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terça-feira, 28 de abril de 2009

Cognitivismo e linguagem privada

Esse Eros é demais: o sujeito me oferece uma objeção e a réplica! Ele comentou minha postagem anterior assim:
Tenho a impressão de que talvez se possa bloquear o argumento pró-cognitivismo pelo argumento do Wtitgenstein contra a linguagem privada. Se lemos a justificação de "Eu estou com dou" como baseada no conhecimento direto que tenho da minha dor, temos de explicar como se dá este conhecimento ou que tipo de relação privilegiada é esta que tenho com a minha dor. Tradicionalmente, o conhecimento direto de X envolve a pressuposição de que o sujeito é capaz de reconhecer, em diferentes encontros com y, y2, y3..., que y, y2 e y3 são instâncias de X, onde X, por exemplo, pode ser a dor. Ora, esta pressuposição é justamente atacada pelo argumento de Wittgenstein contra a linguagem privada. Há de se ver se há outra leitura para o conhecimento direto que não dependa dessa capacidade não-linguística de reconhecer particulares como sendo de um determinado tipo.
Bem, o não-cognitivismo é geralmente atribuído a Wittgenstein porque parece ser a sua maneira lidar com as manifestações dado o seu (assim chamado) argumento da linguagem privada (interpretado de forma tradicional). Eu tinha mencionado isso de passagem na discussão posterior à minha aula inaugural.  Mas acho que tua auto-replica não indica claramente onde está o erro do argumento em favor do cognitivismo. Qual premissa é falsa e por que? Era nisso que eu estava a pensar esses dias. Perece que o problema está em dizer que dirigir a atenção para a dor é um ato epistêmico. Veja: se dirijo a atenção para algo, isso somente é um ato epistêmico se ou a própria atenção produz conhecimento, ou ela é acompanhada por algum processo que produz conhecimento. A primeira alternativa parece ser falsa. A segunda parece implicar que temos uma faculdade que produz conhecimento sobre aquilo ao qual dirigimos a atenção, a saber, nossos estados mentais. Mas que faculdade é essa e como ela funciona? E aqui parece não haver alternativa a não ser explicá-la como uma faculdade que gera conhecimento privado de entidades que, portanto, são epistemicamente privadas. E ai entra tua auto-réplica. De certa forma, a premissa que dizia que dirigir a atenção era um ato epistêmico supunha justamente o que estava em questão: a existência de uma faculdade que gera autoconhecimento.

Fora isso, eu ainda tenho problemas com o fato de não haver critérios específicos para se dizer que alguém acredita estar com dor quando não dirige a sua atenção para sua dor. Mas sobre isso escreverei em postagens futuras.

quarta-feira, 15 de abril de 2009

Expressivismo


(esq. p/ dir.) Eros, Lúcio, Raphael e eu

Ontem dei uma aula inaugural na UFPR. Falei sobre o expressivismo acerca das manifestações, isto é, das frases em primeira pessoa do presente do indicativo que contém um verbo psicológico, tal como "Eu sinto dor". Tentei mostrar que o expressivismo de Wittgenstein concilia o caráter apofântico (o caráter de ter um conteúdo que é ou verdadeiro ou falso) com o caráter não-cognitivo das manifestações. Apresentei também uma crítica à teoria de Dorit Bar-On para explicar o caráter cognitivo das manifestações. Minha crítica consistiu em mostrar que, segundo a teoria de Bar-On, o fator de verdade (truth maker) das manifestações (sentir dor, no caso de "Sinto dor") é a mesma coisa que o seu justificador (sentir dor). Isso implicaria que faria sentido dizer "Eu sei que sinto dor porque eu sinto dor". Entretanto, o meu amigo, professor Eros Carvalho, apresentou uma objeção que, naquele momento, me pareceu fatal ao não cognitivismo. Ele chamou atenção para o fato de algumas vezes desviarmos a atenção de uma dor, justamente para que não soframos muito com ela. Continuamos a sentir a dor, embora nossa atenção esteja dirigida a outra coisa. Se alguém nos pergunta se sentimos dor, parece que o que fazemos para responder é um ato epistêmico, dirigir a atenção para a dor. Esse ato justificaria nossa manifestação "Sinto dor", mas seria diferente do seu fator de verdade. Se se trata mesmo de um ato espistêmico que justifica a manifestação, então parece que as manifestações são cognitivas (ao menos esse tipo). Mas há uma série de perguntas que deveriam ser respondidas antes de se concluir que esse argumento é decisivo. Em postagens futuras vou formular algumas dessas perguntas.