Uma atitude proposicional é o que quer que torne verdadeira uma frase da forma
x F que p
onde x é o sujeito da atitude proposicional, F é a atitude e que p é aquilo em relação ao qual x tem atitude F (p.ex.: 'Alexandre acredita que nem todos concordam com o que ele diz'). Mas o que torna uma frase dessa forma verdadeira? Qual é a ontologia das atitudes proposicionais? No caso do exemplo recém mencionado, a atitude é a crença, um estado subjetivo. Mas que tipo de estado é a crença? A crença é uma atitude em relação ao quê (qual é seu objeto)? Prima facie, uma crença é um estado mental que, também prima facie, pode ser atribuído a seres que não possuem linguagem, como cães e gatos, p.ex. Mas, se for assim, então o objeto da atitude proposicional não pode ser uma entidade essencialmente lingüística. Restam duas alternativas: (i) uma entidade (seja mental, seja abstrata) que representa um determinado estado de coisas e que pode ser expressa por uma frase indicativa ou (ii) esse próprio estado de coisas (seja lá isso o que for). Podemos chamar (i) de análise intensional da crença (César) e (ii) de análise extensional (Eduardo). Se optarmos por uma análise intensional, então a identidade da crença não será determinada pela identidade do estado de coisas representado, mas pela representação. Por exemplo (que figurou na discussão com o Eduardo e com o César): se a=b e S1 não sabe que a=b, então S1 poderia acreditar que ~(a=b) sem que isso fosse o mesmo que acreditar que ~(a=a), embora o estado de coisas representado nas crenças que ~(a=b) e que ~(a=a) seja o mesmo. Se optarmos por uma análise extensional, então as crenças que ~(a=b) e que ~(a=a) são as mesmas, pois representam o mesmo estado de coisas.
O que há a favor da análise extensional? De acordo com a linguagem ordinária, muitas vezes é irrelevante a representação que usamos para atribuir crenças. Se S2 e S3 sabem que a=b e S1 acredita que Fa, então S2 pode dizer a S3 que S1 acredita que Fb. O que há contra a análise extensional? Duas coisas, no mínimo: (1) ou (1.1) seremos obrigados a atribuir crenças irracionais às pessoas (que S1 acredita que ~(a=a), p.ex.), ou, para evitar (1.1), (1.2) seremos obrigados a dizer que algumas vezes as pessoas estão iludidas que têm uma crença (o que, em última análise, é a falsidade de uma crença de segunda ordem), quando ordinariamente diríamos que elas a têm; além disso, (2) de acordo com a linguagem ordinária, muitas vezes é relevante a representação que usamos para atribuir crenças, como no caso daquele que acredita que ~(a=b) quando é o caso que a=b. (Quando digo ‘de acordo com a linguagem ordinária’ ou ‘ordinariamente’ quero apenas chamar atenção para o que é mais intuitivo, a fim de determinar o ônus da prova.)
Nesse ponto, Eduardo disse:
Sejam as seguintes práticas,ambas legítimas:
(1) Descrever o que se passa na cabeça [de uma pessoa] (César e Alexandre)
(2) Dizer para uma quarta pessoa algo sobre as crenças [de uma pessoa] (Eduardo)
Qual das duas chamaremos de "atribuição de atitude proposicional"? Esse é o problema.
Mas como devemos entender a relação entre (1) e (2)? (continua)


