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domingo, 31 de maio de 2009
Entrevista com Timothy Williamson
Excelente entrevista de Timothy Williamson, relacionada às duas postagens anteiores. (Em Mente, Cérebro e Ciência, via Desidério Murcho, na Crítica)
sábado, 30 de maio de 2009
Preconceitos sobre a filosofia analítica
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| Heidegger |
Toda interpretação se funda na compreensão. O sentido é o que se articula como tal na interpretação e que, na compreensão, já se prelineou como possibilidade de articulação. Na medida em que a proposição (o "juízo") se funda na compreensão, representando uma forma derivada de exercício de interpretação, ela também "possui" um sentido. O sentido, porém, não pode ser definido como algo que ocorre em um juízo ao lado e ao longo do ato de julgar. No presente contexto, a análise temática da proposição visa várias coisas.
Em primeiro lugar, pode-se mostrar na proposição de que maneira a estrutura-"como", contitutiva de toda compreensão e interpretação, é suscetível de modificação. Com isso a compreensão e interpretação aparecem com maior nitidez. Em segundo lugar, a análise da proposição ocupa um lugar privilegiado na problemática de uma ontologia fundamental, uma vez que no início decisivo da antiga ontologia, somente o logos [em grego no original] constituía o fio condutor de acesso ao ente propriamente dito e da determinação do ser dos entes. Por fim, há muito tempo a proposição vale como o lugar próprio e primário da verdade. Esse fenômeno acha-se tão intimamente acoplado ao problema do ser que a presente investigação terá de se deparar necessariamente, em seu curso, com o problema da verdade. Ela já se encontra, embora implicitamente, na dimensão desse problema. A análise da proposição também pretende preparar o advento desta problemática.Atribuiremos a seguir três significados à palavra proposição. São significados auridos do fenômeno por ela designado, inter-relacionados entre si e que, em sua unidade, delimitam a estrutura completa da proposição. [Martin Heidegger, Ser e Tempo, §33 (Petrópolis: Vozes)]
Por que estou citando essa passagem de um texto de Heidegger? Porque concordo com ele? Não. Porque discordo? Também não. Não tenho certeza de ter entendido tudo o que ele diz nessa passagem. Meu objetivo com essa citação é apresentar um caso paradigmático de contra-exemplo de um preconceito muito difundido na academia: que "filosofia da linguagem" é sinônimo de "filosofia analítica" ou ao menos de "filosofia analítica da linguagem". Ernst Tugendhat, que foi um estudioso de Heidegger, chama um de seus livros Lições Introdutórias à Filosofia Analítica da Linguagem (Ijuí: Unijuí; Tugendhat dedica o livro à memória de Heiddeger). Ele tem o cuidado de colocar o qualificativo "analítica", o que deixa espaço para se pensar em uma filosofia da linguagem não analítica. E acho que o §33 de Ser e Tempo, o trecho inicial do qual eu citei acima, bem como o §34 ("Dasein e discurso. A linguagem"), exemplificam bem essa alternativa, sem entrar no mérito de se é uma boa ou má alternativa. Heidegger está se propondo fazer uma análise da proposição e está dizendo que essa análise ocupa um lugar privilegiado na principal tarefa que ele realiza em Ser e Tempo, e que é a principal tarefa da sua filosofia nessa época. Essa análise não é uma atividade filosófica? E seu tema central não é a linguagem? Se sim, então o que falta para se admitir que se trata de uma filosofia da linguagem?
Outra afirmação importante de Heidegger é que a linguagem era entendida desde os gregos (os que iniciaram a ontologia antiga) como o fio condutor da ontologia. Essa tese atribuída aos gregos (correta ou incorretamente) é muito próxima da afirmação que a filosofia, mesmo a metafísica, deve ser feita por meio da análise da linguagem, uma tese geralmente atribuída aos filósofos analíticos (mas que nem todos os filósofos analíticos aceitam). Portanto, segundo Heidegger, essa tese, que ele combate em Ser e Tempo, não passou a ser defendida apenas com o advento da filosofia analítica no final do séc. XIX. Ou seja, de acordo com Heidegger, de há muito tempo a filosofia atribui importância filosófica crucial à análise da linguagem.
Esse contra-exemplo paradigmático do preconceito referido acima serve para mostrar que, seja qual for a diferença que haja entre filosofia analítica e filosofia continental, se há alguma, essa diferença não é uma diferença de temática. Mas há contra-exemplos análogos de preconceitos análogos: o preconceito que epistemologia, filosofia da ciência, filosofia da lógica e filosofia da matemática são disciplinas apenas da filosofia analítica. Platão e Kant, por exemplo, não tinham uma reflexão espistemológica (que influencia os debates até hoje)? Heidegger não tinha uma reflexão filosófica sobre a natureza da ciência? Hegel não tinha uma filosofia da lógica? Husserl, o professor de Heiddeger, não tinha uma filosofia da matemática?
Mas há um outro preconceito: que filósofos analíticos não estão interessados em história da filosofia. Se isso fosse o caso, eles não estariam interessados na história da filosofia analítica. E se não estivesses interessados nisso, então eles teriam que entrar no debate sobre os problemas que eles querem tratar sem saber como esse debate se desenrolou até sua inserção no mesmo. Mas é difícil ver como isso seria possível. É claro que há muitos filósofos analíticos que fazem história da filosofia, e de alta qualidade. Talvez eles não façam a história da filosofia do modo como os filósofos não-analíticos fazem, ou não sobre os autores preferidos dos filósofos não analíticos. Mas isso já é outra questão. Bertrand Russell, escreveu um livro sobre Leibniz. Bernard Williams escreveu um livro sobre Descartes. A tese de doutorado de Donald Davidson é sobre Platão. Gilbert Ryle escreveu um livro sobre Platão. Peter Strawson escreveu um livro sobre Kant. E hoje em dia a há muitos livros de filósofos analíticos sobre filosofia medieval. Isso são apenas uns poucos contra-exemplos paradigmáticos desse último preconceito. Mas há ainda filósofos analíticos que estudam Hegel, Marx e outros filósofos paradigmaticamente não-analíticos. Entre esses estudiosos de Hegel estão Robert Brandom, John McDowell e Peter Hylton, esse último um grande historiador da filosofia analítica e autor de um artigo que faz parte do Cambridege Companion to Hegel. A abordagem analítica de Marx deu origem ao que se costuma chamar de marxismo analítico.
Eu abordo brevemente um outro preconceito contra a filosofia analítica nesta postagem. Trata-se de pensar que os filósofos analíticos resolvem problema filosóficos como matemáticos, de modo puramente formal, aplicando um algoritmo a um conjunto de dados para obter um certo resultado...
Lutar contra esses preconceitos não é fácil! Às vezes a gente não sabe nem por onde começar...
Desidério Murcho oferece uma análise das causas de tais preconceitos, em Compreender as críticas à filosofia analítica, e mostra a importância de se compreender essas causas para se compreender melhor esses preconceitos e, com isso, poder lidar melhor com eles.
Termino com a sugestão de dois textos importantes para ajudar a compreender a filosofia analítica:
François Recanati, "Pela Filosofia Analítica".
Timothy Williamson, "Depois da viragem linguística?".
sexta-feira, 29 de maio de 2009
Honestidade Intelectual

John Searle, em uma entrevista para Reason, diz:
Com Derrida, você dificilmente pode lê-lo mal, pois ele é muito obscuro. Toda vez que você diz "Ele disse isso e aquilo", ele sempre diz "Você me entendeu mal". Se você tentar formular a interpretação correta, então isso não é tão fácil. Eu uma vez disse isso a Michel Foucault, que era mais hostil a Derrida que eu, e Foucault disse que Derrida praticava o método do obscuratisme terroriste (obscurantismo terrorista). Falávamos francês e eu disse: "Que diabos vocês quer dizer com isso?". E ele disse: "Ele escreve tão obscuramente que você não pode saber o que ele está dizendo. Essa é a parte obscurantista. E quando então você o critica, ele pode sempre dizer: 'Você não me entendeu; você é um idiota.' Essa é a parte terrorista." E eu gostei disso. Eu então escrevi um artigo sobre Derrida. Perguntei a Michel se estava bem se eu citasse essa passagem, e ele disse que sim.
Se Searle está certo ou não sobre Derrida, não quero discutir. Não tenho mesmo como fazer isso, pois não conheço os textos de Derrida, para saber se ele realmente faz o que Searle o acusa de fazer. Mas uma coisa me parece certa: há muita gente que, na academia (as instituições de ensino superior), faz aquilo que Searle acusa Derrida de fazer. Pior que isso. Não é muito difícil encontrar (e já encontrei, infelizmente) alguém que, frente a um pedido de um argumento ou justificação para alguma afirmação nada óbvia, ou de um esclarecimento, de explicação do significado de alguns termos ambíguos usados em uma discussão, acuse a gente de estar tendo má-vontade. Essa reação é errada, é claro, porque imuniza da crítica aquele que assim reage. É como aquele que acusa o crítico da psicanálise de ter resistência psicológica a ela. Essa é uma atitude flagrantemente desonesta, imoral. É um sinal de covardia intelectual.
(Vale a pena ler toda a entrevista de Searle.)
Foto: John Searle
domingo, 24 de maio de 2009
Música e Finitude

Há certas músicas que reaparecem na nossa vida de tempos em tempos. E o fato de a cada aparição elas nos afetarem de modo distinto faz com que a gente perceba que o tempo passou... Músicas que outrora soavam grandiosas agora nos enchem de espanto: como isso pode parecer grandioso? E vice-versa: músicas que ridicularizávamos agora nos aparece grandiosas, cheias de sutilezas, tais que nos fazem pensar no quão insensíveis e preconceituosos éramos. E a vida em geral não é muito diferente: algumas pessoas soam diferentemente a cada época da nossa vida. Mas há músicas que nunca conseguimos apreciar, assim como há pessoas de cuja alma nunca conseguimos nos aproximar. E a vida vale a pena quando ouvimos aquela música eternamente cativante vindo dos corações que podemos ouvir bem de perto. É o som de um presente sem passado nem futuro.
sexta-feira, 22 de maio de 2009
Caridade interpretaiva
Postagem importante do Eros de Carvalho:
A paridade interpretativa, infelizmente, não é um valor universalmente compartilhado. Exige-se que realizemos o maior esforço interpretativo possível antes de dizer qualquer coisa sobre um filósofo renomado, mas as mesmas pessoas que fazem esta exigência não estão dispostas a despender o mesmo esforço ao discutir com os seus parceiros filosóficos menos renomados. (Discussão e paridade interpretativa, em Filosofemas.)
domingo, 17 de maio de 2009
Filosofia, sentimentos e imagens
A criação do homem, por Michelangelo.
Na postagem anterior eu disse que a "filosofia é tão difícil quanto qualquer outra atividade intelectual, embora sua dificuldade esteja ligada a aspectos que lhe são peculiares". Mas eu não quis dizer que a dificuldade da filosofia seja apenas intelectual, como se nenhum fator emocional interferisse no trabalho filosófico. Eu acredito que em boa parte dos casos, o que impede o tratamento satisfatório de um problema filosófico são certos sentimentos, principalmente desejos e temores associados a certas imagens que atuam nos bastidores das reflexões e discussões. Um exemplo disso, creio, é a imagem do ser humano como radicalmente diferente dos demais animais, como pertencente a uma categoria única. Não quero entrar no mérito da questão aqui, mesmo porque essa imagem é suficientemente vaga para que em algum modo de entendê-la ela seja aceitável. O que quero ressaltar é que (e aqui eu novamente concordo com Wittgenstein) ela pode estar por detrás da rejeição de qualquer descrição da diferença entre nós e os demais animais como sendo uma diferença apenas de grau. Isso, me parece, é o que ocorre na negativa de que animais possuam crenças ou pensem. Podemos dizer que animais crêem, diz-se (e se costuma colocar aspas em "crêem"), mas não no mesmo sentido que dizemos que nós cremos. Como disse, não quero entrar no mérito da questão. A última tese pode até estar correta. O ponto é que muitas vezes ela é defendida não porque é correta, ou não apenas por isso; mas porque ela se ajusta a uma imagem que expressa nossos desejos e temores. Nesse caso é o desejo de ser diferente dos demais animais, o medo de não ser especial. E não notar isso impede que o filósofo considere satisfatoriamente o que seu interlocutor está dizendo. E é difícil notar isso e deixar de se influenciar pelo caráter cativante dessas imagens, pois elas estão ligadas a maneiras muito gerais de se ver o mundo, a vida.

Esquema da origem do homem, segundo a Teoria da Evolução.
quinta-feira, 14 de maio de 2009
Filósofo
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| Dois Filósofos, de Rembrandt |
Recebi emails de um sujeito que acha que sou arrogante por escrever "filósofo" no meu perfil; que me falta humildade para reconhecer que não sou filósofo. Ele acredita que, para ser considerado filósofo, não é suficiente eu ser Doutor em filosofia, ter publicado artigos e um livro sobre filosofia, participar de colóquios sobre filosofia, ser professor de filosofia, participar de grupos de pesquisa em filosofia, tudo isso lidando sistematicamente com problemas filosóficos. Se raciocinássemos do mesmo modo com relação às pessoas que fazem isso tudo na física, deveríamos dizer que não são físicos. São o que, então? (Sobre isso, ver Filósofo, filosofia e filosófico, de Eros de Carvalho.)
Esse sujeito provavelmente acredita que "filósofo" é um título honorífico que só se concede a quem seja tão excelente em filosofia que entra para a sua história como um dos grandes. Infelizmente, essa idéia ridícula é muito difundida, e não apenas entre leigos, mas também dentro da academia. Digo "infelizmente" porque esse tipo de idéia atrapalha por demais o progresso dos estudantes de filosofia, que se sentem incapazes e se acovardam quando são convidados a filosofar. A filosofia é certamente uma atividade difícil, mas não é algo que apenas algumas raras mentes podem fazer; tampouco é algo que se começa a fazer apenas depois de muitas décadas de estudo em alguma montanha, caverna ou floresta, com os cabelos e barba brancos e um ar solene. A filosofia é tão difícil quanto qualquer outra atividade intelectual, embora sua dificuldade esteja ligada a aspectos que lhe são peculiares.
quarta-feira, 13 de maio de 2009
Mini-curso sobre lógicas proposicionais não clássicas
Numa promoção do Programa de Pós-Graduação em Filosofia da UFPR, dias 3, 4 e 5 de junho, às 15:30h, na sala 603, no 6° andar do Ed. D. Pedro II, ocorrerá o Primeiro Mini-curso sobre Lógica e Epistemologia: Lições básicas sobre lógicas proposicionais não clássicas, ministrado pela Profa. Dra. Andréa Maria Altino de Campos Loparic (USP).Informações:
Fone/Fax: (41) 3360-5048
Email: pgfilos@ufpr.br
Apoio: CAPES, PROCAD (UFPR-USP-UFBA)
Atualizado em 15/05/09
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