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sábado, 24 de fevereiro de 2007

Wittgenstein e as Ciências Sociais


Alguns costumam usar a filosofia da linguagem do Wittgenstein maduro para apoiar o que se costuma chamar de filosofia hermenêutica das ciências sociais ou interpretivismo, uma filosofia da ciência antinaturalista. Segundo o interpretivismo, os fatos sociais não podem ser conhecido apenas por meio de teorias naturalísticas, pois eles envolvem propósitos, valores e significado. Fatos sociais, portanto, são mais como livros que devem ser compreendidos e interpretados do que como fatos naturais.

Alguns interpretivistas alegam que a filosofia de Wittgenstein ajuda a mostrar que o significado não pode ser tratado naturalisticamente. Acho que isso é um erro. Essa interpretação de Wittgenstein envolve inferir invalidamente afirmações sobre as ciências sociais do que ele diz sobre a filosofia. Wittgenstein nunca negou a possibilidade de se fazer uma ciência natural sobre a linguagem. O que ele negava é que uma ciência natural da lingaugem fosse de interesse para a filosofia. Em filosofia, segundo Wittgenstein, dissolve-se problemas filosóficos por meio de uma descrição dos nossos jogos de linguagem. O objetivo é compreender mais claramente o que já compreendemos e não adquirir conhecimento que ainda não temos. Em várias passagens dos seus escritos Wittgenstein concede que se poderia buscar as causas de nosso comportamento linguísitico. Mas a filosofia, segundo ele, está interessada em razões, não em causas. Mas essas razões não servem para dizer que nossas práticas são as corretas (no mesmo sentido em que dizemos que um lance dentro dessas práticas é correto). Elas são razões dentro dessas práticas e, por isso, não podem apoiá-las de fora.

Acho que Wittgenstein diria que podemos fazer algo como compreender mais claramente nosso comportamento social, na medida em que ele é governado por regras. Mas essa é uma atividade puramente descritiva. Não há nenhuma teoria envolvida, nenhuma explicação. Por isso, acho que Wittgenstein não chamaria isso de ciência. Mas, sabe como é: "Diga o que quiseres, desde que isso não te impeça..." de ver as diferenças.

quinta-feira, 8 de fevereiro de 2007

(AP2) Atitudes Proposicionais

Retomando a objeção do Eduardo (cf. AP1):

Sejam as seguintes práticas,ambas legítimas:

(1) Descrever o que se passa na cabeça [de uma pessoa] (César e Alexandre)
(2) Dizer para uma quarta pessoa algo sobre as crenças [de uma pessoa] (Eduardo)

Qual das duas chamaremos de "atribuição de atitude proposicional"? Esse é o problema.


Essa pergunta está mal colocada. O que importa é saber se, em ao menos alguns casos, é relevante a representação que usamos para fazer uma atribuição de atitude proposicional. O Eduardo parece supor que uma resposta afirmativa se compromete com a tese que as atitudes proposicionais são coisas que "se passam na cabeça" daquele a quem atribuímos a atitude. Suponho que isso seja considerado um problema se "o que se passa na cabeça" é algo cuja identidade é independente do ambiente, o que estaria em conflito com o externalismo. Mas colocar o externalismo como premissa a essa altura é incorrer em petição de princípio.

Paul Horwich sugere que devamos admitir tanto crenças de re como crenças de dicto:

Russell claimed that a proposition consists of the very objects it is about. For exemple
(9) the proposition that Hesperus is visible
would made up of the object, Hesperus, and the property of being visible. If Russell was right then, since 'Hesperus' and 'Phosphorous' have turned out to be two names for the same planet, then
(10) the proposition that Phosphorous is visible

is the very same proposition as (9). But how, in that case, do we account for the fact that someone may be aware - as we say, de dicto - that Hesperus is visible and not that Phosphorous is? In light of this problem, Frege claimed that the proposition expressed by a sentence (what he called a 'thought') is composed of the senses, rather than the references, of its constituent words. So (9) and (10) would be different from one another. But if he was right, then the so called de re beliefs become problematic. For surely the discovery about a certain object that it is Phosphorous does not consist in a relation between the believer and the tautologous Fregean proposition, [Phosphorous is Phosphorous]! The later belief is trivial whereas the former is not.

One way of dealing with these problems is to acknowledge the existence of both Fregean and Russellian propositions - the first being the objects of de dicto belief, and the second of de re belief. [Truth, p. 94]

quarta-feira, 7 de fevereiro de 2007

Exemplo de falácia

Geralmente os exemplos de falácias encontrados nos manuais de lógica são fictícios. Assistindo a um programa sobre o Caso Roswell, no The History Channel, me deparei com um exemplo real. Cito de memória:
Ufólogo: O cientista Fulano de Tal levava uma vida dupla, como astrônomo em Harvard e como membro de um grupo ultra-secreto ligado ao governo americano (MJ-12), sendo o seu papel ajudar a ocultar o fato de o governo americano ter recolhido restos de uma nave e de um alienígena que caíram em Roswell, Novo México.

Apresentador:
A família de Fulano de Tal disse que ligá-lo ao MJ-12 é uma tolice. O ufólogo Sicrano admite que não encontrou provas que ligassem Fulano de Tal diretamente ao MJ-12.

Ufólogo Sicrano: Bem, dado que era um grupo ultra-secreto, não se deveria esperar que ele deixasse um monte de evidências por ai que o ligasse ao grupo, não é mesmo?
Isso me lembra um episódio do Chaves*:
Chaves: O homem invisível está aqui agora.
Chiquinha: Como você sabe?
Chaves: Porque não estou vendo ele, ora!
_______

* Chaves é um programa humorístico infantil mexicano.

terça-feira, 6 de fevereiro de 2007

Dictionary of Paradox


Qual não foi minha surpresa ao encontrar esse livro na Amazon. Fui aluno e orientando do Prof. Glenn quando ele lecinou na UFSM nos últimos anos da minha graduação. Naquela época traduzi o verbete sobre os paradoxos da indução, que vão de Hume, passando por Hempel e chegando a Goodman. Essa tradução circulou num boletim do grupo de estudos que o Prof. Glenn dirigia e do qual eu fazia parte. Minhas primeiras aulas sobre as Investigações Filosóficas de Wittgenstein foram como aluno ouvinte numa disciplina do mestrado da UFSM ministrada por ele (uma leitura assumidamente pós-moderna que nunca compartilhei). Ele me encorajou muito a estudar Wittgenstein. Portanto, boa parte da culpa é dele. No meu casamento, ele me presenteou com uma pilha de seus textos. Dentre os quais estava uma parte do livro sobre paradoxos. Certa vez conheci o Prof. Fossa numa das muitas reuniões festivas na casa do Prof. Glenn. A última notícia que soube do Prof. Glenn é que ele é Prof. Adjunto da UFRN. Eis a descrição do livro oferecida no site da Amazon:
Dictionary of Paradox is a fascinating reference work for scholars, students, and the general public. It describes those paradoxes that are either especially interesting today or that have a continuing interest from the historical point of view. Each main entry consists of four parts: a statement of the paradox, an explanation of its paradoxicality, a discussion of attempted or accepted resolutions, and a list of readings. In addition, there are other entries explaining terms relating to paradoxes, listing alternative names for the main entries, or discussing variants of the entries. All information is extensively cross-referenced.

domingo, 4 de fevereiro de 2007

Ciência e senso comum

Natualismo, em um sentido, é a posição filosófica segundo a qual questões teóricas (semânticas, epistemológicas e metafísicas) devem ser decididas pelas ciências, não por uma filosofia primeira que oriente o trabalho da ciência. No caso em que uma ciência esteja, de alguma forma, em conflito com o senso comum e/ou a linguagem ordinária, um naturalista tende a tomar o partido da ciência. Mas a partir de que critérios os resultados das ciências são julgados? -- "Cientificos, certamente", diria o naturalista. -- Certo, mas se é possível que a ciência faça auto-críticas, não é possível que algumas opiniões do senso comum estejam de acordo com certos critérios em relação aos quais alguns resultados da ciência estão em desacordo? -- "Sim, é possível. Mas é a ciência que mostra que, por ventura, o senso comum está correto. Ser um naturalista é, entre outras coisas, acreditar que o contrário não ocorre." -- Seja como for, isso inutiliza objeções do tipo "Mas isso está baseado no senso comum...". Estar baseado no senso comum não é, em si mesmo, nenhum defeito teórico.

sábado, 3 de fevereiro de 2007

(DC17) Dúvida fingida?

A dúvida metódica certamente não pode ser uma dúvida fingida, como Descartes parece insinuar em algumas passagens dos seus escritos. Se finjo que duvido que P, então acredito que P. Mas se o objetivo da dúvida é nos livrar de nossos prejuízos e nos afastar dos sentidos, como continuar acreditando no que acreditávamos enquanto fingimos não mais acreditar poderia desempenhar esse papel? Além disso, por que precisamos de razões para fingir que duvidamos?