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sábado, 3 de outubro de 2009

Conhecimento, engano, justificação e verdade

Tempo salvando a Verdade da Falsidade, de Françoise Lemoyne (1737)


O diálogo que se segue deveria ser lido em conjunto com a postagem O conceito de conhecimento. Ele nasceu de agradáveis conversas com vários amigos, sem os quais ele teria ficado pior do que está. Dentre esses amigos estão Luiz Eva, Tiago Falkenbach, Lúcio Lobo, Eros Moreira e Flávio Williges. (Revisado em 08/10/09.)

A: Sei que chove.

B: Então não podes estar enganado.

A: Não posso? Ou não estou?

B: Não estás e não podes estar.

A: Eu somente não estou enganado quando não posso estar enganado?

B: Bem, o fato é que se sabes, não podes estar enganado. Se estás enganado, então é porque crês que chove e não está chovendo. E se não está chovendo, então não sabes que chove. O conhecimento implica a verdade da crença que se alega saber ser verdadeira e o engano implica a falsidade da crença que se alega saber ser verdadeira

A: Concordo. Mas o que queres dizer poderia ser dito também assim: necessariamente, se sei que chove, não estou enganado.

B: Bem, sim.

A: Mas essa última formulação é mais fraca que a anterior.

B: Mais fraca? Que queres dizer?

A: Quero dizer que ela não tem certa implicação problemática que a anterior tem.

B: Qual implicação?

A: A afirmação "Se sei, não posso estar enganado" implica que sempre que for possível que eu esteja enganado, não sei. Mas a afirmação "Necessariamente, se sei, não estou enganado" não tem essa implicação. Ela implica apenas que, necessariamente, se estou enganado, não sei.

B: Mas tu não concordas que se posso estar enganado, então não sei?

A: Claro que não.

B: "Claro que não"? Como é possível que eu esteja enganado e saiba?

A: Mas não foi isso que eu disse. Veja, uma coisa é dizer que é possível que eu esteja enganado e saiba, outra muito diferente é dizer que sei e poderia estar enganado. Se estivesse enganado, então não saberia, pois, necessariamente, se sei, não estou enganado. Mas o fato de eu saber não torna meu engano uma impossibilidade lógica. Aqui ocorre algo análogo ao que ocorre em outros âmbitos. O fato de chover agora não torna o não chover agora uma impossibilidade lógica. Ou seja, mesmo que "Chove" seja agora verdadeira, não é necessariamente verdadeira. Analogamente, mesmo que "Sei que chove" seja agora verdadeira, não é necessariamente verdadeira.

B: Mas veja, se eu posso estar enganado agora, como posso agora saber? Isso não implica que posso saber e estar enganado agora?

A: Mas não estou dizendo que, agora, posso estar enganado e saber. Estou dizendo que, mesmo que eu agora saiba, eu poderia estar enganado. Ou seja, se agora sei, isso não se deve ao fato de ser uma impossibilidade lógica que agora eu não saiba.

B: Bem, com isso eu concordo.

A: Mas é justamente por isso que é enganador dizer "Se sei, não posso estar enganado". Se essa frase diz apenas o mesmo que "Necessariamente, se sei, não estou enganado", então tudo bem. Mas se por meio dela somos levados a crer que somente sabemos quando o engano é uma impossibilidade lógica, então somos levados a crer em algo falso.

B: Hum, ok. Mas tu tens que concordar que a possibilidade de eu estar enganado está excluída pelo fato de eu saber, não?

A: Se com isso queres dizer que o meu saber e o meu estar enganado são estados de coisas incompatíveis, concordo. Mas, novamente, tua formulação é uma maneira enganadora de se dizer isso.

B: Por que?

A: Porque sugere fortemente que somente podemos saber se mostrarmos que não é possível que estejamos enganados.

B: Mas não é isso que fazemos quando nossa alegação de conhecimento é verdadeira?

A: Claro que não. O que fazemos é mostrar que não estamos enganados, não que não é possível que estejamos enganados. Novamente, aqui ocorre algo análogo ao que ocorre em outros âmbitos: para nos convencermos de que chove agora, não precisamos mostrar que não chover agora é uma impossibilidade lógica.

B: Mas veja, se estou convencido de que sei, então a possibilidade de que eu esteja enganado não pode ficar aberta para mim.

A: Se com isso queres dizer que estar convencido de que sei implica estar convencido de que a possibilidade de eu estar enganado não é uma atualidade, então concordo. Mas ela não deixa de ser uma possibilidade para mim apenas porque estou convencido de que não é uma atualidade.

B: Bem, sim, mas não é isso que estou querendo dizer. O que quero dizer é que todas as possibilidades incompatíveis com meu saber devem ser descartadas por aquilo que me convence de que sei. Por exemplo: se sei que chove e isso é incompatível com eu estar dormindo, então o que me convence de que sei é algo que descarta a possibilidade de eu estar dormindo, ou seja, é algo que me convence de que essa possibilidade não é o caso.

A: Estás dizendo que algo somente me convence de que sei que está chovendo, somente justifica minha alegação de conhecimento, se me convence antes de que todas as possibilidades incompatíveis com eu saber que chove não são o caso?

B: Bem, ao menos todas as possibilidades incompatíveis conhecidas.

A: Ou seja, se alego saber que p e sei que p implica não-q, então o que quer que justifique minha crença que p deve fazê-lo justificando minha crença que não-q. É isso?

B: Isso mesmo. Por exemplo: se não tens justificação para crer que não estás sonhando, então não tens justificação para crer que chove.

A: Mas por que a justificação que tenho para crer que chove, por exemplo, estar olhando pela janela e vendo pingos caírem do céu, etc., não é suficiente para crer que não estou sonhando?

B: Porque essa justificação é compatível com a possibilidade de eu estar sonhando.

A: Então uma justificação para crer que chove é algo que implica logicamente que chove, certo? Pois se minha justificação para crer que chove deve ser incompatível com todas as possibilidades incompatíveis com minha crença, então não é possível que essa justificação seja verdadeira e minha crença seja falsa, ou seja, minha justificação implica logicamente minha crença.[nota 1]

B: Correto.

A: Não quero negar que quando essa exigência está satisfeita, então sei. Mas de onde vem a crença de que essa exigência deve estar satisfeita em qualquer caso de conhecimento? Creio que ela vem justamente do mal-entendido ligado à frase "Se sei, não posso estar enganado" apresentado anteriormente.

B: Qual mal-entendido?

A: O de inferir (2) "Se sei, não posso estar enganado" de (1) "Necessariamente, se sei, não estou enganado". (2) parece plausível porque (1) é plausível e (2) parece ser implicada por (1). Mas (2) não é implicada por (1) e nosso conceito de conhecimento não nos compromete com (2), mas apenas a (1).

B: Não concordo. Creio que nosso conceito de conhecimento nos compromete com (2).

A: Deixe-me tentar mostrar que estás enganado.

B: Podes tentar. Mas duvido que consigas.

A: OK, mas me siga com atenção.

B: Estou atento.

A: Em primeiro lugar, vamos ver quais seriam os desiderata de uma boa teoria do conhecimento.

B: OK.

A: Um deles é acomodar a assim chamada definição tradicional de conhecimento, a saber, que um sujeito S sabe que p se e somente se (1) S crê que p, (2) é verdade que p e (3) S está justificado ao crer que p.

B: Concordo. Se isso puder ser feito, tanto melhor.

A: Outro desideratum é não conflitar com a facticidade do conhecimento, isto é, com a tese que, se sei que p, então p.

B: Sim, claro.

A: Por fim, uma boa teoria do conhecimento deve mostrar como o conhecimento é diferente de uma adivinhação sortuda. Mesmo que a sorte possa ter algum papel na aquisição de conhecimento, não pode ser **apenas** por sorte que se obtém conhecimento. Se alguém apostar na Mega-Sena um conjunto de números que escolheu olhando para as placas dos carros que estavam estacionados em frente à casa lotérica e acertar, não vamos dizer que ele sabia quais números seriam sorteados.

B: Também concordo com isso.

A: Podemos descrever tua posição como a de alguém que sustenta que o conhecimento tem uma quarta condição, além das três tradicionais. Essa condição descreveria uma relação entres as condições (2) e (3), a saber, (4) a condição (3) implica logicamente a condição (2).

B: Ela poderia ser descrita também como a de alguém que sustenta uma tese sobre a condição (3), e não uma quarta condição. Mas a escolha entre as duas descrições é mesmo meio arbitrária.

A: Sim. Bem, eu não vou apresentar uma teoria do conhecimento. O que vou fazer é mostrar que uma teoria do conhecimento que negue (4) não necessariamente precisa desistir de um dos três desiderata listados há pouco.

B: Não vejo como.

A: Veja bem, se a definição tradicional de conhecimento está correta, então se as condições (1)-(3) estão satisfeitas, então há conhecimento. E se há conhecimento e o conhecimento é factivo, então aquilo que se sabe é o caso. Mas, se (4) é falsa, o conhecimento é factivo não porque (3) implica logicamente (2), mas porque, trivialmente, se as condições (1)-(3) estão satisfeitas, assim está uma delas, a saber, a condição (2).

B: Como assim?

A: Suponha que S sabe que chove. Se S sabe que chove, então S crê que chove, é verdade que chove e S está justificado ao crer que chove. Logo, se S sabe que chove, então é verdade que chove.

B: Sim, mas isso só é o caso se a justificação para S crer que chove implicar que é verdade que chove.

A: Bem, sei que essa é tua tese. Mas, como acabei de mostrar, negá-la não implica negar a tese da facticidade do conhecimento, tampouco implica negar a definição tradicional de conhecimento. A facticidade do conhecimento é uma conseqüência trivial da definição tradicional de conhecimento.

B: Mas se negamos (4), então é possível que haja duas pessoas S1 e S2 tais que, em tempos diferentes, t1 e t2, respectivamente, S1 e S2 crêem que chove e estão igualmente justificados ao crerem que chove, mas, enquanto S1 sabe que chove, porque em t1 é verdade que chove, S2 não sabe que chove, pois em t2 não é verdade que chove.

A: Sim, é graças à natureza que sabemos alguma coisa. [nota 2]

B: Mas então não temos como distinguir entre conhecimento e adivinhação sortuda! S1 sabe que p porque tem a sorte de ser verdade que p em t1. E S2 não sabe que p porque tem o azar de não ser verdade que p em t2.

A: Não. Esse é um falso dilema. Não é o caso que ou (3) implica logicamente (2), ou o conhecimento é adivinhação sortuda. E podemos ver que se trata de um falso dilema se notarmos que o que justifica a crença de S que chove pode ser algo que, embora não implique logicamente que chove, é um processo tal que gera muito mais crenças verdadeiras do que falsas, muito mais do que a média de acertos por adivinhação sortuda. Trata-se, portanto, de um processo confiável de geração de crenças. Se tanto S2 quanto S1 geraram a crença que chove por meio de um processo confiável, então a justificação de ambos é suficiente para o conhecimento, se combinada com a verdade de sua crença. S2 realmente teve má sorte. Mas S1 não sabe apenas porque teve boa sorte.

B: Mas então aquilo que justifica a crença fornece um apoio indutivo para ela?

A: Sim. Não estou dizendo que é sempre assim, mas que pode ser assim, ou seja, que não precisa sempre implicar logicamente a verdade da crença.

B: Mas o apoio indutivo admite graus e o conhecimento não os admite. Se estivesses correto, então o conhecimento admitiria graus. Não entendo isso. Se sei que chove, então não posso vir a saber mais que chove.

A: Mas por que não posso vir a saber mais que chove? Não dizemos às vezes "Tu sabes melhor que eu que…" ou "Tu sabes bem que…"? E aqui quero apontar para um outro desideratum de uma boa teoria do conhecimento, que não mencionei antes porque é mais problemático que os demais: uma boa teoria do conhecimento não deve entrar em conflito com nossos critérios ordinários para a atribuição de conhecimento. Nenhuma teoria que assuma (4) pode satisfazer esse desideratum. Ordinariamente admitimos graus de conhecimento, pois admitimos graus para a justificação.

B: Tanto pior para nossos critérios ordinários de conhecimento. Isso apenas mostra que eles são insuficientes para o conhecimento.

A: Como sabes? Se não podes apelar para nossos critérios ordinários de atribuição de conhecimento, como sabes que nosso conceito de conhecimento é tal que tais critérios não são suficientes para ele? Como sabes que o conhecimento não admite graus? [nota 3]

B: ...

[a ser continuado...]
___________

[nota 1] "…não podemos afirmar que S sabe que p (onde p é uma proposição qualquer) a menos que sejam satisfeitas as seguintes condições: (1 ª) S acredita que p; (2ª) p é verdadeira e (3ª) S tem boas razões para acreditar que p. […] O que significa com efeito 'ser uma boa razão' nesse caso? O candidato mais célebre -- e o mais domesticado -- a parafrasear essa expressão é 'implica logicamente'. E de fato penso que ninguém poria em dúvida que alguém sabe que p quando ele acredita que p é verdadeira, ele sabe que r, r implica logicamente p (ou, inversamente, p é dedutível de r) e, por último, ele sabe que r implica logicamente p." Barbosa Filho, Balthazar, "Saber, Fazer e Tempo", em E. Da Rocha Marques et al (org.), Verdade, Conhecimento e Ação, São Paulo: Loyola, 1999, p. 16. Quando o Prof. Balthazar fala que "ninguém poria em dúvida…", ele parece estar dizendo que é uma condição apenas suficiente para o conhecimento que a condição (3) implique a condição (2). Mas quando ele fala de "paráfrase", não há dúvida que ele está considerando-a uma condição necessária.

[nota 2] Wittgenstein afirma algo semelhante em Sobre a Certeza: "É sempre por um favor da natureza que sabe-se alguma coisa" (§505)


sexta-feira, 2 de maio de 2008

Externismo, Inferência e Anáfora


Um debate entre Paul Boghossian (foto) e Stephen Shiffer mostra algo interessante sobre a relação entre externismo e anáfora. Em "Externalism and Inference" (Philosophical Issues, 2, 1992, pp. 11-28), Boghossian nos convida a imaginar uma situação em que alguém que sofreu uma imperceptível "mudança lenta" de ambiente realiza uma inferência usando uma mesma expressão ambiguamente nas premissas, embora não note que é ambígua nem possa notar. Esse sujeito estará realizando, sem o saber e sem poder sabê-lo, uma inferência inválida. O exemplo de Boghossian é o seguinte:

1. Pavarotti nadou uma vez no lago Tampo.
2. O cantor que ouvi ontem é Pavarotti.
3. Portanto, o cantor que vi ontem nadou uma no lago Tampo.

(1) é uma afirmação verdadeira sobre Pavarotti, (2) é uma afirmação verdadeira sobre Pavarotti-gêmeo, uma réplica de Pavarotti que vive na Terra-Gêmea, e (3) é uma afirmação falsa sobre Pavarotti-Gêmeo. Peter, o sujeito que realiza essa inferência afirma (1) baseado na sua memória do que ocorreu na Terra. Depois ele é levado, sem notar, para a Terra-Gêmea, onde vai a um espetáculo do Pavarotti-Gêmeo. Baseado nisso ele afirma (2).

Shiffer ("Boghossian on Externalism and Inference", Philosophical Issues, 2, 1992, pp. 29-37) afirma que a interpretação intuitiva da inferência acima baseia-se no seguinte princípio: seja qual for a referência de "Pavarotti" em (1), é a mesma referência de "Pavarotti" em (2), pois essa é a intenção de Peter: estar falando da mesma pessoa. Shiffer, portanto, interpreta o segundo uso de "Pavarotti" como um uso anafórico.

A réplica de Boghossian ("Reply to Shiffer", Philosophical Issues, 2, 1992, pp.39-42) é, a meu ver, óbvia: a objeção de Shiffer não é feita a partir de um ponto de vista externista, pois a intenção de estar se referindo à mesma pessoa não é algo afetado pelas mudanças ambientais. Shiffer parece incoerente quando admite que Boghossian está correto quanto ao conteúdo da memória antes e após a mudança lenta, mas ao mesmo tempo afirma que a referência de "Pavarotti" deve ser a mesma no raciocínio de Peter. Se Boghossain está certo, e creio que está, então um externista não pode, sob pena de incoerência, explicara a referência em casos de inferências como a de Peter por meio da anáfora.

quarta-feira, 18 de julho de 2007

Ensaios sobre o Ceticismo


Saiu a coletânea de artigos apresentados no XI Encontro Nacional Sobre Ceticismo, realizado em maio de 2006, em Salvador: Smith, P.J. & Silva Filho, W. (org.) Ensaios sobre o Ceticismo (São Paulo: Alameda, 2007). Minha modesta contribuição foi o artigo "Wittgenstein e o Externalismo", que está disponível aqui. Comentários e críticas são bem-vindos. (Clique aqui para ver algumas fotos do evento.)

Índice:
Introdução
Plínio Junqueira Smith & Waldomiro Silva Filho

Empirismo e Ceticismo,
Oswaldo Porchat

Ceticismo e Empirismo
Roberto Bonzani Filho

Hesitações Filosóficas
Plínio Junqueira Smith

Ateísmo e Ceticismo no Theophrastus redivivus
Sébastien Charles

O primeiro Ateu: a propósito do ateísmo e do ceticismo no Theophrastus redivivus
Paulo Jonas de Lima Piva

A Presença do Ceticismo na Filosofia do Jovem Hegel
Luiz Fernando Martin

Marx e o Ceticismo
Mauro Castelo Branco de Moura

Wittgenstein e o Externalismo
Alexandre N. Machado

Externalismo, Auto-conhecimento e Ceticismo
Waldomiro Silva Filho

O Pensamento sem Luz Própria (paradoxo de Moore e anti-luminosidade)
Hilan Bensusan

Prova, Ceticismo e Conhecimento
Edurado Alejandro Barrio

Política e Ceticismo
Cicero Romão de Araújo

Press Release

por Danilo Marcondes (PUC, RJ)
A tradição do ceticismo
Livro apresenta um dos debates filosóficos mais férteis da atualidade

A filosofia cética surgida no contexto do Helenismo formulou problemas e propôs um modo de filosofar que influenciaram decisivamente a tradição filosófica desde aqueles que a retomaram e visaram levá-la adiante, até os que pretenderam refutá-la ou superá-la. Ensaios sobre o Ceticismo reúne treze textos que trazem a marca de um dos debates filosóficos mais férteis em nosso contexto, entre um grupo de pesquisadores e professores de filosofia que vêm se dedicando ao estudo e à discussão de questões relacionadas à filosofia cética já há vários anos de forma extremamente produtiva.

Os textos incluem não só análises históricas e conceituais de alguns dos temas mais importantes do ceticismo antigo e moderno, mas também algumas das questões mais importantes do debate filosófico contemporâneo em epistemologia, filosofia da mente e filosofia da linguagem, como o problema do externalismo, a relação entre filosofia e experiência comum, a questão da representação lingüística e conceitual da realidade.

Ceticismo e empirismo, a possibilidade do conhecimento científico, filosofia e vida comum, o sentido da experiência humana, são alguns dos temas tratados aqui em perspectivas que variam, mas que resultam da inspiração cética. Da história da filosofia à ética contemporânea isso nos revela a originalidade do modo de filosofar cético e a relevância de seu legado.

quinta-feira, 8 de fevereiro de 2007

(AP2) Atitudes Proposicionais

Retomando a objeção do Eduardo (cf. AP1):

Sejam as seguintes práticas,ambas legítimas:

(1) Descrever o que se passa na cabeça [de uma pessoa] (César e Alexandre)
(2) Dizer para uma quarta pessoa algo sobre as crenças [de uma pessoa] (Eduardo)

Qual das duas chamaremos de "atribuição de atitude proposicional"? Esse é o problema.


Essa pergunta está mal colocada. O que importa é saber se, em ao menos alguns casos, é relevante a representação que usamos para fazer uma atribuição de atitude proposicional. O Eduardo parece supor que uma resposta afirmativa se compromete com a tese que as atitudes proposicionais são coisas que "se passam na cabeça" daquele a quem atribuímos a atitude. Suponho que isso seja considerado um problema se "o que se passa na cabeça" é algo cuja identidade é independente do ambiente, o que estaria em conflito com o externalismo. Mas colocar o externalismo como premissa a essa altura é incorrer em petição de princípio.

Paul Horwich sugere que devamos admitir tanto crenças de re como crenças de dicto:

Russell claimed that a proposition consists of the very objects it is about. For exemple
(9) the proposition that Hesperus is visible
would made up of the object, Hesperus, and the property of being visible. If Russell was right then, since 'Hesperus' and 'Phosphorous' have turned out to be two names for the same planet, then
(10) the proposition that Phosphorous is visible

is the very same proposition as (9). But how, in that case, do we account for the fact that someone may be aware - as we say, de dicto - that Hesperus is visible and not that Phosphorous is? In light of this problem, Frege claimed that the proposition expressed by a sentence (what he called a 'thought') is composed of the senses, rather than the references, of its constituent words. So (9) and (10) would be different from one another. But if he was right, then the so called de re beliefs become problematic. For surely the discovery about a certain object that it is Phosphorous does not consist in a relation between the believer and the tautologous Fregean proposition, [Phosphorous is Phosphorous]! The later belief is trivial whereas the former is not.

One way of dealing with these problems is to acknowledge the existence of both Fregean and Russellian propositions - the first being the objects of de dicto belief, and the second of de re belief. [Truth, p. 94]

sexta-feira, 8 de dezembro de 2006

(AP1) Atitudes proposicionais

Eis um balanço de uma discussão com o Eduardo e com o César que desembocou na pergunta: o que é uma atitude proposicional?

Uma atitude proposicional é o que quer que torne verdadeira uma frase da forma

x F que p

onde x é o sujeito da atitude proposicional, F é a atitude e que p é aquilo em relação ao qual x tem atitude F (p.ex.: 'Alexandre acredita que nem todos concordam com o que ele diz'). Mas o que torna uma frase dessa forma verdadeira? Qual é a ontologia das atitudes proposicionais? No caso do exemplo recém mencionado, a atitude é a crença, um estado subjetivo. Mas que tipo de estado é a crença? A crença é uma atitude em relação ao quê (qual é seu objeto)? Prima facie, uma crença é um estado mental que, também prima facie, pode ser atribuído a seres que não possuem linguagem, como cães e gatos, p.ex. Mas, se for assim, então o objeto da atitude proposicional não pode ser uma entidade essencialmente lingüística. Restam duas alternativas: (i) uma entidade (seja mental, seja abstrata) que representa um determinado estado de coisas e que pode ser expressa por uma frase indicativa ou (ii) esse próprio estado de coisas (seja lá isso o que for). Podemos chamar (i) de análise intensional da crença (César) e (ii) de análise extensional (Eduardo). Se optarmos por uma análise intensional, então a identidade da crença não será determinada pela identidade do estado de coisas representado, mas pela representação. Por exemplo (que figurou na discussão com o Eduardo e com o César): se a=b e S1 não sabe que a=b, então S1 poderia acreditar que ~(a=b) sem que isso fosse o mesmo que acreditar que ~(a=a), embora o estado de coisas representado nas crenças que ~(a=b) e que ~(a=a) seja o mesmo. Se optarmos por uma análise extensional, então as crenças que ~(a=b) e que ~(a=a) são as mesmas, pois representam o mesmo estado de coisas.

O que há a favor da análise extensional? De acordo com a linguagem ordinária, muitas vezes é irrelevante a representação que usamos para atribuir crenças. Se S2 e S3 sabem que a=b e S1 acredita que Fa, então S2 pode dizer a S3 que S1 acredita que Fb. O que há contra a análise extensional? Duas coisas, no mínimo: (1) ou (1.1) seremos obrigados a atribuir crenças irracionais às pessoas (que S1 acredita que ~(a=a), p.ex.), ou, para evitar (1.1), (1.2) seremos obrigados a dizer que algumas vezes as pessoas estão iludidas que têm uma crença (o que, em última análise, é a falsidade de uma crença de segunda ordem), quando ordinariamente diríamos que elas a têm; além disso, (2) de acordo com a linguagem ordinária, muitas vezes é relevante a representação que usamos para atribuir crenças, como no caso daquele que acredita que ~(a=b) quando é o caso que a=b. (Quando digo ‘de acordo com a linguagem ordinária’ ou ‘ordinariamente’ quero apenas chamar atenção para o que é mais intuitivo, a fim de determinar o ônus da prova.)

Nesse ponto, Eduardo disse:

Sejam as seguintes práticas,ambas legítimas:

(1) Descrever o que se passa na cabeça [de uma pessoa] (César e Alexandre)
(2) Dizer para uma quarta pessoa algo sobre as crenças [de uma pessoa] (Eduardo)

Qual das duas chamaremos de "atribuição de atitude proposicional"? Esse é o problema.

Mas como devemos entender a relação entre (1) e (2)? (continua)

domingo, 3 de dezembro de 2006

Cérebro na cuba, externalismo [externismo] e ceticismo


Andei pensando sobre a resposta de Putnam ao desafio do cérebro na cuba (cf. "Brains in a Vat", cap. 1 de Reason, Truth, and History). Não conferi o que escrevi no próximo parágrafo. Estou sem tempo agora e confiando na memória apenas.

Se S1 e S2 dizem que Fa, mas S1 se refere a X por meio de 'F' e S2 se refere a Y por meio de 'F' e X não é o mesmo tipo de coisa que Y, então o conteúdo de 'Fa' é diferente para S1 e S2. S pode referir-se a X por meio de ‘F’ apenas se S e X mantiverem uma relação causal apropriada. Se S é um cérebro numa cuba, então S não pode manter a relação causal apropriada para que ‘F’ possa referir-se a objetos físicos. Se S1 fosse um cérebro numa cuba e S2 não fosse, e se S2 se referisse, por meio de ‘F’, a uma certa classe de objetos físicos, X (cérebros ou cubas, p.ex.), então S1 não poderia se referir a X por meio de ‘F’. Se S1 diz que é um cérebro numa cuba, então ‘cérebro’ e ‘cuba’ não tem o mesmo conteúdo que tem para S2, e, por isso, 'Eu sou um cérebro numa cuba' não tem o mesmo conteúdo para S1 e S2. Portanto, mesmo que a frase de S1 fosse verdadeira, ao pronunciá-la ele não estaria pensando a hipótese que S2 pensa ao dizer a mesma frase. Portanto, ou S é um cérebro numa cuba, mas não pode pensar que é, ou ele pode, mas não é um cérebro numa cuba.

Mas como sei que "S pode referir-se a X por meio de ‘F’ apenas se S e X mantiverem uma relação causal apropriada"? A teoria do significado que está incorporada a esse argumento não se baseia em um conhecimento empírico sobre a relação causal entre o usuário de uma expressão e aquilo ao qual essa expressão se refere? Mas se admito que sei isso, então nem preciso do argumento para rejeitar o ceticismo, não? Me parece que tem alguma coisa errada no que estou dizendo. Mas não sei bem o que é.

(Revisado em 27/06/08.)

domingo, 26 de novembro de 2006

(DC7) Método da dúvida baseado em uma crença?

Broughton diz:

In fact, the method of doubt has no strategic role to play unless there is an incompatibility between very well entrenched beliefs of ours and other claims that somehow emerge as absolutely certain. [p. 52]
Mas então para adotarmos esse método, temos que acreditar nisso sem que tenhamos nenhuma prova? Deve-se notar que não se trata de acreditar que pode haver uma incompatibilidade, mas que uma incompatibilidade.