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Mostrando postagens com marcador Broughton. Mostrar todas as postagens
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sábado, 3 de fevereiro de 2007

(DC17) Dúvida fingida?

A dúvida metódica certamente não pode ser uma dúvida fingida, como Descartes parece insinuar em algumas passagens dos seus escritos. Se finjo que duvido que P, então acredito que P. Mas se o objetivo da dúvida é nos livrar de nossos prejuízos e nos afastar dos sentidos, como continuar acreditando no que acreditávamos enquanto fingimos não mais acreditar poderia desempenhar esse papel? Além disso, por que precisamos de razões para fingir que duvidamos?

quinta-feira, 25 de janeiro de 2007

(DC16) Ter conhecimento e ter boas razões para acreditar

De acordo com Broughton, o método da dúvida não nos obriga a inferir

(1) Suspendo meu juízo sobre se há boas razões para acreditar que P

onde "P" descreve um estado de coisas sensível, de

(2) Suspendo meu juízo sobre se sei que P

mas nos obriga apenas a aceitar (2). (pp. 85-89). Fica então aberta a possibilidade (racional, se o método da dúvida não contém elementos irracionais) de se suspender o juízo sobre se sabemos se P e julgar que há boas razões para acreditarmos que P. Mas se julgar que há boas razões para acreditarmos que P é compatível com acreditar que P (como parece que é), então suspender o juízo sobre se sabemos se P e acreditar que P são compatíveis (a compatibilidade é uma relação transitiva). Portanto, a explicação de Broughton implica que o método da dúvida não nos obriga a abandonar nossas crenças sensíveis. Mas então, se estamos duvidando quando o aplicamos, não estamos duvidando que as coisass sejam tal como as representamos nas nossas crenças sensíveis.

sexta-feira, 1 de dezembro de 2006

(DC15) A problemática do método da dúvida

Broughton mostra que devemos distinguir e considerar as seguintes questões para realizar uma boa interprteação do método da dúvida:
(1) O que é a dúvida cartesiana (que compõe o método da dúvida)? Se opõe à crença razoável? Implica que aquele que duvida abandona as crenças razoáveis durante a aplicação do método?

(2) Qual é a motivação para a dúvida? É uma estratégia razoável para a obtenção de certezas absolutas (fundamentos da ciência)? É uma epistemologia prévia que equaciona conhecimento e indubitabilidade?

(3) Qual e a justificação para a motivação para a dúvida? Não há objeções à motivação para a dúvida?

Parte do meu problema abrange essas três perguntas. Para julgar se a dúvida cartesiana é inteligível devemos saber se a explicação do que ela é é inteligível, se sua motivação é inteligível e se o que é oferecido como justificação para essa motivação é inteligível e realmente a justifica.

segunda-feira, 27 de novembro de 2006

(DC14) Bracketing x descrença

Broughton chama de bracketing o que fazem os jurados de um tribunal que, mesmo acreditando no que alguém disse em um julgamento, são obrigados a desconsiderar o que foi dito no momento de julgar porque o que foi dito fere as regras de um julgamento. Segundo Broughton, a duvida cartesiana combina dois aspectos conflitantes. Por um lado ela exige que o meditador pare (voluntariamente) de acreditar no que acreditava. Por outro, por ser uma dúvida fingida ou artificial, ele exige apenas bracketing. Ela então afirma que o primeiro aspecto, mas não o segundo, não é crucial para entender o papel da dúvida na estratégia das Meditações, estratégia essa que deve ser entendida a partir da motivação para o método da dúvida: nos preparar para a revisão das nossas crenças fundamentais. Ela então interpreta a suspensão do juízo como um bracketing, que é compatível com continuar acreditando e é suficiente para os propósitos do método da dúvida. Broughton afirma que a suspensão do juízo, assim interpretada, é um produto da imaginação, que constrói cenários céticos hipotéticos de acordo com os quais nossas crenças atuais são falsas, mas que, ao menos inicialmente, não podemos mostrar por reflexão que não são atuais.

Mas isso obviamente não resolve a contradição entre não acreditar e fazer apenas bracketing. Além disso, não é claro como a analogia com os jurados deve funcionar nos detalhes. Os jurados desconsideram certas crenças que têm para poder julgar outra coisa. A suspensão do juízo, nesse caso, é sempre relativa a um ato de julgar, de formar uma crença. É isso que dá conteúdo à palavra “desconsiderar” nesse contexto. Desconsiderar uma crença é julgar sem considerá-la entre as razões para fazer o juízo. Como então podemos desconsiderar todas as nossas crenças? Nesse caso não haveria nenhum juízo, nenhuma crença que gostaríamos de formar e em função da qual estaríamos desconsiderando nossas crenças. Seria um bracketing absoluto, semelhante à epoché de Husserl. Não tenho certeza que um tal bracketing absoluto faça sentido. Desconsideramos nossas crenças ao fazer o que?

(DC13) Pseudo-dúvida

Broughton sustenta algo parecido com (1) da minha hipótese interpretativa disjuntiva (cf. (DC1)):
Of course, Descartes sometimes uses the word “doubt” when the more precise term for what he is interested in would be “suspense of judgment.” I think this is because often he wants to draw attention to the radical grounds for doubt that precipitate suspense of judgment in the meditator who is using the method of doubt. It may also be that his choice of words is influenced by the ambiguity in the meaning of “doubt” to which I drew attention earlier. But despite these complications, he is very clear in the Meditations that suspense of judgment is what he is after. [p. 59, nota 27]
Ela acredita que se trata de um trabalho da imaginação que considera dúvidas possíveis. Mas, de qualquer forma, mesmo não sendo atual, essa é uma dúvida possível. Resta saber se é racionalmente possível.

domingo, 26 de novembro de 2006

(DC12) O que o meditador sabe

Eis a passagem onde Broughton fala pela primeira vez sobre a ação retroativa da aplicação da dúvida sobre sua motivação:
When we think about the meditator, we should always ask, “What did he know, and when did he know it?” We may, however, find that there are places where we simply cannot make sense of what the meditator says without reading Descartes as putting words in the meditator's mouth. I will argue presently that the very first sentence of the First Meditation is one such place, and that this complication is philosophically significant. [p. 25]

(DC11) Arrombando portas abertas

Acabei arrombando uma porta aberta. Na p. 53 Broughton diz:
Notice that once again we are obliged to read Descartes as retrojecting later developments into the motivations for the meditator's conduct in the First Meditation. When the meditator enunciates the strong maxim, he really has no particular reason to think he will benefit from a strategy like the one I have described, because for all he knows so far, it may turn out that nothing will emerge as absolutely certain.
Ainda bem que estava aberta! Mas ela diz "uma vez mais". Não sei onde ela disse isso pela primeira vez.

(DC10) Autoridade de Descartes

Broughton diz:

Of course, there is nothing about the strategy of this method that guarantees it will do what we want it to do. Perhaps we will find that all claims can be impugned by a reason for doubt. Perhaps we will find some that cannot, but then discover that they are very general or have few interesting implications. But Descartes thinks that, in fact, this method does what we want it to do, that it allows us to establish claims about the exis-tence and character of the self, God, and nature. [p. 53]

Mas a opinião de Descartes e de qualquer um que tenha aplicado o método da dúvida não pode ser razão para se adotar o método, pode?

(DC9) Motivação para a dúvida cartesiana

Mais adiante, Broughton diz:
He thinks that being absolutely certain has the advantage over being morally certain, and that this advantage is what will permit the overthrow of the dogmas of everyday life (and of scholastic philosophy too). By attending to radical grounds for doubt, we will ultimately be able to discover new, fundamental, and highly consequential truths, and we will have to change our minds about many things. [p. 52]

Claro, se formos capazes de descobrir verdades novas, fundamentais e altamente consequentes! Mas que razão temos para acreditar nisso na Primeira Meditação? A interpretação de Broughton da motivação para a dúvida cartesiana depende da resposta a essa pergunta.

(DC8) Conflito real x conflito potencial

Logo após a passagem citada em (DC6), Broughton diz:

As an epistemological strategy, its point is to show us what to do if we suspect that our commonsense beliefs are in conflict with true propositions. I think this is at least part of what Descartes means in a passage in the Second Replies about the method of the Meditations: he says that the primary notions in metaphysics “conflict with many preconceived opinions derived from the senses which we have got into the habit of holding from our earliest years. … Indeed, if they were put forward in isolation, they could easily be denied by those who like to contradict just for the sake of it” [p. 52]

Mas constatar que a crença razoável que r conflita com doutrinas metafísicas não implica que r conflite com certezas absolutas. E para acreditar que r pode conflitar com certezas absolutas não preciso constatar que ela conflita com doutrinas metafísicas.

(DC7) Método da dúvida baseado em uma crença?

Broughton diz:

In fact, the method of doubt has no strategic role to play unless there is an incompatibility between very well entrenched beliefs of ours and other claims that somehow emerge as absolutely certain. [p. 52]
Mas então para adotarmos esse método, temos que acreditar nisso sem que tenhamos nenhuma prova? Deve-se notar que não se trata de acreditar que pode haver uma incompatibilidade, mas que uma incompatibilidade.


(DC6) Motivação para a dúvida cartesiana

Talvez Broughton esteja argumentando assim: se nos damos conta que a crença razoável que r pode conflitar com alguma certeza absoluta, então temos uma motivação para supender nosso juízo sobre se r até que apliquemos o método da dúvida e vejamos se as certezas absolutas que por boa ventura venham a ser adquiridas com sua aplicação conflitam ou não com r. Mas suspender o juízo é... suspender o juizo! Vamos supor que deixamos para ler a Segunda Meditação no dia seguinte. O que devemos fazer nesse meio tempo com a crença razoável que r? Podemos mantê-la e suspender o juízo do modo como o método da dúvida exige?

(DC5) Certeza absoluta

Broughton diz:

Suppose I reflect upon two beliefs, my belief that p and my belief that q. I find upon reflection that both are reasonable for me to hold, and indeed that both are completely free from the everyday worries we may have about our beliefs. Suppose that upon further reflection I can find no grounds whatsoever for being less than entirely certain about p, but that I discover some slight grounds for being less than certain about q. (Call my belief that p “absolutely certain,” and my belief that q “morally certain.”) Now suppose that p and q conflict. Where should I give and withhold my assent? If my reflection upon p and q has been careful—thorough, thoughtful, clear—then I ought to believe that p: I am in the best possible epistemic relation to p. But if I ought to assent to p, and p and q cannot both be true, then I ought to disbelieve that q. I ought to assent to the negation of q. So here are two principles—that in these circumstances I ought to believe that p, and that in these circumstances I ought to disbelieve that q—that are essential to making the method of doubt productive. I ought to believe what I am absolutely certain about, and I ought to disbelieve whatever conflicts with these absolute certainties, even if that means disbelieving something about which I am morally certain. Further, Descartes never entertains the thought that two absolute certainties might conflict with one another. So by enabling me to discover absolute certainties, not only does the method of doubt show me where to give my assent when my investigations lead to propositions incompatible with my ordinary, morally certain beliefs; but also in doing this the method of doubt leads me to the discovery of incontrovertible beliefs, beliefs that will be absolutely sturdy and lasting. [p. 51]

Mas isso me dá razão para rejeitar q apenas no caso em que tenho certeza absoluta sobre p e sobre ~(p & q). Isso não explica o que devemos fazer no caso em que a crença em r é razoável e não temos certeza absoluta sobre se r conflita com alguma certeza absoluta, justamente o caso de quem se encontra lendo a Primira Meditação.

(DC4) As teses interpretativas de Janet Broughton

Janet Broughton sustenta as seguintes teses:
(1) A dúvida cartesiana se opõe à certeza absoluta, não à crença razoável.
(2) A dúvida cartesiana não é uma extensão natural da dúvida ordinária (contra B Williams).
(3) Ter razão para duvidar cartesianamente não é suficiente para suspender o juízo num contexto ordinário.
(4) Ter razão para duvidar cartesianamente é razão para suspender o juízo no contexto da busca de uma fundamentação para a ciência.
Mas então é possível ter certeza ordinária e dúvida cartesiana? Como se poderia julgar que p em contextos ordinários e, no contexto da busca por fundamentos para a ciência, suspender o juízo sobre se p?

(DC3) Suspender o juízo

Janet Broughton insiste que, mesmo sendo uma espécie de jogo (embora a razão para fazer um lance nesse jogo não sej arbitrária), o método da dúvida exige a suspensão do juízo. É ai que entra minha outra suspeita: o que significa aqui suspender o juízo, se não se trata de fingir que se suspende o juízo? Fingir suspensão de juízo não é suspender o juízo.

(DC2) Dúvida fingida é dúvida?

Janet Broughton diz: "I think it is helpful to compare the method of doubt to a game, a game whose rules demand that players do things it would be ridiculous to do if they weren't playing the game." (Descartes's Method of Doubt, p. 48) Se ela estiver correta, acho que isso reforça uma das minhas suspeitas: a dúvida certesiana não é uma dúvida. Por que? Porque o que seria ridículo nesse contexto, segundo Janet, seria suspender o juízo que fazemos ordinariamente. Ela acredita que a dúvida cartesiana visa apenas mostrar que não temos certeza absoluta sobre certas coisas, não a suspensão de nosso juízo sobre o que ordinariamente achamos razoável acreditar. Mas na Primeira Meditação Descartes pede que suspendamos o juízo sobre certas coisas que ordinariamente achamos razoável acreditar. Dai a idéia que esse é o pedido para entrar num "jogo". Detalhe: quando percebemos que não temos certeza absoluta (no sentido explicado por Jasnet) sobre algo, não dizemos que duvidamos. De (a) "Não tenho certeza absoluta que p" não concluímos (b) "Duvido que p" ou (c) "Tenho dúvidas sobre se p". (b) e (c) implicam que não creditamos que p, ou seja, implicam nomínimo a suspensão do juízo sobre se p. De qualquer forma, (a) é compatível com "Mas tenho certeza que p, tanto quanto qualquer um pode ter".

sexta-feira, 24 de novembro de 2006

(DC1) Janet Broughton, Descartes's Method of Doubt


Preciso acertar umas contas com a dúvida cartesiana. Por isso, estou lendo Descartes's Method of Doubt, de Janet Broughton (Princeton University Press, 2001). É um livro muito bem escrito, claro, bem argumentado e bem apoiado nos textos de Descartes. Meu objetivo é entender a natureza da dúvida cartesiana. Eu tenho uma hipótese disjuntiva que estou testando: ou (1) a dúvida cartesiana não é uma dúvida ou (2) ela é ininteligível. Mas minha estratégia argumentativa para (2) não coniste em mostrar, como Wittgenstein, que a dúvida pressupõe certeza. Ela consiste muito menos em tentar inferir que a dúvida certesiana é ininteligível da afirmação que ela não é uma dúvida ordinária. Ao invés disso, ela consiste em tentar mostrar que não temos como determinar critérios para essa dúvida, se negamos que seja uma dúvida ordinária. Uma das maneiras de se escapar do meu argumento, na suposição que ele esteja correto, consiste em dizer que o meditador apenas finge que duvida. Mas fingir que se duvida não é duvidar, o que implica (1). Noutra ocasião exporei com mais detalhes minha estratégia para provar minha hipótese disjuntiva. O livro de Broughton está me ajudando a reconstruir a primeira das Meditações de Descartes de uma maneira caridosa no que respeita às relações entre crença razoável, dúvida ordinária, certeza e dúvida cartesiana. Ela argumenta persuasivamente contra a interpretação que afirma que a motivação da dúvida certesiana é uma certa teoria do conhecimento de Descartes que contém uma tese sobre o que é uma crença racionalmente aceitável. Todavia, uma questão diferente é se a aplicação da dúvida cartesiana não implica uma tal teoria.