Translate

segunda-feira, 14 de setembro de 2015

Um vegano pode considerar carne um alimento?

hamburger sintético

Por estranho que possa parecer, minha resposta a essa pergunta é "sim". Mas veganos não são aqueles que se recusam a comer alimentos de origem animal? Como então um vegano pode considerar a carne um alimento? Bem o vegano de fato evita consumir alimentos de origem animal, como a carne, mas não pelo simples fato de a origem desse alimento ser animal, mas porque o seu processo de produção envolve a escravização, sofrimento e abate de animais não-humanos. Essa é a verdadeira motivação do vegano para não consumir carne. Comer carne não é algo moralmente errado em si mesmo. O que é moralmente errado é o processo de produção da carne.

Mas então estou defendendo o bem-estarismo? Bem-estarismo é uma posição em ética dos animais segundo a qual tudo que é moralmente errado no nosso trato com os animais não-humanos é o fato de infligirmos sofrimento a eles. Se os tratássemos bem, proporcionando bem estar a eles e os matando sem sofrimento, então estaríamos moralmente justificados em matá-los pra os transformar em alimento e outros bens. Eu não estou defendendo nenhuma forma de bem-estarismo. Sou um abolicionista, pois defendo que os animais senscientes devem ser livres e têm direito à vida. O processo de produção da carne envolve a escravização, sofrimento e abate de animais não-humanos e isso, creio, é moralmente errado.

Mas então como um vegano abolicionista pode considerar carne um alimento? Tudo depende de como a carne foi produzida. Se sua produção não envolve nem a escravização, nem o sofrimento e nem a morte de animais não-humanos, então nenhum princípio moral que está na base do veganismo é infringido por quem a consome. Mas como se poderia produzir carne sem escravizar e abater animais? Simples: animais são seres vivos e eventualmente morrem de causas naturais. Nenhum princípio moral impede que um vegano coma a carne de um animal que que viveu livre e morreu de causas naturais. Essa produção provavelmente não seria suficiente para atender à demanda de carne atual, nem qualitativa, nem quantitativamente. Mas isso é uma outra questão. Entretanto, há já os primeiros esforços para se produzir carne em laboratório (ver foto), sem que nenhum animal necessite ser escravizado, sofra ou seja morto para isso.

Para deixar esse ponto didaticamente claro, vou fazer uma afirmação ainda mais forte: nenhum princípio moral impede que um vegano coma a carne de um ser humano que viveu livre e morreu de causas naturais. Nossa cultura vê isso como algo repugnante. Mas essa repugnância não é baseada em princípios morais. Há culturas em que comer a carne dos idosos que falecem, ou dos inimigos de guerra mortos em combate, não é considerado algo repugnante. Seja como for, há casos extremos em que, para sobreviver, pessoas comem carne de pessoas mortas, sem que sejam moralmente condenadas por isso. Este foi o caso dos uruguaios  que sobreviveram à queda de um avião nos Andes, em 1972.

Alguns veganos de fato são radicalmente contra a "cultura da carne", em que os animais são vistos como alimento. Eles discordarão das teses que estou defendendo aqui, porque para eles o que é moralmente errado é justamente isto: ver e tratar os animais como alimento. (Uma vez fui criticado porque fazia hamburger de lentilha, pois isso mostrava que eu ainda tinha desejo de comer carne, que não tinha me libertado da tal cultura da carne...) Mas do que eu digo não se segue que os animais vivos podem ser vistos e tratados como alimentos. O que estou dizendo é apenas que não é contraditório com o veganismo comer carne. Eu acho essa rejeição à carne em si injustificada. Em alguns casos, essa rejeição toma a forma de uma devoção religiosa, como se a carne fosse algo sagrado e comê-la fosse algo pecaminoso. O movimento abolicionista tem só a ganhar, se focarmos a atenção no que realmente importa moralmente para o abolicionista: acabar com a escravidão, sofrimento e abate de animais não-humanos.


Um comentário: