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sexta-feira, 8 de dezembro de 2006

(AP1) Atitudes proposicionais

Eis um balanço de uma discussão com o Eduardo e com o César que desembocou na pergunta: o que é uma atitude proposicional?

Uma atitude proposicional é o que quer que torne verdadeira uma frase da forma

x F que p

onde x é o sujeito da atitude proposicional, F é a atitude e que p é aquilo em relação ao qual x tem atitude F (p.ex.: 'Alexandre acredita que nem todos concordam com o que ele diz'). Mas o que torna uma frase dessa forma verdadeira? Qual é a ontologia das atitudes proposicionais? No caso do exemplo recém mencionado, a atitude é a crença, um estado subjetivo. Mas que tipo de estado é a crença? A crença é uma atitude em relação ao quê (qual é seu objeto)? Prima facie, uma crença é um estado mental que, também prima facie, pode ser atribuído a seres que não possuem linguagem, como cães e gatos, p.ex. Mas, se for assim, então o objeto da atitude proposicional não pode ser uma entidade essencialmente lingüística. Restam duas alternativas: (i) uma entidade (seja mental, seja abstrata) que representa um determinado estado de coisas e que pode ser expressa por uma frase indicativa ou (ii) esse próprio estado de coisas (seja lá isso o que for). Podemos chamar (i) de análise intensional da crença (César) e (ii) de análise extensional (Eduardo). Se optarmos por uma análise intensional, então a identidade da crença não será determinada pela identidade do estado de coisas representado, mas pela representação. Por exemplo (que figurou na discussão com o Eduardo e com o César): se a=b e S1 não sabe que a=b, então S1 poderia acreditar que ~(a=b) sem que isso fosse o mesmo que acreditar que ~(a=a), embora o estado de coisas representado nas crenças que ~(a=b) e que ~(a=a) seja o mesmo. Se optarmos por uma análise extensional, então as crenças que ~(a=b) e que ~(a=a) são as mesmas, pois representam o mesmo estado de coisas.

O que há a favor da análise extensional? De acordo com a linguagem ordinária, muitas vezes é irrelevante a representação que usamos para atribuir crenças. Se S2 e S3 sabem que a=b e S1 acredita que Fa, então S2 pode dizer a S3 que S1 acredita que Fb. O que há contra a análise extensional? Duas coisas, no mínimo: (1) ou (1.1) seremos obrigados a atribuir crenças irracionais às pessoas (que S1 acredita que ~(a=a), p.ex.), ou, para evitar (1.1), (1.2) seremos obrigados a dizer que algumas vezes as pessoas estão iludidas que têm uma crença (o que, em última análise, é a falsidade de uma crença de segunda ordem), quando ordinariamente diríamos que elas a têm; além disso, (2) de acordo com a linguagem ordinária, muitas vezes é relevante a representação que usamos para atribuir crenças, como no caso daquele que acredita que ~(a=b) quando é o caso que a=b. (Quando digo ‘de acordo com a linguagem ordinária’ ou ‘ordinariamente’ quero apenas chamar atenção para o que é mais intuitivo, a fim de determinar o ônus da prova.)

Nesse ponto, Eduardo disse:

Sejam as seguintes práticas,ambas legítimas:

(1) Descrever o que se passa na cabeça [de uma pessoa] (César e Alexandre)
(2) Dizer para uma quarta pessoa algo sobre as crenças [de uma pessoa] (Eduardo)

Qual das duas chamaremos de "atribuição de atitude proposicional"? Esse é o problema.

Mas como devemos entender a relação entre (1) e (2)? (continua)

quinta-feira, 7 de dezembro de 2006

Saul Kripke, "The First Person"


Grande dica do César. O vídeo da conferência "The First Person", proferida por Saul Kripke na City University of New York, em 25 de janeiro de 2006, está disponível para download em Saul Kripke: Philosophy, Language and Logic. (O arquivo está em formato wmv e tem 178 Mb.)

domingo, 3 de dezembro de 2006

Cérebro na cuba, externalismo [externismo] e ceticismo


Andei pensando sobre a resposta de Putnam ao desafio do cérebro na cuba (cf. "Brains in a Vat", cap. 1 de Reason, Truth, and History). Não conferi o que escrevi no próximo parágrafo. Estou sem tempo agora e confiando na memória apenas.

Se S1 e S2 dizem que Fa, mas S1 se refere a X por meio de 'F' e S2 se refere a Y por meio de 'F' e X não é o mesmo tipo de coisa que Y, então o conteúdo de 'Fa' é diferente para S1 e S2. S pode referir-se a X por meio de ‘F’ apenas se S e X mantiverem uma relação causal apropriada. Se S é um cérebro numa cuba, então S não pode manter a relação causal apropriada para que ‘F’ possa referir-se a objetos físicos. Se S1 fosse um cérebro numa cuba e S2 não fosse, e se S2 se referisse, por meio de ‘F’, a uma certa classe de objetos físicos, X (cérebros ou cubas, p.ex.), então S1 não poderia se referir a X por meio de ‘F’. Se S1 diz que é um cérebro numa cuba, então ‘cérebro’ e ‘cuba’ não tem o mesmo conteúdo que tem para S2, e, por isso, 'Eu sou um cérebro numa cuba' não tem o mesmo conteúdo para S1 e S2. Portanto, mesmo que a frase de S1 fosse verdadeira, ao pronunciá-la ele não estaria pensando a hipótese que S2 pensa ao dizer a mesma frase. Portanto, ou S é um cérebro numa cuba, mas não pode pensar que é, ou ele pode, mas não é um cérebro numa cuba.

Mas como sei que "S pode referir-se a X por meio de ‘F’ apenas se S e X mantiverem uma relação causal apropriada"? A teoria do significado que está incorporada a esse argumento não se baseia em um conhecimento empírico sobre a relação causal entre o usuário de uma expressão e aquilo ao qual essa expressão se refere? Mas se admito que sei isso, então nem preciso do argumento para rejeitar o ceticismo, não? Me parece que tem alguma coisa errada no que estou dizendo. Mas não sei bem o que é.

(Revisado em 27/06/08.)

sábado, 2 de dezembro de 2006

Realismo metafísico e realismo de senso comum

Estou sentado na minha cadeira agora. Mas tu, que lês esse post agora, poderias estar sentado nela agora. Qualquer pessoa poderia estar sentada na minha cadeira agora. Mas essa última afirmação não implica que seria possível que todas as pessoas estivessem sentadas na minha cadeira agora. Temos, portanto, que distinguir entre:
Para toda pessoa P, é possível que P estivesse sentada na minha cadeira agora
(x)Pos.(Fx)

e
É possível que todas as pessoas estivessesm sentadas na minha cadeira
Pos.(x)(Fx)

E a mesma distinção deve ser traçada com respeito à relação entre verdade e conhecimento. Devemos distinguir as seguintes teses:
Para toda proposição p, é possível que p seja verdadeira e não saibamos que p é verdadeira.

e
É possível que todas as proposições sejam verdadeiras e não saibamos que são verdadeiras.

A primeira tese chamo realismo do senso comum e a segunda, realismo metafísico. Por quê? Porque o realismo do senso comum é compatível com uma certa dependência relativa da verdade em relação ao conhecimento. O realismo de senso comum ainda seria verdadeiro, mesmo que para que algumas proposições fossem verdadeiras, outras devessem ser conhecidas como verdadeiras, contanto que as proposições que devessem ser conhecidas como verdadeiras pudessem, digamos, revezar esse posto com outras e pudessem, elas mesmas, ser verdadeiras sem que se soubesse.

sexta-feira, 1 de dezembro de 2006

(DC15) A problemática do método da dúvida

Broughton mostra que devemos distinguir e considerar as seguintes questões para realizar uma boa interprteação do método da dúvida:
(1) O que é a dúvida cartesiana (que compõe o método da dúvida)? Se opõe à crença razoável? Implica que aquele que duvida abandona as crenças razoáveis durante a aplicação do método?

(2) Qual é a motivação para a dúvida? É uma estratégia razoável para a obtenção de certezas absolutas (fundamentos da ciência)? É uma epistemologia prévia que equaciona conhecimento e indubitabilidade?

(3) Qual e a justificação para a motivação para a dúvida? Não há objeções à motivação para a dúvida?

Parte do meu problema abrange essas três perguntas. Para julgar se a dúvida cartesiana é inteligível devemos saber se a explicação do que ela é é inteligível, se sua motivação é inteligível e se o que é oferecido como justificação para essa motivação é inteligível e realmente a justifica.