos ele não pode examinar toda a informação que ele registra. Por isso, ele recorre a resumos, que são feitos de forma precária, devido a limitação de tempo e do fato de se basearem em outros resumos. O ponto é que Lenny não consegue recuperar completamente as funções perdidas pela de sua mente por meio dos seus mementos. Todavia, usando este método ele parece estar numa condição melhor que Sammy. Ele se vangloria disso, de ter um método para se informar sobre o passado e de ser disciplinado na sua aplicação. Lenny recupera ao menos parte das funções perdidas pela sua mente. E isso nos leva ao problema filosófico seguinte, que diz respeito à relação entre mente e cérebro.

Dualista e materialistas sobre a relação mente corpo, apesar do seu desacordo, tendem a concordar sobre um ponto: aquilo que ou é o correlato material da mente (dualismo), ou é a própria mente (materialismo), é o cérebro. Seja ela identificada com o cérebro, ou estando relacionada a ele de certa forma, nossa mente está, de alguma forma, em nós. Dessa perspectiva, se estamos na sala 606 do Departamento de Filosofia da UFPR, parece absurdo dizer que nossa mente, ou mesmo parte dela, está na sala 600, na outra extremidade do corredor, exceto metaforicamente, querendo dizer que nossa atenção está voltada para algo que está ou acontece na sala 600. Hoje em dia usamos muitos recursos para ajudar a nossa mente a funcionar melhor. Para planejarmos uma viagem, por exemplo, usamos o Google Maps, ou outro recurso semelhante. Se esquecemos nosso aparelho eletrônico (computador, tablet ou celular) na sala 600, normalmente diremos que esquecemos de uma ferramenta muito útil para otimizar as tarefas da nossa mente. Mas normalmente não diremos que esquecemos parte da nossa mente lá. Nossa mente se serve das informações contidas no Google Maps, mas as informações contidas lá não fazem parte da nossa mente, pensamos.

Entretanto qual critério usamos para dizer que aquele aparelho não faz parte da nossa mente? Ele é algo material que contém um conjunto de informações que acessamos sempre que quisermos, se tudo funcionar normalmente.  Não é exatamente isso que ocorre quando acessamos as informações da nossa memória? Elas não estão armazenadas em algo material, uma parte do nosso cérebro, que acessamos sempre que quisermos? Às vezes esse acesso é bloqueado por alguma causa. Mas o acesso à informação contida no aparelho às vezes é igualmente bloqueado por alguma causa. Uma coisa é certa: o aparelho não faz parte do nosso cérebro. Mas o que está em questão aqui não é a identidade do cérebro, mas a identidade material da mente ou a identidade do correlato material da mente. Negar que a identidade material da mente ou do seu correlato material se reduza ao cérebro não implica ser dualista (embora não contradiga isso).[3]

O acesso à informação é diferente nos dois casos. Para acessar as informações da minha memória, basta que meu cérebro opere, ao passo que para acessar as informações do aparelho, tenho que mover meu corpo, perceber o aparelho, etc. Mas essa distinção é mesmo relevante? Suponha que no futuro tenhamos implantes eletrônicos no cérebro que permitem que ele tenha uma conexão sem fio com a internet. Nesse caso, não haveria aquela diferença entre o modo de acessar a informação. Mas o substrato material dessas informações ainda estaria fora do cérebro.

Uma outra diferença que parece relevante é que as informações do Google Maps não foram produzidas por mim. Mas por que essa seria uma diferença relevante para a presente questão? Muita informação é armazenada no nosso cérebro sem que tenhamos consciência disso. Somo, digamos, passivos em boa parte das nossas atividades cognitivas.

Mas -- alguém poderia objetar -- se o Google Maps fizesse parte da minha mente, ao menos parte da minha mente seria comum à mente de outras pessoas! E dai? Não é exatamente isso que acontece com a mente de Samantha em Ela?

Lenny não consegue recuperar plenamente as funções perdidas pela sua mente. Mas parece que ele as recupera parcialmente. E isso é mais uma razão para pensar que seus mementos constituem sua mente.

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[1] "Memento", o nome original do filme, designa em inglês qualquer objeto usado por alguém para ajudá-lo a lembrar de uma pessoa ou evento passado, tal como um souvenir, ou aqueles presentes que chamamos de "lembrança" em português. Portanto, "amnésia" não é uma tradução de "memento". O problema de memória de Lenny é considerado pela literatura médica como um tipo de amnésia. Todavia, aquilo que normalmente as pessoas entendem por "amnésia" é o caso exatamente contrário: quando a pessoa não perde a capacidade de reter novas memórias, mas perde as memórias sobre eventos que ocorreram antes do início da amnésia. É por isso que Lenny nega que tenha amnésia, quando explica a sua condição. Dessa perspectiva, o título brasileiro do filme é enganador.

[2] Normalmente considera-se que David Hume tenha apresentado um argumento contra a realidade do eu (self), aquilo que dá unidade à mente, cuja forma resumida é a seguinte: "Da minha parte, quando adentro inteiramente no que chamo eu mesmo [myself], sempre me deparo com uma percepção particular ou outra, de calor ou frio, de luz ou sombra, de amor ou ódio, de prazer ou dor. Eu nunca consigo capturar a mim mesmo [myself] em qualquer momento sem uma percepção, e não posso observar na exceto a percepção." (Tratado da Natureza Humana, 1.4.6.3; tradução minha) Não quero entrar em questões exegética aqui. Mas passagens como essa pode ser interpretadas de forma mais fraca ou de forma mais forte, ou como a expressão de um ceticismo que nega qualquer realidade do eu, ou como negando um certo tipo de realidade, para além dos mecanismos de associação, relações causais e memória, com se o eu fosse uma espécie de entidade substancial cuja identidade não é determinada por tais mecanismos, relações e operações. Seria muito implausível que Hume estivesse negando que, anomalias a parte, há uma unidade da mente que se estende ao longo do tempo e (que podemos dizer que é uma mesma pessoa).

[3] Na filosofia contemporânea da mente, alguns filósofos, como David Chalmers, negaram que o substrato material da mente se limite ao cérebro. Eles desenvolveram a teoria da mente estendida, segundo a qual tudo que usamos para possibilitar ou facilitar os estados e operações da nossa mente, faz parte dela.